ayur
   FIM DO
  JOGO
  A nica maneira de vencer  perder,
    A nica maneira de sair  entrar



FRANK
PERETTI
                              TED
                DEKKER
            TRADUO
           Marcelo Barbo




            Rio de Janeiro
                2007
      A luz surgiu das trevas e as trevas no entenderam.

                             ***

Meu corao guarda todos os segredos; meu corao no mente.
Prlogo



Ele ficou parado na entrada, olhando a prpria sombra esparramada 
sua frente como uma mancha no cho. Estudou a oxidao da poeira,
sentiu o fedor de mofo e de urina de rato, ouviu uma viga baixando
mais uma frao de polegada em direo ao centro da Terra.
      Esse quarto mostrava to poucas provas dos eventos que tinham
acontecido antes do nascer do sol. Nesse momento, era s mais uma
casa abandonada. Interessante.
      Mas o resto do lugar contava a verdade.
      Por baixo de suas botas, as tbuas ficavam na mesma altura, lado a
lado como corpos enterrados, empenadas por causa de uma estranha
umidade, presas pelas pontas, sujas de poeira cinzenta e de tinta branca.
      Do outro lado do vestbulo, perto do cho, o papel de parede cor-
de-rosa florido estava solto. Por trs de uma das flores, algo raspava,
empurrava, roa e arranhava at que um focinho negro e peludo apare-
ceu. Com um pedacinho do papel de parede nos dentes, o rato passou
pelo buraco, depois parou sobre suas patas traseiras e olhou para ele.
Nenhum dos dois ficou alarmado com a presena do outro. O rato cor-
reu junto ao rodap e desapareceu em um canto.
      No outro lado da sala, uma cortina meio destruda voava na frente
de uma janela quebrada. Uma tentativa lamentvel de fugir. Fora a jane-
la quebrada, no havia nenhum outro sinal de que algum tivesse entra-
do aqui h vrios anos.
     Mas quando algum curioso -- ou a polcia, se conseguir chegar
aqui -- olhasse melhor encontraria vrios sinais que diriam o contrrio.
E aqueles sinais levariam aos mistrios contados a seguir.
     A morte permanecia no ar ranoso, mesmo aqui em cima. As pa-
redes pareciam mortalhas, envolvendo todo o espao em uma bela es-
curido. Havia sido o lugar perfeito para um jogo perfeito.
     E Barsidious White j estava procurando o prximo.
     1      17hl7




-- Jack, voc vai acabar nos matando!
      Sua mente deixou seus pensamentos e voltou  solitria estrada no
Alabama que se abria na frente do Mustang azul. O velocmetro marca-
va cento e trinta. Ele voltou ao presente e relaxou o p direito.
      -- Desculpa.
      Stephanie recomeou a cantar com sua bonita voz, apesar do tom
um pouco melanclico e do clssico sotaque country.
      -- "My heart holds all secrets; my heart tells no lies" [Meu corao guar-
da todos os segredos; meu corao no mente]...
      A mesma cano. Ela  que tinha composto, por isso ele nunca a
criticava, mas aquela letra horrvel, principalmente hoje...
      -- Jack!
      O velocmetro subia para cento e trinta de novo.
      -- Desculpe -- ele obrigou o p a relaxar.
      -- Qual  o seu problema?
      -- Qual  o problema... -- calma, Jack. No jogue gasolina na fogueira.
      -- S estou um pouco tenso, est bem?
      Ela sorriu:
      -- Voc deveria cantar.
      Ele agarrou o volante com fora:
      -- Claro, essa  a sua resposta para tudo, no?
      -- O que voc disse?
      Ele suspirou. Tinha que parar de provoc-la.
      -- Desculpa -- sempre pedindo desculpas. Forou um sorriso,
esperando que ela acreditasse.
      Ela devolveu o sorriso deixando claro que no tinha acreditado.
      Era bonita; o suficiente para capturar outro homem como o havia
capturado -- loira, jovem, um bom corpo, tinha tudo o que os caras
nos bares poderiam querer em uma cantora de msica country. No 
de se espantar que aqueles olhos azuis ainda pudessem brilhar, mas no
para ele. Agora mesmo estavam se escondendo por trs do culos de
sol da moda. Ela esticava o pescoo para olhar para trs.
      -- Acho que tem um policial atrs da gente.
      Ele olhou pelo espelho retrovisor. A estrada, que tinha estreitado
para duas pistas, fazia curvas preguiosas atravs do bosque com cara
de final de primavera e algumas fazendas, subindo e descendo vales e
morros, escondendo e mostrando, escondendo e mostrando um nico
carro. Estava chegando perto; o suficiente para Jack reconhecer a luz no
teto. Ele olhou sua velocidade. Cento e cinco. Devia estar dentro do li-
mite.
      A viatura continuava vindo.
      -- Melhor diminuir a velocidade.
      -- Estou dentro do limite.
      -- Tem certeza?
      -- Sei ler placas, Steph.
      Uns segundos mais e a viatura aparecia inteira no espelho de Jack.
Ele conseguia ver o rosto duro do policial por trs do volante, seus cu-
los escuros com lentes espelhadas escondendo os olhos.
      Polcia rodoviria.
       Jack olhou de novo o velocmetro, diminuiu para noventa e cinco,
esperando que o policial no batesse na traseira do carro.
       O sed se aproximou.
       Ele ia bater!
       Jack pisou fundo no acelerador e o Mustang saiu em disparada.
       -- O que voc est fazendo? -- gritou Stephanie.
       -- Ele ia bater na gente!
       O carro ficou uns 10 metros para trs. As luzes vermelhas e azuis
ganharam vida.
       -- Ah, timo -- ela murmurou, virando-se e jogando-se no banco.
Ele podia sentir a acusao em sua voz. Sempre culpando-o. Mas foi voc
que foi embora, Steph.
       A viatura saiu para a pista contrria e emparelhou com eles. O po-
licial olhou para Jack. Seus olhos se encontraram. Ou era o que Jack i-
maginava. culos escuros. Nenhuma expresso. Jack olhou de novo
para a estrada.
       Os dois carros estavam lado a lado, em formao, a noventa e cin-
co quilmetros por hora.
       -- O que voc est fazendo, Jack? Encoste.
       Ele encostaria se pudesse. Estava tentando encontrar uma oportu-
nidade. O bosque, os finos troncos de bordos, carvalhos e btulas co-
bertos com videiras, como se fossem uma parede.
       -- Eu no consigo. No h acostamento. Eu no consigo...
       Ele diminuiu. Deveria haver um lugar para parar. Sessenta e cinco
quilmetros por hora. Cinqenta. A viatura acompanhava sua velocida-
de.
       Jack viu uma abertura nas folhagens, um pedacinho de acostamen-
to, o mnimo de espao. Ele comeou a se aproximar.
      A viatura acelerou e os deixou para trs, as luzes brilhando em si-
lncio. Quinze segundos depois era s um ponto na estrada entre as r-
vores, at sumir.
      -- O que foi isso? -- perguntou Jack, olhando pelos espelhos, cu-
rioso e voltando  estrada. Ele secou a mo suada na cala de jeans.
      -- Voc estava correndo -- ela fixou os olhos na estrada. Evitava
seus olhos, enquanto olhava para o mapa.
      -- Ele no nos parou. Por que chegou to perto da gente? Voc
viu como ele chegou perto?
      -- Aqui  o Alabama, Jack. Quando voc no faz as coisas do jeito
deles, eles do um jeito de mostrar.
      -- , mas no se bate na traseira de algum por excesso de veloci-
dade.
      Ela deu um tapa em suas pernas, mostrando sua frustrao.
      -- Jack, voc poderia me levar at l, sem cometer nenhum crime
e sem um arranho? Por favor?
      Ele preferiu ficar em silncio e se concentrar na estrada. Guarde tu-
do para a sesso de aconselhamento, Jack. Ficou imaginando o que ela tinha
guardado para aquele momento, quais seriam as novas reclamaes que
descarregaria naquela noite.
      Ela deu de ombros, voltou a sorrir e comeou a cantarolar.
      Voc acha realmente que vai funcionar, no , Jack? Voc realmente acha que
pode salvar algo que no existe mais?
      Se sorrir e cantar pudesse trazer os dias felizes de volta, ele riria
como um louco e at cantaria as letras da Stephanie, mas j no tinha
mais nenhuma iluso. Tudo o que tinha eram as memrias que rouba-
vam sua concentrao mesmo quando seus olhos se mantinham na es-
trada: os braos dela ao redor do seu pescoo e a excitao em seus o-
lhos; a felicidade que sentia sempre que ela entrava no quarto; os segre-
dos que compartilharam com um olhar, um sorriso, um piscar de olhos;
todas as coisas que ele acreditava que deveriam ser o amor e a vida...
      O acidente mudou tudo.
      Ele se imaginou sentado no escritrio do conselheiro, falando ho-
nestamente sobre seus sentimentos. Estou me sentindo... como se tivesse me
cansado da vida. A vida no tem sentido. Se Deus existe, ele  ruim e... O que foi?
Ah, Stephanie? No, eu a perdi tambm. Ela se foi. Quer dizer, ela est aqui, mas
foi embora...
      Ele no conseguia parar de pensar que essa viagem era s uma
formalidade, outro prego no caixo de seu casamento. Steph iria cantar
por todo o caminho para Montgomery e durante a volta, e mesmo as-
sim conseguiria o divrcio que tanto queria para seguir seu caminho fe-
liz.
      -- Jack, voc est perdido.
      Tenho certeza de que estou.
      -- Jack.
      Com o susto, ele voltou sua ateno para a estrada. O Mustang es-
tava a cento e cinco, correndo pela estrada. O bosque estava rareando
agora, abrindo caminho para velhas fazendas e pastos cheios de tocos
de rvores.
      Ela estava olhando o mapa, estudando todas aquelas linhas verme-
lhas e pretas. E tinha dito que ele estava perdido? Claro. Ela estava com
o mapa, mas era ele quem estava perdido.
      Preferiu guardar o sarcasmo antes que escapasse. Palavras ressen-
tidas surgiam muito facilmente agora.
      -- O que voc est dizendo?
      -- Voc no viu aquela placa? Ela mostrava o nmero 5.
      Ele olhou pelo espelho, depois se virou para olhar a parte de trs
da placa que se distanciava.
      -- 5?
      Ela estudou o mapa, traando a rota com seu dedo.
      -- Deveramos estar na auto-estrada 82.
      Ele se inclinou tentando ler o mapa. O carro derrapou. Olhou para
a frente, corrigindo o volante.
      -- Vamos nos atrasar -- disse ela.
      No necessariamente.
      -- Voc est vendo a auto-estrada 5 a? Para onde ela vai?
      Ela arrastou o dedo pelo mapa e parou a uns oito centmetros de
Montgomery.
      -- No  para Montgomery, a no ser que voc tenha uma semana
para passear. Como  que voc conseguiu sair da 82?
      Ele deveria se defender?
      -- Eu me distra com um policial comendo meu pra-choques.
      Ela tirou seu celular do porta-copos e viu a hora.
      -- No vamos conseguir chegar a tempo.
      Sua voz demonstrava esperana? Ele olhou o relgio. Se voltassem
agora, talvez...
      -- Eu cancelei um show para ir a essa reunio com voc -- disse
se encostando no banco, os braos cruzados.
      L vamos ns de novo. Minha culpa. Ela comeou a cantarolar. L va-
mos ns de novo.
      Luzes vermelhas e azuis apareceram na frente da estrada.
      -- Ah, timo! -- disse Stephanie. -- A gente realmente no preci-
sava disso.
      Jack diminuiu a velocidade enquanto se aproximavam do carro de
patrulha estacionado logo depois de uma curva. Cones cor de laranja e
uma placa bloqueavam a estrada.
      -- Repavimentao. Estrada fechada para o trnsito -- leu Jack.
-- Bem, agora teremos que voltar de qualquer jeito. -- Jack entrou no
acostamento de cascalho, mas teve outra idia:
     -- Vamos perguntar. Talvez haja um caminho mais rpido.
     Levou o Mustang azul at a curva e parou alguns metros atrs do
carro de patrulha. A porta da viatura se abriu e um policial -- o policial
-- desceu do carro com seus culos escuros de aviador ainda escon-
dendo os olhos.
     2

O patrulheiro girou a cabea para estalar o pescoo, depois ficou olhan-
do para eles enquanto colocava o chapu colorido de abas largas. Usava
uma camisa cinza de mangas curtas e calas com tiras pretas do lado ex-
terno das pernas. Uma insgnia brilhava no sol do final da tarde. O col-
dre de couro estava pendurado do lado direito da cintura, o cassetete 
esquerda.
      O homem mexeu no chapu como se fosse um hbito e caminhou
at eles, confiante. Todo arrogante. As calas pareciam um pouco aper-
tadas demais.
      -- Boa tarde -- disse Stephanie.
      Jack abaixou o vidro. Uma brisa quente entrou no Mustang, segui-
da pelo som de grilos. As botas de couro preto do policial no faziam
barulho.
      O patrulheiro parou ao lado da janela, com a mo na parte traseira
da arma. Abaixou-se e deu uma olhada por trs das lentes escuras.
"Morton Lawdale" era o que estava grafado na insgnia.
      -- Voc se importaria de mostrar sua carteira de motorista e os
documentos do carro?
      -- Ns...
      -- Os documentos. Agora.
      Jack se inclinou, pegou os papis no porta-luvas e os entregou para
o policial.
      O guarda os pegou com a luva e os alisou, olhando para os dois.
      -- Voc se importa de sair do carro?
      Jack no tinha certeza quanto ao que fazer.
      -- Por qu?
      -- Por qu? Porque eu quero mostrar uma coisa para voc,  uma
boa explicao?
      -- Fiz algo errado?
      -- Todos os rapazes do Alabama so assim to difceis? Um poli-
cial pede para sair do carro e voc responde como se fosse algo difcil.
Tem algo que precisa ver. Saia logo desse carro.
      Jack olhou para Stephanie, abriu a porta e saiu.
      -- Viu, foi difcil?
      -- Pegamos uma sada errada -- disse Jack, olhando para cima.
Ele era pelo menos um palmo menor do que o patrulheiro. -- Estva-
mos indo para Montgomery na 82.
      Lawdale tirou o cassetete e apontou para a parte de trs do carro.
      -- Venha por aqui.
      Um calafrio percorreu as costas de Jack. Como  que ele veio parar
aqui, no meio do nada com esse personagem, um sujeito com cara de
assassino, do tipo "atire primeiro e pergunte depois"?
      Hesitou.
      -- Vou ter que dizer tudo duas vezes? -- o policial bateu com o
cassetete na mo.
      -- No -- Jack andou at o porta-malas.
      Parou perto do pra-choques, encarando o policial que tinha para-
do com as pernas abertas, olhando diretamente para ele -- ou pelo me-
nos era essa a percepo que Jack tinha da situao.
      Lawdale girou seu cassetete preto apontando em direo  luz de
freio esquerda.
      -- Voc sabia que sua luz de freio est queimada?
      Jack respirou aliviado.
      -- Est? No.
      -- Est. Quase bati na sua traseira. Tenho certeza.
      -- Ah.
      -- Ah -- imitou o patrulheiro. O suor marcava sua camisa ao re-
dor do pescoo e embaixo dos braos. -- E sugiro que voc comece a
dirigir esse carro do jeito correto.
      A porta do passageiro se abriu e Stephanie desceu, sorrindo como
um raio de sol.
      -- Est tudo bem?
      -- Minha luz de freio queimou -- contou Jack.
      Stephanie inclinou a cabea demonstrando felicidade:
      -- Vamos consert-la em Montgomery. No , Jack?
      -- Claro. Assim que chegarmos l.
      O patrulheiro acenou com o chapu para Steph e deu uma avaliada
em seu jeans de cintura baixa e na camiseta de alas de seda azul.
      -- E quem  voc?
      -- Stephanie Singleton.
      O homem olhou para sua mo sem anis. O fato de ter tirado o
anel no ms passado doeu mais em Jack do que tudo o que ela j tinha
feito antes.
      -- Irmos? Primos?
      -- Marido e mulher -- disse Jack.
      O policial olhou para Stephanie.
      -- E voc deixa esse doido dirigir?
      -- Doido? -- perguntou Jack.
      O policial baixou os culos e olhou para Jack por cima da armao
prateada.
      Olhos azuis.
      -- Est querendo dar uma de esperto, rapaz? No est, certo? Vo-
c  s um pouco burro, no?
      Jack pensou em quanta grosseria uma pessoa agenta quando a
outra usa uniforme.
      O patrulheiro tirou os culos de sol e olhou friamente para Jack.
      -- No s dirige como um doido, mas um doido que nem sabe que
est dirigindo como um doido, o que faz de voc um completo idiota.
Mas vou fingir que estou errado. Vou fingir que voc no  um idiota e
consegue entender como age um doido. Assim est bom para voc?
      Lawdale esperava uma resposta. Jack pensou em vrias, mas se li-
mitou a dizer:
      -- Est bem.
      -- Bom. Ento vou contar o que um doido faz por aqui -- o poli-
cial bateu com o dedo na cabea de Jack, forte o suficiente para machu-
car. -- Um doido no respeita a velocidade mxima e no usa o espelho.
Use os espelhos, Jack. Segui seu carro por quase cinco minutos antes de
voc perceber que eu estava na sua traseira. Um caminho poderia ter
destrudo seu carro e vocs estariam mortos...
      O policial tirou o revlver do coldre, liberou a trava e atirou para o
campo. Blam! Jack e Stephanie deram um pulo.
      -- ...dessa forma -- Lawdale soprou a fumaa do cano e colocou
a arma de volta no coldre com um giro preciso. -- Estou mostrando,
amigo. Essas estradas so muito perigosas -- ele bateu com o dedo de
novo na testa de Jack. -- Cuidado com a velocidade e use os espelhos.
      Levando em conta a situao, Jack pensou que o melhor seria uma
resposta sucinta.
      -- Pode deixar.
      -- Muito bom -- o patrulheiro devolveu os documentos para Jack,
depois apontou para a estrada. -- Agora, temos um pequeno desvio a-
qui. Os prximos cinco quilmetros da estrada esto destrudos. Para
onde voc falou que esto indo?
      Jack desabou enquanto respondia: -- Montgomery.
      -- Montgomery -- o policial quase sorriu, divertindo-se com a si-
tuao. -- Voc no consegue ler um mapa?
      -- Ns perdemos uma sada.
      O policial suspirou -- sua forma de rir por dentro, pensou Jack.
Finalmente apontou:
      -- Eu pegaria o desvio. Deve ser uma hora mais rpido do que
voltar at a 82 -- se voc souber como fazer. No est muito bem sina-
lizada e  melhor no andar por l  noite.
      -- O senhor poderia nos mostrar? -- pediu Jack.
      O homem caminhou para a frente do carro.
      -- Vocs tm um mapa, no?
      Stephanie passou o mapa, que ele abriu sobre o capo do Mustang
e deu uma olhada ligeira.
      --  um mapa antigo -- disse dobrando. -- OK. Vou explicar,
prestem ateno! Vocs me acham um pouco estranho? Confiem em
mim,  melhor que gente da cidade como vocs no ande por a pedin-
do informaes aos nativos. Nunca se sabe com quem vo se encontrar.
Agora, vocs saem daqui...
      -- Nativos? -- o sorriso de Stephanie contradizia seu tom.
      O policial fez um gesto de rechao.
      -- Caipiras atrasados. Idiotas como o Jack estava tentando ser al-
guns momentos atrs. No aceitam nenhuma lei, a no ser a prpria.
Pessoas ruins. Tipos que ainda no descobriram o uso da escova de
dente, muito menos das leis.
      Ele apontou para o desvio.
     -- Agora vocs seguem pelo sul por essa estrada at surgir um T.
Dobrem  esquerda, vocs vo passar pelas pastagens at voltar ao bos-
que. Vo pegar uma estrada ruim por uns sessenta e cinco quilmetros,
mas no se preocupem, vo cair direto na 82. Deve demorar mais ou
menos uma hora.
     Jack olhou para o desvio que ia para o sul. Ele desaparecia atrs de
uns morros cheios de rvores.
     -- Tem certeza?
     -- Eu pareo no ter certeza?
     De novo no. Jack sorriu:
     -- No, senhor.
     Lawdale moveu a cabea.
     -- Agora estamos comeando a nos entender. Essa  a estrada que
eu pego para ir para casa toda manh. Se tiver algum problema,  s fi-
car no acostamento. Um de ns vai acabar encontrando vocs.
     -- Voc fala como se isso j tivesse acontecido -- disse Jack.
     -- E j aconteceu.
     Stephanie acompanhava os olhos deles com um sorriso vacilante.
     -- Jack, talvez a gente devesse voltar para casa.
     -- No  preciso -- disse Lawdale. -- Se sarem agora, enquanto
h luz, vo chegar sem problemas.  s ter cuidado.
     O policial mexeu na ponta do chapu e voltou para a viatura.
     Jack sentou-se ao volante do Mustang e fechou a porta.
     -- Voc j tinha pensado em que tipo de gente patrulha essas es-
tradas?
     Stephanie sentou-se ao seu lado.
     -- Nunca.
     -- Agora j sabe.
     -- Tenho certeza de que ele j tirou muita gente como ns do a-
costamento. Acho que devemos voltar.
     Jack olhou o relgio. Quinze para as seis. Ainda dava para chegar.
Comeou a acelerar.
     Stephanie pressionou.
     -- A reunio no vale todo esse trabalho.
     Jack entrou no desvio.
     -- Jack.
     Ele acelerou o mximo que teve coragem.
     -- A gente j veio at aqui, no? Gostaria de pelo menos tentar
chegar l.
     3    19h46




-- Devagar, Jack.
      Jack no estava indo to rpido, s um pouquinho acima de ses-
senta... Bom, s vezes chegando a oitenta. A estrada esburacada  que
fazia parecer que a velocidade estava bem mais alta. Ele se lembrou de
usar os espelhos mas no viu nada alm de uma trilha de poeira.
      -- Ele disse que em uma hora estaramos l, mas j se passaram
duas -- deu uma olhada para o lado. -- Qual era mesmo distncia at a
82 segundo ele?
      -- Acho que falou que eram uns sessenta quilmetros depois do T.
      Jack olhou o hodmetro pela ensima vez.
      -- Ns j andamos por quase cem. Voc viu alguma cidade por
aqui, algum lugar?
      Ela estava sentada com os braos cruzados, olhando pela janela. A
estrada bizarra tinha levado o carro de volta para o bosque fechado.
Com exceo de uma pequena placa pela qual tinham passado h um
quilmetro, eles no tinham visto nada mais. -- "Wayside Inn" -- dizia
a placa. -- "Descanso para as almas cansadas, 5 quilmetros." -- A
placa estava pintada em amarelo, rosa e azul, com uma seta cor-de-rosa
apontando para a mesma direo em que eles seguiam.
      -- Essa estrada no est no mapa, Jack. S sabemos o que ele nos
contou.
      Ele apertou o volante e se concentrou em dirigir. Sentia-se humi-
lhado por seus erros.
      -- Voc poderia ligar e avis-los de que estamos atrasados?
      Steph olhou o celular
      -- No tem sinal aqui. Mas pode ficar tranqilo. Ns j perdemos
a reunio.
      Ele j tinha feito as contas de horrios e quilmetros. Sabia que ela
estava certa.
      -- Bom, parece que h uma pousada em algum lugar por aqui, --
disse Jack -- talvez possamos nos abrigar durante a noite. -- Olhou pa-
ra ela e procurou alguma coisa, um daqueles olhares significativos que
ela costumava dar antes de os problemas comearem. Nada. Virou para
frente e tentou encontrar as palavras...
      O que era aquilo? Pisou fundo no freio...
      Bam! Alguma coisa metlica fez um barulho surdo por baixo dos
pneus junto com o barulho da freada. O carro sacudiu, estremeceu e
tremeu, derrapando sobre o cascalho solto.
      Stephanie gritou enquanto Jack lutava com o volante. O carro des-
lizava de lado, os pneus jogando pedras para todo lado e criando uma
parede de p. Parecia que eles tinham perdido os pneus e estavam so-
mente sobre as rodas. O carro inclinou-se para o lado do passageiro,
oscilando, mas acabou ficando sobre as quatro rodas de novo, com um
barulho de metal e vidro quebrado, invadido pela poeira.
      Silncio. Tudo parou. Eles estavam vivos.
      -- Voc est bem? -- perguntou Jack.
      A voz de Stephanie saiu tremida:
      -- O que... aconteceu?
      Jack sentiu o lado esquerdo da cabea doendo. Tocou seu cabelo e
a mo se encheu de sangue. Devia ter batido na porta.
      -- Havia... algo na estrada.
      Soltou o cinto de segurana e abriu a porta. A poeira entrou no
carro, grudando na roupa e se enfiando pelo nariz. Desceu, suas pernas
tremiam, e percebeu que o carro estava baixo.
      Os quatro pneus estavam furados. A derrapagem quase tinha ar-
rancado a borracha das rodas.
      Olhou para trs, tentando ver atravs da nuvem de poeira e perce-
beu algo estranho no cho, como se fosse um animal morto, cado e re-
torcido por causa do impacto. Era uma esteira fina de borracha, bastan-
te grande para cruzar toda a estrada e cheia de cravos de ferro.
      Sentiu um n no estmago. Olhou para os dois lados da estrada,
para o bosque e as estranhas videiras. Nenhum barulho. Nenhum mo-
vimento.
      -- Steph...
      Ela saiu do carro e se assustou com o estrago. Ele apontou para a
monstruosidade ali na estrada.
      -- Foi uma armadilha ou uma cilada ou... no sei.
      Ela olhou para as rvores finas dos dois lados da estrada.
      -- O que vamos fazer?
      Os olhos dele estavam nas rvores, de um lado para o outro. Ele
achava que quela altura algum j teria feito alguma coisa, saltado, feito
uma emboscada, atirado, alguma coisa.
      -- Bom, quem quer que tenha feito isso, vai voltar para ver o que
caiu na armadilha.  melhor a gente sair daqui.
      -- E o carro?
      -- Ele no vai a lugar nenhum. Pegue a sua bolsa. Vamos andar
at a pousada.
      Ela entrou no carro e pegou sua bolsa, colocou o celular dentro
enquanto seus olhos vigiavam todos os lados, com medo. Jack sabia que
ela estava pensando na mesma possibilidade: nativos. Pessoas estranhas
e atrasadas. Sem nenhum respeito pelas leis. Lawdale tinha avisado para
no ficarem aqui  noite.
      -- Vamos. -- Jack esticou sua mo sobre a capota, tentando a-
press-la.
      Ela deu a volta. Ele segurou firme sua mo. Comearam a andar,
com pressa, olhando para trs, para o carro danificado at perd-lo to-
talmente de vista.
      Mantiveram a caminhada apressada por quase trs quilmetros. A
luz do sol continuava a sumir. Passaram por uma curva na estrada e vi-
ram uma pequena placa no alto de um caminho de pedras.
      WAYSIDE INN
      Jack soltou a mo de Stephanie e comeou a subir pelo caminho:
      -- Agora est tudo bem. Vamos usar o telefone.

                                 ***

      A casa no era como Stephanie imaginou que seria uma pousada
nesse lugar remoto do Alabama. Quando ela e Jack chegaram ao muro
de pedras e olharam para o caminho de lajotas, o medo da noite e do
frio desapareceu; seus ps doloridos e toda a terra em suas sandlias se
tornaram suportveis; at mesmo o carro quebrado e essa viagem sem
sentido deixaram de ser o fim do mundo. Ficou to aliviada que come-
ou a chorar.
      Pode ser que estivessem vendo o passado. De alguma forma, en-
quanto as vastas fazendas se tornavam campos abandonados e cami-
nhos sombreados entravam em decadncia at se transformarem em
estradinhas esburacadas cheias de poeira e cascalho, essa senhora casa
permaneceu obstinadamente com um visual distinto. No era exatamen-
te uma manso, mas suas imponentes paredes brancas, janelas com -
guas-furtadas e luzes altas e brilhantes convidavam a lembranas de mu-
lheres lindas com saias armadas e cavalheiros com casaco e sotaque su-
lista.
       -- Ah! -- foi tudo que ela conseguiu dizer quando o alvio se
transformou em alegria e esta em surpresa.
       -- O que uma linda casa como essa est fazendo em um lugar des-
ses? -- perguntou-se Jack em voz alta.
       Ele abriu o porto e comeou a subir, parou para olhar para trs e
ficou esperando, o que a surpreendeu. Ela correu para encontr-lo e su-
biram juntos, mas sem se dar as mos, como se entrassem em outro
mundo.
       Lampies em miniatura davam um ar acolhedor s lajotas. A cerca
viva, dos dois lados do caminho, estava bem cuidada; mesmo com a pe-
quena quantidade de luz, as flores mostravam suas cores vivas. Alm
delas, carvalhos antigos estavam sobre um gramado muito bem cuidado.
       -- Queria ter trazido uma mala -- ela disse -- gostaria de ficar
aqui.
       -- Vamos ligar e pedir ajuda, depois podemos pegar nossas coisas
-- ele respondeu. -- O policial Lawdale pode estar perto daqui.
       Ela estremeceu. Ele provavelmente estava brincando, mas no ti-
nha graa.
       Cruzaram a varanda e encontraram um bilhete na porta: Bem-vindos,
cansados viajantes. Assinem o livro na entrada.
       Jack colocou a mo na maaneta no momento em que ela se viu
no vidro ornamentado da porta. Aquele rosto vermelho, empoeirado, o
cabelo despenteado pelo vento no combinavam com um lugar como
aquele.
       -- Espere -- ela abriu a bolsa procurando a escova.
      Ele abriu a porta, afastando seu espelho.
      -- Steph, j temos muitos problemas no momento.
      Ela seguiu o reflexo que se movia, passando a escova pelo cabelo.
Ele nunca conseguia entender o ponto de vista dela. Stephanie viu seu
prprio rosto desgostoso no reflexo.
      -- Estou toda suada.
      Jack entrou sozinho e sentiu um pouco de remorso. No tem pro-
blema, continue andando, rapaz.
      Ela guardou a escova, ensaiou um sorriso, entrou no vestbulo e
fechou a porta.
      Agora se sentia ainda mais empoeirada, suja, amassada e deslocada.
A sala tinha o teto alto e um lustre lindo pendia sobre suas cabeas. O
cho de madeira refletia uma larga escada acarpetada. Havia vasos de
flores por toda parte: sobre as mesas, em nichos nas paredes e, nos can-
tos, sobre pequenos mveis. A sala de estar,  sua esquerda, tinha uma
grande lareira. Ela deveria estar vestida para uma festa, mas parecia mais
que isso...
      -- Vocs no parecem ser os donos desse lugar -- disse uma voz
masculina vinda do alto.
      Um homem e uma mulher desceram as escadas. Ele era alto e for-
te, usava jeans novos e uma camisa esportiva verde aberta no pescoo e
mostrando uma camiseta em perfeita combinao. Ela era alta, morena
-- no era bonita na opinio de Stephanie, mas estava chique com uma
cala branca e uma tnica vermelha sem mangas. De seda, provavel-
mente. Brincos de prata em forma de gotas. Descia com uma elegncia
profissional e um rpido olhar inquisidor fez Stephanie ficar com ver-
gonha.
      -- Precisamos de um telefone -- disse Stephanie.
      Se Jack percebia como estava sujo, no demonstrou. O escritor
dentro dele nunca se preocupava com aparncia fsica, o que a irritava
muito. Agora ele estava vestido como sempre, casual, para no dizer
descuidado, com calas largas e uma camisa jeans sem pregas, aberta
sobre uma camiseta branca. Seu cabelo ruivo precisava de um pente,
mas, fora isso, ele era bonito -- sim, mais bonito do que esse senhor
arrumadinho que descia a escada como se estivesse em um desfile de
moda. Infelizmente, ela queria algo mais do que algum bonito nesse
momento. Sua carreira estava comeando a dar certo, mas Jack estava
to preso ao passado (o que iria certamente atrapalh-la).
      -- Tiveram problemas? -- perguntou o homem.
      Jack respondeu:
      -- Problemas com o carro h uns trs quilmetros.
      O homem trocou um olhar com a mulher.
      -- Ns tambm.
      Agora ele tinha conquistado a ateno de Stephanie.
      -- Nossos pneus foram furados.
      O homem levantou a sobrancelha direita.
      -- Os nossos tambm.
      A revelao deixou-a alarmada.
      -- Vocs tambm? Como... como  possvel?
      -- Nesse lugar atrasado? Tudo  possvel -- disse o homem com
um sorriso charmoso.
      -- Mas no pode ser coincidncia. Os dois carros?
      -- Calma, querida. Devem ser s alguns caipiras tirando um sarro
atrs de alguma rvore. Vai dar tudo certo. De onde vocs so?
      -- Estvamos vindo do norte, de Tuscaloosa -- Jack respondeu.
      -- Estvamos vindo do sul, de Montgomery.
      -- Vocs erraram a entrada na 82?
      -- Isso mesmo.
      -- Tivemos que andar por vrios quilmetros -- Stephanie lem-
brou-o em voz alta.
      -- Ns tambm -- disse a mulher, apesar de no parecer.
      O homem estendeu a mo.
      -- Randy Messarue.
      Jack apertou a mo dele.
      -- Jack Singleton. Esta  Stephanie, minha, ah... -- ele deixou que
ela falasse.
      -- Sou a esposa dele -- disse ela.
      A mulher era mais alta do que Stephanie, o que ajudou quando ela
olhou de cima para baixo e respondeu:
      -- Encantada. -- Ela se virou e ofereceu a mo para Jack. Stepha-
nie ficou aborrecida.
      -- Meu nome  Leslie Taylor. Randy e eu estamos juntos h muito
tempo.
      -- Parece que voc machucou a cabea -- disse Randy. -- Est
tudo bem?
      Jack tocou sua cabea. O sangue j estava quase seco.
      -- Cansado, mas tudo bem. Vocs chamaram a polcia?
      Randy sorriu:
      -- Vocs tm um celular com sinal?
      Stephanie tirou seu celular da bolsa. Checou de novo, mas...
      -- No, sem sinal. No tem um telefone por aqui?
      -- Podem procurar.
      Stephanie sentiu o medo voltar.
      -- Ns olhamos o andar de baixo e alguns dos quartos em cima.
Se houver algum, est escondido.
      -- Podemos perguntar aos donos quando eles aparecerem -- dis-
se Leslie.
      -- Sim, quando aparecerem -- disse Randy. -- No sei que tipo
de negcio eles acham que tm aqui, mas no d para colocar um aviso
na porta e deixar que os hspedes se virem.
      Leslie sorriu, inclinando a cabea.
      -- Randy tem uma cadeia de hotis.
      Jack levantou as sobrancelhas.
      -- Uau! Muito bom.
      -- E uma cadeia de restaurantes, mas isso no vem ao caso -- dis-
se Randy.
      Stephanie falou:
      -- Jack  escritor. J publicou vrios livros.
      -- Oh -- disse Randy -- trouxeram bagagem?
      -- No -- Stephanie respondeu rapidamente, dando uma punha-
lada com o olhar em Jack. Meu marido no pensa nesses detalhes.
      Mas ele no estava olhando para ela.
      -- Ainda est no carro. Ficamos muito nervosos. Sabe, pensamos
que...
      -- Pensamos que fosse um assalto -- explicou Stephanie, sentin-
do-se tola. Ela forou uma risadinha tonta. -- Deixei minha bolsa e a
dele tambm, alm disso tnhamos uma mala com roupas...
      Randy bateu com a mo na cabea e suspirou:
      -- Agora sim vocs foram roubados.
      -- Eu adoraria tirar essas roupas sujas.
      -- No se preocupe -- disse Jack. -- Vamos dar um jeito.
      Apontou para uma pequena mesa no canto do vestbulo comum
livro de registros aberto e uma caneta presa a uma corrente.
      -- Vou registrar a gente.
      -- E voc pode escolher um quarto -- disse Randy. -- As chaves
esto no armrio.
      -- Randy, no somos os donos deste lugar -- disse Leslie.
      Randy a ignorou:
      -- Eu recomendo o quarto nmero 4, bem em frente ao nosso.
Tem uma tima viso dos jardins no fundo. -- Leslie olhou-o de forma
reprovadora.
      Stephanie olhou para Jack e mostrou dois dedos. Como em casa,
preferia dormir em quartos separados, por favor. Jack suspirou e andou
at o balco.
      Leslie virou o nariz na direo de Stephanie:
      -- E voc, o que faz?
      -- Sou cantora -- respondeu. Ela cantarolou um compasso da sua
cano favorita, uma musiquinha animada que havia composto e se
chamava "Always All Right" [Sempre bem].
      -- Ah! Pessoas criativas.
      Jack voltou trazendo discretamente duas chaves. Ele entregou a
chave do nmero 4 para Stephanie que a guardou em sua bolsa e enfiou
a outra no bolso. Leslie olhou de forma inquisidora para Stephanie, mas
depois fingiu no perceber. Bruxa!
      -- Parece que somos os nicos hspedes do hotel nessa noite --
exclamou Jack.
      -- No acho que eles estejam esperando mais ningum -- decla-
rou Randy.
      -- Tem certeza? -- perguntou Leslie. -- A casa parece estar pron-
ta para receber visitantes. As luzes esto todas acesas, o aviso na porta...
      -- E onde esto os proprietrios?
      Stephanie virou-se para subir ao primeiro andar.
      -- A mesa de jantar est posta para quatro pessoas.
      Todos eles olharam para a sala de jantar do outro lado.
      No era luxuosa, mas agradvel. Uma toalha e guardanapos de
brocado cobriam a mesa; os quatro lugares tinham pratos para a entrada,
garfos para salada e colher de sobremesa. Um jarro de ch gelado estava
em uma das pontas, com gotas de condensao escorrendo.
      Randy andou at a mesa e pegou o jarro de ch gelado.
      -- Algum est com sede?
      Leslie entrou na sala.
      -- Randy, isso no  para ns.
      Ele olhou para ela e encheu um copo que estava em cima da mesa.
      -- Randy!
      Ele bebeu olhando para ela. Stephanie olhou de forma inquisidora
para Leslie, mas fingiu no notar nada. Ento, aparentemente esses dois
tambm tinham seus problemas.
      -- Ento... eles esto esperando quatro pessoas -- disse Stephanie.
      -- E deve ser agora -- respondeu Randy.
      -- Bom, eles no estavam nos esperando -- falou Jack.
      -- No -- disse Randy, saboreando o ch. -- Mas seremos seus
hspedes esta noite, queiram eles... -- As luzes piscaram. -- Ah, o que
foi agora?
      A casa ficou s escuras.
      Stephanie involuntariamente se aproximou de Jack.
      -- Ah, meu Deus.
      -- Agora  que est ficando bom -- ela ouviu Randy falar.

                                  ***

     Como toda essa viagem, um desastre atrs do outro, pensou Jack. Olhou
pela janela, que agora se tornara um retngulo negro mostrando um
mundo de sombras e formas indistintas.
     -- As luzes do jardim se apagaram tambm.
     -- Esperem at nos acostumarmos com o escuro -- falou Leslie.
     -- Algum tem um isqueiro? -- perguntou Randy.
     -- Stephanie -- falou Jack, pois sabia que ela sempre tinha um is-
queiro para oferecer aos amigos fumantes. Sempre achou isso estranho,
j que ela falava que os cigarros matavam as cordas vocais, mas aparen-
temente era o seu jeito de jogar conversa fora. Ouviu quando ela come-
ou a procurar dentro da bolsa, depois sentiu-a pressionar o aparelho de
plstico em sua mo. Ele acendeu. A luz da pequena chama amarela i-
luminou sutilmente a sala.
      -- A esto vocs -- disse Randy. -- Pelo menos, ela est prepa-
rada. Vamos. -- Ele caminhou at o vestbulo cruzando at a sala de
estar. Jack o seguiu, iluminando o caminho. Randy foi at a lareira e pe-
gou uma lamparina de leo.
      -- Randy, isso no  nosso -- avisou Leslie.
      Randy pegou um fsforo de uma caixa sobre a lareira, riscou-o nos
tijolos e a lamparina acendeu com facilidade.
      -- Agora, podemos procurar velas, fsforos, uma lanterna, algo
para nos iluminar, j que os donos no esto aqui para cuidar de suas
coisas.
      Jack ouviu um barulho, mas no conseguiu localiz-lo. Algo resso-
ando. Uma nota aguda.
      -- Esperem um momento! -- disse Jack, guardando o isqueiro.
      -- O que foi?
      -- Psiu.
      Todos ficaram ouvindo. Jack pensou...
      -- Legal -- disse Randy, voltando ao vestbulo e levando a lampa-
rina com ele. -- Como nas casas mal-assombradas, certo? Sem ningum,
as luzes se apagam e... UUUUHHHHH. -- Ele mexeu os dedos da
mo livre enquanto a lamparina jogava sombras sobre seu rosto. --
Rangidos, gemidos e passos na escurido.
      Leslie balanou a cabea, achando aquilo engraado.
      -- No faa isso -- pediu Stephanie, colocando sua bolsa perto
do sof.
      O barulho se repetiu.
      -- Eu ouvi alguma coisa -- disse Jack.
      De algum lugar da casa escura, escutaram rangidos de madeira e,
depois, silncio total.
      -- So s os barulhos da casa... -- Randy comeou a falar, mas
Leslie mandou que ele se calasse.
      Agora, em algum lugar, ouviam-se mais rangidos.
      -- Tem algum aqui -- sussurrou Stephanie.
      Jack levantou a mo pedindo silncio, concentrando-se para escu-
tar melhor.
      Uma voz. Uma msica. Uma criana.
      Olhou para os demais, mas eles no estavam preocupados.
      -- Vocs ouviram isso? -- Randy comeou a rir, achando que
Jack estava de brincadeira. -- No estou brincando. Ouvi algum can-
tando. Parecia uma garotinha.
      Todos ouviram de novo e, dessa vez, a preocupao, para no di-
zer um pouco de medo, tomou conta deles. Eles tambm tinham ouvi-
do o som.
      -- Isso quer dizer que os proprietrios tm uma filha -- concluiu
Randy.
      Leslie encolheu os ombros.
      Stephanie olhou para Jack, que estava bastante desconcertado.
      Mais dois segundos e Randy quebrou o silncio com uma voz de
comando:
      -- Ok, chega de Dia das Bruxas. A cozinha  por aqui. Vamos i-
luminar este lugar.
      Ele seguiu na frente, segurando a lamparina no alto. Os outros o
seguiram. Como um grupo unido, moveram-se pela sala de jantar, pas-
saram por baixo de um arco, por um corredor curto e chegaram  cozi-
nha, que era grande e bem equipada.
      Randy mostrou:
      -- Vamos dar uma olhada nesses armrios, naquela despensa ali.
Jack, olhe ali na varanda. Estamos procurando uma lanterna, uma caixa
de luz ou fusveis, velas, qualquer coisa. -- De repente, Randy gritou
to alto que Jack se assustou. -- Al! Tem algum a? Vocs tm hs-
pedes aqui!
      Leslie comeou a procurar pelos armrios, no alto e embaixo, a-
brindo e fechando, abrindo e fechando.
      Jack abriu a porta de trs e usou seu isqueiro para procurar na va-
randa. Encontrou um velho refrigerador e algumas latas nas prateleiras,
mas nada que pudessem usar naquele momento.

                                     ***

      Stephanie estava brava consigo mesma por estar tremendo. Torceu
para que os outros no percebessem. Tinha aprendido a ser corajosa e
independente no ltimo ano -- foi obrigada a isso. Mas estava to escu-
ro; eles j tinham passado por um acidente de carro e por um possvel
assalto; e agora estavam andado por uma casa enorme e vazia...
      Colocou a mo na testa e tentou se controlar. Tenha coragem, garota.
S  ruim se voc se deixar convencer. Continue sorrindo.  assim que a gente a-
genta, lembra-se?
      Tentou cantarolar uma msica, mas no conseguia se lembrar de
nenhuma, comeou a cantar qualquer coisa.
      -- E a despensa? -- perguntou Randy.
      Cara, esse gosta de ficar mandando. Do mesmo jeito que o Jack.
      Ela encontrou a maaneta da porta, mas era difcil ver alguma coi-
sa dentro do armrio. Randy tinha a nica lamparina e no a largava.
Stephanie conseguiu dar uma olhada na entrada da despensa; mas ela
era profunda, escura... Seus dedos tocaram em prateleiras na parede...
estava escuro... podia ser um esfrego ou algo assim... estava escuro...
     As luzes se acenderam. Uma nica lmpada pendurada por um fio
do centro do teto. Stephanie tomou um susto e protegeu os olhos. Por
um segundo, no viu nada.
     -- O que voc est fazendo na minha despensa?
     4

Jack ouviu o grito de Stephanie e se dirigiu  porta da despensa em um
segundo. Randy e Leslie j estavam l. Os trs se chocaram e ficaram
olhando.
      -- Gritos assim s ao ar livre -- falou uma mulher de rosto largo
parada na despensa, tapando os ouvidos. Quando o grito morreu, ela
tirou as mos do ouvido e pegou uma grande jarra de pur de ma da
prateleira.
      -- Me desculpe -- disse Stephanie, ofegando -- mas voc real-
mente me assustou.
      -- Bom, eu tambm me assustei. Quase pensei que fosse ele.
      Stephanie olhou para os outros.
      -- Quem?
      A mulher franziu a testa e entregou a jarra.
      -- Pegue. Coloque isso em uma tigela e enfie uma colher. -- Diri-
giu-se  cozinha, esbarrando nos demais, foi at o forno e deu uma es-
piada dentro. Pela primeira vez, Jack sentiu o aroma de assado e perce-
beu como estava com fome.
      -- A carne j est quase pronta. Melhor colocar a comida na mesa
-- disse a senhora.
     Ela era grande e tinha as costas largas; usava um vestido caseiro
com estampa de flores. Seu cabelo grisalho estava preso na parte de trs.
Ela se virou:
     -- E ento? Estou falando sozinha ou vocs esto me ouvindo?
     Jack foi o primeiro a sair do estupor.
     -- Ah, ns somos, ah, seus hspedes por essa noite, acho. Meu
nome  Jack... -- ele estendeu a mo.
     -- Procurando uma tigela? -- a mulher fez a pergunta a Stephanie.
Jack abaixou o brao.
     Stephanie no estava, mas respondeu:
     -- Sim.
     Randy deu um passo  frente.
     -- A senhora  a dona deste lugar?
     -- Sou. E voc  o rapaz que ocupou o quarto nmero 3 -- olhou
para Leslie. -- Ou foi voc?
     Leslie sorriu.
     -- Ns dois. Espero que no se incomode...
     -- Vocs vo pagar?
     --  claro.
     -- Ento desfrutem, mas no faam barulho. -- Ela abriu um ar-
mrio e pegou uma tigela, entregando-a para Stephanie. -- Aqui, queri-
da.
     Randy ficou entre a mulher e Stephanie.
     -- No sabamos que a senhora estava aqui. Fomos pegos de sur-
presa.
     Ela olhou para ele, depois para a lamparina em suas mos.
     -- A luz j voltou.
     Randy apagou a lamparina e a colocou em cima de uma mesa de
madeira.
     -- Sempre acaba a energia assim?
      Ela se arrastou at o outro lado da cozinha.
      -- S quando temos hspedes. -- Betty se virou para Leslie. --
Est procurando alguma coisa para fazer? D uma olhada nas ervilhas
ali no fogo e coloque-as em um prato. -- Ela puxou uma gaveta e tirou
um prato. Leslie comeou a trabalhar. Betty olhou para Jack.
      -- E qual  o seu problema?
      -- Bom, na verdade, tivemos um... problema com o carro.
      -- Cravos na estrada -- disse Randy.
      -- A senhora tem algum telefone...
      A mulher chegou muito perto de Jack, a centmetros de seu nariz:
      -- Problemas com o carro? E por isso que vocs pegaram dois
quartos? Problemas com o carro? -- A mulher se virou para Stephanie.
-- Ele est bravo com voc ou algo assim?
      -- Ah...
      -- Ele consegue carregar umas cadeiras? -- a senhora dirigiu-se
novamente a Jack. -- Voc consegue carregar umas cadeiras?
      Ele disse que sim. Fez um registro mental: usar essa personagem
em alguma histria.
      -- Ento vamos precisar de mais trs.
      -- Ah -- exclamou Leslie, pedindo desculpas. -- A senhora est
esperando mais gente.
      -- No. -- Ela pegou uns pratos no armrio e perguntou a Randy:
      -- Voc sabe arrumar uma mesa?
      --  claro. E, por falar nisso, meu nome  Randy Messarue. E es-
sa  Les...
      Ela enfiou os pratos no estmago dele.
      -- Mais trs lugares.
      Ele apontou Leslie com a cabea:
      -- Ela  Leslie. E a senhora?
      -- Betty. A prataria est naquela gaveta.
      O desconcerto de Jack virou irritao.
      -- Precisvamos muito de um telefone.
      -- No tenho.
      -- E o que a senhora faz quando a luz acaba? -- perguntou Randy.
      -- Espero os hspedes irem embora. -- Betty fez um gesto para
Jack apontando o corredor. -- Cadeiras! Tem trs ali no armrio.
      Ele entrou no corredor entre a cozinha e a sala de jantar sem saber
onde ficava o armrio. Havia duas portas  direita. Tentou abrir a pri-
meira...
      -- No  essa! -- Jack tirou a mo da maaneta como se ela esti-
vesse quente. -- Esse  o poro! Ningum desce para o poro! Nin-
gum!
      Ah, pelo amor de Deus. Ele respirou fundo para se acalmar.
      -- Ento, por que a senhora no me diz onde fica o armrio?
      Ela mexeu a cabea e revirou os olhos como se estivesse lidando
com um idiota.
      -- A outra porta. Por que no tenta a outra porta? -- Virou-se de
costas na cozinha, gesticulando como se ele fosse um problema indese-
jado.
      Jack abriu a porta seguinte e encontrou um armrio. Dentro, trs
cadeiras encostadas uma na outra, mas demorou at tir-las. Precisava
respirar por um momento, ficar longe daquela mulher at recuperar seu
equilbrio. Em uma tarde tinha passado do desapontamento  raiva, do
medo  exausto e  frustrao. E agora, para coroar tudo isso, seu es-
tmago estava fazendo barulho e a cozinheira era louca. Ele ouviu Ste-
phanie cantando na cozinha.
      Balanou a cabea. Por que no se surpreendia?
      Vamos, Jack. Afinal, a deciso de pegar essa estrada tinha sido sua. Precisa
assumir a responsabilidade...
     Carregou as cadeiras para a sala de jantar e as colocou ao redor da
pequena mesa enquanto Randy arrumava os lugares extras.
     -- A prataria no combina -- murmurou Randy.
     Jack no conseguia se importar com isso.
     Eles voltaram para a cozinha, passando por Leslie que estava sain-
do de l.

                                  ***

      Leslie levou a tigela de ervilhas para a sala de jantar, tendo de mo-
ver alguns pratos e copos para abrir espao. Com trs cadeiras extras e
os pratos, um enfeite de mesa, uma tigela de pur de ma, um prato de
picles, um jarro de ch gelado, uma tigela de batatas, os temperos e uma
travessa de rosbife que estava a caminho, a mesa de jantar ficou lotada.
E os copos no cabiam.
      -- Estou bem atrs de voc. -- Era Randy com uma cesta de pes.
Ela se virou.
      -- Estamos ficando sem espao.
      -- Vamos comer e conseguir um lugar para passar a noite. No
reclame.
      Abaixou a voz:
      -- Ela no  muito estranha?
      -- Voc  a psicloga e pergunta para mim? -- Ele entregou a
cesta e falou em voz baixa tambm. -- Se eu fosse simptico assim, te-
ria mesmo que colocar uns cravos na estrada para conseguir hspedes.
      Ele a deixou pensando nisso.
      Leslie se virou para a mesa...
      Deu um grito e deixou cair a cesta. Os pes voaram pela mesa,
danando entre os pratos, batendo nos copos. Um caiu dentro de um
copo de gua, fazendo barulho.
      Um homem estava sentado, olhando para ela com bvia fascina-
o e um guardanapo enfiado na gola do macaco.
      Ela nunca tinha se sentido to embaraada. -- Pelo menos no
nos ltimos tempos.
      -- Me desculpe. No tinha visto voc chegar.
      -- Voc  bonita -- disse sem tirar os olhos dela. Sua ousadia dei-
xou-a sem palavras. Achou que ele devia estar entre os vinte e trinta a-
nos, um homem forte com bceps do tamanho do pescoo e um cabelo
loiro bem curto. Usava uma camiseta rasgada por baixo do macaco.
Seu rosto barbudo estava sujo e brilhava com um suor que fedia a dis-
tncia.
      -- Ah, meu nome  Leslie.
      Ele a olhava como se estivesse nua.
      -- E o seu? -- encorajou-se.
      --  melhor limpar essa baguna antes que a Me veja.
      Leslie se apressou a juntar os pes que tinham cado, pegando um
do centro da mesa, outro de um prato. Inclinou-se para agarrar outro
que estava perto dele.
      O homem olhou para seu decote sem a menor vergonha.
      Ela se endireitou, sem acreditar. Ele sorriu como se ela tivesse fei-
to um favor.
      Imparcialidade profissional. Distncia emocional do objeto. No deixe que os
problemas dele se tornem seus.
      Sabia que tinha feito uma cara feia, mas ele a pegara desprevenida
e vulnervel, dois estados que tinha jurado a si mesma evitar. Respirou,
disposta a ser profissional, clnica. Amenizou sua expresso.
      -- Agora -- disse em um tom de enfermeira -- isso no se faz.
      Ele no tirava os olhos dela. Eram infantis, vazios e parados. Com
quem estava lidando? Um atraso mental leve, aparentemente. Inaptido
social, com certeza.
     Os olhos dele finalmente se focaram em outro lugar -- para a mo
dela que ainda segurava um po. Ele apontou.
     Ela girou a mo e viu um pequeno fio de sangue escorrendo perto
dos dedos.
     -- E como foi que eu fiz isso? -- Deve ter acontecido quando ele
olhou para o seu decote. Colocou o po na cesta, tirou um pequeno
leno do bolso para enrolar a ferida. Verificou se havia alguma ponta
afiada na mesa ou na cestinha. No viu nada.
     Ele pegou o copo, tirou o po molhado e entregou a ela, pesado e
pingando.
     Quando Leslie pegou, seus dedos se tocaram.
     Ela sentiu um nojo profundo.

                                     ***

      -- Tudo pronto -- Betty gritou da cozinha -- todo mundo pode
se lavar.
       claro, pensou Randy. Perfeito. Todo mundo mexe na comida, nos pratos
e depois  que se lava. Ele deu uma olhada em Jack e Stephanie. Todo a-
quele p da estrada.
      Os outros subiram a seus quartos para se lavar. Randy viu um ba-
nheiro no corredor, em frente ao armrio, e achou que seria mais fcil.
      O banheiro estava limpo, com uma pia branca, toalhas e tapete
cor-de-rosa e sabonete vermelho em forma de flor. gua quente saiu da
torneira.
      Randy se ensaboou. Que contraste. Como algum to ineficiente no quesito
hospitalidade pode manter um banheiro to agradvel? E onde esto os empregados,
ou ser que eles sempre obrigam seus hspedes a trabalhar? No momento, daria
somente uma estrela para o servio.
     Sentiu a tenso desaparecer enquanto a gua massageava suas
mos. Colocou o tampo na pia, juntou as mos e jogou um pouco de
gua no rosto. Deixou que essa sensao o fizesse esquecer do Wayside
Inn por um momento.
     -- J acabou? -- A voz foi seguida por um cheiro de leo de m-
quina e a sensao de outro corpo prximo. Randy abriu os olhos.
     Viu um reflexo no espelho -- um homem grande com cara de
poucos amigos.
     Randy procurou a toalha perto da pia.
     -- Boa tarde para voc tambm. Estou me lavando para jantar.
     O homem pegou a toalha e parecia que ia atac-lo com ela.
     -- No tem o seu prprio banheiro? -- Era forte como um touro
sem nada de gordura, grandes olhos castanhos, um rosto comprido e
sujo com um nariz curvo; era careca e tinha trs grandes cicatrizes aci-
ma da orelha esquerda.
     De algum lugar, Randy sentiu uma onda de terror tomando seu
corpo. Ele a reprimiu, controlando-se com a frieza que tinha aperfeio-
ado com os anos de encontros como aquele. Encarou o homem, seus
msculos de ao prontos para qualquer coisa.
     -- No momento, este  o meu banheiro -- estendeu a mo. -- A
toalha, por favor?
     O homem no esperava esse tipo de resposta. Estendeu a toalha e
apontou um dedo sujo na cara de Randy, com os olhos vermelhos e sal-
tados.
     -- Acho que voc no sabe de quem  essa casa.
     -- Eles vo saber o que voc est fazendo, amigo. Pode ter certeza.
     Randy pegou a toalha e enxugou o rosto, mas sem cobrir os olhos.
Quando terminou, jogou a toalha de volta.
     -- Tente se limpar direito. Voc tem hspedes.
      Saiu de olho no brutamontes. O homem se inclinou e jogou para o
alto a gua que tinha ficado na pia:
      -- Voc gosta de gua, no? -- disse dando um sorriso malicioso
para Randy.
      O terror voltou. Randy se sentiu tonto e precisou se apoiar na pa-
rede.
      Correu, passando pela sala de jantar at o vestbulo; deu umas vol-
tas para se acalmar, para engolir a raiva. Forou um sorriso. Voltou para
a sala de jantar ainda tentando relaxar seus msculos travados.
     5

Betty parecia um pouco cansada enquanto chamava todo mundo para a
sala de jantar.
      -- Ei! Vocs gostam de comida fria? Vamos, vamos!
      -- Se no quiserem, os porcos vo querer -- brincou Stephanie.
      Betty no entendeu a piada.
      Jack sentou na cadeira  esquerda de Betty, que o colocou perto do
grandalho com o macaco marrom. O rapaz no parecia muito comu-
nicativo. Por sua expresso, Jack achou que ele devia ter tomado muita
gua com chumbo. Stephanie sentou-se  direita de Betty.
      Randy veio do vestbulo, seu sorriso expressando uma coisa, seu
corpo outra. Parou por um momento para ver onde Jack e Stephanie
tinham se sentado. Escolheu a cadeira perto de Stephanie.
      -- Posso?
      -- Claro -- ela respondeu com um sorriso.
      Ele se sentou perto dela e Leslie ao seu lado.
      Isso deixou uma cadeira vazia.
      -- Stoo-wart! -- gritou Betty. -- Voc ficou preso na privada ou
se afogou?


* A ingesto de chumbo na gua que bebemos pode gerar alguns efeitos tais como
atraso no desenvolvimento mental ou fsico.
      Jack percebeu os outros trocando olhares cuidadosos, sentados em
silncio, esperando e agindo como adultos educados.
      Agora que estavam sentados, ele talvez finalmente pudesse obter
algumas respostas. Virou-se para Betty:
      -- Ento, tivemos problemas com nossos carros e se pudssemos
usar um telefone ou se a senhora pudesse dizer onde podemos encon-
trar um...
      Ela estava olhando para o arco que levava  cozinha.
      -- Stewart!
      Ouviram uma descarga. Passos pesados vieram do corredor.
      Randy se juntou a Jack.
      -- Betty, voc est ouvindo? Temos um problema e precisamos...
      Um homem grande apareceu na sala, um cinto de couro largo na
mo. A fivela soava como um freio de montaria. Ele olhou com dio na
direo de Randy, que percebeu e respondeu de forma igual.
      Aparentemente esses dois j tinham se conhecido.
      -- Senta a, Stewart -- disse Betty. -- Sempre estamos esperando
por voc.
      Stewart passou o cinto pelo primeiro buraco da fivela, depois pelo
segundo e pelo terceiro, como se estivesse se mostrando; os olhos fixos
em Randy. Quando o cinto deu a volta completa, ele prendeu a fivela e
se sentou.
      -- Ento, voc  o Stewart -- disse Jack, s para saber se esse su-
jeito falava.
      -- Quem  voc? -- perguntou o homem, sem sorrir.
      -- Jack Singleton. Sou escritor, moro perto de Tuscaloosa.
      -- E a sua esposa? -- perguntou Betty. Jack no entendeu.
      -- Moro em Tuscaloosa tambm -- respondeu Stephanie --
quando no estou viajando. Estamos nos divorciando.
      Jack olhou para a tigela de ervilhas. Bom, vamos contar para todo mun-
do. E, s para constar, ainda no decidimos isso. Ainda.
      -- Sirva-se de ervilhas e passe para os outros -- pediu Betty. O-
lhando para Stephanie, disse: -- E ele imediatamente pra de falar de
voc,  isso?
      Ela estava provocando, criando uma situao ruim? Ele no res-
pondeu, s pegou uma colherada de ervilhas. Stephanie ficou rindo e
serviu-se de batatas, sem fazer comentrios.
      Leslie cortou um pedao de rosbife enquanto Randy segurava o
prato.
      --  um lugar muito bonito o de vocs, com um ar de Sul antigo.
      Jack ficou grato pela frase. Tentou agradec-la com o olhar.
      -- No to bonito quanto voc -- disse Stewart.
      Leslie sorriu. Randy no.
      -- Randall e eu somos de Montgomery. Sou professora de psico-
logia na Universidade Estadual do Alabama e ele  CEO da Lar Doce
Lar -- vocs conhecem a cadeia de hotis?
      -- Vocs so casados? -- perguntou Pete, suas primeiras palavras
na mesa.
      -- O Pete est louco para se casar -- falou Betty, dando uns tapi-
nhas na mo do rapaz como s uma me faria.
      Leslie ficou olhando para o rosbife enquanto servia Randy.
      -- Planejvamos fazer uma pequena viagem, passar uns dias na
Floresta Nacional de Talladega. No pensvamos em aparecer assim,
sem avisar.
      -- Vocs so casados? -- Pete perguntou novamente.
      Ela finalmente olhou para ele:
      -- No, mas vamos nos casar logo.
      -- Eles esto vivendo juntos -- disse Betty, e riu -- provavelmen-
te vo violar um ao outro no quarto 3.
       A boca de Leslie se abriu, mas Randy deu um sorriso irnico e fa-
lou:
      -- Provavelmente.
      -- Voc poderia ser a minha esposa -- sugeriu Pete.
      Leslie falou com ele como se fosse uma professora conversando
com um aluno do jardim de infncia.
      -- Ah, obrigada. Fico lisonjeada, mas j sou comprometida.
      -- Ah, ela  realmente um partido, no  Pete? -- disse Stewart,
imaginando a cena.
      Jack deu uma olhada discreta em Leslie para entender o que Pete e
Stewart tinham visto nela. Se beleza fosse o fator determinante, por que
eles no estavam babando por Stephanie? Seus olhos se dirigiram  sua
esposa, comparando...
      Os lbios franzidos mostraram que ela no se preocupava com
comparaes.
      Ele experimentou as batatas. Um pouco farinhenta.
      -- Stewart, no o encoraje -- disse Betty, com comida na boca.
      Pete apontou para Leslie.
      -- Eu quero ela.
      Randy cortou a conversa, olhando para Stewart.
      -- Mudando de assunto, de onde voc acha que vieram aqueles
cravos na estrada?
      Stewart respirou forte.
      -- Jack -- disse Betty -- por que voc no fala um pouco sobre a
sua esposa? Leslie j falou do Randall.
      Jack aproveitou a chance para minimizar a tenso.
      -- Eu adoro falar sobre ela. -- Stephanie virou os olhos. -- Ela 
cantora e compositora. Msica country, principalmente. Tem uma ti-
ma banda, canta em clubes e boates em Tuscaloosa, s vezes em Bir-
mingham. Conseguiu um show em Atlanta, uma vez.
      -- E voc no gosta disso?
      Disso, o qu?
      -- Acho que ela  muito boa...
      Betty perguntou a Stephanie:
      -- Voc gosta, querida?
      Stephanie sorriu para Betty e para Jack:
      -- Claro, com certeza. Eu adoro.
      -- E aposto que voc toca no rdio.
      Jack disse que no, mas se arrependeu.
      Os olhos de Stephanie se fixaram no guardanapo.
      -- Mas um dia... -- ela falou.
      -- Beba mais ch gelado. -- Betty serviu. -- Quer mais gelo?
      -- No, obrigada.
      -- Tem certeza?
      -- A-h.
      -- Eu posso pegar mais.
      -- No, obrigada. Est timo.
      Randy perguntou:
      -- E vocs ouvem rdio?
      -- No temos -- respondeu Stewart.
      -- Sem rdio. Sem telefone tambm?
      Stewart olhou pata Randy como se tivesse sido desafiado.
      -- Temos as coisas que queremos. No precisamos do que no
queremos.
      Jack falou:
      -- Bom, seria muito bom poder falar com algum do mundo exte-
rior. Nossos carros tiveram problemas...
      -- ...com cravos que algum deixou na estrada -- completou
Randy. -- Voc me ouviu mencionar isso, no?
      -- Ele ouviu -- disse Betty.
      -- Quem?
      Betty continuou a mastigar.
      -- Hum, talvez vocs tenham algum vizinho com telefone... --
disse Jack.
      Betty engoliu e se levantou.
      -- Vou pegar mais gelo, querida.
      -- No, obrigada -- disse Stephanie. --  verdade, no precisa.
Est tudo bem.
      Mas Betty foi at a cozinha.
      Pete apontou de novo para Leslie.
      -- Quero que ela seja a minha esposa.
      Leslie suspirou.
      --  -- disse Stewart -- ela provavelmente no se importaria,
considerando as coisas que j fez.
      Leslie ficou um pouco plida.
      -- J tenho compromisso -- respondeu.
      -- Fico pensando quantas vezes ela j foi "casada" antes.
      -- Ela j tem compromisso -- disse Randy, subindo a voz, e Jack
pde ver as veias e os msculos no pescoo de Randy.
      -- Quem j fez uma vez, faz de novo.
      -- Stewart -- Randy se inclinou para ele, gesticulando com seu
garfo como se fosse um dardo -- gostaria de deixar claro para o seu fi-
lho Pete que Leslie no est interessada em ser a esposa dele e ns dois
gostaramos de que voc e ele mudassem de assunto. E, por falar nisso,
por que vocs no olham para outro lado?
      -- Randy, est tudo...
      -- E na mesa de quem voc est sentado, meu jovem? -- Stewart
perguntou com voz aborrecida.
      Stephanie falou:
      -- Pete, posso cantar uma msica para voc?
      Jack e Pete olharam para ela. Oh, no.
      -- Excelente pergunta -- disse Randy, se levantando. -- Que tipo
de dono de pousada no usa garfos e copos combinando, no est aqui
para receber seus hspedes, no tem telefone...
      Stephanie comeou a cantar:
      -- Hold my hand, walk me through the darkness... [Segure a minha mo,
cruze comigo a escurido...]
      Jack odiava aquela msica.
      -- Randy. -- Leslie segurou a mo dele.
      Ele no fez caso do pedido de cuidado.
      -- ...e depois faz os hspedes trabalharem. Que tipo de pousada
vocs tm aqui?
      -- ...we can make it, dear, if we make it together [...vamos conseguir,
querida, se continuarmos juntos...]
      -- Enquanto seu p estiver sob essa mesa -- gritou Stewart --
voc vai tomar cuidado com o que fala ou calar a boca!
      -- E os carros! -- exigiu Randy. -- Muito estranho que os dois
tenham tido os pneus furados perto do seu estabelecimento, no acha?
      -- ...we can make it through the night [...vamos atravessar a noite...]
      Oh, Stephanie, pare com isso.
      Dava para ver os tendes no pescoo de Randy.
      -- E o mais estranho  que nem voc nem Betty queiram falar so-
bre isso.
      Leslie fez uma careta e mexeu no prprio rosto. Jack percebeu
uma gota de sangue. Ela examinou seu garfo.
      Pete olhou com curiosidade -- depois com avidez -- para Leslie.
      -- E voc acha que pode se servir de qualquer coisa neste lugar a
qualquer momento? -- perguntou Stewart, batendo com os punhos na
mesa. -- Invadir nossos quartos, usar nossas lamparinas, beber nosso
ch, usar nosso banheiro...
      -- Sou um hspede aqui ou no? -- gritou Randy. -- Para quem
so os quartos e as lamparinas e o ch? E em relao quele banheiro...
      Jack no tinha nenhuma vontade de intermediar, mas estava fican-
do com um gosto ruim na boca. Ele colocou os talheres no prato.
      -- Ei, escutem todos, vamos olhar o lado bom aqui... -- Stephanie
parou de cantar. -- Stewart e Betty, vocs tm hspedes, e isto  uma
pousada, imagino que seja o que vocs querem. Agora, estamos todos
um pouco nervosos, tivemos um comeo difcil, mas vamos tentar fazer
a coisa funcionar...
      -- Esse  um discurso que j ouvi antes -- murmurou Stephanie.
      Jack fez que no ouviu:
      -- Temos um lugar maravilhoso para passar a noite, o jantar est
servido, a comida  maravilhosa...
      O pedao que tinha chegado a seu estmago agora no era l
grande coisa.
      Randy percebeu o corte de Leslie.
      -- O que aconteceu?
      Ela estava irritada, apertando seu rosto com o guardanapo.
      -- Me cortei de novo.
      -- Posso dar um beijo para melhorar -- disse Pete.
      Betty entrou com um balde de gelo.
      -- Aquuui est. -- Uma de suas unhas estava preta. Jack no tinha
percebido isso antes.
      -- Eu no quero mais gelo -- insistiu Stephanie, engolindo um
pedao do rosbife. Ela tossiu e cuspiu, afastando-se da mesa.
      -- Algum problema? -- perguntou Randy, obviamente torcendo
para que sim.
      Jack olhou para a carne em seu prato.
      Estava se movendo.
      Leslie gritou, a mo na boca, olhando para seu prato.
      Stewart enfiou o garfo em um pedao de carne e colocou-o inteiro
na boca. Pete fez o mesmo, enchendo as bochechas.
      Jack olhou de perto o rosbife em seu prato e teve nsias.
      Pequeninos vermes brancos estavam se retorcendo e andando pela
carne.
      -- Querida -- disse Betty -- eu trouxe mais gelo para voc.
      Stephanie viu enquanto ela jogava um cubo de gelo no ch.
      As ervilhas de Jack estavam apodrecendo -- um lquido podre se
formava embaixo delas.
      -- Parece que demoramos muito para comer -- disse ele, pensan-
do que seria melhor fazer uma piadinha para amenizar a situao.
      Leslie jogou seu garfo e quase gritou para Pete:
      -- D para parar de ficar me olhando?
      -- D para culp-lo? -- perguntou Stewart.
      -- Chega -- disse Randy, pegando o brao de Leslie e levantando-
a. -- Com licena.
      -- Sente-se -- disse Stewart.
      -- Vamos, Leslie. -- Eles comearam a dar a volta na mesa.
      -- SENTE-SE ! -- gritou Stewart, levantando-se.
      Randy falou um palavro, mas Stewart riu da cara dele:
      -- Garoto, voc no  nada.
      Leslie se agarrou ao brao de Randy at que saram da sala.
      Betty mostrou um sorriso em que apareciam vrios dentes faltan-
do para Stephanie.
      -- No me diga que voc no gosta de gelo, querida. -- Ela pegou
um cubo do balde e empurrou no nariz de Stephanie. -- Voc pensa
nisso o tempo todo, no?
      Stephanie tentou afast-la.
      -- No. Por favor, eu no.
      Jack se inclinou por sobre a mesa.
       -- Uou, uou, espere um pouco!
       Betty seguia atrs de Stephanie com o cubo de gelo, esfregando-o
em seu rosto.
       -- No consigo ouvir voc cantar.
       O que tinham essas pessoas?
       -- Betty, ela no quer mais gelo e ela no quer cantar. Agora larga
isso!
       A voz de Stephanie tremia:
       -- We can make it through the night... [Vamos conseguir atravessar a
noite...]
       Chega. Era mais do que o suficiente. Jack ficou do lado de Stepha-
nie.
       -- Foi tudo muito bom.
       Betty riu de novo.
       -- No d para salvar essa a, rapaz. No, ela no quer ser salva.
       Stephanie saiu correndo.
       Jack correu atrs dela e a segurou no vestbulo.
       Ela sorriu no meio das lgrimas.
       -- No  o lugar mais estranho em que voc j esteve?  to...
to... -- seu riso se transformou em um soluo. -- No posso ficar aqui.
       Ele a segurou para que no fugisse.
       -- Steph, eu entendo. Mas temos que pensar direito.
       -- Pensar no qu?
       -- Na realidade -- disse Randy. Ele e Leslie estavam ao lado da
escada. Ela se segurava com uma mo na grade; com a outra apertava
um pano contra o rosto. Estava respirando devagar, de forma ritmada.
Os olhos fechados. -- Tipo, como vamos fazer para sair desse lugar a-
trasado do Alabama no meio da noite e sem pneus?
       -- E o Lawdale? -- Jack pensou em voz alta. -- Ele disse que
passa por essa estrada toda manh. Vai ver nossos carros.
     -- Lawdale? -- perguntou Randy.
     -- O patrulheiro -- respondeu Jack.
     Stephanie olhou por cima do ombro de Jack e seus olhos se en-
cheram de horror.
     Jack olhou.
     Betty, Stewart e Pete estavam vindo, lado a lado com Stewart no
meio. Betty parecia ofendida.
     -- Sempre fugindo. Do que vocs esto fugindo?
     Stewart estava a ponto de bater em algum com aquele cinto.
     -- A comida estava boa at vocs chegarem.
     Randy recuou; a mo estendida como se avisasse:
     -- Fiquem longe, por favor.
     Stephanie correu para a porta da frente, abriu-a e saiu para a va-
randa. Jack foi atrs dela.
     Ela chegou ao primeiro degrau, suas mos tampando a boca.
     -- Steph, cuidado. Voc...
     Ela tremia. Deu um passo para trs. Outro passo. Estava olhando
para o caminho de lajotas.
     Jack se aproximou e a abraou por trs -- e tambm viu.
     Na metade do caminho entre a casa e o porto aparecia a sombra
de um homem enorme, uma silhueta coberta pela chuva fina. Um casa-
co cobria seu corpo at os joelhos e o tosto estava escondido pela som-
bra de um chapu de abas largas. O homem segurava uma escopeta, o
cano brilhando, refletindo as luzes do caminho.
     Atrs deles, Betty respirou forte e sussurrou:
     -- Entrem.
     Eles no se mexeram, indecisos.
     Ela os agarrou.
     -- Entrem!  ele!
      A figura comeou a andar na direo da casa, o casaco se mexendo,
os saltos da bota batendo nas pedras, o cano da escopeta apontando pa-
ra a frente.
     6

Jack e Stephanie j estavam andando para a porta quando se viraram e
correram para dentro.
     Jack bateu a porta e a trancou. Ele arrastou uma cadeira do vest-
bulo e a colocou embaixo da maaneta, sem saber se eles estavam segu-
ros do lado de dentro. Bom, seus anfitries eram loucos, mas no ti-
nham uma escopeta.
     Randy correu para eles, perguntando:
     -- O que foi? O que aconteceu?
     -- Saiam de perto da porta! -- sussurrou Betty, apagando as luzes
do vestbulo.
     -- O que voc est fazendo? -- perguntou Randy.
     --  melhor que ele no veja vocs.
     Eles ficaram em silncio, imveis e ouviram uns barulhos rpidos
de saltos de bota na varanda. Uma sombra passou em frente ao vidro da
porta, uma sombra enorme com um chapu de abas largas.
     O cano da escopeta encostou no vidro. Tap, tap, tap.
     Jack e Stephanie se encostaram na parede ao lado da porta, olhan-
do.
     Tap, tap, tap.
     Leslie sussurrou:
      -- Quem ?
      Stephanie fez um gesto com a cabea e por meio de mmica falou
que ele tinha uma arma.
      Leslie se levantou e perguntou em uma voz calma e tranqila:
      -- Pode ser um policial. Por que no perguntamos quem  e o que
quer?
      Stephanie fez que no com a cabea.
      -- No  policial -- sussurrou Jack. Ele tirou um vaso e segurou o
mvel de madeira no alto, pronto para us-lo como arma. -- Lembram-
se dos cravos da estrada? -- ele olhou para Randy e apontou com a ca-
bea para a porta. -- No acho que ele tenha vindo consertar nenhum
carro.
      Randy se aproximou da parede, segurando uma cadeira:
      -- Ele sabe que estamos aqui dentro. Essa  a idia.
      -- O que vamos fazer? -- murmurou Stephanie. -- Ah, meu
Deus, nos ajude!
      Onde esto os doidos! Jack deu uma olhada e viu os trs olhando da
porta da sala de jantar. Melhor no esperar nenhuma ajuda desses trs. Betty
desapareceu do campo de viso. Clique. As luzes da sala de jantar se a-
pagaram. Andando em direo ao vidro, Jack apertou o mvel de ma-
deira. Ele nunca tinha atacado ningum com um mvel antes.
      Randy se encostou ainda mais na parede perto da porta, segurando
a cadeira em suas mos. Ele perguntou:
      -- Quem  voc?
      A maaneta comeou a girar.
      Jack sentia o corpo de Stephanie tremendo ao seu lado.
      -- Sem chance, cara -- gritou Jack, sentindo Stephanie estremecer.
-- A porta est trancada, somos muitos e estamos armados.
      Leslie tinha se agachado atrs do balco de registros e espiava por
cima.
      Ouviram um barulho como se a fechadura estivesse sendo aberta.
      Randy levantou a cadeira acima da cabea.
      A sombra ficou parada por um momento, depois afastou-se do vi-
dro. Ouviram o barulho dos saltos das botas na varanda, descendo os
degraus, caminhando pelas lajotas e indo embora.
      Suspiros de alvio foram ouvidos na sala, mas Jack no se sentiu
seguro e no se separou do mvel. Virou-se para Betty e perguntou:
      -- Quem era?
      -- Era ele -- respondeu Betty.
      -- Ele quem? -- insistiu Randy.
      -- O demnio em pessoa.
      Leslie se levantou com uma voz profissionalmente calma:
      -- Betty, est tudo bem. Conte-nos quem  ele e o que quer.
      --  melhor comearem a orar para que esse policial amigo de
vocs chegue logo.  tudo o que posso dizer.
      Randy mexeu na fechadura.
      A fechadura se soltou na sua mo.
      Ele xingou:
      -- Ele fez algo na porta -- falou, enquanto enfiava os dedos no
buraco e sacudia o trinco. A porta estava grudada. Randy bateu, chutou,
bateu de novo. Ela no abria.
      Jack colocou o mvel no cho e tentou encontrar algum jeito de
abrir. No conseguiu.
      -- Voc tem de encontrar um jeito de sair daqui, Jack -- gritou
Stephanie.
      Randy e Jack se entreolharam, pensando na mesma coisa:
      -- A porta dos fundos! -- naquele exato momento, a porta de tela
que dava para a varanda fez barulho.
      Os homens correram pela casa, na escurido, s cegas e tropean-
do nos cantos, passando pela sala de jantar, pelo corredor, at a luz na
cozinha e a porta dos fundos.
      A fechadura estava girando quando chegaram l.
      Jack se jogou contra a porta, agarrando a maaneta, tentando abrir.
      Uma mo mais forte do outro lado o impedia.
      A mo de Randy envolveu a sua e, juntos, tentaram girar a maa-
neta para abrir a porta.
      Atravs da tela, Jack via o chapu abaixado e, sob a aba, onde de-
veria estar um rosto, uma chapa de ao com olhos frios olhando atravs
de dois buracos.
      Ouviram um barulho quando a porta foi trancada.
      A maaneta saiu em suas mos, desequilibrando-os.
      Eles se recuperaram a tempo de ver a figura atravessando a varan-
da e saindo com a arma no ombro.
      Randy explodiu em uma srie de palavres e agarrou uma vassoura,
pronto para quebrar o vidro. Jack o impediu:
      -- Calma, calma. No perca a cabea.
      Randy parou, acalmando-se, e jogou a vassoura de lado.
      As luzes na cozinha piscaram, diminuram e se apagaram.
      Mais uma onda de improprios.
      Jack ficou parado e quieto, tentando pensar. O que aconteceria a se-
guir? O que esse louco est pensando?
      Ele ouviu passos temerosos na cozinha. Conseguia ver os outros
como figuras escuras em contraste com os mveis.
      -- Jack? -- gritou Stephanie.
      -- Aqui -- respondeu.
      Ela avanou e ele segurou sua mo. Ela se soltou, mas ficou por
perto.
      Leslie perguntou:
     -- Vocs viram quem era?
     -- Estava usando uma mscara -- respondeu Jack. -- Parecia
uma lata.
     Stephanie gemeu e deslizou pelo mvel at chegar ao cho.
     Randy se afastou da parede e caminhou at onde estavam Betty e
Stewart.
     -- Agora vocs vo nos contar exatamente o que est acontecen-
do aqui. Quem  esse cara?
     -- Acho que ele veio aqui para matar vocs -- respondeu Betty.
     O silncio durou apenas um segundo.
     -- Vocs esto envolvidos nisso? -- Randy encarou Stewart. --
Voc mexeu nas fechaduras e as quebrou?
     Os olhos de Stewart se fixaram nele como um tigre em sua presa.
Jack segurou o brao de Randy, mas falou com Betty:
     -- Como  que voc sabe isso?
     -- Ele tem algo a ver com os cravos na estrada? -- Randy exigiu
saber.
     -- Vocs acham que  melhor ficar andando por a no escuro? --
perguntou Betty.
     Andando por a...?
     -- Melhor se comparado a qu? -- perguntou Jack.
     -- Ajude-me a encontrar aquela lamparina -- ordenou Randy,
sem se dirigir a ningum em especial. -- Preciso de uns fsforos.
     Jack, Randy e Leslie tatearam pelo balco at que Randy encontrou
a lamparina que tinha usado antes do jantar. Betty tirou uma caixa de
fsforos de uma gaveta. Em seguida, todos eles se reuniram ao redor do
brilho alaranjado; as chamas produziam sombras que danavam em seus
rostos.
     Jack olhou para as janelas. Ele via os dbeis reflexos laranja vindos
da cozinha, mas do lado de fora a escurido era total.
       -- Ns precisamos garantir que a casa est segura. S precisamos
ficar a salvo pelas prximas horas. Depois, podemos...
       -- Isso mesmo! -- exclamou Randy. -- Vejam as portas, as jane-
las, e vamos acender as luzes.
       -- Vocs tm uma arma? -- perguntou Jack para a estranha fam-
lia.
       -- Tenho a minha escopeta -- respondeu Stewart. -- E munio.
       -- Ento, vamos buscar...
       Algo fez barulho sobre suas cabeas.
       Eles congelaram sob o brilho da lamparina, os olhos voltados para
cima, ouvindo.
       Um golpe. Outro rangido. Uma srie de golpes como se fossem
passos.
       -- Ele est no telhado -- sussurrou Betty.
       Randy chutou a porta de um armrio e comeou a dar voltas em
uma espcie de demonstrao de raiva, mas Jack percebeu o brilho do
suor em sua testa.
       -- Ele est tentando entrar pela janela.
       Betty olhou para as janelas da cozinha.
       -- O que h de errado com essas?
       Randy agarrou a lamparina. Jack e Stewart o seguiram pelo corre-
dor at as escadas, deixando as mulheres no escuro.
       -- Jack! -- gritou Stephanie. -- Jack! No nos deixe aqui!
       Me deixou mais uma vez. Se voc me deixar sozinha mais uma vez, eu vou...
eu vou... Ela cobriu o rosto.
       -- Stephanie, vamos, precisamos ser fortes agora -- disse Leslie.
-- H hora para sentimentos e h hora para um pouco de coragem. E a
hora  esta. Voc no pode fraquejar.
       Stephanie tinha esgotado sua cota diria de sorrisos de garota do
interior.
      -- No me d sermes, Dra. Psicloga. No sou sua paciente.
      -- Stephanie...
      -- E eu no sou uma bonequinha abandonada tambm, se  isso
que est pensando. E para seu conhecimento, Jack e eu ainda estamos
casados. Leslie tocou em seu ombro, mas Stephanie a empurrou:
      -- No toque em mim!
      Elas conseguiam ouvir a correria, os passos rpidos dos homens
no andar de cima, de quarto em quarto, aparentemente checando todas
as janelas.
      -- Os homens ainda esto entre ns e... quem quer que seja... --
comentou Leslie.
      -- Humph -- fez Betty, que naquele momento era somente uma
sombra na cozinha escuta. -- Se ele quisesse entrar, j estaria aqui.
      Stephanie agarrou-se  sua raiva. Ela fez um catlogo mental das
ofensas que Jack tinha dirigido a ela e comeou a repass-las. Voc  to
insensvel, sempre me deixando sozinho...
      -- No podemos acender as luzes? -- ela ouviu Leslie perguntar.
      ...e voc nunca entendeu do que eu preciso de verdade.
      -- No -- respondeu Betty.
      Stephanie lembrou-se do aniversrio de Melissa...
      -- Havia outra lamparina perto da lareira -- disse Leslie.
      ...quando Jack simplesmente ficou doido. Abandonou-a mais uma vez. Eu
quero seguir em frente, mas voc no consegue, Jack.
      -- Vamos -- disse Betty.
      Voc amava Melissa mais do que me amava. No foi minha culpa.
      -- Stephanie.
      No foi minha culpa.
      -- Stephanie -- a voz de Leslie a arrancou de seus pensamentos.
Leslie e Betty estavam saindo da cozinha. Stephanie as seguiu, tocando
nas paredes para atravessar o corredor.
      -- Esperem um momento -- disse Leslie. -- Onde est o Pete?
      Betty continuou andando, levando-as para o vestbulo, que agora
parecia uma caverna subterrnea -- infinita, desconhecida, escura. Ste-
phanie no s sentia a parede, sabia que a parede tambm a sentia. As
pontas dos dedos formigavam.
      Leslie perguntou de novo, insistindo:
      -- Betty, onde est o Pete?
      -- Ele gosta de se esconder -- respondeu Betty.
      -- Esconder? -- Stephanie viu Leslie olhar por cima dos ombros
e tremer.
      -- Ah, estamos tendo sensaes, Doutora? -- falou Stephanie.
      -- De jeito nenhum.
      Stephanie gostou do tom de voz alterado. A Dra. Psicloga tinha
um ponto fraco. Ha! A Dra. Psicloga tinha um ponto fraco. Isso poderia
virar uma msica.
      Betty entrou na sala de estar, passando pela moblia enquanto Les-
lie e Stephanie a seguiam com o cuidado causado pela falta de familiari-
dade com o lugar. Stephanie quase no conseguia distinguir a enorme
lareira, mas Betty no teve dificuldades em encontrar e pegar uma se-
gunda lamparina a leo.
      O brilho forte do fsforo cegou-as por uns segundos. Stephanie
piscou quando Betty acendeu a lamparina e a colocou sobre a lareira. A
sala ficou com uma luz amarela.
      Stephanie e Leslie olharam o sof, as cadeiras, a mesa de centro e
as prateleiras, procurando algo fora do lugar. Stephanie no viu nada
que pudesse ser Pete, mas essa sala era abundante em lugares para se
esconder.
      Uma luz oscilante, vinda de cima, brilhou no vestbulo, jogando
longas sombras das grades da escada e dos trs homens nas paredes e
no cho. Eles estavam descendo as escadas.
      -- Achamos que ele desceu do telhado -- informou Randy. --
Ele no entrou.
      -- Considerando as fechaduras, estou comeando a pensar que
talvez ele queira nos manter do lado de dentro -- disse Jack.
      Stephanie perguntou:
      -- Vocs encontraram a arma?
      Leslie se aproximou e previu:
      -- Deve estar com Randy.
      Randy levou o trio at a sala de jantar, carregando a arma e a mu-
nio. Jack carregava a lamparina. Stewart vinha por ltimo, sombrio
como uma nuvem de tempestade, as botas fazendo barulho na escada.
      -- Ele pode ter ido embora, mas no d para ter certeza -- avisou
Randy. -- O andar de cima est seguro por enquanto.
      -- No d para abrir nenhuma janela -- informou Jack com um
olhar sombrio.
      -- Somos sete aqui e ele est sozinho -- disse Randy. -- No 
mesmo, Stewart?
      Este no respondeu, talvez s para provoc-lo.
      Betty mexeu em uma pilha de jornais em uma cesta ao lado da la-
reira e puxou uma folha. Ela se agachou, abrindo o jornal perto da lam-
parina.
      -- Vocs querem saber quem  ele?
      Ela apontou um artigo na primeira pgina e abriu espao para eles.
      CASAL ENCONTRADO MORTO
      Stephanie se juntou aos outros, olhando as frases principais:
" ...homem e esposa, encontrados mortos em uma casa abandonada...
possvel suicdio, mas as autoridades no descartam homicdio... coinci-
dncias com outras mortes... mortos h quase duas semanas antes de
serem encontrados..."
      Ah, meu Deus.
      -- Parece que isso acontece h uma eternidade -- sussurrou Betty,
os olhos brilhando. -- As pessoas entram em casas velhas e nunca mais
saem e, quando algum as encontra, elas j esto mortas h tanto tempo
que  difcil saber como morreram. Mas eu e Stewart sabemos que ele 
o culpado.
      No, no  ele, certo? No pode ser ele. No aqui, no agora.
      -- Quem  ele? -- perguntou Randy.
      -- Os policiais ainda esto tentando descobrir. Ns o chamamos
ele White, depois da primeira famlia que ele matou. Ele tem feito mui-
tas coisas por aqui. Nos perguntamos quando  que ele vir atrs de ns.
      -- Bom, ningum vai morrer nesta casa -- afirmou Randy. --
Vamos montar guarda e mant-lo do lado de fora at algum encontrar
os nossos carros...
      Claro. Ningum vai morrer. Tudo vai ficar bem. Sempre acaba bem...
      Um rudo distante. Alguns rangidos. Todos os olhos se viraram
para o teto.
      -- Ele ainda est l em cima -- disse Leslie para Randy. -- Ele a-
inda est no telhado.
      Randy armou a escopeta.
      -- Por que o telhado? -- perguntou Jack. -- Por que o telhado
quando qualquer janela do trreo pode ser quebrada facilmente? Esse
cara deve ter um plano.
      Nesse momento, ouviram um barulho como se algo metlico, uma
lata de refrigerante, tivesse cado por um poo estreito, batendo nas pa-
redes. Foi muito perto, talvez dentro da sala. Stephanie se agachou e gi-
rou, levantando as mos para proteger a cabea. Randy girou pela sala
apontando a escopeta, fazendo com que Jack e Stewart se agachassem.
      -- Pete? -- disse Leslie, com uma voz alarmada.
      -- No -- respondeu Betty.
      Puf. Algo caiu na lareira, levantando uma pequena nuvem de cinzas.
A coisa ficou balanando e acabou rolando com um som metlico e pa-
rou a centmetros da beirada.
      Jack iluminou o lugar com sua lamparina. Betty se aproximou.
      -- No toquem -- disse Stephanie.
      Betty se inclinou para olhar melhor.
      -- Voc est certo, escritorzinho. Ele no quer entrar.
      Jack levantou a coisa do cho.
      Era uma velha lata de sopa, o rtulo estava apagado, as letras ti-
nham sido substitudas por uma mensagem escrita com uma caneta pre-
ta. Jack sentou-se em frente  lareira, colocou a lamparina no cho e gi-
rou a lata enquanto lia em voz alta:
      Bem-vindos  minha casa.
      Regras:
      1. Deus veio at a minha casa e eu o matei.
      2. Vou matar qualquer um que entrar na minha casa como matei Deus.
      3. Se vocs me oferecerem um corpo, deixarei dois escaparem.
      O jogo acaba ao amanhecer.
      Ele passou a lata para Randy, que releu a mensagem. Stephanie
comeou a tremer. Leslie segurou em seu brao e, dessa vez, Stephanie
preferiu segurar sua mo.
      Por cima deles, o som de uma bota andando pelo telhado, descen-
do pela lateral da casa e desaparecendo.
      Silncio.
     7      22h27




Stephanie foi a ltima a segurar a lata, girando de um lado para o outro
enquanto lia a mensagem vrias vezes. Jack conseguia ouvir sua respira-
o rpida.
      -- Quer dizer que...
      -- Quer dizer que ele  um doente -- disse Randy, olhando pela
sala como se fosse uma sentinela.
      -- E psicolgico -- disse Leslie. -- Ele est jogando com a gente.
      -- Exceto pelos mortos -- respondeu Randy, apontando para o
jornal perto da lareira.
      -- Mas isso  impossvel -- Leslie olhou para Randy, depois para
Jack e, por ltimo para Stephanie. -- Ele no espera de verdade que nos
matemos.
      -- No todos -- Randy tirou a lata de Stephanie e leu mais uma
vez. -- S um.
      Jack preferia a teoria de Leslie.
      -- Acho que ele quer nos dividir, jogar um contra o outro.
      Betty ria baixinho.
      -- Est achando engraado? -- perguntou Randy.
      -- Isso vai ser muito fcil -- ela respondeu.
      Randy se inclinou para ela:
      -- Voc est falando de si mesma, no ?
      -- Vamos acabar descobrindo, no?
      -- Qual  o seu problema?
      Jack estendeu a mo, sem tocar em nenhum dos dois, acrescen-
tando:
      -- Ei, calma. No precisamos entrar nesse jogo. Temos escolha.
      -- Ohhhh! -- fez Betty, movendo o pescoo para olhar para ele.
-- Ouam ele.
      Leslie aproximou o relgio da lamparina.
      -- Dez e meia. O sol nasce s seis. Isso nos d sete horas e meia.
      -- Seis e dezessete, para ser mais exato -- todos olharam para
Stewart. Ele encolheu os ombros. -- Gosto dessas coisas.
      Randy suspirou.
      -- No preciso esperar tanto tempo. Vou acabar com isso agora.
-- Ele agarrou a lamparina que estava em cima da lareira e se dirigiu ao
vestbulo, com a escopeta na mo.
      Betty sentou-se em uma das cadeiras, pouco interessada. Stewart
se jogou no sof, como um espectador confortvel.
      Jack o seguiu.
      -- Randy.
      -- Fique a. S vou demorar um segundo.
      Leslie foi at a porta em forma de arco, depois se virou para den-
tro da sala e disse:
      -- Protejam-se. Ele vai mesmo fazer isso.
      Antes que Jack pudesse impedi-lo, Randy chegou perto da porta
da frente, colocou a lamparina no cho e mirou.
      Jack no estava preocupado com a porta, s com Randy e com os
demais.
      -- Randy, tem certeza de que voc sabe...
      Bum! A escopeta soltou um fogo branco e o barulho chacoalhou a
casa. O tiro destruiu o vidro.
      Para Jack, o buraco parecia grande o suficiente pata eles passarem.
      -- Est bom. Por que voc no abaixa a arma...
      Randy armou e atirou novamente, acertando a porta, o umbral, a
fechadura. Na sala de estar, Stephanie deu um grito. A porta tremeu en-
quanto lascas de madeira voaram. O vestbulo se encheu de uma fuma-
a azul.

                                 ***

      Randy resmungava enquanto colocava mais uma bala. Ele pressio-
nou a escopeta contra sua cintura e mirou na fechadura. Fogo, ferro e
fumaa saram do cano; o coice o machucou. A parte de cima da porta
balanou. A fechadura estava destruda.
      Ele soube quando apertou o gatilho que essa demonstrao louca
era uma estupidez devido  situao deles, mas no conseguia parar. O
medo tinha tomado conta dele. Perceber isso s tinha aumentado sua
raiva.
      Mexa comigo...
      Mais um tiro destruiria as janelas e as dobradias da porta se que-
brariam. Ele armou a escopeta, pronto para mais um tiro...
      Mas ela estava vazia. Ele bateu nos bolsos, depois falou com Jack
por cima do ombro:
      -- Me d mais uma bala.
      Jack ficou parado, quase escondido atrs da fumaa da lamparina.
Randy sabia que ele tinha mais balas no bolso, mas no o via procuran-
do.
      -- Randy -- disse Jack. -- a porta j est aberta. Relaxa.
     --  claro que a porta est aberta! Me d mais balas antes que o
maldito entre aqui!
     Jack continuou imvel.

                                 ***

      Jack sabia que Randy estava certo; eles estavam vulnerveis agora.
Mas isso no significava que as coisas no eram perigosas do lado de
dentro tambm. Ofeream um corpo...
      -- Por que voc no me d a arma?
      Randy aproximou o rosto de Jack.
      -- Me d as malditas balas! Aquela coisa ainda est l fora!
      -- Randy. Relaxa um pouco. Me d a arma.
      Randy agarrou a arma com as duas mos.
      -- Ela est comigo -- gritou para as mulheres. -- Vamos! Andando,
vamos embora daqui! As balas, Jack! Vamos logo!
      Leslie falou, ainda na escurido:
      -- Randy, deixe a arma com Jack por...
      -- Cala a boca! Eu mando aqui!
      Jack ouviu um motor. Atravs da porta aberta pde ver umas luzes
perto do porto de entrada.
      -- Tudo bem -- concordou Leslie, com a voz controlada. -- Vo-
c manda, Randy. -- Ela e Stephanie saram do vestbulo. Leslie se a-
proximou de Randy e o abraou. -- Voc  quem manda. -- Ela deu
um tapa no ombro dele. -- Voc  demais, Randy. timo trabalho --
isso pareceu acalm-lo.
      Stephanie ficou sozinha no meio da fumaa, os braos cruzados e
com medo. Seus olhos permaneciam fixos nas luzes que brilhavam na
frente...
      Com uma sacudida e o barulho de acelerao, as luzes passaram
por cima das flores, atravs da cerca viva, chegando ao caminho de lajo-
tas. Por causa dos pra-choques e da cabine arredondada que bateu
contra a parede de pedras, Jack percebeu que era uma picape velha. Ela
virou de frente para a casa, desaparecendo atrs das luzes brilhantes, i-
luminando uma cortina de garoa. A luz explodiu pela porta da frente,
cortando um tnel retangular brilhante atravs da fumaa.
      Jack viu que estava no meio do retngulo, sua sombra estendendo-
se por suas costas, hipnotizado, pensando, adivinhando -- mas s por
um segundo.
      Quem estivesse dirigindo aquela lata-velha tinha acelerado. O ve-
culo avanou, disparando pelo caminho de lajotas.
      Seguiu diretamente para a porta dianteira.
      -- Cuidado! Cuidado!
      Eles correram para os lados, procurando se esconder, derrubando
coisas, tropeando nas sombras e na fumaa.
      Jack estava perto da sala de jantar e correu naquela direo; as lu-
zes queimavam bem atrs dele, sua sombra assustada corria na sua fren-
te.
      O rudo do motor, o barulho de madeira quebrando, o som do
metal, os vidros explodindo, o revestimento das paredes sendo arrasta-
do, rasgado e partido, tudo se misturava em um barulho terrvel en-
quanto a picape subia a escadinha, entrava na varanda e atravessava a
parede da frente da casa. Jack ouviu gritos enquanto mergulhava embai-
xo da mesa com pedaos de parede, fragmentos de vasos e a comida
podre que caa em cima dele junto com uma nuvem de poeira.
      As luzes distorcidas da picape piscaram e acabaram se apagando.
      -- Stephanie! -- ele gritou.
      Ele ficou de p e parou, tremendo, sem saber direito para que lado
estava o vestbulo. Procurando no meio da escurido e da sujeira, ele
conseguiu ver um ponto borrado de luz laranja balanando no meio da
confuso. Ele seguiu nessa direo, tropeando nos escombros.
      -- Leslie! -- chamou Randy, a luz se movia na escurido enquanto
ele a procurava. -- Leslie!
      -- Aqui! -- era a voz de Leslie.
      A luz passou rapidamente pela frente de Jack, caminhando pelo
vestbulo em direo  sala de jantar.
      -- Voc est sangrando -- gritou Randy.
      -- Stephanie! -- chamou Jack. -- Voc est bem?
      -- Estou -- ela respondeu, e ele a viu surgir da nuvem de poeira,
encontrando-se com ele no meio do vestbulo. Ele a abraou e, por cau-
sa das circunstncias, ela no se ops.
      A lamparina retornou para o vestbulo, flutuando em uma nuvem,
na mo de Randy. Ele estava ajudando Leslie com o brao livre. Ela se-
gurava um pano na testa. Um fio de sangue manchava o lado direito do
seu rosto, partindo de um corte idntico ao que tinha sofrido durante o
jantar.
      -- Estou bem -- ela insistia, como se tentasse se convencer. --
Estou bem.  s um arranho.
      Randy iluminou o estrago. A entrada da casa tinha desaparecido --
nem parede, nem porta, nem soleira. Fragmentos de vidro, farpas de
madeira, cermica quebrada e plantas estavam espalhados por todo la-
do; pedaos da parede penduravam-se em tiras de papel de parede. No
lugar da porta estava a parte da frente de uma picape marrom amassada
e destruda, o vidro da frente todo arrebentado formando uma colagem
de vrias teias de aranha; o teto cado, os pra-choques retorcidos, os
faris quebrados e tortos. Saa vapor do radiador e a gua escorria pelo
piso de madeira.
      Randy soltou Leslie.
      -- Onde est a arma?
     Ningum sabia.
     Randy se virou, tentando iluminar todos os cantos. A poeira ainda
estava muito espessa.
     -- Onde est a arma?
     Ele levantou a lamparina, deixando que a luz iluminasse o vidro
quebrado e o volante.
     Nenhum sinal do motorista.
     Por muitos segundos, eles ficaram ali no ar empoeirado com o
gosto ruim na boca e as partculas de sujeira entrando em seus olhos --
olhando, sem acreditar e depois percebendo que a parede da frente ti-
nha cado ao redor da picape, selando a sada.
     Jack conseguiu ver, no silncio de todos, o que ele mesmo estava
sentindo: o jogo ainda no tinha acabado. Para dizer a verdade, estava
apenas comeando.
     -- Acho que deveramos encontrar a arma.
     -- Encontrar a arma -- disse Randy, recomeando a busca.
     -- Procurando por isso? -- a voz surgiu do meio do caos.
     A outra lamparina veio da sala de estar, iluminando dois rostos
fantasmagricos e enrugados. Betty segurava a luz. Stewart estava segu-
rando a arma enquanto enfiava as balas.
     -- Voc deixou cair -- disse Stewart, bastante infeliz. --  assim
que voc trata a propriedade dos outros?
     Randy girou os olhos e avanou, colocando a lamparina na cara do
homem.
     -- No temos tempo para reclamaes, Stewart.
     Stewart passou por ele e olhou o que tinha acontecido na casa,
sem muita pressa.
     -- Olha o que vocs fizeram.
     Do lado de fora, a chuva se intensificou, batendo no teto e pin-
gando na parte de trs da picape. Um vento forte soprou por baixo do
carro destrudo e apagou a chama da lamparina que estava com Randy.
Ele soltou um palavro e a abaixou.
      Randy se aproximou de Stewart, tentando pegar a arma.
      -- Ele no est brincando, Stewart. No podemos esperar...
      Stewart armou a escopeta e levantou o cano, apontando para o
rosto de Randy.
      Aterrorizado, Randy se abaixou e tentou se esquivar.
      -- Ei! O que voc est fazendo?
      Stewart mantinha o cano apontado para a cabea dele.
      -- Um corpo, h? Talvez devesse ser o seu.
      Randy se abaixou de novo e acabou rolando no cho, afastando-se
de Stewart enquanto este seguia todos os seus movimentos, divertindo-
se com a situao.
      --  -- gritou Stewart -- pode se rastejar. Pode se contorcer. Seu lu-
gar  no cho mesmo!
      Jack estava avaliando suas opes. Randy estava no cho entre ele
e Stewart, o que o colocava -- e Stephanie, ainda abraada a ele -- a
poucos centmetros da linha de fogo.
      -- Stewart, calma... mantenha a calma, por favor.
      Stewart continuou apontando para o assustado Randy.
      -- No se preocupe. Esse verme no est me atrapalhando nem
um pouco -- ele se virou para Randy. -- No ?
      Leslie chegou perto de Betty e sussurrou:
      -- Betty fale com ele, por favor.
      Betty s segurava a lamparina, parecia hipnotizada.
      -- No ? -- ameaou Stewart.
      -- No, no -- falou Randy, com a voz tremendo.
      -- Betty -- sussurrou Leslie -- faa alguma coisa.
      Betty olhou para Leslie e depois falou com Stewart:
      -- Stewart, no piore a situao.
      Leslie deu uns passos para trs, chocada. Jack tentou ver os olhos
meio enlouquecidos da mulher, mas eles no demonstravam nada.
      -- Contra a parede, todos vocs -- ameaou Stewart, movendo o
cano da escopeta para a parede em frente a eles.
      -- O-o qu? -- Jack sentiu a mesma surpresa que podia ser vista
no rosto dos outros. Ele levantou os braos, ainda no acreditando. --
Stewart, o que  isso?
      -- Contra a parede!
      Leslie ajudou Randy a se levantar. Jack guiou Stephanie para a pa-
rede que separava o vestbulo da sala de jantar, colocando-se entre ela e
a linha de fogo de Stewart. Eles ficaram parados como quatro deserto-
res na frente de um peloto de fuzilamento.
      -- Stewart, no quero que voc estrague o gesso -- protestou
Betty.
      -- Cala a boca!
      Ela ficou atrs dele em silncio.
      Stewart olhou um por um com olhos assassinos.
      -- Vocs so o bando de pecadores mais patticos que eu j vi.
Chegam aqui e agem como se o lugar fosse de vocs; todos bonites
como se no desse pra ver na cara as mentiras que vocs escondem. A-
teus sujos! So todos culpados! So todos pecadores!
      Leslie falou com seu tom mais gentil, mais profissional:
      -- Stewart, talvez a gente devesse se desculpar...
      Com um raio de luz e uma exploso ensurdecedora que se mistu-
rou com o grito dela, Stewart destruiu o gesso sobre a cabea de Leslie.
Ela se ajoelhou, com os braos levantados. Randy a agarrou para evitar
que ela casse. Stephanie caiu, batendo nas pernas de Jack, quase o der-
rubando.
      -- Ah, olha o que voc fez -- gritou Betty.
      Stewart armou a escopeta de novo.
      -- Levantem-se.
      Jack ajudou Stephanie a ficar de p, mas no a soltou. As mos de-
la tremiam. O corao dele pulsava to furiosamente que era possvel
ouvi-lo.
      Stewart girava o cano da arma de um lado para o outro, a prpria
imagem de um louco assassino. Ele apontou com a cabea para o carro
destrudo na entrada:
      -- Sabemos tudo sobre esse assassino, mais do que jamais vo sa-
ber, e foram vocs que trouxeram todos esses problemas. Vocs o trou-
xeram para c como se fossem ces com pulgas.
      -- Mas ns ficaremos felizes em ir embora daqui -- disse Jack. --
 s nos deixar partir que...
      -- Partir? Voc acha que ele vai deixar algum sair? Vocs no vo
a lugar nenhum at o Senhor White conseguir o que quer.
      -- Mas voc no entende?  isso o que ele quer, que a gente mes-
mo acabe se matando.
      -- E o que tem de errado nisso?
      Randy olhou para Betty:
      -- Betty, voc entende o que est acontecendo, no? -- ele apon-
tou para Stewart. -- Fale com ele.
      Ela olhou para a picape destruda e para o que tinha sobrado da
entrada da casa.
      -- Falar o qu?
      -- Betty, voc  muito burra para...
      Isso chamou a ateno da mulher. Seu olhar gelado cortou a frase
dele, como uma tesoura.
      -- O que voc quer que eu fale, espertinho? Para fazer o que te-
mos que fazer? -- Ela olhou para Jack. -- Que a vida  uma grande pi-
ada?
      -- No... -- chorou Stephanie, cobrindo a boca com a mo.
      Betty avanou e colocou uma mecha do cabelo loiro atrs da ore-
lha de Stephanie.
      -- Ou talvez devssemos cantar para espantar os problemas --
Stephanie se afastou de Jack, agachou-se e vomitou.
      -- Betty -- falou Leslie, com uma voz quase inaudvel -- somos
todos seres humanos. Podemos ser razoveis.
      -- Seres humanos? -- Betty parecia estar ofendida. -- Minha que-
rida,  isso o que os seres humanos fazem.
      Stewart agarrou a ponta do vestido de Betty e puxou-a para trs.
      -- Chega de conversa. Temos que pensar.
      -- Como se eu pudesse pensar em outra coisa -- murmurou Betty,
ficando ao lado dele.
      -- Mas no  necessrio que todos vocs fiquem preocupados, --
disse Stewart. -- S um de vocs.
       8

Jack  se concentrou nos olhos de Stewart, tentando detectar algo: um
blefe, um truque, at mesmo uma piada. Os olhos estavam vidrados, as
veias vermelhas distendidas e, por trs dos dois, uma escurido que pa-
recia estranhamente familiar, como os profundos olhos diablicos que
ele tinha visto atravs da janela da porta dos fundos, pelos buracos na
mscara de metal.
      Ele no estava blefando.
      Stewart moveu o cano da arma na direo do corredor.
      -- Vo andando. Para a cozinha!
      Betty andou para o corredor, segurando a lamparina no alto, mos-
trando o caminho escuro ao mesmo tempo em que criava longas som-
bras. Jack trocou um olhar com os outros, depois a seguiu, as mos le-
vantadas indicando que se rendia, para evitar um tiro acidental. Eles se-
guiram Betty em fila indiana, primeiro Jack, depois Stephanie, Leslie e
Randy, todos com as mos para o alto. Stewart veio por ltimo segu-
rando a arma na altura da cintura.
      Jack fez um esforo consciente para andar bem devagar, esperan-
do que os outros estivessem, como ele, procurando alguma forma de
escapar, no corredor, nas portas, qualquer coisa. Havia vrios lugares
para onde fugir nesse corredor -- a cozinha, a sala de jantar, as escadas,
a sala de estar. Stewart no conseguiria conter os quatro se eles sassem
correndo. E a escurido iria escond-los.
      Mas Stewart conseguiria matar um com certeza. Dois, se fosse r-
pido no gatilho; talvez trs ou at os quatro, se eles no encontrassem
uma forma de sair da casa.
      Jack continuou andando, desejando, esperando pelo momento.
      Eles entraram na cozinha, empurrados por Stewart.
      -- Betty -- murmurou ele -- abra a geladeira das carnes.
      Stephanie ofegou e comeou a gritar:
      -- No. No...
      Stewart empurrou-a com a arma, obrigando-a a continuar andando
em frente.
      Betty no disse nada. S deu um olhar de dio na direo deles --
e de Stewart -- enquanto andava at o outro lado da cozinha, levantava
o trinco de uma porta de madeira fina e a abria com um puxo. Nuvens
geladas se espalharam pela cozinha deslizando pelo cho.
      -- Nooo! -- Stephanie tentou fugir, mas Stewart agarrou seu ca-
belo comprido e a arrastou de volta. Ela gritou, perdendo o equilbrio.
Jack a segurou, ficando na frente dela, para proteg-la de Stewart. Ele
entrou no armrio seguido pelos outros, apertados e tremendo na escu-
rido. Betty entrou por ltimo, fechando a porta com um tum enquanto
a luz laranja da lamparina enchia a sala.
      A geladeira das carnes era muito maior do que Jack esperava, feita
de madeira com caixas e prateleiras para produzir e guardar carne. Ha-
via um enorme martelo-machado encostado em um canto, daqueles
com um lado para derrubar a vaca e outro para cort-la. Uma mesa
cheia de sangue tinha um grande suprimento de facas e cutelos; ganchos
ficavam pendurados do teto.
      Jack conseguia sentir sua respirao. Ele esfregava as mos para
tentar se esquentar.
      No d para fugir daqui. No devamos t-los deixado nos trazer at aqui.
Deveramos ter tentado fazer alguma coisa.
      -- Virem-se, com as mos na parede -- ordenou Stewart, e os
quatro ficaram com a cara voltada para a parede, as mos levantadas. A
parede tinha sangue congelado.
      -- O que voc vai fazer? -- perguntou Randy. Sua voz estava
mais fina e tremia.
      -- No consegue adivinhar? -- perguntou Stewart. -- O que voc
acha que ns vamos fazer?
      Leslie comeou:
      -- Mas ns no merecemos... -- Stewart encostou o cano da arma
no seu pescoo e ela parou.
      -- Outra mentira. No encontrei nenhum pecador que achasse
que merecesse, mas isso acontece sempre, no? Vocs todos merecem.
      Jack olhou para Randy, por cima da cabea das mulheres. Os olhos
de Randy estavam amedrontados, vazios, como os de um animal preso.
Randy, vamos. Preciso que voc trabalhe comigo. Precisamos de uma idia, qualquer
uma.
      -- Mas podemos deixar isso mais justo -- disse Stewart. -- O as-
sassino s quer um, ento vamos entregar-lhe um -- ele caminhou por
trs deles, at Randy, de volta para Jack. -- E vamos at deixar que vocs
decidam quem ser.
      Eles se entreolharam. Stephanie estava chorando; suas lgrimas
pingavam no cho.
      Como poderemos tomar esse tipo de deciso? Mas assim  a vida, certo? S um
absurdo cruel depois do outro -- pensava Jack.
      -- Vocs sabem que no podemos fazer isso.
      A voz de Stewart ficou uma oitava mais grave.
      -- Vocs no me enganam. Sei o que vocs conseguem e o que
no conseguem fazer. Sei quem vocs so.
      Betty falou, de repente:
      -- No vale a pena argumentar. Para ele tudo  uma brincadeira
de mau gosto.
      -- Eu no...
      -- E voc, estrela do country? -- Stewart andou de lado, encostan-
do o cano na nuca de Stephanie, fazendo-a tremer. Seu choro aumentou.
-- Voc acha que no h ningum aqui que voc trocaria pela sua pr-
pria vida? Sabe o que eu acho que deveramos fazer com voc? Deix-la
aqui para congelar at morrer, lentamente.
      -- Por favor, me ajude...
      -- Diga, isso no seria justo?
      -- No foi culpa minha! -- ela gritou.
      E olhou para Jack.
      A prpria alma dele gelou com as palavras de Stewart, o olhar cor-
tante de Stephanie, suas prprias memrias: ele tinha pensado as mes-
mas coisas. Tinha dito a si mesmo essas palavras tantas vezes. Ele nun-
ca tinha falado em voz alta: s pensando, justia. No sei. Mas se o acidente
no foi culpa dela, o fim do nosso casamento era, sim, culpa dela.
      --  por a, garoto -- murmurou Stewart.
      Randy falou alto:
      -- Stewart, oua, toda essa situao poderia acabar sendo boa para
voc. A vantagem  sua; eu tenho dinheiro. Podemos fazer um acordo.
Voc poderia acabar rico.
      -- Ahhhh, claro! -- Stewart ficou bem atrs de Randy, o cano da
escopeta bem atrs da orelha de Randy. -- Como  que voc conseguiu
todo esse dinheiro, hein? Fazendo escolhas exatamente como essa, no
?
      Randy demorou um pouco para formular uma resposta:
      -- Bons homens de negcio pesam as alternativas.
      -- Bom, ento aqui tem uma alternativa para voc: escolha algum
para morrer ou eu escolho. -- Ele agarrou o cabelo de Randy e bateu
sua cabea contra a parede. -- E eu estou achando cada vez mais que
voc  um bom candidato. E no vai ser fcil, nem rpido. Vou afogar
voc, do mesmo jeito que um gato velho de que eu quero me livrar.
Pense nisso!
      Ele empurrou Leslie com o dedo, que permaneceu em silncio; os
olhos fechados, tentando se manter calma.
      -- Em relao a voc, Senhorita Comprometida, vamos esperar
at que Pete tenha se cansado de voc, depois decidimos o que fazer.
      Leslie manteve uma expresso imvel, mas seu queixo comeou a
tremer.
      -- Eu j escolhi! -- gritou Jack. Ele no tinha idia do que faria
em seguida, mas tentava chamar a ateno de Randy.
      Todo mundo olhou para ele. E agora?
      -- Bom, vamos ver. Talvez o escritorzinho se importe, no final --
disse Betty.
      -- No -- falou Jack, enfrentando o olhar de Betty com uma frie-
za que surpreendeu a si mesmo. -- Voc estava certa. Eu no me im-
porto. A vida  uma grande piada, mesmo.
      Stewart caminhou at ele com os olhos negros cheios de dio.
      -- Esse rapaz est cheio de filosofias.
      Jack se virou e encarou Stewart, suas mos levantadas.
      -- Se a vida fizesse algum sentido, no estaramos aqui tendo que
fazer essa escolha ridcula e o assassino sdico no estaria do lado de
fora, esperando por um corpo. -- Ele se permitiu dar uma rpida risada
e chamar a ateno de Randy. Finalmente ele estava prestando ateno.
      -- Oua, eu tentei entender por que coisas assim acontecem com
as pessoas e desisti -- mas Randy parecia no ter entendido ainda. Jack
encarou os olhos de Stewart. -- No h sentido para a vida e, se isso 
verdade, ento voc est certo, Stewart, o que h de errado em machu-
car uns aos outros? Por que no?
     Randy, Leslie e Stephanie estavam olhando para ele, as mos ainda
contra a parede. Os olhos cheios de dvidas.
     O cano da escopeta estava bem na cara dele quando Stewart disse:
     -- Certo. E quem vai ser?
     Jack deu um olhar nervoso para Randy.
     -- Ah, quem voc acha? Quer dizer,  meio bvio.
     Vamos, Randy. Me acompanhe.
     A voz de Stephanie saiu fraca:
     -- Jack, no acredito que voc esteja falando srio!
     Obrigado, Steph. Por que no temos outra briga domstica aqui enquanto o
Stewart est tentando nos matar?
     -- No me diga o que devo fazer! -- ele gritou com ela, tentando
manter o personagem enquanto se afastava da parede uns centmetros.
-- Olhe ao redor, Steph. V algo de bom acontecendo neste lugar? V
algum sentido nisto tudo? E onde est Deus, h? -- Ele andou um
pouquinho para o lado, olhando para arma que no saa de perto do seu
rosto. -- Se Deus se importasse conosco, ele faria algo em relao a is-
so, mas, adivinha? No h Deus, no h ajuda, ningum para nos salvar,
nenhum sentido. -- Ele olhou para Stewart, chegou a curvar-se um
pouco na sua direo, e disse: -- E nem culpa. No h culpa porque
no h certo ou errado, nem pecado. S existe essa escopeta.
     Stewart empurrou o cano na direo dele.
     -- Ento talvez deva ser o seu o crebro espalhado pela parede.
     Betty deu um tapa na nuca de Stewart.
     -- Stewart! Voc vai fazer isso do lado de fora ou ter que limpar
toda a baguna.
     A aproximao de Stewart deu uma desculpa para Jack se afastar,
andando de lado junto da parede, distanciando-se dos outros. A arma
seguiu Jack.
     -- Ei -- protestou Jack, tentando chamar a ateno de Randy por
cima do ombro de Stewart -- voc disse que ia ser justo, que ia deixar
que ns fizssemos a escolha. Bom...
     S mais uns centmetros. Jack no precisava fingir estar com medo
-- ele estava mesmo -- enquanto continuava a se afastar, mantendo a
ateno de Stewart voltada para ele. Em seus piores pesadelos ele no
conseguiria imaginar uma histria como essa.
     -- Est bem. Eu me escolho.
     -- Voc? No pode fazer isso.
     Stewart ficou de costas para os outros trs.
     Jack tinha que mant-lo distrado.
     -- Por que no? Betty est certa. Eu perdi a coisa mais importante
da minha vida e a minha esposa quer se livrar de mim e ser uma cantora.
No me importa continuar vivendo. Stephanie olhou para o outro lado.
L! Uma luz brilhou nos olhos de Randy. Suas mos se arrastaram pela
parede. -- Ento, no grande esquema das coisas, no estou perdendo
nada e vocs ganham um corpo.
     Stewart parecia um pouco nervoso.
     -- Voc deveria escolher uma outra pessoa.
     Jack olhou para Betty, que estava encostada na mesa de trabalho 
sua direita.
     -- Betty, fale com ele. Isso que eu falei no faz sentido?
     Betty deu uma olhada para ele, depois para Stewart.
     -- Talvez no seja ele o melhor. Ele parece no ligar.
     -- Cala a boca! -- disse Stewart, os olhos ainda em Jack, empur-
rando o cano da escopeta contra a sua cara.
     -- Ou talvez seja. Afogar o outro cara iria demorar muito.
     Stewart olhou para ela.
     -- Eu disse para calar a boca.
     Agora!
     Jack abaixou as duas mos e agarrou o cano, colocando-o de lado.
     Bum! A arma disparou, abrindo um buraco na parede. Stephanie
gritou.
     Randy, onde est voc?
     Depois de uma eternidade, Randy pulou em cima de Stewart, pen-
durando-se em suas costas, tentando derrub-lo, segurando seus braos.
     -- Pegue a arma, pegue a arma!
     Os trs homens agarraram a arma e o cano girava pela sala. Leslie
e Stephanie se jogaram no cho. Jack manteve a mo firme na trava da
escopeta para evitar que Stewart pudesse arm-la. Stewart girou, esma-
gando o corpo de Randy contra a parede. Jack tropeou na perna de
Stewart e caiu, ainda segurando a arma apesar da bota de Stewart aper-
tando o seu peito.
     -- Corram! -- gritou para Stephanie e Leslie. -- Fujam daqui!
     -- STOOO-WART! -- gritou Betty.

                                 ***

      Leslie pulou pela sala e segurou o brao direito de Betty bem
quando esta agarrou um cutelo. A mulher tinha uma fora descomunal,
resistindo, girando e batendo na cabea de Leslie com os ns dos dedos
que pareciam pequenos martelos. Leslie agarrou com as duas mos o
brao direito de Betty e s conseguia se abaixar, lutar e usar o joelho,
quando tinha uma oportunidade.
      -- STOOO-WART!

                                 ***
      Stephanie correu para a porta e jogou seu peso contra a trava. Esta
cedeu, abrindo a grande porta de madeira, e ela caiu na cozinha, desli-
zando pelo cho coberto de fumaa. Sem pensar em nada, ela correu
em direo ao corredor, para a escurido. V embora, garota, v embora!
Fuja! Os gritos de Betty, os de Stewart e o som de golpes e luta a perse-
guiram at o corredor. Mais rpido!

                                  ***

      Stewart chutou Jack no estmago com fora suficiente para que
ele soltasse a arma. Stewart deu um golpe para trs com a arma e jogou
Randy para longe, que se abaixou de dor. Jack ouviu a escopeta sendo
carregada.
                                  ***

      Leslie se agarrava com fora quela mulher incansvel que ficava
gritando e movendo o cutelo. Mais um golpe da mo ossuda de Betty
no seu rosto ou outra batida violenta na mesa e Leslie no iria mais a-
gentar. Uma sombra, que era o corpo de Randy, colidiu com a parede
atrs dela e caiu. Jack ainda estava no cho, tentando ficar de p quan-
do...
      Stewart apontou a arma para a cabea de Jack.
      Leslie no agentava mais lutar contra Betty, mas talvez ela pudes-
se redirecionar a luta. Ela apoiou o p, esticou sua outra perna para der-
rub-la e fez com que as duas cassem na direo de Stewart, jogando-o
contra a parede.
      Bum! Pedaos de madeira caram no cho.
      Uma mistura de corpos, pernas chutando, braos se agarrando.
Leslie soltou o brao de Betty. Ela olhou em volta...
      O cutelo tinha cado no cho a centmetros de seu ombro.
      Stewart cambaleava por causa de um chute no estmago. Jack ain-
da estava vivo.
      Betty se inclinou sobre Leslie, tentando alcanar o cutelo no cho.
Leslie levantou as duas pernas e chutou a barriga de Betty com fora
suficiente para jog-la contra a parede.
      Stephanie patinou e parou na escurido, olhou para trs e percebeu
que estava sozinha. Mais ningum havia escapado.
      Pior ainda, ela no tinha certeza de onde estava. Ser que estava no
corredor? Um raio de luz mostrava linhas momentneas no cho e na
parede, desenhando cantos, distorcendo ngulos, mudando coisas.
      -- Jack!
      O som da luta tinha se transformado em um rudo abafado, como
se acontecesse atrs de uma parede. Ela tentou encontrar o caminho de
volta, com os braos estendidos, tateando. Achou uma parede e seguiu-
a at um canto. Fez a volta, continuou seguindo e chegou at outro can-
to. No tinha uma porta aqui em algum lugar? Como  que ela tinha
vindo parar aqui?
      -- Jack -- ela quase no conseguia sussurrar.
      Depois de uma curva, ela parecia estar em um espao maior mas
no havia nenhuma luz; ela no conseguia ver nada. Continuou andan-
do ao longo da parede, tentando encontrar algum mvel, qualquer obje-
to que pudesse reconhecer. No conseguia encontrar nada. O medo
comeou a crescer, fazendo-a tremer. Sentiu-se fraca.
      Parou de respirar e ficou ouvindo.
      Nada.
      Nenhum som. Nenhuma luz.
      Estava perdida.
     9

Randy tinha certeza de que ia precisar de uma cirurgia para consertar
seu intestino, seu estmago e seu fgado, mas antes ele tinha de derrubar
Stewart. Jack ainda lutava com o homem pelo controle da arma, baten-
do contra as prateleiras, caindo pelas paredes. Randy se moveu, espe-
rando que a cabea de Stewart surgisse das sombras...
      Betty apareceu do nada, mordeu sua mo e pegou o machado-
martelo. Ele gritou de dor.
      Leslie apareceu atrs de Betty e acertou sua cabea com um grande
pedao de gelo. O gelo se espalhou em vrias direes e a boca da mu-
lher relaxou, permitindo que Randy se soltasse.
      -- Tire-a daqui.
      Betty mancava enquanto Leslie puxava e arrastava a pesada mulher
para a porta. Era uma misso vital. Com Betty fora, Jack e Randy estari-
am em vantagem em relao a Stewart. Se Leslie conseguisse tirar Betty
dali, poderia voltar para ajudar, melhorando a vantagem. Dividir para
conquistar.

                                 ***
     Bem na porta, Leslie sentiu que o corpo de Betty, que antes pare-
cia um saco de batatas cooperativo, tornara-se um gato selvagem. Gri-
tando como um animal, Betty sacudiu, girou e atirou Leslie contra a
porta como se ela no pesasse nada. Leslie flutuou pelo espao por um
instante, sem subir, sem cair...
     Seu corpo -- cabea, cintura, joelhos -- bateu no cho, e ela caiu
no azulejo. Sua cabea girava quando ela parou, confusa, na escurido.
Orientou-se pela fraca luz da lamparina que ainda queimava, do seu la-
do direito. Estava na cozinha.
     Ouviu a grande porta se fechar, fazendo um barulho de madeira
seguido pelo som da trava.
     Escurido.
     Uma respirao.
     -- Betty?
     Uma respirao profunda. No era Betty. Ela ouviu algum lim-
pando a garganta e depois um risinho abafado. Trs passos lentos em
sua direo e uma luz vinda de uma pequena janela em cima da pia ilu-
minou um rosto que parecia flutuar sem corpo.
     Pete.
     -- No d pra se esconder de mim -- gritou ele com uma voz a-
guda.
     Leslie ficou de p. Outro raio de luz iluminou os arcos que leva-
vam para o corredor. Ela correu para l enquanto as luzes desapareciam,
indo diretamente para a escurido desconhecida.
     Ele se arrastou atrs dela.

                                ***
      Jack estava perdendo. Podia sentir sua mo soltando a arma. Seu
corpo estava todo dolorido. Tentou chutar Stewart -- de novo. Errou
-- de novo.
      Betty tinha jogado Leslie para fora e trancado a porta. Veio ento
correndo para ajudar Stewart.
      Clunk! A cabea de Stewart caiu para o lado, golpeada pelo macha-
do-martelo que Randy tinha nas mos. O homem cambaleou. Jack sol-
tou a arma e deixou que ele casse...
      Bem na hora de ver Betty, que parecia um fantasma com os cabe-
los despenteados e os olhos saltados, correndo para a lamparina.
      -- Randy!
      Este ainda segurava o machado-martelo no alto. A prpria veloci-
dade de Betty fez com que sua testa fosse diretamente para o martelo,
fazendo com que ela casse para trs com o choque.
      Sem pensar, os dois meio correram, meio mancaram at a porta.
Randy segurou a trava com a mo e o peso dos dois abriu a porta com
facilidade. Betty e Stewart j estavam de p. Stewart estava carregando a
arma.
      Jack gritou quando ele e Randy saram e fecharam a porta.
      Quase.
      Os dois corpos dentro bateram na porta, tentando abri-la. Jack e
Randy se encostaram, forando-a a ficar fechada, mas eles no poderi-
am segur-la para sempre.
      -- Temos que dar um jeito de travar isso -- disse Jack.
      Randy s agora tinha percebido que havia deixado o martelo do
lado de dentro.
      Cabum! A porta sacudiu de novo, jogando um breve raio de luz la-
ranja na cozinha, o suficiente para revelar um esfrego na parede em
frente, a poucos metros. Randy o pegou.
     Bum! Jack podia sentir o choque da exploso da arma no outro la-
do da porta. Ela sacudiu.
     Randy estava segurando o esfrego.
     -- Empurra! -- Jack e Randy empurraram a porta com os ombros
e toda a fora que lhes restava. A trava se fechou e Randy colocou o es-
frego por baixo dela.
     O mecanismo de travamento era golpeado e tremia quando Ste-
wart e Betty tentavam abrir, mas aparentemente estava tudo slido.
     -- Bom trabalho -- disse Jack.
     Um bum-bum-bum vinha da porta bem na direo da cabea de Jack.
     Era o martelo-machado.
     Eles comearam a gritar:
     -- Leslie! Stephanie!
     Nenhuma resposta.
     Crack!
     Eles perceberam a mudana no som das batidas. Tinham trocado
o martelo pelo machado.
     -- Eles logo conseguiro passar pela porta -- disse Randy. --
Vamos encontrar as garotas e sair daqui.
     -- Pete deve estar atrs de Leslie -- falou Jack.
     Randy no respondeu.
     Jack procurou no bolso o isqueiro de Stephanie e acendeu. A pe-
quena chama amarela s dava para gui-los pela cozinha at o corredor.
Randy pegou umas facas de cozinha e enfiou uma de vinte centmetros
no cinto.
     -- Agora quero ver -- ele murmurou.
     -- Steph!
     -- Leslie!
     Nenhuma resposta.
                                     ***

      -- Jack! -- chamou Stephanie na escurido, mas s obteve o si-
lncio como resposta. -- Jack, estou aqui! Jack!
      Ele no respondeu.
      -- Jack!
      Ela se encostou na parede enquanto pensava: ela no precisava
mais dele. Jack tinha morrido junto com a filha deles. Por que ele iria
responder? Talvez ele estivesse quieto porque a ouvia.
      Ela comeou a cantarolar, tentando apagar esses pensamentos.
"My heart holds all secrets; my heart tells no lies..." [Meu corao guarda todos
os segredos; meu corao no mente]. Ela no conseguia se lembrar do
restante. Cantou o que se lembrava duas vezes, depois repetiu a melodia
at que o medo diminuiu e pde pensar. Estava sozinha desde a morte
de Melissa. Conseguiria resolver isso. Tem que sair dessa, garota, Jack no
vem te salvar. Tudo daria certo no final.
      No tinha idia de onde estava. No havia nenhuma luz. Ela pas-
sara por uma porta que levava ao que pensava ser um corredor, mas no
era o corredor que ela esperava encontrar. Encontrou uma mesa e al-
gumas cadeiras, depois um quadro na parede, mas no os reconhecia.
Quando tentou voltar e encontrar a porta por onde tinha entrado, suas
mos s encontraram uma parede vazia.
      Jack! Me ajuda...
      Agora ela ouviu um barulho e passos distantes e abafados. Seguiu
o som.



                                     ***
      Crack! Jack e Randy conseguiam ouvir o barulho no corredor que
ligava a cozinha  sala de jantar. Stewart estava se livrando facilmente da
barricada na porta.
      O isqueiro de Jack iluminava uma porta meio-aberta. Era a que ele
tinha tentado abrir no incio da noite, tendo sido repreendido pela Betty.
      -- O poro -- disse Jack.
      Eles pararam no umbral. Paredes sujas e uma escada de madeira
desciam para uma escurido vazia l embaixo.
      -- O que voc acha? -- perguntou Randy.
      Bam! Crack! No tinham muito tempo para conversar.
      -- Algum desceu por aqui.
      -- No foram as garotas. Elas saram. Devem ter sado.
      -- Sair para onde?
      Bam! Bam!
      Randy se dirigiu ao vestbulo s escuras, seus sapatos fazendo ba-
rulho na madeira, pisando nos escombros.
      -- Leslie!
      Jack ouviu o barulho de dois corpos colidindo. Uma mulher gritou.
Randy gritou depois xingou.
      Jack voltou ao corredor e viu. Stephanie. Ela estava batendo em
Randy que s tentava ajud-la.
      -- Steph!
      Ela parou, tirando o cabelo da cara.
      -- Onde voc estava? No me ouviu chamando?
      -- No fale to alto -- falou Jack, pedindo prudncia.
      Stephanie caminhou at Jack, dava para sentir a raiva em seus pas-
sos.
      -- Talvez voc ache que eu no sirvo mais para nada, mas sou um
ser humano com sentimentos e ainda sou sua esposa!
      -- Onde est Leslie? -- perguntou Randy.
      -- No sei. Jack, podemos ir embora daqui?
      -- Leslie estava com voc?
      -- No! Podemos ir agora?
      Jack olhou de novo para as escadas que levavam ao poro. A luz
mostrou algo brilhando no primeiro degrau. Ele se abaixou e pegou um
brinco prateado em forma de gota, levantou para que os outros vissem.
      -- Ela desceu por aqui. Est no porto.
      -- Isso no prova nada -- disse Randy.
      Stephanie deu um passo para trs.
      -- Eu no vou descer a, Jack. Precisamos ir embora.
      Bum! A escopeta meteu mais um pouco de chumbo na porta da ge-
ladeira.
      Jack levantou o isqueiro e girou pelo lugar, atrs de uma idia, uma
dica, algo para fazer. Ele viu a outra porta, o armrio. Correu at ela,
abriu. Sem as cadeiras extras, tinha muito espao. Casacos, vrios, o su-
ficiente pata algum se esconder, pendurando-se.
      Ele fez um gesto para Stephanie:
      -- Steph. Entre aqui.
      Ela nem se mexeu.
      -- Est louco? No vou entrar a!
      Ele segurou seu brao com fora e a obrigou a andar.
      -- Podemos discutir sobre isso mais tarde. Neste momento, preci-
so que voc fique em um lugar onde eu possa ach-la depois.
      Ela, levada por ele, entrou de costas na cavidade negra.
      -- O que voc vai fazer?
      -- Encontrar Leslie.
      -- Ah, ento ela  importante,  isso?
      -- Agora no, Steph! -- Tudo girava ao redor dela, no ? Seu egosmo
estava alm do limite. -- Fique aqui at voltarmos. Vai ser rpido.
     -- E o... -- ele colocou a mo sobre a boca de Steph, que abaixou
a voz. -- E o Stewart e a Betty?
     -- Eles estaro atrs de mim e do Randy. Agora entre.
     -- Mas voc no pode...
     Ele fechou o armrio e foi para a porta do poro. O silncio e a
escurido l debaixo escondiam alguma coisa; ele podia sentir.
     -- Randy?
     Randy comeou a argumentar:
     -- No sabemos se ela est l embaixo...
     Crash! O barulho de madeira quebrando vinha da cozinha.
     Jack comeou a descer a escada.
     10         22h55




Barsidious White parou na frente da escada de tijolos que levava ao po-
ro, os braos cruzados, esperando. Esperando... esperando. Uma boa
parte da vida era feita de esperas. Quem espera sempre alcana, como
diz o ditado.
      Ele levantou o rosto, sentindo a chuva cair sobre sua pele. Um
raio cruzou o cu. Essa tempestade seria acompanhada de muitos raios
-- informao importante!
      Ele conhecia algumas coisas que ningum do lado de dentro sabia,
 claro. Muitas coisas, alis. O jogo estava sendo to perfeitamente exe-
cutado que se perguntava se sua sorte iria acabar antes de ele ter a chan-
ce de fazer a aposta verdadeira.
      Ou mostrar o seu verdadeiro poder.
      Se todas as coisas boas aconteciam para quem esperava, e ele esta-
va esperando que o mal fizesse a sua magia, isso transformava o mal,
bem? Se ele estava esperando pela hora da matana, isso fazia o ato de
matar, bom?
      Matar uma pessoa o transforma em um assassino. Matar um mi-
lho de pessoas o transforma em um rei. Matar todos o transforma em
Deus.
      No final, ele seria Deus, porque o jogo que acontecia dentro des-
sas paredes brancas sujas no era diferente do jogado em todos os luga-
res, todos os dias, todos os malditos dias.
      No final, todos matavam; todos morriam; todos iriam apodrecer
no inferno.
      Mas nessa casa, eles iriam jogar o jogo dele, de tal forma repleto de
drama e diverso, que arrancaria um sorriso at da mais sombria alma.
Isso presumindo-se que ele fosse ganhar. Mas ele iria. Tinha nascido pa-
ra ganhar, tinha nascido para arrancar suas cabeas fedidas de seus pes-
coos esquelticos de um jeito que ao menos deixava a vida interessante.
      White deu um longo suspiro. Aps semanas esperando, cada se-
gundo agora fazia a espera valer a pena.
      Ele descruzou os braos e caminhou at a borda da escada. Os
sons de um machado ou de um martelo acertando uma porta soavam a
cada batida. Se ele estava certo, se tivesse julgado corretamente, os jo-
gadores logo estariam no poro e o verdadeiro jogo comearia.
       claro, o jogo verdadeiro j estava acontecendo, mas eles no en-
tendiam isso. Ao amanhecer, ele esclareceria tudo.
      Jogar a picape contra a porta da frente tinha dado um toque boni-
to. Colocar o medo de Deus em seus coraes. Quer dizer, o medo dele
j que, como havia dito, ele era Deus.
      -- Bem-vindo  minha casa, Jack -- ele falou, divertindo-se. --
Bem-vindo  minha caixa de surpresas.
      White desceu. Folhas e sujeira haviam coberto o concreto por
muito tempo, aumentando o patamar vrios centmetros, assim, quando
a porta se abrisse, as folhas cadas entrariam no poro. Mas havia muito
mais do que isso espetando para entrar no seu mundo, naquela noite.
      Ele encostou na maaneta da porta e viu que ela estava fechada.
Fechada como deveria estar. Ele esperaria.
     White voltou para a noite. A batida metdica do machado do lado
de dentro da casa se transformou no som abafado de madeira se que-
brando. Um barulho forte. Passos fortes.
     A mo direita de White comeou a tremer. Ele no tentou par-la.
Bem no meio do Alabama, longe dos olhares de todos, onde a escuri-
do tinha engolido toda a luz, ele tinha direito a sentir um pouco de
prazer, no  mesmo?

                                 ***

      O isqueiro de Jack iluminou as velhas escadas de madeira. Ele pa-
rou na metade do caminho tentando ver algo. Um cheiro repulsivo --
ovos podres ou enxofre -- entrava em seu nariz. Ele evitava respirar
profundamente.
      No tinha certeza do que estava procurando, alm de Leslie. O
cho era feito de concreto cinza e as paredes, de tijolos vermelhos, isso
ele conseguia enxergar. Nada mais.
      Ele se inclinou para frente e gritou:
      -- Leslie!
      -- O que voc est fazendo? -- Randy sussurrou atrs dele. --
Eles vo te ouvir!
      -- Eu quero que ela me oua. No  para isso que estamos aqui?
      -- Ela, no a casa toda. Eles vo saber que viemos atrs dela.
      -- Eles esto na geladeira e no conseguem nos ouvir.
      A voz abafada de Stephanie chamou do armrio:
      -- Jack!
      Ele a ignorou e desceu mais uns quatro degraus antes de perceber
que Randy tinha ficado parado. O homem ainda estava no topo da es-
cada.
      -- Voc no vem?
      -- Tem certeza de que  uma boa idia?
      O que o fazia pensar que pudesse entrar no calabouo deles, en-
contrar Leslie, tir-la daquele brutamontes e fugir para o bosque sem
levar um tiro deles? Ou do White. Era o que os esperava do lado de fo-
ra.
      -- No temos escolha -- mais umas batidas e Stewart conseguiria
sair. Ele acrescentou para convencer Randy. -- Eles devem ter mais
armas aqui embaixo.
      Certo. Armas. Ele se virou e comeou a descer mais rpido, seguin-
do seu prprio conselho. Primeiro as armas, depois Leslie, porque era
bvio que, sem armas, eles seriam mortos. No tinha idia de o que era
a casa, mas sabia que no era uma pousada pitoresca habitada por gente
normal e cheia de delcias para viajantes cansados.
      O mal era algo palpvel. A morte os perseguia e a nica maneira
de sobreviver poderia ser matar.
      Jack piscou ao pensar nisso e pisou no cho de concreto. Randy
desceu devagar atrs dele.
      O poro se abriu na frente de Jack. Uma lmpada fraca estava
pendurada no teto. Ele apagou o isqueiro. Um corredor longo, feito de
concreto e tijolos com trs portas de ferro corrodas de cada lado, ter-
minava em uma slida parede de tijolos vermelhos. O corredor se pare-
cia com a priso de um filme antigo.
      Uns fios de gua escorriam da parede direita, formando uma poa
no cho.
      -- Que cheiro  esse? -- perguntou Randy. -- Que lugar  esse?
      -- O poro.
      -- Parece mais um... esgoto.
      -- Vamos.
      -- Esse cheiro...
      Jack tentou ignorar o fedor. Caminhou em direo ao corredor,
enfrentando um dilema inesperado. A idia de ter de abrir as portas,
qualquer uma delas, deixava-o amedrontado. Mas, fora subir de volta,
no havia outra opo.
      Jack correu para a primeira porta  sua direita. Segurou a maaneta.
Hesitou.
      Crack!
      O som abafado do progresso de Stewart na pesada porta da gela-
deira lembrou-o do terror que estava logo atrs deles. Ele girou a maa-
neta. Empurrou a porta.
      A sala tambm era iluminada por uma lmpada fraca. Nenhuma
ameaa imediata, nenhuma arma, nenhuma armadilha, nenhuma flecha
apontada para seu corao. S uma sala.
      No, no era s uma sala.
      Jack e Randy olharam ao redor. Quatro sofs bordos, dois bem
novos, dois bastante velhos com o estofado rasgado. Muitas almofadas.
Um tapete marrom escuro cobria a maior parte do cho de concreto.
Quadros. Pelo menos uma dzia de quadros cobria a parede de tijolos.
Quase acolhedor de uma forma um pouco excntrica. Um cheiro estra-
nho de mistura de velho e novo, sujo e limpo.
      Jack entrou.
      -- Procure uma arma. Rpido.
      Havia um forno redondo em um canto da sala, brilhando de novo,
como se nunca tivesse sido usado. Uma teia de aranha fina, cheia de in-
setos mumificados, estava pendurada no alto do cano do forno at a pa-
rede ao lado. Por que algum limparia o forno e deixaria a teia?
      Outros mveis interessantes apareceram -- um tear mecnico, um
cabideiro, uma cadeira de balano... uma mquina de lavar enferrujada?
      A sala dava uma nova dimenso ao que Jack pensava de Betty e
Stewart. O problema era que ele no conseguia entender nada direito.
      Ento Jack viu algo que o ajudou a compreender. Havia um pen-
tagrama pintado de vermelho na parede  sua esquerda. Uma ameaa
rabiscada em preto cruzava o pentagrama: O pecado se paga com a morte.
      Ele voltou a ouvir acusaes de Stewart: Culpados, pecadores. Em-
baixo do pentagrama estava uma mesinha e, sobre ela, velas pretas. Pa-
recia que os seus anfitries eram religiosos fanticos.
      Vindo de algum lugar, eles ouviram uma porta bater.
      -- O que foi isso? -- perguntou Randy.
      -- Olhe aquele armrio -- disse Jack, apontando para a porta ao
lado do pentagrama. Ele atravessou a sala em direo a uma segunda
porta. -- Continue procurando!
      O armrio estava cheio de porcarias. Velas. Panos. Uma vassoura.
Nada que se parecesse com uma arma ou algo que ele pudesse usar para
atacar Pete, que ele imaginava estar ali embaixo.
      -- Ah, Jack?
      Quando ele se virou, viu que a porta de Randy se abria para outra
sala.
      -- O que foi? -- ele atravessou a sala correndo.
      -- Outra sala...
      -- Sim, eu percebi. E...
      Ele enfiou a cabea na outra sala. Concreto cinza, de todos os la-
dos. Muitas teias de aranha em todos os cantos e nas paredes. Uma me-
sa solitria no meio da sala. Nenhum outro mvel. Parecia um grande
estdio. De algum tipo.
      Jack entrou. Grandes cortinas vermelhas cobriam um enorme es-
pelho na parede esquerda. Outro pentagrama com as mesmas palavras
estavam na parede oposta. O pecado se paga com a morte. Era isso. S a me-
sa, o espelho, o grafite.
      E trs outras portas, uma das quais parecia levar para o corredor
principal. As outras duas estavam bem em frente, na parede oposta.
Talvez levassem para o fundo do poro.
      -- Voc acha que aquela porta vai dar no corredor? -- perguntou
Randy. -- Isso no est bem. No estou gostando. Precisamos encon-
trar o lugar onde eles guardam as armas.
      Ele correu para uma das portas bem em frente.
      -- Que droga de lugar  este...? -- Ele est comeando a desmoronar,
pensou Jack.
      No estavam todos eles?
      Randy alcanou a maaneta, abriu um pouco a porta. Estava o-
lhando para o espelho. Jack no ia perder seu tempo precioso tentando
descobrir por qu.
      -- Certo, temos que nos dividir. Anda, rpido! -- Jack correu para
a porta que ele achava que o levaria para o corredor principal. -- Va-
mos olhar todas as salas e nos encontramos no corredor.
      Jack abriu a porta e foi tomado pela escurido. gua pingando.
Um cheiro de velharia; doce perto do odor de ovo podre que permeava
a sala atrs deles.
      Randy ainda estava parado olhando, apontando para o espelho.
      -- Anda, Randy! Voc me ouviu? Temos que procurar!
      -- No... tem algo errado com este espelho.
      -- E da? Vamos!
      -- Eu no estou refletido.
      O absurdo da afirmao de Randy fez Jack soltar a porta e voltar
para onde ele estava, ainda olhando para o espelho com cara de besta.
      Jack parou ao lado de Randy e olhou para o espelho. Nenhum re-
flexo aparecia.
      Isto : nenhum reflexo deles. A mesa atrs dos dois podia ser vista
perfeitamente. Bem como a parede.
      -- Deveramos ir embora -- falou Randy.
      -- Deve ser um truque ou algo assim. Existem coisas como esta
-- talvez Betty e companhia j tivessem trabalhado no circo. Isso alis
explicaria vrias coisas.
      -- No, no  truque. Somos como vampiros aqui embaixo, cara!
      -- No seja idiota. Vamos, temos que pensar direito. Olhar os...
      -- No vamos nos dividir.
      -- Pare! Leslie est aqui em algum lugar!
      -- Vamos morrer aqui embaixo, Jack. Todos. Vamos morrer.
      -- Claro, se voc no se mexer. Vem comigo.
      Ele correu at a porta que tinha aberto. Randy bem atrs dele.
      -- Encontre o interruptor -- ele bateu na parede  sua direita.
Molhada e fria. Nenhum interruptor. Levantou os braos e comeou a
tatear.
      Um fio estava pendurado a alguns metros. Ele deu um puxo leve,
acendendo uma lmpada montada sobre umas vigas no teto. Esse era o
tipo de sala que Jack esperava encontrar aqui embaixo. Molhada, pare-
des mofadas com estantes de madeira. Mais duas portas.
      -- Uma adega -- falou.
      -- Onde est o corredor?
      -- Deve estar cruzando aquela porta.
      A verdade era que, com base no que ele tinha visto ali embaixo, o
poro no era igual a nenhum outro que ele j tivesse visto antes. Jack
cruzou a adega e abriu a porta. Como esperado, o corredor principal.
Satisfeito, ele soltou a maaneta.
      Randy correu atrs dele.
      -- Tente uma dessas portas -- falou Jack.
      O som de botas correndo ressoou fortemente sobre suas cabeas.
      Randy levantou a cabea e olhou para o labirinto de canos que
cruzavam o teto.
      -- Eles esto vindo!
      Pata enfatizar, um tiro abafado explodiu acima deles. Stephanie?
No, ela ainda estava no armrio e o som tinha vindo da rea da cozi-
nha. A menos que ela tenha desistido depois de cinco minutos e tentado
sair pela porta dos fundos. Ser que eles viriam para baixo ou procurari-
am primeiro nos andares superiores?
      O dbil som de um canto ressurgiu, como antes. Jack se virou.
      -- Voc ouviu isso?
      -- O canto...
      Mas nenhum dos dois conseguia localizar de onde vinha.
      Jack no ia ficar esperando. Tentou abrir a porta do outro lado.
Trancada. Os passos ressoaram na direo oposta. Eles no podiam ar-
riscar. Jack agarrou o brao de Randy e puxou-o de volta para a adega.
Fechou a porta.
      -- Para onde vamos?
      -- Para qualquer lugar, menos para o corredor. Fale baixo.
      Ele atravessaram a adega, ignorando a porta  esquerda. De volta
ao estdio, em frente ao estranho espelho.
      -- Para onde? -- Randy perguntou de novo.
      Jack parou.
      -- Ns deixamos a porta na primeira sala aberta?
      Randy olhou para ele horrorizado.
      -- Eles vo ver! Vo saber...
      O canto novamente, vindo de algum lugar  direita deles, muito
fraco. Depois, o silncio.
      Jack correu para uma das portas que eles ainda no tinham testado.
Ele agora podia ouvir o som de passos na escada.
      -- No digam que ns no avisamos -- a voz de Betty ecoou. --
"Nunca desam ao poro"; ns falamos, mas no, vocs no nos ouvi-
ram. No ousem falar que ns no avisamos!
      -- Rpido! -- disse Jack.
      Ele chegou at a porta. Se os seus anfitries seguissem a trilha das
portas abertas...
      Agarrou a maaneta e puxou. A porta se moveu um centmetro,
depois se soltou de suas mos e bateu, como se tivesse sido sugada por
um vcuo.
      -- Tente a outra porta!
      Randy correu para a nica porta que eles no tinham tentado.
      Jack puxou a porta de novo. Dessa vez ela abriu um pouco mais
-- o suficiente para ele ver a escurido do outro lado. Um som de ar
sendo sugado encheu a sala.
      -- Est trancada! -- gritou Randy.
      Com a ameaa de Stewart entrando na sala, Jack ignorou a voz em
sua cabea que dizia que forar uma porta contra tal corrente de ar sub-
terrnea no era uma boa idia.
      Ele puxou mais forte.
      A porta se abriu. De onde viria corrente de ar to forte? A luz do
estdio se apagou. Havia algo de muito errado naquele quarto.
      Ficou claro para ele que no importava a ameaa que os perseguia,
eles no poderiam, no deveriam ultrapassar aquela porta. Jack soltou a
maaneta.
      O som de ar sugado desapareceu. Mas, em vez de bater, a porta fi-
cou solta, patada onde ele a tinha soltado.
      Do outro lado, silncio. Nenhum murmrio, nenhum canto.
      -- Vamos! -- sussurrou Randy. -- Vamos!
      Errado. Havia algo muito errado.
      Jack estendeu a mo. Antes que seus dedos tocassem a maaneta, a
porta se abriu sozinha. Abriu completamente.
      Por um breve momento, Jack olhou para a escurido. No conse-
guia ver nem parede, nem cho.
     Ele sentiu seu corpo ser puxado para a porta antes de ter percebi-
do alguma suco, algum puxo, alguma fora que o arrastasse.
     Foi rpido e silencioso, como uma fora magntica. Em um se-
gundo ele estava olhando para a escurido, no seguinte estava voando
para ela.
     Crunch! Com um golpe fortssimo, ele foi de encontro a uma pare-
de que estava a um metro e meio de distncia.
     Bum! A porta se fechou.
     11

Randy Messarue ficou olhando para a porta que tinha se fechado atrs
de Jack, indeciso. No sabia o que seria pior: seguir Jack ou fugir sozi-
nho. Normalmente, conseguia tomar decises rapidamente. Deve ser a
casa. Essa estpida casa fedida e seus proprietrios doidos. Sua mente
tinha comeado a no funcionar direito no minuto em que Stewart en-
trou naquele banheiro.
      E quando o homem se virou contra eles, a eroso da confiana de
Randy comeou a afetar sua mente. Sentiu-se desmoronando, descone-
xo. Fraco. Bem diferente daquilo que um CEO deve ser.
      Odiou-se por isso. Odiou o modo como seu estmago estava
mandando que ele corresse. Odiou o fato de que acabada provavelmen-
te se salvando e deixando Leslie para trs; isso se conseguisse se salvar!
Odiou o terror que o fazia chorar como uma colegial, em sua cabea.
      Estava suando muito apesar do ar gelado do poro. As mos tre-
miam e o corao batia acelerado. No seja fraco, seu pai costumava dizer
antes de bater nele com cinto. Ele provavelmente merecia uma boa sur-
ra e Stewart parecia pronto a proporcion-la.
      Clack, clack. Sapatos no concreto, andando, no correndo. Uma
imagem das grandes botas de Stewart caminhando pelo cho passou em
sua mente.
     Ele agarrou e girou a maaneta, que se recusou a abrir.
     -- No ousem dizer que no avisamos, seus ateus sujos.
     Stewart estava na sala ao lado.
     -- Calma, Stew -- era Betty falando, tentando manter a calma
quando todos sabiam que no havia nem um pingo de calma naquele
marido dela. -- Eles no tm onde se esconder. V com calma. No se
precipite.
     Randy no tinha muitas opes. Duas portas, trancadas. A adega o
levava ao corredor. Ele girou, procurando uma sada. Mas no havia
nenhuma. Esconda-se. Esconda-se, seu beb pattico. Esconda-se!
     Ele desgrudou seus ps do cho e correu para a mesa. Muito pe-
quena. Para a cortina que escondia o espelho; para trs das cortinas.
     Mas no conseguia fazer com que elas ficassem paradas e seus
pulmes faziam barulhos como um par de foles. Encostou-se na parede
e forou os msculos.
     Clack, clack.
     As botas pararam. Estavam na porta. Randy segurou a respirao.
Por um momento a sala ficou em silncio.
     -- Onde est voc, seu rato?
     Stewart falou pata Betty fechar a porta.
     A porta se fechou. Uma chave foi girada.
     -- Aquela tambm -- disse ele.
     A porta para a adega foi fechada. Trancada.
     -- Eles vieram para c, no? Posso sentir o fedor da cidade.
     -- Voc acha que eles entraram no tnel? -- perguntou Betty.
     -- A menos que eles consigam passar por portas trancadas, acho
que no.
     -- Ento, para onde foram?
     -- Provavelmente cruzaram a adega. Acho que esto no alto da
escada de novo, tentando descobrir como sair.
      -- No vo conseguir abrir aquela porta -- disse Betty. -- As pa-
redes aqui embaixo vo deix-los loucos. Nunca vo conseguir sair.
      Stewart tinha trancado os dois no poro?
      Stewart disse:
      -- Acho que deveramos ca-los, ns mesmos. Eles esto presos
como ratos em uma armadilha.
      -- No foi esse o acordo -- respondeu Betty. -- Se quer continu-
ar vivo, ento  melhor abrir a porta para ele.
      -- Voc abre a porta. Ele no vai deixar passar esta oportunidade.
Juro que vai fazer picadinho da gente. Vai destroar todo mundo que
estiver nesse poro como j fez centenas de vezes antes. Voc sabe co-
mo isso funciona.
      Pausa.
      -- Voc acha que eles vo encontr-la? -- perguntou Betty.
      -- Pete vai...
      -- No essa. A outra.
      Stewart fez uma pausa, respirando pesadamente.
      -- No antes de ns. E se encontrarem, no duvido que ela os use.
No passa de uma vagabunda safada.
      Por um momento, nenhum dos dois falou nada. Depois Stewart
andou at o outro lado da sala seguido por Betty. Barulho de chaves.
Uma porta se abriu. E se fechou. Tinham sado.
      Ser? E se o tivessem visto e simulado tudo? Ele puxaria a cortina
e veria uma arma carregada.
      Randy esperou at no agentar mais de curiosidade. Esticou a ca-
bea para fora da cortina, olhos bem abertos.
      A sala estava vazia.
      Correu para todas as portas, testando as maanetas. Trancadas. A
que dava para a sala com sofs, a que dava para a adega, a que tinha su-
gado Jack. S restava a que Stewart e Betty tinham usado, mas ele no
pensava em segui-los.
      Randy encostou o ouvido na porta, no ouviu nada e testou a ma-
aneta. Destrancada. Suas intenes no importavam mais.
      Espetou por dez segundos, inseguro. Se esperasse ali, eles poderi-
am voltar e atirar nele como se fosse um rato em uma gaiola. No tinha
outra opo, nenhuma, alm daquela porta.
      Sua mo tremia quando segurou na maaneta, girando-a lentamen-
te e abrindo a porta. Luz fraca. Nenhum barulho. Abriu toda a porta.
      O corredor do outro lado era feito de paredes de madeira seguras
por postes finos. Cho de pedra. Uma lmpada em uma viga jogava luz
sobre o outro extremo onde alguns degraus levavam a uma velha porta
de madeira.
      Nenhum sinal de Betty e Stewart. Eles devem ter sado por uma
das trs passagens que cortavam a parede esquerda do corredor.
      Olhando para a passagem, Randy ficou impressionado com o ta-
manho do poro. Com certeza, a casa no estava sobre uma fundao
quadrada, mas sobre um labirinto de quartos e corredores. O que signi-
ficava que havia uma boa chance de existir outra sada. Se estivesse cer-
to, era para onde estava olhando; aquela porta no outro lado do corre-
dor ao final dos trs degraus. A parte de baixo estava visvel; a de cima
parecia estar acima do solo.
      Se voc quer continuar vivo, ento devemos abrir a porta para ele, tinha dito
Betty.
      O que quereria dizer aquilo? Aquela porta era a porta por onde ele
deveria entrar.
      White entraria.
      Ou Randy sairia.
      Ele saiu para a passagem e comeou a andar sem fazer barulho. A
primeira das trs passagens na parede esquerda terminava em uma porta
a um metro de distncia. Mas Randy no estava interessado em outra
porta. S queria uma coisa e ela estava no final do corredor.
     Conseguia ver, agora, que um grande cadeado tinha sido aberto e
que a trava da porta estava solta.
     Seu corao comeou a bater fortemente. White poderia estar do
outro lado da porta; ele sabia, tinha certeza. Sabia e ficou com raiva.
     Se o assassino j tivesse entrado, teria trancado a porta atrs de si,
certo? Claro que teria. Randy repetiu isso vrias vezes enquanto conti-
nuava andando pelo cho de pedra em direo  porta de madeira.

                                  ***

      Eles destravaram a porta e saram, como White tinha pedido. Exi-
gido. Um pedido e uma ordem eram a mesma coisa agora, porque agora
todos eles eram parte do jogo.
      Quando voc jogava o jogo de White, ou fazia do jeito dele ou
morria. Todo mundo aprendia isso, mais cedo ou mais tarde.
       claro que isso significava que ele tinha de seguir as regras, tam-
bm. As regras dele.
      As regras da casa.
      Tinha chegado a hora de impor essas regras. Um pouco de disci-
plina para gui-los atravs dos tempos difceis.
      Ele desceu as escadas com calma. Ajeitou seu casaco impermevel,
deu um suspiro profundo e abriu a porta.
      Ento White, que na verdade era negro, entrou em sua casa.



                                  ***
      Randy estava perto da segunda passagem quando a porta se abriu e
as botas comearam a entrar, vindas da chuva, passando pelo umbral e
descendo at o concreto.
      No havia nenhuma dvida na cabea de Randy sobre a identidade
dessa pessoa. O formato dessas botas pretas, o comprimento do im-
permevel, tudo tinha ficado mancado na memria de Randy com cla-
reza suficiente para testar milhares de horas de terapia. Era o assassino
que todos tinham visto na entrada da casa.
      Duas coisas o salvaram nesses primeiros momentos. A primeira
foi o fato de que o assassino no tinha uma viso direta do corredor en-
quanto descia os degraus; o teto cortava sua viso.
      A segunda foi a reao imediata que Randy teve antes de ter per-
cebido o perigo. Ele pulou para sua esquerda. Para a passagem.
      Encostou-se na parede.
      E l congelou. Ele poderia ter tentado avanar mais, at a porta,
para longe do assassino, mas ficou congelado.
      E isso, tambm, pode ter salvado a sua vida. Ele no tinha ne-
nhuma iluso de que White era um lenhador qualquer viciado em matar
estranhos. Randy sabia que ele era um gnio do crime. O menor rudo o
teria alertado.
      Randy estava respirando pesadamente de novo.
      Tapou a boca com a mo e forou seus pulmes a relaxar. No
podia controlar o corao, mas duvidava que aquele homem fosse to
bom assim.
      White recolocou a trava e fechou o cadeado, sem se preocupar em
no fazer barulho.
      Desceu at o cho de pedra e parou. Randy no precisava olhar
para saber o que estava acontecendo. White estava checando o corredor,
pensando se tinha ouvido algo diferente -- a batida de um corao;
uma respirao; uma gota de suor.
     Por muito tempo, silncio. Depois as botas de White se moveram,
doze ou quinze passos. Pararam novamente.
     Pingava gua em algum lugar. Naquele momento, Randy sentiu
que suas ltimas reservas de fora tinham sumido. Ele, na verdade, co-
meara a relaxar.
     E quando isso aconteceu, um tipo estranho de resignao -- no,
de paz -- comeou a tomar conta da sua mente. Ele j no se importa-
va mais. No havia razo para lutar contra White. Nem para fugir. No
tinha foras para fugir. Ou para resistir, por outro lado. Em um peque-
no canto de sua mente, perguntava-se se o melhor era tentar fazer um
acordo com White.
     Por vrios segundos (que pareceram uma eternidade), nada acon-
teceu. Ele no conseguia ouvir a respirao de White, ento talvez o
contrrio fosse verdade.
     As botas se dirigiram ao estdio. Uma porta se abriu e se fechou.
     Randy se arrastou encostado na parede fria. Est bem, talvez ele se
importasse um pouco. Rangeu os molares e murmurou:
     -- Toma essa, seu vampiro louco.
     Estava tremendo, mas vivo.
     Leslie tinha desaparecido nesses corredores. Pelo menos tinha
quase certeza disso. Ser que ela estava viva? O pensamento o surpreen-
deu, mais porque era a primeira vez em que realmente pensava nisso do
que porque se preocupava com a segurana dela.  impressionante co-
mo um pequeno estresse pode rapidamente reorganizar suas prioridades.
     Ele se odiava. Na verdade, sempre tinha se odiado. Se conseguisse
sobreviver a essa noite, deveria trabalhar isso.
     A sada agora estava trancada. A sala de onde tinha vindo tambm
estava trancada.
     Randy se virou para a passagem onde estava e tentou a porta que
ficava no final dela. A passagem levava a uma pequena oficina. Havia
um armrio  sua direita. Todos os aposentos dessa casa pareciam ter
um armrio. Procurou pelas paredes. Ps, baldes, uma forquilha, anci-
nhos. Vrios deles.
      Uma arma.
      Randy piscou ao ver a arma pendurada em um canto, no acredi-
tando no que seus olhos estavam vendo. Mas ela estava ali, uma arma
de cano simples que parecia to velha quanto a casa. A pergunta era, se-
r que funcionava? Ele abriu o cano. Duas balas. Procurou  sua volta.
Mexeu em vidros cheios de pregos e caixas de lmpadas nas prateleiras.
Nada que se parecesse com munio. As duas balas teriam que servir.
      Uma porta bateu e passos podiam ser ouvidos no corredor que ele
tinha acabado de deixar. Clack, clack.
      Clack, clack da Betty? Ou do Stewart? Ou do White?
      Randy armou a escopeta o mais silenciosamente possvel e se mo-
veu como um gato em direo ao armrio. Enquanto se movia, perce-
beu que no estava mais em pnico.
      -- Stewart? -- chamou Betty.
      Ele puxou a porta do armrio, viu que o cho estava alguns cent-
metros abaixo do da oficina e desceu.
      Estava com medo? Claro. Mas tinha chegado at ali. Fechou a por-
ta, pensando que aquilo podia no ser um armrio.
      Randy olhou o espao ao redor. No era um armrio. No mesmo.
Estava em algum tipo de tnel de concreto escuro. Que ia da esquerda
para a direita.
      Ser que eles vieram para o tnel? Talvez devesse pensar melhor. Uma
fraca luz marcava o contorno da porta da oficina. Mais uma vez, ouviu a
voz de Betty do outro lado.
      Olhou de novo para o tnel. Talvez -- era s uma possibilidade
-- fosse uma sada. Tinha visto a chuva quando White entrou no poro
-- se ele encontrasse gua de chuva, poderia achar uma escotilha ou al-
go do gnero.
     Olhou para os dois lados e, sem encontrar uma razo especial para
seguir qualquer um dos dois caminhos, virou para sua esquerda e come-
ou a andar, com a arma na mo.
     Tinha uma arma, isso era o principal.
     Percebeu ento que a nica luz que havia era a da porta. O resto
do tnel estava totalmente escuro.  frente e atrs dele.
     Havia dado uns vinte passos quando um barulho alto ecoou pelo
tnel. Como uma escotilha sendo aberta. Atrs, bem longe. Ele se virou.
Muito longe para conseguir ver alguma coisa.
     Algo caiu no tnel. Algo pesado. E algo que podia correr. Tump,
tump, tump, tump. Bem em sua direo. Uma respirao pesada seguia o
eco dos passos.
     Randy virou-se e comeou a correr.
     12

Havia   duas formas de Leslie encarar sua situao: tinha escapado da
besta ou simplesmente tinha dado um longo e terrvel mergulho em al-
go muito pior.
      Talvez direto para o inferno. Na verdade, no sabia.
      Aterrorizada enquanto fugia de Pete, a porta aberta do poro pare-
ceu, no comeo, a nica sada. O fato de terem dito no comeo para
no entrar l tinha sido esquecido. Foi o odor que trouxe de volta a
lembrana do aviso de Betty. O cheiro de ovo estragado atacou-a no
momento em que pisou no cho de concreto. Mas naquele momento, j
era tarde demais. Ela ouvia os rudos de Pete no andar de cima e sabia
que ele a estava seguindo. Com um rpido olhar para trs, Leslie come-
ou a correr pelo corredor, passando por trs portas antes de virar  es-
querda at outro corredor. Tentava controlar sua respirao.
      No conseguia afastar a sensao de que tinha entrado em algo
que era mais do que um poro comum. As salas -- havia muitas, e se
esses corredores indicavam alguma coisa, era que o espao do poro era
bem maior do que o da casa acima.
      Mas, no momento, a compulso para escapar do homem que des-
cia as escadas atrs dela apagava a palavra cuidado de sua cabea. Pouco
importava que a passagem de concreto em que se encontrava tinha gua
pingando e s era iluminada por poucas lmpadas; tampouco importava
o fato de haver ali muitas portas. S por um breve momento ela pensou
que j estava perdida.
      Continuou correndo na ponta dos ps, virou em uma esquina do
corredor, passou por uma porta, at um corredor menor, at o final e,
na frente de duas portas, Leslie escolheu a da direita.
      Entrou sem pensar. Trancou a porta atrs assim que passou por
ela, certa de que a fechadura no poderia ser aberta por fora. Mas estava
muito amedrontada para tentar verificar isso.
      Leslie se virou e olhou a sala. Sua respirao parou quase imedia-
tamente.
      No por medo.
      Nem pelo choque.
      Tambm no estava sofrendo uma parada cardaca.
      Seu corao comeou a acelerar. Ela j tinha estado ali, podia jurar.
No era uma sala qualquer. O dja vu a tomou completamente; to forte
que no conseguia mais saber o que era realidade.
      Estava parada em cima de um tapete turco. Roxo e laranja foram
as primeiras cores que viu, mas foram seguidas por um surpreendente
conjunto de cores improvveis para um quarto sem janelas enfiado no
canto de um labirinto subterrneo. Cores brilhantes: verde, azul e ver-
melho.
      Mas no foram as cores que a fizeram avanar. Havia uma textura
nessa sala que a tranqilizou, quase fazendo com que ela se sentisse se-
gura. Era como encarar um monstro conhecido e saber que, no impor-
ta o que ele faa, voc  melhor do que ele e sairia viva dali. Ento, po-
de-se dizer que estava segura. At mesmo, no controle da situao.
      Sentiu-se confiante naquela sala. J tinha estado ali e tinha escapa-
do dos horrores que tinham acontecido naquele lugar. Esse quarto tinha
sido uma das razes pelas quais ela havia decidido estudar psicologia.
Seu fascnio com a mente humana tinha comeado com a necessidade
de entender como podia simplesmente ter superado o que havia sofrido
quando criana, como outros milhes de mulheres.
      Uma cama de casal com uma colcha de veludo vermelha em ps-
simo estado, de frente para a parede principal. Cortinas dos dois lados.
Um acolchoado cheirando a lavanda com vrios buracos feitos por ra-
tos.
      Andou at a cama e colocou sua mo sobre o acolchoado, feito de
retalhos de veludo e cetim. No, no era s a sua imaginao. Ela estava
ali, em um quarto no final de um labirinto de corredores, confrontada
com um terror to enorme que a levava a ter alucinaes.
      Faixas vermelhas, roxas e azuis tinham sido penduradas no teto
para esconder o concreto embolorado, mas que ainda podia ser visto. O
quarto era iluminado por vrias linhas de luzes brancas, como se fossem
de Natal, por trs das faixas -- a tentativa que algum fizera de criar
uma luz ambiente.
      Havia uma penteadeira branca com espelho, do tipo com detalhes
em cor-de-rosa que sempre se encontra em quartos de meninas. Muito
parecido com a que ela tinha em seu quarto aos nove anos.
      As paredes estavam cheias de retratos pintados, espelhos, pratos,
candelabros de parede. Muitos candelabros. Muitas dzias de velas. Um
grande pentagrama estava pintado na parede entre dois candelabros.
Nada a surpreendeu.
      O que chamou a sua ateno foram as duas mquinas de fliperama
do lado oposto  penteadeira. Uma mquina era do Batman, a outra da
Barbie. Ao lado delas, pendurada na parede, estava uma enorme roda
que girava sobre um eixo; do tipo usada por um atirador de facas.
      O doce cheiro de rosas misturado com baunilha dominava sua a-
teno. Leslie procurou a fonte, transfixada pelo estranho odor de ter-
ror e desejo. Metade da sua mente gritava para correr, fugir da casa e de
seus bizarros habitantes.
      Mas a outra metade sugeria que respirasse fundo e deixasse que o
aroma acalmasse seus nervos. Na velha casa de sua av, as almofadas
tinham cheiro de baunilha e poutpourri, e o aroma sempre acalmava Les-
lie, mesmo nos momentos mais difceis.
      Como agora.
      Deveria haver uma explicao para a estranha familiaridade daque-
le quarto. Se ela se acalmasse e pensasse direito, iria entender tudo. Ela
sempre dizia isso para si mesma e sempre tinha funcionado.
      Leslie andou at a penteadeira e se inclinou para cheirar uma vasi-
lha de poutpourri. O odor pungente de lavanda e baunilha penetrou fun-
do em suas narinas. Chega de rosas. Fechou os olhos e exalou vagaro-
samente. As emoes aumentaram e, por um momento, pensou que iria
chorar. Engoliu a melancolia. Um tremor tomou seu queixo e ela mor-
deu seu lbio inferior.
      Pense, Leslie, pensei Voc est deixando que as emoes tomem conta de sua
mente.
      Ela estava ali por uma razo, no era? No era possvel que quatro
viajantes tivessem chegado quela estranha casa sem que um esquema
elaborado os tivesse arrastado at l. Quem quer que fosse esse assassi-
no, no era do tipo "Jason com uma faca". Era algum muito organiza-
do, muito!
      Outro aroma se misturava com a baunilha, e Leslie abriu seus o-
lhos. Havia uma vasilha de creme perto de uma vela. Sem pensar, ela
acendeu a vela usando uma caixa de fsforos.
      O creme a atraiu. Ela levantou a vasilha e cheirou. No estava frio.
Pudim de baunilha enfeitado com caramelo.
      Novamente sem pensar, Leslie enfiou um dedo no creme e o le-
vou aos lbios. O doce gosto de pudim era inconfundvel. Agora, de
forma impulsiva, enfiou quatro dedos na vasilha, pegando uma boa par-
te do pudim e levou-o at a boca. Uma gota caiu na sua blusa vermelha.
Ela pegou com o dedo e tambm comeu.
      Por um breve momento, a percepo do que tinha feito a horrori-
zou. Tinha sido incrivelmente irracional. E, de todas as pessoas, por que
ela, que sempre tinha se autocontrolado, que sempre usara a razo e a
lgica como forma de dar sentido ao mundo, agora comia de uma vasi-
lha no quarto de um estranho?
      Ela deveria estar vomitando e procurando uma sada.
      Em vez disso, ela deu um gemido de satisfao, os dedos enfiados
na boca como uma criana que tivesse olhado na geladeira uma hora
antes do jantar e soubesse muito bem que a sua me no iria gostar nem
um pouco da sua atitude.
      Ainda assim, o cheiro de pudim de caramelo era to forte e era to
bom o gosto proibido que regras como essa mereciam ser quebradas,
principalmente quando o resto da vida tinha se transformado em um
inferno.
      Ela congelou; os dedos dentro da boca. A clareza da sua situao
cruzou sua mente perturbada. Ela era uma mulher perto dos trinta anos,
no uma adolescente roubando pudim antes do jantar. Pior: era uma
mulher em um poro que pertencia ao Pete...
      A porta do armrio se abriu atrs dela. Leslie deixou cair a vasilha
sobre a penteadeira e se virou assustada.
      Pete estava parado na entrada, os olhos fixos nela, que tinha pu-
dim nos lbios e nos dedos. Pete olhou para sua boca, seus dedos, a va-
silha atrs dela. Mas no sorriu. No mostrou nenhuma inteno estra-
nha. No se aproximou dela com violncia.
      S a olhou como um cervo frente a uma lanterna.
      Parecia que o tempo tinha parado.
       -- Meu quarto -- ele finalmente falou, a voz cheia de orgulho.
Soltou a porta do armrio e entrou.
       O quarto de Pete.
       -- Voc gosta do meu quarto? -- fez a pergunta como uma crian-
a.
       Leslie enfrentava uma situao crtica. Ela aceitava a brincadeira ou
cuspia em sua cara?
       Deu uma boa olhada na porta fechada  direita de Pete. Outra boa
olhada em Pete, que esperava uma resposta. Mas ela estava viva. E
sempre tinha sobrevivido por saber ser esperta. Por jogar os jogos deles.
Hoje era mais uma partida, apesar de as apostas nesse jogo serem incri-
velmente altas.
       A mente sobre a matria. A vida era vencida ou perdida na mente,
fim da histria. Aqui ela enfrentava um homem que era seu oponente
mais na mente do que no corpo. E dos dois, ela tinha a mente mais for-
te.
       -- Sim -- ela disse. -- Sim, Pete, eu gosto muito do seu quarto.
       Pete ficou muito feliz, correu para a cama e arrumou a coberta.
Pegou uma vela que tinha cado no cho e rapidamente a recolocou no
candelabro, tudo isso sem tirar o olho dela.
       Quando terminou, colocou as mos nas costas como dizendo: Ve-
ja, est tudo perfeito.
       -- Precisamos ficar quietos -- disse ele, espiando a porta. -- Ma-
me pode ouvir. Ela no pode vir aqui.
       A vela que ele tinha acabado de levantar do cho caiu em cima da
penteadeira e rolou para o cho. Mas ele no percebeu. Seus olhos esta-
vam estranhamente focados nela.
       Ela percebeu naquele momento que no se sentia com medo. Ele
no passava de uma criana crescida.
      Lembrou-se, ento, de onde estava e seus medos retornaram; um
novo tipo de medo motivado mais pelo que estava fora do quarto do
que por Pete.
      Uma imagem de Stewart passou por sua mente. Ele parecia real-
mente querer dar um corpo ao assassino. Betty poderia ser a nica espe-
rana de sobrevivncia. Ser que os outros ainda estavam vivos? Ou ti-
nham sido massacrados na geladeira?
      Ela viu Jack entrando pela porta com uma arma na mo. Jack? Sim,
 claro, Jack. Randy no tinha carter para salvar ningum, ele mesmo
sabia disso. Ela o usava da mesma forma que ele a usava, mas, em mo-
mentos como esse, Randy no servia para nada. Jack... ela sentia que
Jack era um animal totalmente diferente.
      O pensamento a surpreendeu. Ser que ela queria que ele entrasse
correndo e acertasse a cara do Pete?
      Sim, pensou. Queria. Uma cacetada bem na testa, no importa que
Pete fosse uma vtima tambm, parecia a forma correta de se terminar
com esse jogo psicolgico que ela, na verdade, nunca quis jogar.
      Mas, fora isso, ela tinha de ser esperta, tinha de continuar jogando.
Milhes de anos de evoluo tinham transformado a mente humana em
um extraordinrio instrumento cheio de recursos para sobreviver, capaz
de muito mais do que as exigncias da vida comum. Ela tinha lido mui-
tos casos que demonstravam esse fato e, agora, ela estava prestes a se
transformar em um deles.
      Sorriu e juntou as mos nas costas para combinar com sua postura.
      -- Eu gosto muito do seu quarto, muito mesmo.
      Pete corou. Ele andou at uma grande poltrona reclinvel, que es-
tava na postura vertical, e olhou para ela como se no tivesse certeza
quanto ao que fazer.
      Leslie mostrou interesse, ao examinar o quarto mais de perto --
tocando as velas, sentindo a colcha, cheirando outras vasilhas de cer-
mica cheias de poutpourri.
      Conseguia sentir os olhos dele, venerando-a. Mas no de forma
ameaadora. Achava que o terror iria tomar sua mente em um momen-
to como esse, mas isso no aconteceu. Era muito boa -- foi o que disse
a si mesma. E ser o objeto de uma adorao to pura, talvez at inocen-
te, deixou-a intrigada, para dizer o mnimo, mesmo nesse buraco infer-
nal.
      Talvez principalmente agora, nesse buraco, onde qualquer forma
de evitar o sofrimento j se tornava fonte de esperana.
      O cheiro de enxofre parecia ter desaparecido. Talvez fosse o pout-
pourri.
      -- Onde voc consegue o poutpourri? -- ela perguntou.
      Uma primeira pergunta meio estranha para uma prisioneira, mas
inteligente. Ela tinha de ser inteligente. Distra-lo para que, quando a
oportunidade certa se apresentasse, ela a agarrasse com as duas mos.
      -- O qu?
      -- Isso -- respondeu, levantando a vasilha. -- O cheiro  bom.
      Ele continuou olhando para ela, sem piscar.
      --  para voc -- falou.
      Tanta sinceridade, tanta inocncia em sua voz.
      -- Obrigada. Onde voc consegue?
      -- Na casa -- respondeu.
      -- L em cima?
      -- s vezes. H outras casas. Voc gosta dos quadros?
      Ela colocou a vasilha de volta e caminhou para sua esquerda, exa-
minando os retratos.
      -- Sim. Voc conhece essas pessoas?
      -- No. Mas no vou ficar mais sozinho.
     Estava dizendo isso por causa dela, que sentiu nuseas moment-
neas. Tinha de controlar a conversa, tinha de domin-lo.
     -- Gosto muito da penteadeira. Me faz lembrar... -- ela parou na
frente do espelho.
     No conseguia ver seu reflexo. O espelho s refletia o quarto.
     Ela se virou:
     -- O que tem de errado com esse espelho?
     -- No funciona -- ele respondeu.
     -- Mas... -- virando-se novamente para o espelho. -- Mas ele
mostra outras coisas. Por que no consigo me ver?
     -- Est quebrado -- ele repetiu.
     Leslie tremeu. Cruzou os braos. Nunca tinha visto algo assim. Es-
ticou a mo e tocou o vidro. Normal, aparentemente.
     Esperta. Leslie, seja esperta. No perca a calma.
     -- Posso fazer algumas perguntas, Pete? -- ela o encarou.
     -- Sim, podemos conversar. Eu gosto disso -- ele soltou a parte
de cima do macaco, tirando a camiseta. Flexionou seus bceps, sorrin-
do de orelha a orelha. -- Voc acha que sou forte?
     Ela ficou to surpresa com a atitude dele que no respondeu.
     O sorriso desapareceu.
     Ela evitou mostrar qualquer desgosto:
     -- Sim. Claro que voc  muito forte.
     -- Eu posso levant-la -- falou, novamente encorajado.
     -- Sim, acho que sim...
     -- Olha! -- ele correu para o armrio, abriu a porta e tirou um
enorme saco roxo de Purina Dog Chow. -- Cereal. Deixa forte.
     -- Eu... tenho certeza que sim. H quanto tempo voc vive aqui?
     -- Voc quer ser forte?
     -- Talvez. Mas podemos conversar primeiro?
      Ele trouxe o saco para perto dela, ainda a olhando com um jeito
juvenil, pegou sua mo esquerda e a colocou sobre seu peito. E flexio-
nou os msculos.
      No havia por que ficar constrangida. No precisava. Estava fa-
zendo o jogo dele e isso significava fazer o que ele queria. Mas s at
certo ponto.
      Leslie passou os dedos pela pele, sentindo os msculos dutos.
      -- Uau -- disse, e havia um pouco de sinceridade nela. O peito
dele era frio e macio. Talvez ele raspasse. Pele clara, quase transparente,
mas sem veias aparentes. A pele macia como ptalas de flores, mais ma-
cia do que a dela. Mas logo abaixo da pele, msculos como rochas.
      Ela apertou e subiu at os ombros, onde os msculos se dividiam
como cordas. O que estava fazendo? Tirou o brao, chocada com seu
fascnio momentneo.
      Mas imediatamente cobriu sua rejeio com um sorriso:
      -- Voc  to forte!
      -- Obrigado -- mas no se moveu. Sua respirao estava pesada.
      Leslie desviou os olhos, louca para mudar a situao.
      -- Ento, h quanto tempo voc vive aqui?
      -- Voc quer ser forte como...
      -- Se voc quiser que eu seja sua esposa, tenho que saber um pou-
co mais sobre voc, no acha?
      O desafio o pegou desprevenido.
      -- Por favor -- disse ela. -- S quero conhecer voc um pouco
mais.
      Ele deu um passo para trs.
      -- H muito tempo.
      -- De onde vocs vieram?
      Ele franziu a testa, tentando lembrar:
     -- Do circo. ramos ciganos e fazamos coisas divertidas. Mas
Stewart matou um homem e a Mame tambm. Eu tambm matei um
homem. Voc j fez isso?
     -- No. No acho que matar seja bom.
     -- Voc precisa ser forte.
     -- Quantas pessoas voc j matou?
     Ele encolheu os ombros e sorriu:
     -- White mata pessoas tambm. Ele  forte.
     Ela precisava que ele continuasse falando.
     -- Quem  White?
     -- White?
     -- Sim. Quem  ele?
     -- Acho que ele vai nos matar se no matarmos a garota.
     -- Que garota?
     -- Susan.
     -- H uma garota escondida aqui embaixo?
     Os olhos de Pete ficaram sombrios. A expresso em seu rosto pas-
sou de inocncia juvenil para irritao.
     -- Voc no gosta de Susan. Por qu? -- Leslie tinha passado para
o papel de psicanalista sem perceber.
     -- Ela  pior do que o White.
     -- Pior do que o assassino? O que ela fez?
     Seus olhos escureceram. A pele embaixo dos olhos relaxou e ele a
olhou como se estivesse doente.
     -- No confie nela -- falou.
     Pete fechou os olhos e gritou. Leslie parou de respirar e deu um
passo para trs. Mas to rapidamente quanto liberou essas emoes, ele
parou.
     Abriu os olhos. Mirou nela, perdido.
       Ser que algum ouviu esse grito? Por favor, Jack. Por favor, diga que voc ou-
viu.
      -- Por que White quer que vocs a matem? -- ela perguntou.
      Nenhuma resposta. S aquele olhar vazio.
      -- Tenho que saber essas coisas se vou ser sua esposa.
      Pete se recusou a responder.
      -- Por que voc no consegue encontr-la? Esse  o seu poro,
sua casa.
      -- No quero mais conversar.
      Leslie sabia que ele estava escapando, mas continuou pressionando
cada vez mais.
      -- Voc precisa me contar tudo. Tenho que saber mais sobre a ga-
rota. Tenho...
      -- No! -- seu rosto ficou vermelho.
      Ela tinha pressionado demais.
      -- Desculpe. No vou mais falar nela.
      Eles se encararam em um longo silncio. Pete ainda segurava o sa-
co de comida para ces. Enfiou a mo e tirou uma vasilha cheia de co-
mida, largando o saco.
      -- Voc gostou do meu pudim -- falou. --  de baunilha. Vou
misturar mais com gua e amassar um pouco para voc.
      Ele correu para o armrio, encheu uma vasilha com gua do cho
e voltou, misturando tudo.
      -- Isso vai deixar voc forte! Como eu.
      Leslie ficou estupefata com a mistura que ele estava fazendo. Deu
uma espiada na vasilha de pudim que tinha comido h pouco. A mesma
coisa. Mas todo o atrativo tinha desaparecido. Completamente.
      -- Coma -- ele enfiava a vasilha na cara dela.
      Leslie afastou o rosto do cheiro nojento. No era s comida de ca-
chorro, estava podre, ainda por cima. Pensou em enfiar os dedos, mas
ficou plida.
      -- Eu j comi -- disse.
      -- Mas no terminou. Mame sempre diz isso. Vai deix-la forte
como eu -- ele repetiu. -- Coma.
      -- No... No, de verdade. No consigo.
      -- Sei que voc gosta! V? -- ele enfiou os dedos e levou a mistu-
ra  boca. -- Doce. V? -- Ele levantou o saco e mostrou a foto do
enorme e suculento bife que evidentemente atormentava os cachorros
que comiam essa marca em particular.
      -- No vou comer comida para cachorro -- ela falou. -- No
gosto de comida de cachorro.
      Ele ficou desconcertado. Ela o tinha ferido. Mas estava se impon-
do ali. Provavelmente vomitaria em cima dele se tivesse de cheirar aque-
la pasta de novo.
      -- Coma -- ele pediu. -- Minha mame me obrigava a comer.
Por isso sou forte.
      Ela olhou para ele.
      Pete enfiou os dedos na massa e se aproximou dela:
      -- Aqui, por favor... por favor -- vinha direto em sua direo,
empurrando a coisa em direo ao seu rosto.
      Leslie se desviou e empurrou sua mo.
      -- Pare! Eu...
      Ele agarrou seu cabelo e tentou forar a massa em sua boca.
      -- Voc estava comendo. Eu vi! Agora, coma!
      Em pnico, ela levantou os braos:
      -- Pra com isso!
      A vasilha voou longe, caindo no concreto, de cabea para baixo.
      Pete olhou a baguna, chocado. Lentamente, ele a olhou com dio.
No era necessrio ser psicloga para perceber que ela tinha cometido
um terrvel erro.
      Ele levantou a mo fechada como um machado e a acertou na ca-
bea. Ela cambaleou com a batida, caindo de joelhos.
      Pete gritou forte e por um bom tempo. Depois recolheu toda a
massa do cho e colocou tudo de volta na vasilha. Deixou-a na frente
dela:
      -- Voc  minha esposa! Agora, coma isso!
     13

No comeo, Jack no tinha certeza de que estivesse vivo.
      Tinha de estar. Seu corao ainda estava batendo, seus pulmes
inspirando e expirando -- sua respirao ecoava na cmara escura para
a qual ele tinha sido sugado.
      Talvez tenha ficado inconsciente. A batida na parede tinha sido to
forte que ele havia perdido os sentidos. Mas suas mos e ps estavam se
movendo, tateando na superfcie fria e mida.
      Os olhos estavam abertos? Estavam. O problema  que estava
muito escuro.
      Jack ficou de joelhos, ento se virou e sentou-se, tentando enten-
der o que estava acontecendo. Onde estava Randy?
      Lentamente, ele reconstituiu os eventos que o tinham levado que-
le lugar. Betty e Stewart, o assassino, a casa, o poro. O armrio escuro,
presumindo que ele estivesse de fato em um armrio.
      Nenhum barulho. Nada alm de sua prpria respirao.
      Ele se levantou tremendo; tentou sentir o que tinha ao seu redor.
Uma parede s suas costas. Concreto. Nenhuma porta.
      Tateou com os braos estendidos. Nada. Continuou caminhando,
mas no conseguia perceber para que lado estava andando. No sem luz.
      O isqueiro. Ele procurou em seu bolso que tambm tinha as balas
da escopeta. Foi uma idia brilhante colocar tudo no mesmo bolso.
Tomou nota mental para nunca repetir isso e acendeu o isqueiro. Ilumi-
nou o lugar na segunda tentativa.
      Uma longa passagem com um piso de concreto e um teto de tijo-
los em forma de arco nas duas direes. A porta... l.
      Ele virou de costas e tentou abrir a porta, mas ela estava bem tran-
cada.
      Nenhuma corrente de ar. Ento, o que o tinha sugado? Poderia
uma corrente de ar subterrnea ser forte assim?
      No digam que no avisamos vocs.
      Jack sentiu um novo tipo de medo correndo por seus ossos. Bem-
vindo  minha casa. E se White soubesse algo sobre essa casa que nenhum
deles tivesse adivinhado? E se esse jogo estivesse relacionado  casa?
No ao White, nem aos anfitries, mas  casa?
      Ele tentou evitar o pensamento. No fazia sentido. Uma casa era
uma casa. White, por outro lado, era um psicopata demente sedento de
assassinatos. A casa podia set parte de um plano doentio, mas eles ti-
nham de entender a ameaa real -- carne e sangue, no concreto e tijo-
los.
      Eles. Ele tinha de voltar para os outros.
      Jack respirava profundamente, focado em acalmar suas mos tr-
mulas. O silncio, a tranqilidade, a falta de idia quanto ao que estava
realmente acontecendo. Deveria estai correndo por esse tnel, desespe-
rado por encontrar uma sada. Em vez disso, ficou ali, congelado, con-
templando.
      Contemplando e, de repente, enjoado. Pensou que estava respi-
rando muito forte. Fechou a boca e respirou s pelo nariz.
      O isqueiro ficou quente e ele o apagou. O tnel ficou escuro. Es-
perou alguns segundos e o reacendeu.
      As duas direes pareciam iguais, ento decidiu seguir pela direita.
A corrente de ar tinha vindo de algum lugar, talvez de uma abertura que
estivesse do lado de fora da casa. Se conseguisse encontrar uma sada,
poderia passar por White, ir at a estrada e voltar com as autoridades.
      Mas sabia que Leslie no sobreviveria todo esse tempo, mesmo
sendo uma mulher forte. Talvez fosse por isso que tinha decidido vir
atrs dela.
      Quanto a Randy, Jack no se importava com ele. Infelizmente era
verdade. Tinha concludo que era um porco s preocupado consigo
mesmo.
      Stephanie... tambm na mesma categoria. No tinha certeza de
como se sentia em relao a Stephanie, mas no momento ele honesta-
mente no se importava se ela havia ficado no armrio ou sado. Podia
tomar suas prprias decises e lev-las adiante. Por quanto tempo iria
proteg-la de si mesma? Ele a protegera como sempre, mas era cada vez
mais difcil...
      Jack parou. No era um pessoa amarga. Era? No. Steph era a res-
ponsvel por t-lo deixado assim. Ele fez um barulho. O som ecoou pe-
la cmara. A luz do isqueiro alcanava uns 6 metros, mas depois a escu-
rido era total. Por que no estava correndo? No tinha porque dar um
passeio de domingo pelo tnel.
      Ele apagou o isqueiro novamente. Naquele momento, no meio da
escurido, o terror que sentiu antes veio ressurgindo, pela falta de algo
que pudesse contemplar.
      Havia algo maligno na casa.
      Ele tinha de encontrar uma sada antes que o isqueiro pifasse de
vez. H quanto tempo estava ali embaixo? Jack acendeu o isqueiro e
comeou a acelerar o passo.
      Um longo grito o alcanou de algum lugar do outro lado da parede
de tijolos. Ele parou e se virou. O grito continuou, um som gutural que
mais parecia masculino.
      Parou abruptamente.
      Ele correu uns dez metros e parou quando o tnel, de um momen-
to para o outro, terminou em uma grande porta de madeira. Tentou a-
bri-la. Trancada. Como todas as outras portas malditas desse poro
maldito.
      Jack correu de volta para a direo de onde tinha vindo. Levou
bem menos tempo, muito menos, para alcanar o outro extremo do t-
nel.
      Sem sada. Mesmo tipo de porta. Trancada.
      Como era possvel? De onde tinha vindo a corrente de ar? Tinha
de haver uma sada!
      O isqueiro no ia agentar para sempre. Quanto tempo duram es-
sas coisas? A idia de ficar preso para sempre em um corredor de con-
creto, no escuro, aumentou a urgncia. Sentia algo prximo do pnico.
      Ele procurou a porta por onde tinha entrado. Talvez conseguisse
voltar ao estdio.
      Caminhou por todo o tnel de novo. Nada. A porta tinha desapa-
recido.
      Impossvel. Ele foi mais uma vez para a primeira ponta, correndo,
uma mo segurando o isqueiro e a outra protegendo a chama do vento.
      Mas nada tinha mudado. A porta de madeira estava trancada. Ele
chutou e descobriu que era bem slida. Tentou a fechadura, mas no
conseguiu nada.
      Uma ltima corrida para o outro lado e ele finalmente compreen-
deu sua situao.
      No havia sada.
      O dbil som de um canto chegou a seus ouvidos. A mesma voz
que j tinha ouvido outras vezes desde que tinha entrado na casa. Uma
cano suave que tinha ficado em sua mente.
      A chama comeara a enfraquecer. Tinha de economizar o fluido;
para que no sabia, mas o pensamento de ficar sem o isqueiro deixou-o
aterrorizado.
      Jack escorregou at sentar-se no cho, deixou o tnel escurecer e
tentou diminuir as batidas do corao.

                                 ***

      Houve um tempo em que ser uma psicloga treinada era algo til,
como quando hbeis manipulaes mentais justificavam suas escolhas e
seu passado. E houve um tempo em que era algo completamente sem
sentido, como agora. Leslie percebia isso na parte de trs da sua mente
onde funcionava o subconsciente.
      Sua cabea doa. Ela queria satisfazer as expectativas infantis de
Pete, mas no podia se forar a comer aquela massa. Ao contrrio dele,
ela no fora uma criana que tivesse sido forada a um padro de com-
portamento antes de ter a mente completamente formada. Seu crebro
j tinha aprendido h muito tempo que no era saudvel ingerir alimen-
tos que cheiravam como esgoto. Sua boca e sua garganta j estavam re-
agindo -- ela no poderia engolir aquela coisa mesmo se sua vida de-
pendesse disso.
      E dependia, ela pensou.
      Ela se ajoelhou no cho em frente quela massa e comeou a cho-
rar.
      Isso pareceu mexer com Pete. Ele se afastou e a olhou por alguns
segundos. Minutos.
      -- Por favor -- disse. -- No quero machuc-la, mas voc tem
que ser uma boa esposa e comer o pudim. Vai ficar forte. Quer morrer?
      Ela estava chorando muito forte para responder.
      -- No chore. Por favor, no chore -- ele parecia desesperado.
      -- No consigo comer -- ela afirmou.
      -- Mas voc  pecadora -- ele disse. -- Se no comer seu pecado,
ele vai comer voc;  o que sempre diz Mame. Voc j comeu o pudim,
eu vi. Todo mundo gosta do pudim quando experimenta.
      Por que essas pessoas falavam tanto em pecado?
      -- No sou pecadora! -- ela gritou com raiva. -- No me importa
o que essa bruxa que voc chama de me tenha enfiado em sua cabea.
Isso  doente!
      Enquanto gritava, sabia que tinha comido o pudim. At ansiosa-
mente. E tinha comido algo parecido com esse pudim antes, vrias ve-
zes. Como um porco chafurdando na sua pocilga.
      O pensamento a deixou furiosa:
      -- Se sua me forou voc a comer esse lixo, ela  uma porca --
falou.
      Ele tampou os ouvidos com as mos e comeou a caminhar de um
lado para o outro:
      -- No, no, no, no. Pecadora, pecadora. Tem que comer, tem
que comer.
      -- Vou vomitar. No consigo...
      Ele se agachou na frente dela, o desespero estampado em seu ros-
to:
      -- Por favor, por favor -- ele se ajoelhou e pegou um pouco da
pasta. -- Por favor, v? -- enfiando com vontade a massa em sua pr-
pria boca. Seus olhos imploravam. O suor escorria por sua testa.
      Est bem. A mente controlando. Comer esse lixo era algo impor-
tante na psique de Pete. Era parte da sua religio. To real quanto o Cu
e o Inferno. Uma extenso da obsesso da sociedade com a f nos po-
deres irreais de Deus e Sat.
      Leslie nunca tinha odiado as religies como nesse momento.
      Tinha de tentar; tinha de mostrar para ele que ao menos queria
deix-lo feliz.
      -- Voc  inocente? -- ele perguntou.
      -- Sim -- foi a resposta.
      Ele parou, chocado. Aparentemente, a afirmao o ofendera mui-
to:
      -- Voc  melhor do que eu?
      Ela no sabia o que ele poderia fazer. Se continuasse a desafi-lo,
ele poderia ser obrigado a corrigi-la.
      -- No.
      -- Ento por que no come como eu?
      -- Est bem. Est bem. Vou tentar.
      Ele relaxou.
      Leslie olhou para a vasilha. Enfiou trs dedos na massa pastosa e
tirou uma poro do tamanho de uma bala. Ela j tinha comido a mes-
ma quantia e gostado. E sabia que no seria diferente. Mas agora, a vi-
so, o cheiro foraram sua blis at a garganta. A mo comeou a tremer.
      Ela tentou, mesmo. Fechou os olhos e segurou a respirao, levou
a coisa at o rosto, abriu a boca e engoliu.
      O dia sem comida tinha deixado seu estmago vazio e teve nsias
de vmito. Jogou fora o que tinha sobrado nos dedos, deitou de lado e
comeou a soluar.
      Pete estava andando de um lado para o outro, os punhos fechados,
murmurando:
      -- Esposa m.
     Com dois longos passos, cruzou o quarto, agarrou-a pela cala;
com a outra mo segurou seu brao e levantou-a como se fosse uma
boneca Barbie.
     Jogou-a na cama e caminhou at a roda na parede.
     -- Voc tem que aprender -- falou.
     Rapidamente desamarrou as correias nos cantos da roda.
     -- O que voc est fazendo?
     -- Voc tem que aprender.
     Ele a agarrou e a apertou contra a roda. Amarrou seus pulsos com
muita fora. Depois suas pernas, abertas. Ser que ia aoit-la?
     -- Por favor...
     Ele pegou vrios dardos de uma caixa no cho, girou a roda e deu
uns passos para trs.
     O mundo de Leslie girou.
     -- Diga-me o que voc aprendeu -- ele falou. No h dvidas de
que estava repetindo o mesmo tratamento que tinha recebido da me.
Mas ela no sentiu nenhuma compaixo.
     -- Pare! Eu aprendi... sou uma pecadora!
     Pete ou no estava convencido ou queria continuar a brincadeira.
Jogou o primeiro dardo.
     Perfurou seu msculo.
     Leslie gritou.
     14

Dois sons chegaram a Jack enquanto ele estava sentado naquele escuro
silncio. O primeiro foi um grito distante. De uma mulher dessa vez.
      O segundo foi o doce canto, de novo. Mais perto, bem mais perto
do que o grito.
      Ele acendeu o isqueiro e ficou parado, ouvindo atentamente.
      Poderiam ser os canos?
      Ele se afastou da parede e parou.
      Humm, humm, humm. No. No eram canos. O som de uma criana
cantarolando, suavemente, mas com nitidez. Como se ela estivesse no
tnel!
      -- Ol?
      Sua voz ecoou e o canto parou.
      Ele caminhou pelo tnel, com os nervos  flor da pele.
      Humm, humm, humm.  frente e  direita. Como isso era possvel?
Ele j tinha ido e vindo por esse tnel.
      Uma pequena porta surgiu no crculo de luz criado pela fraca
chama. Como poderia no ter visto?
      Ou ser que essa era a porta pela qual ele tinha entrado e que aca-
bara de reaparecer?
      Jack levantou o isqueiro.
      A porta era menor do que a que ele tinha usado, tinha menos de
um metro e meio. Parou diante dela.
      Humm, humm, humm. Depois o silncio.
      -- Al? -- ele sussurrou, mas sua voz ainda ficava incrivelmente
alta naquela cmara vazia.
      Colocou a mo na maaneta, o corao explodindo.
      Isso  ridculo, Jack. Abra de uma vez.
      Girou a maaneta e puxou.
      Um pequeno espao para armazenamento. Uma garota, sentada no
cho, com as costas encostadas na parede. Seu rosto estava plido e os
olhos fechados.
      Morta.
      A chama na mo de Jack se apagou, jogando-o na escurido. Ele
tentou reacend-lo, desesperado por luz, luz, qualquer resqucio de luz.
Vamos, vamos. Parado na porta, de frente pata uma garota morta no era
hora de...
      O isqueiro funcionou.
      Os olhos da garota estavam abertos, encarando-o, mas no o ven-
do. Crculos cinzentos sem vida.
      Ele gritou e bateu a porta. Fugiu para a parede oposta.
      Humm, humm, humm.
      A msica continua? Estaria viva? Ento por que parecia estar mor-
ta? E como poderia estar cantando se estava morta?
      Voc est ficando louco, Jack. Seu medo est distorcendo a realidade. Ela est
viva!
      Mesmo assim, abrir novamente a porta parecia...
      O qu? Ela devia ser uma vtima, presa aqui, precisando de ajuda, e
tinha chamado por eles desde que entraram pela primeira vez na casa.
Mas por que no estava gritando?
      Humm, humm, humm.
      Jack deu um passo para frente, lutando contra seus medos, abriu a
porta de uma s vez e pulou para trs.
      O espao de armazenamento tinha desaparecido. Em seu lugar es-
tava um pequeno quarto cheio de lixo, iluminado por uma lamparina. A
garota estava de p, abraada a um quadro, pronta para atac-lo. Seu
rosto estava plido e manchado, mas ela no parecia morta. E seus o-
lhos eram castanho-claros, no cinzentos como um tmulo. Seu cabelo
castanho-escuro estava esticado dos lados e preso atrs. Talvez tivesse
uns treze anos, mas ela no tinha mais que um metro e meio de altura.
      Ela piscou, avaliando. No parecia amedrontada. Resolvida a ata-
c-lo, se necessrio, mas no amedrontada. Olhando os lenis enruga-
dos e as latas vazias de refrigerante, ela j estava se escondendo nesse
quarto h algum tempo.
      -- Voc... voc est bem?
      A garota murmurou alguma coisa que ele no conseguiu entender.
No tinha certeza se ela estava completamente lcida.
      -- Voc est bem?
      -- Eu pareo bem? -- ela perguntou. -- Qual  o seu nome?
      -- Jack. Eu... -- ele olhou para o corredor -- estou preso aqui.
      Ela abaixou o quadro. Cuidadosamente, saiu do quarto, olhando
nas duas direes e o encarou. Parecia estar bem.
      -- Quem  voc? -- ele perguntou.
      Novamente ela disse algo muito leve, fez uma pausa e falou com a
voz clara:
      -- Susan -- disse. -- Voc est sozinho?
      -- No. Somos quatro.
      Ela andou at ele, deixou o quadro no cho e agarrou sua cintura,
pendurando-se nele.
      Ele colocou a mo na cabea dela, sentindo-se estranho. Clara-
mente, ela era uma vtima assim como eles. Deixou o isqueiro se apagar
e a abraou.
      -- Graas a Deus -- ela falou em voz baixa. -- Graas a Deus.
      Ele queria dizer algo que a reconfortasse, mas seus nervos estavam
to arrasados que deu um branco. Tudo o que pde fazer foi acariciar
seu cabelo, segurando o n na garganta.
      -- Vai ficar tudo bem -- ela sussurrou. -- Vai ficar... -- ele no
entendeu o resto.
      Que coisa estranha para se falar. A pobre garota estava delirando.
Ele nem quis pensar em quais eventos a tinham levado para aquele lugar.
Ou a mantido ali.
      -- Eu... voc parecia estar dormindo ou algo assim quando abri a
porta pela primeira vez -- ele falou. -- Mas depois voc estava de p.
Era voc que estava cantando? Por que no gritou?
      Susan deu um passo para trs.
      -- Tem algo errado com esta casa -- ela falou. -- Voc sabe disso,
no?
      -- Errado?
      -- Ela  mal-assombrada.
      Jack no acreditava muito em casas mal-assombradas. Para dizer a
verdade, para ele essas coisas no existem.
      -- H quanto voc est aqui? -- ele perguntou.
      Ela olhou na direo de uma das portas de madeira.
      -- Precisamos correr. Eles podem nos encontrar agora.
      O medo da pobre garota tinha sido trocado por desespero, pensou.
Ser que o assassino tinha feito isso? Deix-la aqui seria parte do jogo?
Jack engoliu em seco.
      -- Voc sabe como sair desse tnel?
     Ela pegou uma chave de dentro de um bolso costurado na parte
de frente do seu vestido de algodo branco.
     -- Eles no conhecem esse quarto.
     Jack respirou aliviado:
     -- Esperta. Est bem. Sabe para onde vai o tnel?
     -- Sim. Mas voc precisa ser rpido.
     -- Voc conhece toda a casa?
     -- No.
     Jack parou por uma frao de segundo. Ser que podia confiar ne-
la?  claro que sim; ela estava na mesma situao. Como poderia olhar
nos olhos dela e no confiar?
     -- Voc sabe onde est Pete? Ou Leslie?
     -- Quem  Leslie?
      claro.
     -- Uma dos quatro. Tenho certeza de que est aqui embaixo --
Jack olhou para o tnel. -- Que tipo de poro  esse?
     -- O mais estranho, pode ter certeza. Siga-me.
     -- Espere. Voc sabe como sair da casa?
     -- Voc no sabe como sair da casa?
     Ela esperava que ele a levasse embora em segurana.
     -- No, ainda no -- ele respondeu.
     Ela balanou a cabea, calma apesar de tudo.
     -- Antes temos que encontrar Leslie.
     -- Siga-me -- ela falou.
     15


Stephanie sentou no armrio, tremendo. E chorando.
      Sua situao tinha ficado completamente...
      No havia palavras para descrever como tinha ficado ruim sua si-
tuao. Morta, talvez. Estava na verdade morrendo. Ou j tinha morrido
e agora estava no inferno. O inferno que os padres de sua infncia ti-
nham descrito.
      Ela no conseguia pensar direito. Estava escuro -- s precisava
abrir os olhos para perceber isso. Exceto por um assobio distante, que
parecia ser chuva, a casa estava quieta. Mas Betty e Stewart estavam l
fora. Ela ouviu o barulho deles depois da fuga da geladeira. Depois de
um tempo, pde ouvi-los andando por ali; pde sentir o cheiro deles.
Pararam em frente ao armrio uma vez, mas no entraram. No sabia
por qu. Nada disso parecia ser real, mas no conseguia se convencer
disso.
      A casa parecia viva, procurando por ela. Excntricos ou naturais
ou demnios, no importava; eram todos a mesma coisa. Pensou que
eles podiam estar na sala de jantar, esperando ela fazer algum rudo.
      Murmurou uma orao silenciosa:
      -- Oh, Deus! Oh, Deus! Oh, Deus! -- Mas no queria dizer exa-
tamente oh, Deus.
       O verdadeiro sentido era: Vou estrangul-lo, Jack; odeio voc, odeio voc,
odeio voc! Odeio por ter me conhecido, por ter ferrado a minha vida, por me arrastar
para esse lugar, por me deixar neste armrio! Por me culpar pela morte da nossa
filha. Pelo seu rancor imperdovel. Pelo jeito como voc olhou para a Leslie.
       Mas seus nervos estavam muito abalados para conscientemente
processar esse longo pensamento muitas vezes, ento comprimiu tudo
em uma habitual pseudo-orao. Oh, Deus.
       J tinha repetido umas mil oraes desde que tinha entrado nesse
armrio escuro. At tentara puxar algo do Livro das Oraes, que contm
umas passagens que tinha memorizado h tanto tempo, mas aquelas pa-
lavras lhe escapavam. De qualquer forma, no teve nenhuma iluso de
que algum ser viria do cu, estenderia sua grande mo atravs do telha-
do e a tiraria com segurana do armrio.
       Precisava de algo para se apoiar e esse algo no era o Jack. E no
era nenhuma msica. Minutos depois de ser abandonada por Jack nesse
calabouo, percebeu que tais meios de escape infantis e loucos no iri-
am funcionar nessa realidade particular. Na verdade, completamente
sozinha, ela achou a idia de cantar repulsiva.
       E descobriu que suas emoes primitivas eram, pelo menos, re-
confortantes. Ento tomou a raiva que sentia por Jack como seu apoio.
       Ela o odiava por sua amargura.
       Ela o odiava por no t-la abandonado, sabendo muito bem que
ela merecia.
       Ela o odiava por ter ido atrs da Leslie. A vagabunda poderia at
seduzi-lo.
       Ela o odiava por deix-la apodrecer nesse armrio escuro.
       Ela o odiava por deix-la to brava, porque raiva significava que
ela ainda ligava para aquela mula de cabea dura e teimosa.
       Sua mente tinha viajado de novo: sabia disso. Tinha acontecido
primeiro quando ficou olhando para o gelo quebrado sobre o lago onde
s alguns momentos antes sua filha estava parada.
       No foi realmente culpa dela, todos disseram. Havia neve sobre o
gelo e ela era do sul -- no tinha como saber que o gelo estava fino
demais.
       No tinha como ser culpada de colocar Melissa no que pensou ser
um monte de neve para tirar uma foto da pequena em seu lindo casaco
amarelo.
       No tinha como saber que a cmera ia ficar sem bateria naquele
exato momento, forando-a a desviar sua ateno de Melissa por aque-
les trinta segundos em que trocava as pilhas.
       Passou acordada todos os momentos desde a tragdia, respirando
negao; sabia disso. Tudo ia ficar bem. Ela s tinha de continuar com
o fluxo da vida. Dar um sorriso e cantar. Mas aqui, neste espao sufo-
cante, toda aquela besteira tinha sido tirada dela.
       Dem-me um corpo e poderei deixar dois escaparem. Ela poderia dar seu
cadver -- o de Melissa -- mas acho que isso no impressionaria o as-
sassino.
       Quando aquele caipira do Stewart estava ocupado chamando-os
todos de ateus, Stephanie pensou mais de uma vez que ele podia estar
certo. Achou que acreditava em Deus. Pelo menos quando era criana.
Mas algum j tinha dito sobre o que era ser crist e, mesmo assim, ser
uma "atia na prtica". Quer dizer, algum que acreditava em Deus,
mas no seguia o seu caminho. Droga, at os demnios acreditavam em
Deus, a Bblia no dizia isso?
       Estava tremendo. No porque era um demnio, mas porque tinha
certeza de que algo parecido a demnios estava do lado de fora do ar-
mrio.
     Seu problema era que no estava completamente segura de que a-
creditava em Deus. O nico demnio que conhecia era ela mesma.
     E Jack.
     -- Oh, Deus! Oh, Deus! Oh, Deus...
     16


Quando Randy bateu na parede de concreto, estava correndo na escu-
rido total, para longe do barulho das botas.
     Quinze ou vinte segundos correndo e, de repente, crash! Ele foi
empurrado para trs uns poucos metros e caiu sentado no cho, confu-
so e quase inconsciente. A arma caiu no cho, e ele tateou rapidamente,
procurando-a.
     Precisava daquela arma, precisava dela como do ar. Tinha a faca,
mas com alguma sorte nunca ia chegar perto de Stewart a ponto de ter
de us-la. E, se a arma no funcionasse, usaria como um basto. O ve-
lho Stew tinha de aprender umas coisinhas sobre beisebol.
     Vrias vezes ele ficou tentado a parar; a virar-se e esperar que a-
queles passos o alcanassem antes de disparar. Ou de acert-lo.
     O importante  que estava pensando novamente e isso era encora-
jador. De alguma forma, sentia-se mais vivo correndo por esse tnel do
que em todos os anos em que bancou o duro. Por qu?
     Terror. Aquele medo arrepiante estava enchendo-o de vida. No
era pnico. S o medo, puro e simples. Do tipo que o impelia a correr
desordenadamente por um tnel escuro.
     Direto para uma parede.
     Randy encontrou a arma. Ele se levantou, percebendo que algo ge-
lado corria por seus lbios. Suor ou sujeira ou sangue.
      Ele encarou as botas que continuavam vindo em sua direo, que
achava que deviam pertencer a Stewart. Pegamos um, Betty! Por algum
motivo, Randy no imaginava White como o tipo de cara que persegui-
ria sua presa por um tnel. Ele fazia mais o tipo que simplesmente apa-
receria do outro lado.
      Randy estava mexendo no gatilho, levantando a arma, quando sen-
tiu a maaneta da porta entrando nas suas costas.
      Randy agarrou-a, girou, abriu a porta e entrou.
      Quer dizer, tropeou no espao aberto. A soleira da porta estava a
uns 30 centmetros de altura. Ele caiu direto na gua.
      Uma luz cinza caa diretamente sobre uma espcie de piscina vinda
de um buraco a uns trinta metros ou mais  esquerda. Deve ser o esgoto.
A gua corria da direita para a esquerda, talvez uns 15 centmetros de
profundidade, ensopando seus sapatos caros.
      Os passos fortes diminuram a corrida. Randy se jogou para sua
esquerda bem quando um tiro atravessou o tnel, espalhando a gua 
sua direita.
      Um gemido de frustrao seguiu o som.
      No foi um grito, nem um berro, nem um toma essa, seu rato.
      Foi um gemido gutural. Era Stewart, tinha de ser, e o som fez
Randy se lembrar de por que no teve vontade de encar-lo antes. Tal-
vez a idia da "escopeta como basto" precisasse ser mais refinada.
      Randy andou pela gua em direo  fonte de luz. Havia uma sala
do outro lado e outra fonte de luz. Ele tinha de alcan-las antes que
Stewart virasse a esquina e conseguisse dar um segundo...
      Bam!
      Vrias bolinhas acertaram seu ombro esquerdo e ele gritou com a
dor. Mas chegou  sala e se escondeu atrs da parede  sua direita antes
que um terceiro tiro pudesse ser dado. Stewart estava dentro da gua,
vindo atrs dele. Estava andando agora.
      Lentamente.
      Outra lmpada no teto. A gua escorria pelas paredes. Tinha uns
trinta centmetros ali e ao redor estavam alguns velhos barris de gasolina,
picaretas, ferramentas, um martelo. Um capacete com uma lmpada
quebrada passou flutuando.
      Um cano de sessenta centmetros entrava na parede de concreto
de um lado. Mas havia uma porta na parede oposta. Uma escotilha alta
de madeira com a parte de cima curvada, do tipo que era encontrado
em masmorras.
      Randy olhou pelo canto da parede. Sem dvida, a forma lenta e
pesada de Stewart podia ser vista pelo caminho, segurando a escopeta
com as duas mos. Uns cinco metros os separavam.
      Ele tinha duas opes: poderia tentar a sorte com essa arma antiga
ou ver o que estava do outro lado da porta. A nica coisa que lhe dava
um pouco de tempo era o passo lento de Stewart.
      Do que ele sabia?
      Quem se importava? Randy correu para a porta e a abriu, agrade-
cendo o fato de no estar trancada.
      Mas seu agradecimento no demorou muito. Stewart andava dire-
tamente em sua direo de um lado e tambm se aproximava do outro,
s que a uns 12 metros. Como...? Stewart mudou a arma para uma das
mos enquanto usava a outra para desafivelar o cinto e tir-lo da cintura,
o que era algo louco porque ele j tinha uma arma, por que precisaria de
um cinto?
      Randy ficou to horrorizado pela iluso ptica que disparou a ar-
ma sem apontar.
      Click. A antigidade no atirou.
      Randy bateu a porta e pulou para trs. Como aquilo era possvel?
Dois Stewarts? Ou aquele era White? Ele tinha imaginado tudo. No.
Stewart ainda se aproximava pelo outro lado.
      Agora Randy comeou a entrar em pnico. Era o fim. A nica sa-
da era...
      Ele olhou para o grande cano que entrava pela parede. Cabia den-
tro dele. Sem pensar mais, Randy atravessou a sala correndo, jogou sua
arma dentro do cano, subiu em um dos barris e passou a cabea e os
braos pelo buraco.
      Era apertado para seus ombros largos, mas ele se arrastou como
uma cobra e caiu uns dois metros depois em uma sala de concreto sem
gua. Em cima e embaixo do cano, barras de metal presas na parede
formavam uma escada, possivelmente para manuteno. Havia duas
fontes de luz ali: o buraco atravs do qual ele tinha vindo e uma grade
bem em cima, que ia diretamente para o cu noturno da tempestade.
      Presa no teto de concreto.
      gua escorria para dentro da sala atravs de dois canos de 15 cen-
tmetros. gua da chuva? Todas as paredes eram de concreto. No ha-
via aberturas. Que lugar era esse? Algum tipo de fossa sptica.
      Algo eclipsou a luz do cano.
      Estaria Stewart vindo atrs dele? Ele girou, procurando novamente
por uma sada. Nada. Estava em um caixo selado. Com gua entrando;
e rapidamente.
      E Stewart vinha pela nica sada.
      Randy procurou a arma. Ele a tinha jogado, ouvido o barulho dela
caindo na gua. S servia como basto agora, mas era melhor do que
nada.
      A gua estava subindo com bastante velocidade.
      Seus dedos encontraram a arma e ele a tirou da gua antes de per-
ceber que, na verdade, tinha encontrado uma espada. Melhor ainda!
      Randy deu um grito e enfiou a ponta afiada dentro do buraco. O
pensamento de acertar seu pai fez com que comeasse a tremer, mas
no havia escolha, certo? Esse gigante ia mat-lo!
     E Stewart no era seu pai. Estava ficando doido.
     Um jato de ferro quente passou perto dele. Pulou para trs e o tiro
rasgou sua camisa. Um pequeno ferimento. Teve sorte. O prximo iria
cort-lo ao meio.
     O homem continuava vindo; primeiro a arma, dedo no gatilho. E
tudo o que Randy tinha era uma espada. Ele bateu na arma quando
Stewart a colocou para fora.
     Randy percebeu que a gua estava na altura da cintura. E que ela
devia sair pelo buraco que Stewart estava bloqueando.
     O ingrato gemeu. Ele no estava vindo to rapidamente. Randy
esperou a arma surgir.
     A gua continuava subindo.
     Nada da arma.
     Esperando com a gua na cintura, Randy comeou a antecipar
uma situao que o assustou mais do que a arma. No era nenhum es-
pecialista em mortes, mas de todas as formas que ele j tinha imaginado,
afogamento era uma das menos favorveis.
     Stewart gemeu mais uma vez, frustrado.
     O cano da arma surgiu pelo buraco e a viso do afogamento desa-
pareceu. Randy levantou a espada, esperou at que a maior parte da ar-
ma de Stewart estivesse para fora e atacou.
     Metal contra metal. Um flash iluminou o ambiente; o tiro acertou
o concreto. A julgar pela quantidade de problemas que Stewart estava
tendo para passar pelo cano, Randy duvidava que ele conseguisse rear-
mar a escopeta.
     Agarrou o cano com as duas mos e usou todo o seu peso. A arma
veio para suas mos, e Randy se encostou na parede em frente.
     Estava com a arma. Uma que funcionava. A salvao estava em
suas mos. Ele puxou a trava, armando-a.
      As mos de Stewart estavam do lado de fora, agarrando a boca do
cano, tentando se puxar. Randy conseguia ver seus olhos uns metros
para dentro, aterrorizados.
      Ele apontou o cano na direo do homem e estava a ponto de pu-
xar o gatilho quando sua viso de negcio conseguiu superar seus sen-
timentos. A ltima coisa que precisava era de um corpo tampando a-
quele cano.
      -- Ajude-me! -- pediu Stewart.
      Ajudar voc?
      -- Estou preso.
      Randy sabia que no havia um grama de gordura no torso macio
de Stewart. No foi a falta de fora que parou momentaneamente seu
avano. Era falta de um apoio. Ele realmente precisava de ajuda.
      Randy estava muito aturdido para responder. Um momento antes,
ele estava pronto para arrancar a cabea do homem dos ombros, se ti-
vesse oportunidade. Agora o mesmo homem pedia sua ajuda.
      -- Esta sala vai encher de gua! Me empurre!
      -- Est louco?
      -- Por favor... -- Stewart se sacudia, tentando se mover. -- Voc
vai se afogar. Me empurre!
      Randy olhou para a grade. A chuva caa por entre as barras. No
havia como abrir. Ele olhou para o cano com aquela cabea careca se
mexendo freneticamente.
      Stewart deixou escapar um grito terrvel, no natural. Sua cabea
comeou a tremer, depois chacoalhar. De repente, parou e olhou para
Randy.
      -- Por favor -- disse. -- Juro, se no me tirar desse cano, vai se
afogar. Me empurre.
      -- Voc estava tentando me matar! -- disse Randy, como se isso
respondesse tudo.
       -- Vou tir-lo daqui. Juro que vou mostrar como se sai daqui. Vo-
c no tem idia de como sair deste poro, sabe disso. Nenhuma. Est
preso aqui at morrer. Mas eu sei como sair. Empurre-me. Por favor,
voc tem que me tirar daqui.
       Talvez Randy pudesse atirar no homem depois de tir-lo dali. Uma
coisa era certa: o corpo de Stewart iria bloquear a gua. A menos que ele
voltasse pelo cano, os dois iriam se afogar.
       Randy enfiou o cano no buraco.
       -- Agarre isso e se empurre. Mas lembre-se: meu dedo est no ga-
tilho.
       O homem agarrou o cano e empurrou. Mas foi Randy, e no Ste-
wart, quem se moveu.
       -- Voc precisa me empurrar -- disse o homem.
       -- Como?
       -- Minha cabea. Me empurre pela cabea.
       A idia de empurrar aquela cabea careca parecia obscena.
       A gua j estava no seu rosto, comeando a entrar no cano.
       No querendo molhar a arma, Randy equilibrou-a em um dos ca-
nos sobressalentes na parede acima do buraco. Ele se abraou em um
dos degraus inferiores, alcanou o cano e colocou as duas mos na ca-
bea do homem que queria mat-lo.
       -- Lembre-se, estou com a arma.
       -- Empurre! -- gritou Stewart.
       Randy empurrou. Ele podia levantar mais de cento e cinqenta
quilos e estava colocando toda a presso na cabea de Stewart. Qual-
quer pescoo comum j teria quebrado.
       O homem se moveu uns 15 centmetros, depois parou com um
grito de dor.
       -- O que foi?
       -- Meu ombro. Acho que voc deslocou meu ombro!
      -- Voc est preso -- disse Randy.
      -- Sei que estou preso, seu pecador!
      -- Acalme-se. Estou tentando tirar a gente daqui!
      Estavam gritando. A gua entrava pelo cano.
      -- E se eu puxar voc?
      -- Nunca vou conseguir sair... -- o homem estava choramingan-
do agora. -- Por favor, voc tem que ajudar. Me empurra.
      -- J tentei.
      -- De novo.
      Randy tentou de novo, mas ficou claro que no havia jeito de em-
purrar Stewart enquanto seus largos ombros estivessem justos contra a
parede do cano.
      Randy pensou na faca no seu cinto, aquela que ele tinha roubado
da cozinha. Talvez ele pudesse cortar o Stewart. Mat-lo e depois cort-
lo em pedaos.
      Pensou isso. Randy nunca tinha matado ningum. Nem em auto-
defesa, nem em uma guerra, nem por dio. E certamente no mataria
um preso em um cano pedindo ajuda, no importa que fosse o prprio
demnio.
      De repente, no sabia se conseguiria fazer isso. A idia de enfiar a
arma naquele cano e explodir Stewart era muito horrvel. Sem chance.
Comeou a entrar em pnico.
      Calma, rapaz. Respire fundo. Dem-me um corpo. Seria esse. Autode-
fesa. Mate ou morra, simples assim.
      -- Por favor...
      -- Cala a boca! -- gritou Randy.
      -- Por favor...
      Lembrou-se das prprias palavras de Stewart mais cedo. Voc gosta
de gua, no?
     gua. Poderia no ter a fora para mat-lo, mas poderia deix-lo se
afogar.
     Morto ou vivo, o homem estava preso. Mas Randy tinha uma faca.
E uma espada.
     -- Por favor! -- A voz do homem estava confusa, com a gua ba-
tendo na sua boca. -- Tire-me daqui!
     Randy comeou a tremer.
     17


-- Juro! Sou uma pecadora! Pare, pare!
     Leslie estava soluando, no tanto por causa dos dois dardos enfi-
ados em seu corpo, mas pelo pavor em relao ao que poderia aconte-
cer.
     Ele era um demente e ela, um brinquedinho que ele tinha escolhi-
do. Se houvesse demnios, Pete era um, inquestionavelmente. Um de-
mnio dentro de uma pessoa com o corpo de um homem e a mente de
uma criana.
     Pete parou a roda quando ela estava de cabea para cima.
     -- Voc promete? -- ele perguntou.
     -- Prometo.
     -- Mais uma vez.
     -- Sou uma pecadora.
     -- Certeza?
     -- Certeza.
     -- Vai me mostrar como voc  ruim?
     Como assim? Ela respirou fundo. O que ele quer dizer com isso?
     -- Vai comer o cereal?
     Sua me tinha feito ele engolir a comida de cachorro podre para
lembr-lo de que no era melhor do que aquela porcaria. Ao for-lo a
crer na teoria de que ele era mau, tinha transformado o rapaz em uma
pessoa m. Ou, para ser mais preciso, ele acreditava que era mau e, as-
sim, estava predisposto a exibir um comportamento anti-social -- a
verdadeira definio de mal para ela -- em um mundo so, livre da reli-
gio.
      Leslie estava absolutamente certa de que ele no poderia ser salvo
dessas falsas crenas, pelo menos no to cedo.
      -- Sim -- ela respondeu, chorando. E isso a aliviou. -- Como. E
me perdoe por ser uma esposa to desobediente.
      Ele ficou olhando para ela. Um sorriso tonto se formou em seu
rosto.
      -- Est bem.
      Ele a desamarrou e a colocou no cho. Andou em direo  vasi-
lha de comida de cachorro.
      -- Primeiro, voc pode tirar esses dardos? -- Leslie perguntou,
sentando-se na cama. A adrenalina tinha minimizado a dor em seus
msculos, mas agora o dardo em seu bceps estava pulsando. Poderia
t-lo tirado ela mesma, mas queria que ele fizesse isso. Tudo para distra-
-lo.
      Pete voltou  cama, abandonando a vasilha por um instante. Ela se
deitou, sem saber se conseguiria evitar entrar em pnico de novo.
      Ele se sentou ao seu lado e pegou em seu brao. Mas no tirou o
dardo. Ficou tocando nela de forma leve. At gentil.
      Em vez de retroceder ao toque, ela se sentiu bem. Talvez... talvez
se mostrasse algum carinho. Desarm-lo com uma amostra de ternura.
Quando foi a ltima vez em que ele sentiu alguma ternura vinda de um
ser humano? De uma mulher, nunca.
      Leslie colocou sua mo sobre a dele.
      -- Serei uma boa esposa. Voc quer isso?
      A respirao dele ficou mais forte.
      -- Tire isso para mim.
     Ele tirou o dardo cuidadosamente. Ela no tinha idia de como
conseguia ignorar a dor. Tinha coisas mais importantes com que se pre-
ocupar. Ele tentou faz-la engolir comida de cachorro e jogou dardos
nela -- mas nada to terrvel quanto as coisas que ela imaginou que
White faria com eles. Mas ela se sentia violada. At pior.
     Triturada. Agora ela tinha medo de perder os fios que a manti-
nham lcida, renunciar a tudo e entregar-se a ele completamente.
     Por qu? Para no ter de comer aquela comida de cachorro? No.
Porque sentia uma necessidade desesperada de se apoiar em algum.
Precisava encontrar-se em qualquer coisa menos em sua alma destroa-
da.
     A verdade no fazia sentido para ela, no mais. Nada nos livros de
estudo se parecia nem remotamente com as emoes que se moviam
dentro dela enquanto estava deitada na cama dele.
     Pete tirou o dardo de seu msculo.
     Ela percebeu que no conseguia mais sentir o cheiro. Tinha se a-
costumado.
     -- Voc  to linda -- ele falou bem lentamente.
     Ela estendeu a mo e passou os dedos pela cabea dele, sentindo
repulsa e prazer por ter tido a coragem de fazer isso.
     -- E voc, to forte -- sua cabea girava.
     -- O cereal me deixa forte -- ele falou.
     -- O amor me deixa forte -- disse Leslie.
     Isso o fez parar. Seus olhos procuraram os dela.
     -- Voc... voc me ama?
     -- Sou sua esposa, no?
     Pete abaixou seu rosto at o pescoo dela.
     -- Voc  minha esposa.
      Ele ficou sentado, sem se mover, sem saber o que fazer. Ela era s
seu brinquedo favorito. Seu rosto estava to perto do dela que podia
sentir o cheiro doce do suor dele. O que ela estava fazendo?
      Leslie afastou a cabea dele e sentiu nsias de vmito.
      Pete se ajeitou, franzindo a testa. Levantou-se e foi at a pentea-
deira, abriu uma gaveta e comeou a procurar algo.
      Ela comeou a soluar baixinho. Estava compartilhando a mesma
situao de uma infinidade de seres humanos que se escondiam em suas
prprias prises de abuso e lcool e sexo e dinheiro e todos os tipos de
vcios que atormentavam e confortavam ao mesmo tempo. Ela no era
nem melhor nem pior do que qualquer outra pessoa que vivia atrs de
paredes brancas, mas que enfiavam os problemas no poro para escon-
der dos olhares dos vizinhos.
      Pete voltou, segurando uma corda.
      -- Mais pudim, Leslie?

                                 ***

     Randy no se moveu, sabendo que Stewart estava se retorcendo
no buraco do cano, agora submerso pela gua. Os gritos do homem ti-
nham sido silenciados por uma garganta cheia de gua da chuva.
     O pai tinha morrido. Morto, morto, tinha de estar morto. E a gua
agora estava na altura do pescoo de Randy. Se ele no mergulhasse e
desenterrasse a rolha chamada Stewart, acabaria se afogando tambm.
     Tinha uma espada. Us-la embaixo da gua deveria tomar alguns
minutos, ento tinha de comear logo. Mas a idia de mergulhar e cortar
o peito de Stewart despertou uma estranha mistura de medo e impaci-
ncia que o deixou parado.
      A questo era: ele queria fazer isso. A questo era: no tinha certe-
za se conseguiria. A questo era: a gua estava chegando ao seu nariz e,
em alguns minutos, iria tomar todo o tanque de concreto.
      Randy respirou fundo e mergulhou, levando a espada na mo. A-
briu os olhos, mas a gua era marrom. Tinha que procurar o buraco ta-
teando. Procurar a cabea.
      A perspectiva de ter de fazer tudo isso, movendo-se somente pelo
toque, forou Randy a voltar  superfcie.
      O nvel da gua continuava a aumentar.
      Ele ficou ofegante, lutando contra um surto de pnico. Tinha de
fazer isso. Tinha que descer e cortar o cadver de Stewart. Ele estava
morto, pelo amor de Deus!
      Randy mergulhou de novo, procurou o buraco, mas s encontrou
a parede slida. Estaria do lado errado? Como...
      A gua comeou a formar um redemoinho ao redor dele. Ele su-
biu para a superfcie. S demorou um segundo para perceber que o tan-
que estava sendo drenado e rapidamente.
      A gua caa em cima de sua cabea, entrava em um rpido rio de
gua barrenta que estava sendo puxada para a parede em frente. Para o
buraco.
      Ele ficou parado, as pernas abertas, imobilizadas; a espada firme
em sua mo. O grande cano que Stewart obstrua h poucos momentos
estava livre. O corpo de Stewart tinha sido empurrado! A fora da gua
o teria liberado?
      Randy no ia dar espao para o azar -- de jeito nenhum, muito
menos agora. Ele olhou com cautela para fora do buraco e procurou
por Stewart. Para ele, o homem no tinha se afogado e estava esperando
do lado de fora.
      Mas encontrou o corpo, cado naquela sala para onde tinha sido
levado pelas guas.
      Randy olhou o corpo por um minuto antes de decidir que estava
definitivamente morto. Ele pegou a arma que estava no alto usando a
espada. Subiu a escada de servio e depois se arrastou pelo cano.
      Tinha matado o homem, certo? Voc gosta de gua, Stewart, h? Acha
que isso  engraado?
      E agora? Tinha de sair daquele lugar antes que tudo inundasse. E
aquele outro Stewart que ele tinha visto, na outra porta? Sua mente es-
tava brincando com ele, certo? Tinha que ser.
      De volta  estaca zero. Duas formas de sair da sala. Ele checou a
escopeta. S uma bala. O fato de que ningum tinha aparecido para aju-
dar Stewart por trs nem ficado esperando Randy quando ele saiu pelo
cano era um bom sinal.
      No que ele se importasse de encarar um cmplice agora. Tinha a
arma. Pode vir!
      Ficou parado na gua barrenta, pensando nessas coisas.
      -- O que voc est fazendo, Randy? -- ele perguntou com voz
suave. -- Voc est com um problemo aqui embaixo.
      Verdade?
      -- ,  verdade. Voc ouviu o cara. No tem como sair daqui.
      Verdade?
      -- Oua o que voc mesmo est dizendo. Acha que tem alguma
idia brilhante?
      Tanto faz. Os fatos ainda no tinham mudado. Tinha de encontrar
os outros. Tinha de encontrar Leslie. Presumindo que ainda estivessem
vivos, fato de que ele duvidava. Mais importante: tinha de descobrir
uma maneira de passar por White. Nada seria o mesmo depois de hoje,
disso tinha certeza. Nunca mais.
      Ele caminhou at a porta de onde tinha vindo, enfiou a cabea pe-
lo corredor. Vazio. Mas no queria voltar por ali.
      Cruzou o quarto at a outra porta, o que significava que teria de
passar por Stewart. Apontou a arma para o corpo que estava de barriga
para baixo. Talvez devesse dar um tiro, s para ter certeza.  claro, ele
s tinha um tiro. E o barulho poderia alertar qualquer outro que estives-
se por perto.
      Randy seguiu em frente, dedo no gatilho, pronto para qualquer
coisa. Aquela coisa no cho no se mexeu. Ele deu um chute. Morto,
com certeza. Virou o corpo com a perna direita.
      A luz era fraca, mas no havia como confundir a cabea careca, as
horrveis cicatrizes e o macaco sujo. Uma pequena coluna de fumaa
saa do canto da boca de Stewart. Uma nvoa negra. Uma fumaa preta.
      Randy deu um passo para trs e ficou olhando aquilo. Havia algo
ruim naquela nvoa, mas sua mente estava adormecida e ele no conse-
guia explicar. Talvez White tivesse entrado e atirado em Stewart  quei-
ma-roupa. Poderia ser fumaa de plvora.
      Ele olhou para a porta, para o tnel. Ningum.
      Randy no sabia se isso era bom ou ruim. No havia nenhuma e-
vidncia de que Stewart tivesse levado um tiro. Ele tinha se afogado!
      Randy procurou nos bolsos de Stewart e tirou uma caixa plstica
com balas. Bom, muito bom. Agora ele tinha uma arma e umas quinze
balas. Agora ele queria ver.
      Recarregou a escopeta, depois caminhou em direo ao tnel.
      Com a arma na mo, sentiu que no estava mais com tanto medo.
Matar aquele porco tinha sido...
      Um suave murmrio correu pelo tnel:
      -- D-me um cadver, Randy.
      Ele se virou e descarregou a escopeta com o brao direito. Quase
arrancou seu brao. Nada.
     Na verdade... na verdade, no havia nenhum corpo! O cadver de
Stewart tinha sumido! Ser que algum cmplice tinha voltado? Como 
possvel?
     -- Aquele no conta! -- disse a voz, novamente atrs dele.
     Ele deixou cair a espada, girou e atirou de novo antes que a ferra-
menta de jardinagem atingisse o cho. Nada a no ser a escurido.
     -- Estou ficando louco -- ele sussurrou.
     Interessante. Ele no estava to bravo. Nem mesmo triste.
     -- Deus me ajude, estou ficando louco.
     18


A garota chamada Susan levou Jack atravs de um pequeno corredor
que terminava na primeira sala em que Jack e Randy tinham entrado
quando desceram para o poro; a que tinha vrios sofs.
      Ele parou, confuso em relao a essa porta. No se lembrava dela.
Os quatro sofs eram os mesmos, bem como os quadros que cobriam a
parede. O forno...
      Susan correu pelo quarto em direo  porta principal, confiante e
ao mesmo tempo indecisa. Jack olhava seus movimentos, incerto sobre
como deveria se sentir sobre esse encontro com uma garota inocente,
mas que conhecia o lugar. Parecia por um lado que ela se ajustava ao
lugar e, por outro, que era uma vtima.
      -- Espere.
      Ela se virou. Agora na luz, ele viu que o vestido dela estava gasto e
rasgado. Seu rosto estava com riscos marrons.
      -- O que foi?
      -- No me lembro de ter visto este corredor -- ele olhou para
trs, para a porta por onde tinham entrado. -- Poderia jurar que era um
armrio.
      --  bem confuso, eu sei -- ela respondeu.
      Jack andou atrs dela at a porta principal.
      -- Assombrado.
      -- Assombrado -- ela concordou.
      Ele abriu a porta e olhou para o corredor principal. As escadas que
levavam at o andar trreo estavam  esquerda.
      A garota dizia alguma coisa, mas Jack s pensava nas escadas. Ele
deu uma espiada no corredor, viu que as outras portas estavam fechadas
e correu para as escadas. A porta no final dela estava fechada. Ele se ati-
rou contra ela, mas estava trancada. J imaginava.
      -- Trancada -- disse a garota. Tinha ficado no p da escada. --
No podemos ser flagrados aqui.
      Jack esmurrou a porta:
      -- Stephanie!
      Se ela ainda estava no armrio ao lado, no ouviu ou respondeu.
Como a conhecia, imaginou que tinha tentado fugir e estava cada morta
na entrada da casa.
      -- Precisamos ir agora -- disse a garota. -- Talvez eu saiba onde
est sua amiga.
      Ele desceu correndo a escada:
      -- Qual porta?
      Ela j estava indo para a ltima  esquerda. Abriu e comeou a
correr, atravs de outro corredor iluminado por pequenas lmpadas em
um fio, como um arranjo de luzes de Natal. Ele a seguiu por trs curvas.
      Susan passou por uma porta baixa e entrou em uma sala com o te-
to baixo e cheio de canos. Ela continuou correndo, com a cabea abai-
xada para no bater.
      -- Aqui -- ela sussurrou, apontando uma pequena porta. -- Vai
direto para o armrio.
      Jack ficou parado na porta, tentando recuperar o flego.
      -- Qual armrio?
      -- Onde ele se esconde.
      -- Quem?
      -- O mais lento.
      -- Pete?
      -- Onde estamos, Susan?
      -- No poro -- ela falou.
      -- Sei disso. Quero dizer, esta casa. H um assassino nos perse-
guindo, pelo amor de Deus. Nossos pneus foram furados e convenien-
temente encontramos esta casa cheia de nativos esperando os prximos
infelizes carem na armadilha. E depois aparece voc.
      Ela o olhou com os olhos bem abertos.
      -- Sair do poro  um problema.
      Est bem. Ele teria de ver o quadro geral mais tarde.
      -- Quer dizer que estamos presos aqui? Como ele trouxe voc a-
qui?
      -- Quero dizer que voc no devia ter descido aqui.
      -- Acredite, no foi exatamente a minha primeira escolha -- o-
lhou para a porta. -- No podamos ter deixado Leslie. O que tem do
outro lado dessa porta?
      -- Vai dar em um armrio.
      -- E?
      -- H algo errado com esta casa, Jack. Vemos coisas. Se entrar a,
ele vai matar voc.
      -- Quem? Pete? Como voc sabe que ele est com ela?
      Os olhos da menina sugeriram que ela conhecia algumas coisas
sobre o Pete.
      -- Como voc chegou aqui embaixo? -- ele perguntou.
      Ela hesitou:
      -- Estou aqui embaixo h trs dias. Voc no  o nico que caiu
na armadilha deles.
      -- Ento voc escapou?
      Ela olhou sem responder. Pergunta estpida, Jack.  claro que ela no
tinha escapado. Os olhos dela procuraram os dele. Ele detectou o peso da
experincia pela qual ela tinha passado e se sentiu to responsvel por
salv-la quanto se sentia em relao a Leslie, apesar de no ter idia do
que fazer.
      Jack olhou para a pequena porta que levava ao armrio de Pete. E
uma criana deveria gui-los. Ele tinha ouvido essa letra antes, em algum
lugar. Talvez fosse uma das msicas de Stephanie. De vrios modos,
Susan o lembrava de uma criana, crescida, mas inocente. Como Melis-
sa...
      Ele evitou pensar nisso.
      -- Est bem, vou tentar dar uma olhada. Voc tem certeza de que
vou entrar em um armrio?
      -- Pode abrir.
      Ele concordou e alcanou a trava de madeira que mantinha a porta
fechada.
      -- Talvez eu devesse ir com voc -- ela falou.
      -- No. No tem jeito de sair do poro, mesmo?
      -- Um cadver -- ela disse.
      Ento, ela era parte desse jogo louco tambm. Dem-me um cadver e
posso deixar dois escaparem.
      Susan se moveu para as sombras  sua esquerda.
      -- H um duto de ar do outro lado. A casa  ruim, lembre-se
sempre disso.
      -- Quer dizer...
      -- Quero dizer, m.
      M. Assombrada. Ele no sabia o que pensar disso. Claro, m, mas
o que era o mal? No momento, estava mais preocupado com pessoas
vivas que possuam ganchos para carne e armas.
       -- Est bem, s vou dar uma olhada. J volto -- ele levantou a
trava.
       -- Jack?
       -- O qu? -- ele sussurrou.
       As mos deles se tocaram:
       -- Prometa que no vai me deixar.
       Jack se virou e viu que ela estava chorando.
       Ela afagou sua cabea e beijou seu cabelo. Outra imagem de sua fi-
lha cruzou sua mente.
       -- No vou deix-la. Prometo. Da mesma forma que no vou dei-
xar Leslie. Est bem?
       -- Est bem.
       -- No saia daqui.
       Jack abriu a porta e enfiou a cabea no armrio. Havia lixo empi-
lhado dos dois lados. Algumas jaquetas fedidas e macaces pendurados
bem na frente dele.
       Jack tirou a cabea:
       -- Vou entrar para poder ver alm das roupas.
       Susan no falou nada.
       Ele entrou no armrio, separou duas jaquetas. Conseguia ver a luz
passando atravs de pequenos furos na porta. Conseguia ouvir o som
de uma voz masculina abafada. Era Pete.
       O que significava que Leslie deveria estar l.
       Jack olhou em volta procurando por uma arma -- qualquer coisa
servia. Viu um quadro com um cabo. Um basto de crquete. No tinha
idia do que isso estava fazendo ali, mas no importava; s que estava
ali se precisasse.
       Passou cautelosamente pelas roupas, segurando a respirao e es-
piou por um dos furos na porta.
      Primeiro, viu s Pete, sentado na borda da cama, de costas para o
armrio, murmurando. Mas ele se levantou e saiu da viso de Jack, dei-
xando-o com uma boa vista da cama.
      Leslie estava amarrada pelos punhos e tornozelos. Ainda usava a
cala branca e a blusa vermelha. Estava tremendo e soluando.
      Jack ficou olhando, momentaneamente chocado.
      -- Precisa ser uma boa esposa e comer -- disse Pete, passando na
frente da porta com uma vasilha nas mos, contendo algum tipo de pas-
ta. Tinha amarrado Leslie e estava tentando for-la a comer!
      Jack no sabia o que tinha reduzido Leslie quela forma que tremia
na cama, mas percebeu que tambm estava tremendo. De revolta.
      No s revolta. Era dio.
     19


Stephanie tinha resistido  tentao de deixar o armrio para procurar
Jack quando um alto tump soou na sala de jantar. Ela pulou. Tinha dor-
mido? Conseguia ouvir uma voz abafada.
      -- Stephanie!
      Quem seria? Ela abriu os olhos na escurido, completamente alerta.
Quem era? Era Jack!
      Ouviu algo quebrando. Prendeu a respirao. Era ali que ficava a
parede, no? A porta do armrio estava  sua esquerda e a parede  sua
direita.
      Havia um barulho de algo quebrando, como uma unha riscando
um quadro-negro. De repente, parou.
      Conseguiu ouvir passos descendo a escada. Jack estava indo em-
bora?
      -- Jack! -- ela gritou. Sua voz refletiu no armrio. -- Jack!
      Agora Stephanie tinha de tomar uma deciso. Poderia sair do ar-
mrio e encontrar os outros, ou poderia ficar sentada ali como tinha fei-
to nas ltimas... -- quanto tempo ela tinha ficado ali? Minutos ou ho-
ras? Seu celular ainda estava na bolsa que tinha deixado na sala de estar.
      -- Jack, no ouse me deixar de novo! -- ela jurou.
      Ele tinha ido embora.
      Ela travou a boca e a raiva comeou a tomar conta de seu corpo,
um membro de cada vez. Primeiro as mos e o rosto, depois todo o
corpo. A raiva no parecia natural, mas a encheu de coragem, do tipo
que surge frente a situaes de perigo. Estava respirando pesadamente,
mas no momento no se preocupava com quem pudesse ouvi-la. Reori-
entou-se no espao. Casacos. Botas. O fundo do armrio. Os lados.
Sentiu algo frio e metlico, que escorregou pela parede e caiu fazendo
barulho. Ela pegou a coisa. Examinou-a com os dedos. Um p-de-cabra,
talvez.
      Uma imagem do martelo-machado cruzou sua mente. S que esta-
va em suas mos, no nas de Stewart. Ficou girando aquilo. Talvez no
estmago de Jack. Talvez na cabea. Talvez...
      Ela parou. Algum estava sussurrando. Do lado de fora. Jack?
      Mas ela sabia que no podia ser Jack porque ela ouvia mais de uma
voz e elas vinham de mais de uma direo.
      Algo fez ccegas em seu tornozelo. Deslizou pela perna. Um rptil
comprido e fino.
      Oh, Deus! Oh, Deus! Oh, Deus! Era uma cobra e estava subindo pela
sua perna.
      Stephanie no conseguia se mover. O armrio se encheu de um
terrvel grito: o dela.
      O cho debaixo de suas mos se moveu. Deslizou. O cho do ar-
mrio estava lotado de cobras; finas, frias e deslizantes cobras.
      Um lugar fundo na psique de Stephanie ressurgiu dos mortos. O
lugar onde horror e dio colidiam com a necessidade de sobreviver. O
lugar onde no existem regras, nada  absoluto, nem Deus, nem o de-
mnio. S Stephanie. O lugar onde at mesmo grandes chances de mor-
rer podem ser enfrentadas se significarem uma chance de salvao.
      Seu grito se transformou em um gemido. Deixou cair o p-de-
cabra e se moveu.
      Bateu na porta. Girou a maaneta e saiu do armrio. Virou-se e o-
lhou para o cho, pronta para pisotear as cobras. Mas ele estava vazio.
Elas tinham fugido. Stephanie tinha gritado para o cho.
      Ela percebeu que estava no corredor que dava para a sala de jantar,
de onde os sussurros tinham vindo. Virou-se devagar. Eles tambm ti-
nham fugido. Ou nem tinham estado aqui.
      A casa fazia barulhos, os rudos de algo quebrando que ela tinha
ouvido no armrio, s que agora vinham das quatro paredes.
      Stephanie tomou uma deciso por um motivo muito complexo pa-
ra entender completamente. Mas ao tomar a deciso, ela se mexeu logo.
Andou at a porta do poro, girou a maaneta e a puxou. Estava tran-
cada. Um trinco. Ela abriu. Puxou a porta e desceu as escadas.
      Jack estava l embaixo e ela ia dizer umas boas para ele: que ela j
no agentava mais; que era a hora de ir embora, com ou sem assassino;
que ele podia pegar toda aquela superioridade dele e enfiar...
      A porta atrs dela se fechou. Ouviu o som do trinco. No podia
fingir que era outra coisa.
      Parou na escada e piscou. Sua coragem tinha fugido.
      -- Oh, Deus! Oh, Deus! Oh, Deus...
     20


No tinha certeza se queria sair correndo do armrio com um basto de
crquete na mo, mas precisava de uma arma para satisfazer sua raiva;
assim, Jack voltou e pegou o basto.
      Mas, no entusiasmo para pegar a coisa, ele puxou rpido demais. E
o basto deslocou algo.
      Que fez um barulho.
      Por um momento, tudo parou. Pete deixou de murmurar. Leslie
parou de tentar se soltar. Jack ficou sem respirar.
      Conseguia ouvir seu relgio indo mais rpido do que deveria.
      Seu plano de ao ficou claro naquele momento. Tinha de sair e
para j!
      Jack pulou para a porta, com os ombros  frente, o basto pronto
para atacar. Qualquer que fosse o mecanismo que mantinha a porta fe-
chada, no resistiu ao seu peso. Ele entrou no quarto e girou o basto
antes de atingir seu alvo.
      Pete no teve tempo de se defender. A madeira voou pelo ar e a-
tingiu o crnio dele com um alto crack!
      Ele gemeu e cambaleou. Caiu sobre as mos e os joelhos.
      Jack foi at a cama e soltou as tiras de pano que prendiam os tor-
nozelos de Leslie. Mas seus punhos estavam amarrados  cama e Pete j
estava tentando levantar.
      Jack acertou outra paulada.
      Smack!
      O ataque acertou Pete na barriga, dificilmente algo que o faria
cambalear. Mas pegou-o desprevenido.
      Jack levantou o basto.
      -- Afaste-se!
      -- Bata nele de novo -- gritou Leslie. -- Mata ele!
      Jack estremeceu. Matar? Ele nunca tinha levantado um basto para
algum com essa inteno. No que no fosse justificado.
      Leslie tentava se libertar.
      Pete deu um passo para trs, pesado.
      Jack atacou. O basto acertou o joelho direito de Pete. Algo tinha
se quebrado e no foi o basto.
      Pete piscou. Olhou para o joelho.
      -- Anda! -- gritou Jack. -- Para a parede.
      -- Mata ele, Jack!
      -- Pra de gritar!
      Tinha de pensar. No podia simplesmente bater at mat-lo. Mas
talvez pudesse debilit-lo e deix-lo amarrado  cama.
      -- Mata ele! -- Leslie ainda estava desesperada. Um dos seus pu-
nhos comeou a sangrar.
      -- Espera! -- ele gritou. Depois, voltando-se para Pete: -- Anda!
      Pete mancou at a grande roda na parede:
      -- Ela... ela  a minha esposa -- disse.
      -- Cala a boca! -- Jack correu at a cama. -- No se mexa.
      Com uma mo, ele soltou os ns que prendiam Leslie.
      -- Voc tem que mat-lo, Jack -- Leslie sussurrou. -- No pode
deix-lo vivo.
      -- Calma, calma, est tudo bem -- soltou um punho.
      -- No, no est.
      Ele correu para o outro lado da cama e soltou o outro n, sempre
de olho em Pete. O homem estava se aproximando lentamente da porta.
      -- No se mexa!
      Com o canto dos olhos, ele viu a porta se movimentando. Dois
trincos estavam fechados desse lado.
      Os dois estavam girando devagar ao mesmo tempo. Abrindo. Pa-
recia que sozinhos.
      Ele congelou. Como...
      Pete gritou e correu para a porta.
      -- Jack! -- gritou Leslie.
      A porta se abriu. Betty olhou para dentro com uma escopeta posi-
cionada acima da cintura. Havia algo diferente em seu rosto. Algo estra-
nho em seus olhos. O olhar de uma mulher que j tinha se cansado de
bancar a anfitri.
      -- Para trs -- ela disse com uma voz suave.
      Jack largou o basto e levantou as mos:
      -- Est bem.
      Tudo estava acontecendo muito rapidamente. Ela ia puxar o gati-
lho.
      -- Stewart est certo. Vocs so todos pecadores -- ela disse.
      Pete pulou para perto de sua me. Ele agarrou o cano com as duas
mos enquanto a arma soltava uma carga de ferro que acertou a perna
da cama ao lado direito de Jack, deixando-a em pedaos.
      Leslie tentava se livrar do ltimo n.
      -- Jack!
      -- No mate a minha esposa! -- gritou Pete.
      Betty levantou a arma e acertou a parte de trs dela na cabea de
Pete. Tunk! Ele caiu de joelhos bem quando Jack conseguiu soltar o pu-
nho de Leslie.
      -- Os dois vo morrer -- disse Betty.
      Uma voz suave vinda do armrio deixou-os parados.
      -- No vo no.
      Jack girou a cabea. Susan estava parada na porta, olhando para
Betty, cujo rosto ficou branco com o choque.
      --  White quem vai morrer -- disse Susan, entrando no quarto.
Ela falava com calma, mas os olhos estavam arregalados.
      Jack estendeu sua mo.
      -- Susan...
      Susan falava com Betty:
      -- Voc sabe que, se me matar, White no vai ter nenhuma razo
para deix-la viver -- disse Susan. -- Assim que eu morrer, ele vai ma-
tar todo o resto. No  esse o acordo? E depois que o resto morrer, ele
vai matar vocs tambm.
      Betty estava petrificada.
      Susan olhou para Jack.
      -- Mas ela no pode me matar ainda, porque White ainda precisa
de mim para o jogo.
      Betty comeou a relaxar. Comeou a ficar brava.
      Susan se jogou em cima dela.
      -- Susan! No!
      Ela bateu em Betty, que cambaleou de volta para o corredor.
      Leslie rolou pela cama para o lado de Jack, ficou de p e correu pa-
ra o armrio.
      Jack ficou petrificado com a estranha viso, essa garota frgil, u-
sando um vestido de vero rasgado, se jogando em cima da mulher bem
maior. Trs dias no poro tinham claramente redefinido a urgncia de
autopreservao.
      A porta do quarto se fechou atrs de Susan e Betty.
      Ele ouviu um tiro no corredor.
      -- Jack -- avisou Leslie.
      Pete tinha se levantado e estava se rastejando para cima de Leslie.
      Jack saltou para o canto da cama, acertando Pete. O homem bateu
contra a parede.
      -- Pelo armrio -- gritou Jack.
      Leslie j estava dentro. Passaram pela porta do fundo. Entraram na
sala de teto baixo.
      -- Para a direita! -- sussurrou ele, correndo. -- Atrs de mim!
      Ele agarrou a mo de Leslie e correu com a cabea abaixada, fu-
gindo dos gritos de Pete que estava ignorando seus ferimentos e come-
ava a entrar no armrio.
      Encontraram uma grade que cobria um buraco largo. Bem onde
Susan tinha indicado. Um duto de ar ou algo parecido. Jack conseguiu
tirar a grade.
      -- Vai! -- ele sussurrou.
      Ela passou por ele, enfiou a cabea no buraco, depois olhou para
ele, os olhos arregalados.
      -- No me deixe -- ela respirava pesadamente, ainda assustada.
      -- Estarei bem atrs de voc.
      Ela comeou a entrar.
      Jack olhou para trs bem quando Pete tinha entrado na sala. O
bronco procurou em volta, mas no conseguiu v-los e seguiu na dire-
o contrria.
      Jack entrou no duto, colocando a grade de volta no lugar.
     21       3h02




Stephanie andou pelo poro to aterrorizada que o medo reavivava sua
raiva.
      Quarto a quarto, corredor a corredor, no se preocupando com os
quadros ou com a improvvel decorao; nem mesmo os pentagramas
chamavam a sua ateno. Na verdade, Stephanie tinha de ignorar tudo
isso para conseguir manter-se focada, porque sabia que estava a ponto
de correr de volta para a escada, e a porta estava trancada.
      Percebeu que poderia se deparar com Stewart antes de encontrar
os outros, mas aceitou correr o risco. Ou Randy ou Jack, apesar de que
no momento ela preferia encontrar Randy.
      Ou estaria errada? Jack era cabea-dura como qualquer outro ho-
mem no planeta. Ele nunca iria ceder, nunca tinha cedido antes. Para
dizer a verdade, ela precisava dele agora, porque ele era a sua chance de
sobreviver.
      Randy, por outro lado, era o tipo de homem que faria qualquer
coisa para ter xito. Isso significava que, se Jack falhasse, Randy poderia
ser a soluo.
      Para Stephanie, Leslie poderia apodrecer no tmulo. E, a julgar pe-
los olhares de Pete na mesa de jantar, era exatamente onde ela estava
neste momento.
      Oua o que est dizendo!
      Acabou de decidir que gostava da nova Stephanie, livre da negao,
da filosofia do "tudo est bem". Nunca mais. Tinha eliminado sua ne-
gao com um poo fundo de dio que agora a fazia se sentir viva, co-
mo no se sentia h anos. Poderia compor msicas sobre isso por scu-
los. Sentia-se corajosa o suficiente para acertar qualquer homem ou mu-
lher que entrasse em seu caminho, e ela no se lembrava de ter se senti-
do assim antes. Adeus, raio de sol.
      Entrou em um longo corredor de concreto e percebeu, pela pri-
meira vez, a gua escorrendo pelas paredes.
      gua. Parou. A gua estava formando uma poa no cho. A casa
gemia. Sua determinao diminuiu um pouco. Talvez no devesse ter
descido. Mas era um pouco tarde. Viu uma porta perto da poa. Aberta.
      Andou at a porta, olhou para o que parecia uma adega e entrou.
      A porta se fechou. Ela se virou. O vento deve t-la fechado. Ela
no queria pensar em nenhum outro motivo. A porta  sua direita esta-
va aberta. Algum tinha passado por aqui recentemente.
      Stephanie hesitou, depois cruzou a porta at um corredor bem
mais estreito. A porta no final do corredor estava aberta.
      Havia dado trs passos quando um bam atrs dela a assustou.
      A porta tambm havia fechado. Duas em seguida.
      Ela girou e correu para a porta aberta.

                                  ***

     Jack se abaixou e examinou em silncio a sala da caldeira. Leslie fi-
cou ao seu lado, escondida perto dos canos de ferro que saam de duas
grandes caldeiras e desapareciam por uns buracos no teto. Havia uma
nica lmpada, como na maioria dos aposentos do poro. Havia duas
portas bem em frente s caldeiras.
      Ele viu tudo isso sem prestar ateno. Estava pensando em Susan.
Foi preciso muita determinao para no correr de volta para o quarto
do Pete e tentar descobrir se ela havia sobrevivido. No conseguia en-
tender o que Susan tinha feito. Segurava-se em um resto de esperana
de que o que ela tinha dito fosse verdade. Talvez os locais tivessem de
mant-la viva como garantia. Talvez eles soubessem de algo que ele
desconhecia.
      De qualquer forma, ele a tinha perdido. Tinha prometido nunca
deix-la e, apesar de no t-la abandonado, ela havia sumido, talvez
morrido, talvez tivesse sido presa.
      Talvez escapado.
      Por um momento, nem ele nem Leslie pareciam capazes de se
mover. No por causa do quarto, mas por causa do que tinha acabado
de acontecer.
      Ao lado dele, Leslie colocou uma mo em sua cintura, escondeu o
rosto com a outra mo e chorou em silncio. Ele pensou em acariciar
seu cabelo, para consol-la, mas depois achou que seria imprprio. Ela
se virou para ele, comeou a se afastar, depois voltou.
      Leslie no olhou para ele: s deitou a cabea em seu peito. Ele en-
goliu em seco e a abraou.
      -- Me desculpe -- disse. -- Me desculpe.
      Ela lhe deu um abrao apertado e comeou a chorar mais forte.
      -- Leslie... -- seus braos estavam tremendo, mas ela no perce-
beu porque tremia inteira.
      Ele sentiu vontade de confort-la. Era uma necessidade que no
vinha do desejo. Era o fruto de horas de terror. Vinha das paredes escu-
ras e da tristeza que dominava o poro. Vinha da lembrana de v-la na
cama de Pete.
      Vinha do fato de estarem presos no jogo do assassino.
      Jack a abraou com fora:
      -- Me desculpe...
      Ela deu um suspiro e beijou seu pescoo:
      -- No, no  culpa sua.
      Deu outro beijo no pescoo dele e depois no rosto:
      -- No pea desculpas. Obrigada, obrigada.
      Agarrou sua camisa e o beijou no rosto novamente.
      Abaixou o rosto e recomeou a chorar.
      Eram duas almas perdidas que tinham escapado juntos da morte,
mas com a quase certeza de que morreriam antes do nascer do sol. Les-
lie, a inteligente professora de psicologia, e Jack, o escritor rancoroso
que a salvara.
      Agora, os dois estavam perdidos de novo. E sozinhos nessa sala de
caldeira enquanto a casa rangia ao redor.
      No momento, ele a abraava como se ela fosse sua vida. Pela pri-
meira vez em muitos meses, Jack se lembrava de como era amar algum
alm da sua filha. As duas eram vtimas -- sua filha do descuido de Ste-
phanie e Leslie de um manaco sdico.
      Leslie segurou seu rosto com as duas mos e beijou-o na boca. Ela
apertou seus lbios aos dele, at doer. Depois comeou a beij-lo no
rosto e no pescoo.
      -- Amo voc, Jack. Amo voc.
      Jack piscou. Ele a afastou gentilmente.
      -- Calma, calma.
      -- Amo voc...
      Ela resistia, e ento ele retirou gentilmente os braos dela de seu
pescoo:
      -- No, est tudo bem. Est tudo bem. Isso no pode ser verdade.
      Isso a trouxe de volta  realidade.
      Ela o soltou, virou-se e escondeu o rosto nas mos.
      -- Entendo -- disse ele. -- Sei como voc se sente...
      -- Voc no tem idia de como me sinto! -- ela disse, virando-se
para ele. Ela levantou os braos para o duto de ar de onde tinham vindo.
-- Voc tem idia das coisas pelas quais passei?
      --  por isso que voc est estressada agora. No posso me apro-
veitar de voc!
      Ela procurou os olhos dele. Depois, seu rosto ficou mais tranqilo
e ela deixou de encar-lo.
      -- Me desculpe.
      Naquele momento, o fracasso completo do seu casamento ficou
to evidente que Jack no conseguiu ver nada do que ele e Stephanie j
tinham vivido juntos. H quanto tempo Stephanie no mostrava uma
paixo e um apoio como esse? A amargura que ele dirigia a ela era ali-
mentada pela negao dela. No tinha certeza dos motivos que os leva-
ram a continuar juntos.
      -- No, tudo bem -- ele colocou o brao em suas costas. -- Eu
no...
      -- O que  que vocs esto fazendo?
      Eles giraram. Um homem, molhado dos ps  cabea, segurando
uma arma sobre um ombro e uma espada no outro, olhava para eles da
porta.
      -- Randy? -- perguntou Leslie.
      Ele entrou e fechou a porta de ao com o calcanhar.
      -- Respondam! Pelo amor de Deus!
      -- Voc est vivo -- disse Jack. Randy parecia ter andado pelo es-
goto. Seu cabelo estava molhado e emaranhado, sua camisa verde tinha
ficado marrom e a costura do jeans tinha rasgado, deixando uns buracos
perto dos bolsos.
      -- Desapontado? -- disse Randy. -- Eu sabia.
      Ele andou at perto deles e parou no meio da sala. Jogou a espada
no cho.
     -- Saio por uma hora, lutando pela minha vida e volto para casa
para encontrar isso?
     -- Randy... -- Leslie se afastou de Jack.
     -- No  nada disso -- falou Jack bruscamente, aumentando o
ressentimento que sentia por aquele homem.
     -- No precisa falar -- os olhos brilhavam. -- Vou dizer a vocs
o que penso.
     -- Fui violentada, Randy -- disse Leslie.
     -- Estuprada?
     Ela no acreditou no tom rude:
     -- D no mesmo.
     -- Pois tenho novidades. Todo mundo acha que algum tio foi a-
busado. Isso nos d uma desculpa para vivermos como vtimas.
     -- Randy! -- por um momento Jack achou que ela ia pular sobre
o sujeito e estape-lo. Quando Leslie falou, os lbios tremiam. -- Voc
 um doente.
     -- Voc nunca enfrentou seu tio Robby, no , Leslie? No. Mas
adivinha? Eu enfrentei. S que no era o tio Robby, era o tio Stewart e
posso garantir que ele est mais morto do que qualquer homem merece.
-- Randy sorriu.
     -- Stewart est morto? -- perguntou Jack.
     Jack no tinha prestado ateno nas portas em frente s caldeiras.
A segunda abriu repentinamente e Stephanie entrou correndo e parou,
ofegante.
     A porta se fechou sozinha. Ela estava com os olhos arregalados;
depois se virou para eles.
     -- Vocs viram isso?
     A mente de Jack virou uma confuso. Stephanie, ali. Stewart, mor-
to. Randy, ensopado.
      O suor deixava o top azul de Stephanie bem colado ao seu corpo e
seu cabelo comprido e loiro estava todo emaranhado, mas ela estava i-
gual ao momento em que tinham se separado.
      -- Uma corrente de ar -- disse Leslie, os olhos fixos na porta.
      -- No pode ser, a menos que uma corrente de ar tenha me segui-
do por todo o caminho -- disse Stephanie. Ela avanou, olhando para
Jack. -- Eu fiquei uma eternidade naquele armrio!
      -- Calma...
      -- No me diga para ficar calma! -- Seu rosto estava vermelho e
seus braos rgidos. -- Voc disse que iria voltar! Jurou que voltaria. E
isso foi h uma hora!
      Ele no acreditava na contundncia dela. Irritado, justificou:
      -- Estive um pouco ocupado.
      Stephanie olhou pata Leslie:
      -- Tenho certeza de que sim.
      -- Eu os peguei com a mo na massa -- disse Randy.
      -- Como assim?
      -- Quero dizer que parece que Jack e Leslie esto pensando em
fazer outras coisas.
      -- Cala a boca! -- gritou Jack. -- Olha, Stephanie, as coisas aqui
esto um pouco complicadas, certo? Eu s deixei voc por... -- ele o-
lhou para o relgio. No podia ser. Ele balanou o brao. Estava fun-
cionando. Devia ter adiantado quando ele foi sugado pelo tnel. -- Al-
gum sabe que horas so?
      Leslie respondeu:
      -- Quase 3h15.
      Nenhum dos quatro acreditou.
      --  impossvel -- disse Randy. -- Estamos aqui h trinta, qua-
renta minutos, no mximo.
      -- So 3hl5 no meu relgio tambm.
      Stephanie colocou a mo na testa e comeou a andar de um lado
para o outro.
      -- Fiquei naquele armrio por quatro horas? No acredito que voc
fez isso comigo, Jack. No acredito...
      -- No acredito -- Randy a imitou, a voz aguda e a mo na testa.
Olhou bem na cara dela. -- Oua o que est falando, Barbie. Acha que
estava pior do que a gente? H? Bem, acredite: temos menos de trs ho-
ras para sair deste lugar ou vamos morrer. Se esqueceu disso?
      Stephanie se encostou na porta, com a cara amarrada.
      Jack olhou para ela e continuou a sua explicao para Randy:
      -- Pete... -- parou, reticente de se justificar s custas de Leslie.
      -- Que tem o Pete? -- perguntou Randy.
      -- Estou bem -- disse Leslie, olhando para Jack.
      -- Claro que est -- falou Stephanie. -- Quem no estaria bem
com o querido Jack vindo salv-la?
      -- Voc pode calar essa boca? -- disse Jack. Tanto Randy como
Stephanie sabiam o que se passara pela mente de Pete quando ele olhou
pata Leslie na sala de jantar. Talvez a verdade estivesse comeando a
entrar na cabea de Randy. Stephanie, por outro lado, sabia e no pare-
cia se importar.
      Jack foi at a porta por onde Stephanie tinha entrado e a trancou.
      -- Estamos todos vivos -- disse, indo para a segunda porta. Pelo
que podia ver, essa era a nica sada alm do duto de ar.
      -- S para registrar, Leslie e eu estvamos apenas expressando
emoes normais por termos sobrevivido. Se tiverem algum problema
com isso, esperem at amanh.
      Ele trancou a segunda porta e se virou.
      -- No momento, precisamos descobrir como sobreviver nas pr-
ximas trs horas.
     22       3h43




Ficaram discutindo e especulando por uma meia hora, tentando desco-
brir o que poderia ter acontecido nas ltimas horas. Pelo menos, eles
contaram os detalhes mais importantes -- ou era o que Jack esperava,
apesar de no acreditar que Randy fosse to comunicativo como parecia.
      Depois de contar o que tinha acontecido com cada um, eles ainda
no sabiam o que estava acontecendo.
      O que tinha sugado Jack para o corredor escuro?
      O que tinha subido pela perna de Stephanie?
      O que tinha acontecido com o corpo de Stewart?
      Quem era Susan e o que tinha acontecido com ela?
      As dvidas s pioravam. Por que as portas abriam e fechavam so-
zinhas? Por que nenhum deles conseguia se ver refletido nos espelhos?
Por que o assassino no tinha vindo atrs deles no poro?
      -- Posso responder isso -- disse Randy. -- Ele veio. Vocs s
no o viram.
      Leslie ficou pensando:
      -- Claro, ele tem algum controle psicolgico...
      -- No  nada psicolgico. Estou falando fisicamente. Eu o vi en-
trar.
      -- O qu? -- se espantou Jack.
      Randy sentou-se em um tambor com a escopeta no colo, olhando
para Jack, que tinha parado de andar para encar-lo. Leslie e Stephanie
tinham se sentado sobre uma base de ao que saa das caldeiras.
      -- A porta dos fundos -- disse Randy. -- Eu vi quando ele en-
trou por l.
      -- Qual porta dos fundos? Por que no disse nada antes?
      -- Ele a trancou com um cadeado. E no sei dizer onde fica essa
porta. Mas sei que ele est aqui embaixo.
      -- E voc se esqueceu desse detalhe? -- questionou Leslie.
      Randy deu um sorriso sarcstico:
      -- No  importante. Temos outros problemas.
      -- Como qual?
      -- Como sair daqui.
      -- Voc quer dizer, sair com vida, certo? -- perguntou Leslie. --
O que quer dizer que precisamos saber quem so nossos inimigos e on-
de eles esto.
      -- Como eu disse, temos outras coisas com as quais devemos nos
preocupar alm do White -- disse Randy. Ele agarrou a arma e colocou
mais balas. -- White  um cara s. Podemos peg-lo. Mas vocs preci-
sam se perguntar por que o Stewart desapareceu.
      -- Porque voc estava alucinado -- disse Leslie.
      Ele agarrou a camisa molhada:
      -- Voc acha que isso  alucinao?
      -- Voc deixou o Stewart se afogar -- disse Leslie. -- J deixou
algum se afogar antes, Randy? Acho que no. Voc sabe por que eles
fazem a infantaria passar uma semana de treinamento no inferno? Para
que eles no fiquem tendo alucinaes quando estiverem no meio da
batalha. A mente  um instrumento frgil. Fica louca com facilidade. Se
h algo que precisamos nos perguntar  por que nos transformamos em
pessoas to diferentes desde que entramos nesta casa.
       Randy olhou para ela, mas no respondeu. Era uma boa pergunta.
At ele percebia o que o estresse tinha feito.
       -- Ela est certa, Randy -- disse Jack. -- Pense nisso. Voc con-
tou como o Stewart morreu de forma detalhada sem pestanejar e ns
nem ligamos. H um momento em que a ficha comea a cair, certo? O
problema  que no d para ser agora.
       -- D licena -- disse Stephanie. -- Mas que baboseira toda  es-
sa? Vocs no ouviram o que ele disse? O assassino est aqui embaixo
conosco! Vamos morrer! O que vocs esto pensando? Que  s uma bes-
teira de comer comida de cachorro?
       Jack queria cruzar a sala e bater nela. Ela no estava pensando di-
reito.
       Novamente, fazia tempo que ele no a via to emocionada. A mis-
tura de sentimentos velhos e novos foi o que o fez parar.
       Pelo menos, Leslie ignorou o soco cruel:
       -- S estou dizendo que precisamos nos conter e no permitir que
as circunstncias tomem conta da nossa cabea.
       -- E suponho que as cobras estavam na minha cabea, tambm
-- disse Stephanie.
       -- Aparentemente, sim.
       Stephanie olhou para ela. No tinha realmente certeza.
       Jack voltou a andar:
       -- Est bem, vamos usar algum mtodo.
       -- Acho importante discutirmos se o que est acontecendo  real
-- disse Leslie. -- A resposta vai mostrar como devemos lidar com tu-
do isso.
       -- Como?
       -- As cobras da Stephanie, por exemplo. Se forem reais, podemos
mat-las com facas ou outra coisa. Se forem iluses da mente,  s fe-
char os olhos e afast-las.
      Fazia sentido. Stephanie bufou, cansada.
      -- Certo -- disse Jack. -- Vamos fazer isso. O que mais aconte-
ceu que poderia entrar nessa categoria?
      -- No acredito que estamos sentados aqui...
      -- Por favor, Stephanie, tente usar menos a boca. Tente nos a-
companhar.
      Ela fechou a boca e o encarou. Ele tinha que reconhecer, no en-
tanto -- ela tinha tido alguma coragem naquele armrio. Pelo menos,
no estavam negando nada, fugindo. Ele tinha de respeit-la por isso.
      -- Randy, voc viu alguma coisa que poderia ser um truque da
mente?
      -- Concordo com Stephanie. No vejo de que forma isso poder
nos ajudar.
      -- E se voc acha que est vendo uma porta fechada e vai embo-
ra? -- disse Leslie. -- Voc vai embora quando poderia sair do recinto.
      -- Eu ouvi ele fechar a porta dos fundos. Eu vi o cadeado antes de
ele fechar...
      -- E a arma? -- perguntou Jack, apontando para o colo de Randy.
-- Poderamos estourar os cadeados.
      Todos olharam para ele com uma percepo renovada. Randy des-
ceu do tambor, os olhos brilhavam.
      -- Sabia que essa arma poderia ser a chave para sairmos daqui.
Vamos estourar as portas. Uma trava, um tiro.
      -- Espere -- disse Jack, levantando a mo. -- Vamos organizar
tudo isso.
      -- Para qu? -- falou Stephanie. -- Randy est certo!
      -- Para comear, Stephanie, voc acabou de descer a escada prin-
cipal, certo? Sabe como voltar? No achou um pouco estranho que vo-
c simplesmente tivesse vindo dar aqui, conosco? Os corredores aqui em-
baixo no fazem nenhum sentido, mas voc quer sair andando por a.
       Ela no respondeu.
       -- Concordo. Procurar a porta com a escopeta pode ser um bom
plano -- retomou Jack. -- Se a encontrarmos. Mas no vamos desper-
diar nossas chances saindo daqui sem ter clareza do que est aconte-
cendo. Ento vamos pensar: o que vimos que poderia ser iluso?
       A casa rangeu acima deles e todos olharam para o teto.
       Depois de um segundo, Leslie abaixou os olhos:
       -- Isso. O vento est fazendo barulhos pela casa. Ouvimos um
barulho, mas nossa mente est to tensa que esperamos mais coisas e
olhamos para cima. Engano induzido pelo estresse, s isso.
       -- E os espelhos? -- perguntou Jack.
       -- Deve ser algum tipo de truque -- ela respondeu. -- Pete me
falou que eles costumavam viajar com um circo. Algum viu o reflexo
de alguma coisa que estava to perto do espelho quanto a gente?
Randy?
       -- Quer dizer em primeiro plano? Na verdade, agora que voc es-
t mencionando, no. Jack e eu no conseguimos ver nossos reflexos,
s o quarto atrs.
       -- Jack?
       --  verdade. No tinha pensado nisso.
       -- Sei que um espelho pode ser fabricado de um jeito que no re-
flita luz a uma certa distncia.
       Jack conseguia sentir que a sala se enchia de algo como um campo
de fora. Tinham uma arma, tinham respostas -- duas coisas que pode-
riam ter evitado tudo que acontecera naquela noite. Decidiu, naquele
momento, nunca mais viajar sem uma arma.
       -- Certo, e o sumio do corpo de Stewart?
       Randy olhou para eles. Ele estava comeando a pensar direito, pensou
Jack.
       -- Est bem, isso  um pouco difcil.
      Ele fechou os olhos, levantou o queixo e respirou fundo. Ficou em
silncio. Sua vulnerabilidade era palpvel.
      Ficaram quietos por um longo e constrangedor momento.
      Randy deu outro suspiro e olhou para eles:
      -- Quando Jack foi sugado pela porta e eu terminei naquele lugar
com gua, alguma coisa aconteceu. Achei que ia morrer. No d para
imaginar como , ver algum se afogar enquanto voc pensa em esquar-
tej-lo.
      -- Tenho certeza de que foi bem difcil -- disse Leslie. Ela cami-
nhou at ele e segurou sua mo, mostrando apoio. -- Vai ficar tudo
bem.
      Ver essa cena incomodou Jack, mas no porque ele gostava de
Leslie tanto assim. Simplesmente porque no confiava em Randy. A i-
dia de algum confiando nele o deixava nervoso.
      -- Est certo -- acabou falando. -- Algumas das coisas que vi-
mos foram provveis resultados de nossa imaginao estressada. Pelo
que me lembro, poderia ter pulado dentro do tnel. Uma corrente de ar
forte... -- ele franziu a testa. -- Acho que  possvel que tenha imagi-
nado que estava sendo sugado.
      Leslie olhou pata Randy:
      -- Talvez voc tenha visto um corpo porque precisava que Ste-
wart tivesse morrido; no  algo estranho.
      Ele pensou:
      -- Talvez.
      Jack levantou uma sobrancelha para Leslie:
      -- E o cheiro...
      -- Ns nos acostumamos por causa do estresse, ento no senti-
mos mais.  uma explicao.
      Jack respirou fundo e comeou a andar de um lado para o outro,
esfregando o rosto para tentar esclarecer tudo.
      -- Deixe-me entender. Fomos todos atacados por um assassino
em srie chamado White que gosta de elaborar jogos. Ele j matou sa-
be-se l quantas pessoas durante vrios anos e termina nos cafunds do
Alabama onde no passa ningum alm de um ou outro viajante perdi-
do. Tudo bem at aqui?
      Leslie se levantou e cruzou a sala.
      -- No somos as primeiras vtimas dessa casa. A ltima foi Susan,
que conseguiu escapar. Nossos anfitries esto trabalhando com White,
mas seu ltimo erro -- estou falando de Susan -- mudou o relaciona-
mento entre eles; Stewart e Betty estavam sendo pressionados. Mas isso
encaixa no jogo de White, porque ele quer que outros matem por ele.
Quer forar suas vtimas a pagar por seus prprios pecados. Como es-
tou indo?
      -- Dem-me um corpo -- falou Randy.
      -- Regra nmero trs -- completou Jack.
      --  o que achei ter ouvido White dizer nos tneis.
      Leslie virou-se para ele:
      -- Voc ouviu a voz dele? Outro pequeno detalhe que se esqueceu
de contar?
      -- Acho que ouvi. De qualquer forma, voc est certa. Ele quer
que nos matemos. Isso  o mais importante, no?
      Era. Todos tinham de saber disso naquele momento, pensou Jack:
      -- Ento o plano dele era nos trazer para esta casa e nos atrair pa-
ra esse poro que, aparentemente, no  s um poro. Como vocs v-
em esse lugar? No d para ter idia de como ele .
      -- Tneis, buracos, tanques... -- Leslie pensava em voz alta. --
Talvez seja parte de uma mina.
      -- Que tipo de mina no meio do Alabama se parece com isso? --
perguntou Randy.
      -- Catacumbas -- falou Stephanie. -- Talvez seja mais do que
uma mina. Algo construdo para esconder escravos depois da guerra.
Pelo que vimos, esta casa est construda em cima de uma sepultura co-
letiva.
      Randy comeou a rir.
      -- Por favor, vamos manter o foco -- disse Leslie. -- No esta-
mos em Poltergeist.
      Stephanie encolheu os ombros:
      -- S estou dizendo.
      -- A questo : esse White est nos manipulando desde o comeo
-- cortou Leslie. -- Ele nos mantm presos neste lugar com quatro ou-
tras pessoas. So oito pessoas lutando uma contra a outra. A ltima a
sobreviver sai com vida... ou algo assim. Betty, Stewart e Pete so to
vtimas como ns.
      -- Mas eles no contam -- disse Randy.
      -- Como?
      -- Outra coisa que a voz disse.
      Todos olharam para ele.
      -- Por que eles no contariam? -- perguntou Jack.
      -- So como ele? -- devolveu Randy. -- Esto no time dele?
      -- Mas Susan disse que White iria mat-los por deix-la escapar.
De uma forma ou de outra, ele vai matar todo mundo nesta noite. Ou
assistir enquanto nos matamos.
      -- Um a menos -- falou Randy.
      -- Ento temos que matar Betty e Pete -- completou Stephanie.
      -- No, temos que sair daqui -- falou Jack.
      -- Mas se eles entrarem no nosso caminho, vamos mat-los -- fa-
lou Randy. -- Garanto: se um desses dois pervertidos aparecerem na
minha vista, vo virar picadinho.
      Leslie olhou para ele.
       -- Que foi? No concorda?
       -- No. Se voc encontrar o Pete, pode colocar uma bala na viri-
lha dele por mim.
       Dadas as circunstncias, Jack no poderia culp-la por sentir-se
daquela forma.
       -- Ento vamos sair, certo? -- perguntou Stephanie.
       -- Com o Stewart fora do caminho, podemos ter uma chance --
respondeu Leslie.
       -- E quando sairmos, o que faremos? -- perguntou Randy.
       -- A menos que consigamos eliminar o White, ele vir atrs de
ns.
       -- Podamos usar aquela caminhonete.
       -- Est destruda. Vamos ter que correr at a estrada principal.
       -- Voc acha que h alguma chance de algum ter visto os carros
e avisado algum? -- perguntou Stephanie. -- Quero dizer,  possvel,
no? Aquele patrulheiro sabia que estvamos vindo para c.  s uma
questo de tempo antes de ele chegar. A nica questo : ser que chega
aqui antes do amanhecer?
       -- Temos que encontrar a Susan -- disse Jack.
       Nenhum deles respondeu.
       --  muito srio. No podemos sair daqui sem a menina.
       -- Bom, isso  um problemo, no ? -- falou Randy. -- No sa-
bemos onde essa Susan est. E se voc estiver certo, eles esperam que a
procuremos. Vamos cair direto nas mos do White. Ele no  nenhum
idiota. Sabe que algum vai querer salvar a garotinha.
       -- Qual  o seu problema? -- Leslie perguntou, descontrolada. --
Ela tambm  uma vtima aqui, como ns. No podemos simplesmente
abandon-la aqui!
       -- De acordo com voc, Betty tambm  uma vtima. Voc quer
salv-la tambm?
      -- Ela  uma assassina!
      Randy balanou a cabea, irritado.
      -- No temos como encontrar essa garota aqui -- falou Stephanie.
-- Voc disse que ela estava se escondendo h alguns dias?
      -- Faam o que quiserem -- falou Randy. -- Se a encontrarmos,
timo, ela sai conosco. Mas no podemos ficar aqui embaixo procuran-
do uma garota. Temos que sair!
      Parecia correto. Mas para Jack estava tudo errado. Ele olhou para
Leslie. Os dois sabiam que Susan os tinha salvado.
      O som de um rangido longo tomou toda a sala. Jack procurou a
fonte do rudo, mas no conseguiu encontr-la.
      Era como se as paredes fossem feitas de madeira e um forte vento
estivesse empurrando todas as tbuas em uma nica direo, bem len-
tamente.
      -- V? -- gritou Stephanie. -- Foi isso o que eu ouvi. E voc est
dizendo que era tudo fruto da minha mente?
      O rudo finalmente diminuiu. At Leslie estava respirando mais
forte.
      -- Tem algo errado com este lugar -- disse Randy. -- Temos que
sair. Agora -- ele agarrou a arma e caminhou at a porta por onde tinha
entrado.
      -- Espera, ainda no fechamos um plano -- falou Jack.
      -- Vamos abrir as portas, esse  o plano.
      -- Qual porta? Quem abre qual porta? E o que acontece se algo
d errado? Espere um minuto!
      Randy se virou. Sua expresso mostrava claramente que ele no ti-
nha pensado em nada disso. Stephanie tinha comeado a segui-lo. Fazia
sentido -- eles pensavam de forma parecida. Sair, e agora. S isso.
      Como o casamento deles.
      O rangido voltou, no to alto, mas por um longo tempo. Era o
som mais antinatural que Jack poderia imaginar. Ele tremeu, inconscien-
temente.
      Antes que Randy pudesse sair, Jack tentou faz-lo pensar:
      -- Tem certeza de que essa arma vai funcionar contra a coisa que
est fazendo esse barulho?
      -- Pra com isso! -- Leslie falou. -- No estamos lidando com
fantasmas aqui, pelo amor de Deus. Vamos agir como adultos!
      -- E com o que estamos lidando? -- indagou Stephanie, e Jack
agradeceu por ela ter feito essa pergunta. -- Histeria em massa?
      -- No sei! Canos? A casa em cima de ns est se movendo por
causa do vento. Ela tem uma teia de canos enferrujados embaixo. Como
 que eu...
      -- O som est vindo das paredes, no dos canos -- insistiu Ste-
phanie.
      -- O som reflete -- respondeu Leslie.
      -- E as marcas de furos no seu rosto e na sua mo? Voc ainda
pensa que foram incidentes? Ou algo como dardos?
      O rosto de Leslie ficou srio:
      -- Do que voc est falando?
      Stephanie olhou para o cho:
      -- No sei. Mas voc tambm no, certo? Mesmo assim, voc in-
siste que no h nenhuma chance de estarmos lidando com algo sobrena-
tural aqui. Est pronta a apostar nossa vida nisso?
      Leslie no respondeu.
      -- Bem...
      -- Certo. Ento talvez haja alguma coisa aqui que no podemos
explicar sem destruir a casa. Podem chamar de sobrenatural se quiserem.
Por definio, o sobrenatural  somente o que est alm da nossa com-
preenso da natureza -- o olhar dela era de raiva. -- No tenho certeza
de que no existam coisas como fantasmas. Algum tipo de existncia na-
tural alm da morte -- quem sabe? Mas ficar correndo de forma enlou-
quecida porque achamos que um esprito maligno est nos nossos cal-
canhares s vai piorar a situao!  preciso manter a cabea no lugar!
      -- Meu objetivo  manter minha cabea! -- devolveu Stephanie.
-- E isso quer dizer: sair daqui!
      -- Voc e Randy estavam prontos para sair daqui antes de bolar-
mos um plano.  o tipo de coisa idiota que aparece quando as emoes
dominam.
      Jack pensou que era hora de intervir:
      -- Ento voc est dizendo que acha que talvez possa existir algo
sobrenatural na casa? -- ele perguntou a Leslie. -- Por que Susan...
      -- Eu sei o que ela falou!
      -- Calma! -- ele disse, com um olhar perfurante.
      Ela evitou os olhos dele.
      -- Se o White sabe que h algo errado com a casa...
      -- Fala logo, Jack -- pediu Leslie. -- Voc quer dizer assombrada,
no ? Diga logo.
      -- Certo, isso mesmo. Se White sabe que essa casa  assombrada
porque j foi usada para assassinar escravos ou qualquer outra coisa...
      Aventar essa possibilidade fez com ele se sentisse estranho.
      -- ...o que vocs admitem ser uma possibilidade apesar de no sa-
bermos...
      -- Admitimos.
      -- ...ento no seria bom saber como lidar com uma casa mal-
assombrada?
      Todos olharam para ele.
      -- Sei que parece estpido, mas no  disso que estamos falando?
Sabemos algo sobre o assassino, at onde assassinos em srie podem ser
compreendidos; sabemos algo sobre Betty e Stewart e Pete. Temos um
plano para arrebentar as portas trancadas e chegar at a estrada principal.
Mas e a casa?
      -- Voc est dizendo que a casa pode estar tentando evitar que a
gente saia? -- perguntou Leslie.
      -- Estou s tentando garantir que nossas bases estejam cobertas
antes de tentarmos alguma coisa.
      -- No acredito em casas mal-assombradas -- falou Randy.
      -- Nem eu -- concordou Leslie, olhando para ele. -- Mas isso
no quer dizer que essa casa no seja... estranha. Acabamos de perceber
isso: voc no ouviu?
      Ele a ignorou.
      -- A questo, se eu entendi direito o que o Jack falou,  como li-
darmos com uma casa assombrada, certo?
      -- Certo.
      Ningum tinha nenhuma sugesto. Estavam todos ocupados ten-
tando imaginar aquilo. Era evidente que ningum tinha idia de como
lidar com algo mal-assombrado.
      -- Algum tem gua-benta? -- perguntou Stephanie.
      -- O que quer dizer mal-assombrada? -- perguntou Randy. --
Significa que algum fantasma ou outra coisa a est assombrando. Ento
ns apaziguamos esse fantasma. Ou o matamos.
      O rangido voltou, mais alto do que antes. E por mais tempo. Eles
ouviram, olhando um para o outro, mas isso no os acalmava.
      -- Canos -- disse Jack quando o barulho parou.
      Ningum comentou.
      -- Vamos procurar a porta dos fundos primeiro -- sugeriu Jack.
-- Ser que voc consegue voltar l, Randy?
      -- Acho que sim.
      Jack concordou com a cabea:
     -- Se nos separarmos e no conseguirmos sair, a gente se encontra
aqui de novo.
     -- E se um conseguir sair? -- perguntou Randy.
     -- Corre at a estrada.
     -- E se no conseguirmos voltar? -- Foi a vez de Leslie.
     -- A vamos at a porta no alto da escada principal e samos por
ali.
     -- Atiro em tudo que se mexer? -- perguntou Randy.
     Jack concordou, pegando a espada que Randy tinha deixado no
cho:
     -- Se encontrarmos Betty, Pete ou White, atite. Abaixo da cintura
se possvel.
     Randy balanou a cabea:
     -- Est bem, timo. Vamos nessa.
     Ele tomou a frente e caminhou at a porta por onde tinha entrado,
com a escopeta na cintura.
     23       3h53




Eles caminharam rapidamente e em silncio em fila indiana, com Ran-
dy  frente, seguido por Stephanie e depois Leslie. Jack fechava a coluna
com a espada de Randy.
      No momento em que entraram no tnel onde tinha visto Stewart,
Randy sentiu a onda de confiana que tinha lhe dado fora para sua fu-
ga anterior.
      A arma estava carregada com o suprimento de balas que tinha ti-
rado do corpo de Stewart. Havia mais 11 na caixa. Randy ficou pensan-
do se teria coragem de fazer o que tinha de ser feito. Tinha aprendido
umas coisinhas naquela noite e uma delas era que colocar uma arma na
cabea de algum e puxar o gatilho no era algo fcil.
      Sim, ele tinha coragem. No tinha certeza de que se orgulharia dis-
so, mas achava que conseguiria. E agora era ele quem liderava o grupo
pelos tneis escuros -- no estava sentindo muito medo.
      Pela estimativa de Randy, demorariam uns cinco minutos para vol-
tar ao quarto onde Stewart tinha se afogado. Eles estavam tentando ir
bem lentamente para no fazer muito barulho.
      A porta de madeira em forma de arco ainda estava aberta.
      Randy parou.
      -- Que foi? -- sussurrou Stephanie atrs dele.
      -- Foi aqui que eu vi... -- ele apontou para o cho de concreto.
      -- O corpo?
      -- .
      -- O que foi? -- sussurrou Leslie, agachando-se.
      -- Sumiu mesmo -- disse Randy.
      Eles se entreolharam e depois viraram para o tnel. Nada. Ou ele
tinha perdido a razo por um momento ou White tinha levado o cad-
ver. Randy entrou logo naquele aposento, passando pelo degrau. Queria
provar para todos que o afogado tinha mesmo morrido.
      -- Devagar -- sussurrou Stephanie.
      Vou  deixar voc mais devagar se no calar a boca. Era s um pensa-
mento, no queria dizer nada.
      Ele conseguia ver a gua agora. O largo cano que levava ao tanque.
Randy andou at o centro do lugar com a gua pelo tornozelo. Ele se
virou, consciente de que estava sorrindo.
      Os outros tinham parado na entrada e olhavam para baixo.
      -- Foi aqui que aconteceu -- ele contou.
      Eles olharam sem concordar ou negar. Mas isso j era uma forma
de concordar.
      -- Vocs querem ver...
      -- Tire a gente daqui -- disse Leslie, nervosa.
      Est bem, ento. Ele virou  esquerda, subiu outro degrau em dire-
o  passagem adjacente. Mais uns 15 metros e virou  direita. Atravs
da porta pela qual ele tinha corrido, que agora estava aberta, permitindo
que um pouco de luz quebrasse a escurido.
      Mas a porta que levava para a oficina onde tinha encontrado a ve-
lha arma estava trancada.
      -- Trancada -- falou. -- Esta porta vai dar na passagem at a
porta dos fundos.
      -- E o que fazemos? -- perguntou Stephanie.
      Voc enfia a mo na boca e deixe ela a. Mais um pensamento.
     -- Arrombamos -- ele respondeu.
     -- Eles vo ouvir -- disse Jack.
     -- Talvez. Mas estamos isolados por um monte de lixo atrs des-
sas paredes de concreto. E h uma oficina do outro lado dessa porta.
Acho que vai dar certo.
     Antes que algum pudesse discordar, ele levantou a arma, mirou a
uns trinta centmetros da maaneta e...
     -- Randy...
     ...puxou o gatilho. Bum!
     Cara, como foi alto!
     -- Isso -- disse, e empurrou a porta.
     Eles entraram na oficina e pararam para ouvir. Nada. Claro, os ou-
vidos ainda zumbiam.
     -- Por aqui.
     -- No vou sair -- disse Jack.
     Randy olhou para ele.
     -- Como assim, voc no vai sair? A porta est logo...
     -- Mostre-me o caminho. Tenho que voltar e tentar encontrar Su-
san primeiro.
     Randy abriu a porta.
     -- Voc  quem sabe.
     Saram em uma passagem com a porta de sada visvel a uns 15
metros  esquerda quando ouviram uma voz abafada.
     Stephanie segurou o grito. Randy colocou o dedo em seus lbios.
No fundo do corredor, depois da porta que levava para o grande est-
dio com a mesa e o pentagrama e o espelho que no funcionava. Betty.
     -- Rpido! -- Randy se virou para correr para a sada, mas uma
mo segurou seu cotovelo.
     -- Me d um minuto! -- sussurrou Jack. -- Susan deve estar com
ela.
     -- Est louco? Estamos to perto!
     -- Voc tem que esperar por mim.
     -- De jeito nenhum.
     -- Se voc atirar no cadeado, ela vai ouvir e no terei nenhuma
chance. Um minuto, s isso.
     -- E se eu esperar por voc, vindo correndo pelo corredor com
uma menina nos braos e ela atrs com uma arma nas mos, ns todos
danamos.
     -- S me d um minuto! Ela salvou a vida de Leslie!
     Ele disse isso como se fosse algo decisivo. Talvez fosse, mas
Randy no estava pensando direito. Ele tinha a arma, estavam bem pro-
tegidos na passagem -- um minuto no faria mal, pensando bem.
     -- Um minuto e ns vamos embora. Vamos esperar voc perto da
porta.
     -- Vou com ele -- Leslie sussurrou.
     -- Voc  quem sabe.

                                  ***

      Randy e Stephanie ficaram na passagem que levava para a sada.
      -- Loucos -- sussurrou Randy, olhando enquanto eles andavam
at a porta. -- Vamos acabar mortos.
      -- Voc acha?
      -- Com certeza.
      -- Talvez devssemos ir embora -- disse Stephanie.
      Sua sugesto o surpreendeu um pouco:
      -- Deix-los aqui e ir embora?
      -- Bom, voltaramos com a polcia, no?
      Ele considerou o plano. No era bem um plano, mas uma estrat-
gia "cada um por si". Ou pelo menos ele e Stephanie sozinhos.
      Jack e Leslie ainda estavam se aproximando da porta no outro ex-
tremo do corredor. Se no fosse por aquela menina abandonada, eles j
estariam do lado de fora.
      -- No posso fazer isso -- ele finalmente respondeu.
      Stephanie cruzou os braos e olhou para os lados de forma nervo-
sa.
      -- No gosto disso. Devamos ir embora.
      -- Fica quieta. Disse que amos dar um minuto para eles, nada
mais. S...
      A porta atrs deles se abriu. Randy ouviu Stephanie gemer. Ele gi-
rou. Pete estava ali, com um brao amarrado ao pescoo e o outro so-
bre a boca de Stephanie, arrastando-a para a porta.
      Randy girou a arma, apontou para eles e chegou perto de atirar.
Mas havia um primeiro problema -- Stephanie estava no meio.
      O segundo era que Jack estava certo: um tiro aqui iria alertar toda
a casa.
      Pete entrou pela porta e desapareceu.
      O pulso de Randy reverberava em sua cabea. Olhou para o cor-
redor e viu que Jack estava perto da porta do estdio, sem saber o que
tinha acontecido.
      No podia avisar Jack e Leslie sem alertar Betty, o que no era
bom. Ele tinha duas opes: deixar que Pete fugisse com a Stephanie ou
persegui-los antes que desaparecessem.
      Randy soltou um palavro e correu para a porta.
      Podia ouvir Stephanie gritar atravs dos dedos de Pete,  sua direi-
ta. Depois, ela gemeu e ficou quieta.
      Pete no tinha uma arma e Randy, sim. Isso fazia uma grande dife-
rena.
      Ouviu o som da porta se fechando atrs dele.
      Pete estava em desvantagem e arrastava um corpo -- ou o carre-
gava nos ombros. De qualquer forma, Randy deveria dar conta dele
com mais facilidade do que tinha tido com seu pai. Surpresa e intimida-
o. Ele estouraria o cara antes que ele percebesse.
      Randy foi at a porta que tinha batido, abriu e olhou para fora.
Duas direes. No sabia para onde tinham ido. Mas se tinha entendido
a histria de Jack e Leslie, tinha idia de onde era o esconderijo de Pete
e tinha certeza de que eles tinham ido para l.
      De novo  direita. Ele passou por uma esquina e entrou em um
corredor que no tinha visto antes. A sola de couro dos seus sapatos
estragados fazia barulho no corredor de concreto. Agora quem era o
caador?
       esquerda, a nica sada. Ele virou sem frear.
      Mas estava se afastando da sada. E White estava aqui, escondido
em algum lugar.
      Dois pensamentos lhe ocorreram simultaneamente como um ca-
no-duplo de uma arma; e um calafrio subiu sua espinha, algo que no
sentia desde a perseguio de Stewart.
      Medo.
      Ele diminuiu o passo, e o corao batia com tanta fora que no
conseguia pensar direito. Eles tinham chegado to perto! Um nico tiro
naquele cadeado e poderiam ter sado na chuva. Com uma arma nas
mos! Ele deveria ter sado.
      -- Estpida, estpida, estpida...
      Nenhuma outra palavra descrevia com tanta preciso como ele o-
diava Stephanie nesse momento. Mas tinha um compromisso.
      Tinha mesmo? Parou. Olhou sobre o ombro. Na verdade, poderia
voltar. Deixar todos eles e chegar  estrada armado com uma escopeta.
Alcanar os celulares que ele e Leslie tinham deixado no carro. Pedir
ajuda e chegar  cidade.
     Em algum ponto  frente, Stephanie gritou. Ele tinha soltado sua
boca. O que provavelmente queria dizer que Pete havia alcanado seu
esconderijo.
     Randy caminhou devagar, decidido mas bastante desapontado com
a oportunidade perdida. Cada passo o fazia entrar mais no poro, dis-
tanciar-se mais da porta. Jack e Leslie provavelmente pegariam a menina,
chegariam  porta e fugiriam enquanto ele estava ali tentando resgatar a
garota do Jack.
     Ele comeou a andar nas pontas dos ps. No fazia idia de como
Pete havia corrido tudo aquilo, ainda mais com a cabea quebrada, co-
mo Jack tinha contado.
     Randy virou uma esquina e encontrou uma porta, que brilhava
com uma luz amarela. O corredor desaparecia por outra esquina mais 
frente, mas tinha de ser aquela porta.
     Ele se aproximou com cuidado. Surpresa, esse era o plano, mas ele
no tinha muita energia para isso, no momento.
     -- Por favor... -- ele conseguia ouvir os pedidos abafados de Ste-
phanie por trs da porta. -- Por favor, eu fao qualquer coisa.
     -- Voc pode ser minha esposa -- falou Pete.
     Ela no respondeu.
     Randy se inclinou para a frente. Ele no sabia em que lugar do
quarto eles estavam e os buracos na porta eram muito pequenos para
que ele pudesse v-los. Se Stephanie conseguisse distra-lo...
     -- Por que voc no abaixa isso? -- ela perguntou.
     Randy se afastou. O cara tinha uma arma?
     -- Quero que voc coma o cereal -- falou Pete.
     Randy olhou de novo para o corredor. Ainda poderia ir embora.
     -- Esse cereal? -- ela perguntou.
      Se fugisse agora, ainda conseguiria sair da casa. Jack e Leslie pro-
vavelmente j teriam sado. Ele imaginou a porta aberta e a Betty gri-
tando no meio da chuva.
      -- Vai fazer com que fique forte como eu.
      Ela hesitou. Chorava baixinho.
      -- Tem certeza? -- falou.
      -- Sim, sim! Leslie era uma garota m.
      -- Leslie no comeu o cereal?
      -- Leslie era uma garota m.
      -- Mas se eu comer o cereal, serei uma boa garota? -- disse Ste-
phanie, a voz tremendo.
      -- Voc ser minha esposa.
      -- E voc vai me tratar bem?
      -- Se quiser ser forte como eu, vai ter que comer o cereal. Porque
 uma pecadora.
      -- Pecadora.
      Randy piscou. Ela estava manipulando Pete, era o que pensava.
      -- Est bem. V?
      Ela estava comendo aquilo? Ele colocou a mo esquerda na maa-
neta e girou uma frao de centmetro. No estava trancada. Ele a em-
purrou com fora. Nenhuma trava.
      Stephanie agora estava chorando de forma contnua.
      -- Voc vai ficar forte -- dizia Pete.
      Randy entrou porque sabia que o homem que gostava de comida
de cachorro estaria com a ateno completamente voltada para Stepha-
nie.
      Pete estava parado com uma vasilha em uma mo, olhando para
Stephanie que tinha trs dedos na boca. Seu rosto estava marcado pelas
lgrimas.
      Randy puxou o gatilho. Bum! O tiro acertou Pete de raspo, fazen-
do com que ele derrubasse a vasilha. Mas Pete no caiu.
      Armou a escopeta. Outra carga. Bum!
      Essa fez o homem cair de joelhos.
      -- Vamos! -- ele gritou. -- Vamos embora.
      Ela ficou momentaneamente perdida, depois se levantou da cama.
Mas no correu chorando para os braos de Randy demonstrando gra-
tido. Correu, tropeando, at a porta, o rosto branco.
      Ela seguiu Randy pelos corredores. Ele s conseguia pensar em
chegar  sada.
      Ele se lembrou de que no havia rearmado a escopeta depois da-
quele ltimo tiro, e tratou de faz-lo, ciente mas pouco preocupado
com o fato de que Stephanie estava ficando para trs.
      Virou a esquina e entrou no tnel que levaria  sada.
      Foi at onde chegou. No estava sozinho no tnel. O homem com
a mscara estava l. Encarando-o. Uns vinte metros, com as mos ao
lado, o casaco comprido, olhando atravs dos buracos daquela mscara
de lata.
      Randy sentiu nusea. Queria levantar a arma e fazer um buraco
naquela cara, mas no conseguia se mexer.
      Nenhum sinal de Stephanie.
      -- Ol, Randy -- falou White. -- Voc  como eu;  por isso que
vai ganhar essa competio.
      Ele ainda no conseguia ouvir a Stephanie. Onde teria se metido?
      -- Preciso de um cadver -- continuou White. -- Acho que Jack
vai tentar matar voc. Todos sabem que voc  parte da escria.
      A vista de Randy ficou embaralhada. White mexeu o pescoo.
      -- Um corpo, Randy. D-me um corpo antes que ele o mate.
      -- Eu... no posso matar...
      -- Se voc no mat-la, vai acabar morrendo.
     Ela? Ele no conseguia pensar direito:
     -- Leslie?
     -- At os inocentes so culpados, Randy.

                                 ***

       Stephanie tinha perdido Randy, mas no conseguia gritar pedindo
que fosse mais devagar. Ele tinha voltado para ajud-la -- no a deixa-
ria ali.
       Sentia nuseas por ter comido aquela pasta, mas era algo estra-
nhamente bom. Como engolir o bicho que ficava no fundo de uma gar-
rafa de tequila. No. Pior, muito pior -- era uma sensao mais prxi-
ma da de encher a boca com o vmito de outra pessoa. Mas um vmito
cheio de um tipo de alucingeno que enviava sinais agradveis ao cre-
bro.
       Sua repulsa era para consigo mesma, na verdade. Por sua vontade
de fazer qualquer coisa que Pete exigisse. Qualquer coisa. E pela neces-
sidade de ser aceita por ele.
       O pior era perceber que o que ela fez veio naturalmente. Sua nu-
sea, seu pecado, preservar-se a qualquer custo. Ao custo do seu prprio
valor. Perceber isso a deixou mal.
       Tinha se enfiado em uma concha para evitar a dor e no tinha for-
as para se redimir.
       Um pouco de pasta ainda estava em sua garganta. De repente, o
gosto ficou horrvel. Ela parou, inclinou-se e vomitou.
       Limpando a boca, ela cambaleou.
       -- Randy?
       Quando finalmente se sentiu melhor, viu Randy parado, de costas,
a arma apontada para o cho. Ele se virou. Por um momento, parecia
estar diferente.
      -- Voc vem?
      Ela correu.
      -- Sim -- e cuspiu blis.
      Randy comeou a caminhar.
      Quando chegaram ao corredor onde Pete a tinha raptado, a porta
para onde Jack e Leslie tinham entrado estava aberta. A sada ainda es-
tava com o cadeado. Nenhum sinal deles.
      Stephanie podia sentir o cheiro de sua prpria respirao -- pare-
cia enxofre.
      -- Vamos! -- disse Randy, correndo para a sada. -- Quando sa-
irmos, vamos direto pata o bosque, no para a frente da casa -- conti-
nuou. -- Vamos nos proteger e depois pensar em como chegar  estra-
da, certo?
      Ela no respondeu.
      Randy colocou a arma no ombro, apontou para o cadeado e aper-
tou o gatilho.
      -- Vamos!
      Ele pulou os degraus e arrancou a trava quebrada; suas mos tre-
miam. A porta se abriu com facilidade. Eles tinham conseguido?
      Ele girou, agarrou o cotovelo de Stephanie e a puxou, jogando-a
do outro lado.
      S que eles no estavam do lado de fora.
      Stephanie fechou os olhos, mas, ao abri-los, o que via no tinha
mudado. Eles estavam na sala das caldeiras! A quente e sufocante sala
das caldeiras!
      A porta se fechou atrs dela.
      -- Oh, Deus! Oh, Deus! Oh, Deus!
     24       3h59




Jack aproximou um joelho da porta com cuidado e sentiu que Leslie se
encostava nele. Ela aproximou seu rosto e, pelo olhar dela, ele percebeu
imediatamente que algo havia acontecido.
      -- Eles sumiram! -- ele seguiu seu olhar para o final do corredor.
Tinham deixado Randy e Stephanie a menos de um minuto, sendo que
eles haviam prometido esper-los. Mas no havia nenhum sinal dos dois.
A sada ainda estava fechada.
      Um grito distante e abafado o alcanou. Stephanie! Algum a tinha
raptado? Pete ou White.
      Por um momento ele ficou dividido entre ir atrs dela ou atrs de
Susan, que tinha certeza de que estava atrs dessa porta. Randy tambm
tinha desaparecido -- apesar de odiar ser obrigado a confiar nele, Jack
preferiu acreditar que ele tinha ido atrs da Stephanie.
      Ele iria atrs de Susan.
      Jack tinha pensado sobre a questo enquanto caminhava pelos t-
neis. Quanto mais pensava em Susan, mais a comparava com sua filha,
Melissa. Devia ser a inocncia, no a idade, que as unia.
      Ele no tinha sido capaz de salvar sua filha, mas iria fazer todo o
possvel para salvar Susan. Ele sempre havia sido persistente e leal, mas
sua deciso de salvar essa garota agora, no meio desse caos, o havia sur-
preendido.
     Ele tinha encostado Leslie em um canto e falado:
     -- No posso deixar Susan. Vou descobrir onde est a sada e de-
pois voltar para buscar voc.
     Ela olhou em seus olhos:
     -- Vou com voc.
     -- No.
     -- Sim -- ela no poderia ser convencida do contrrio. -- Voc 
um homem bom, Jack.
     Agora eles estavam ali, procurando por Susan, com a sorte de te-
rem encontrado Betty. Se aquilo era bom ou mau, iriam descobrir logo.
     Leslie se agachou na parede oposta, olhando para Jack.
     -- No faz sentido -- dizia Betty por trs da porta. -- Nem um
pingo de sentido. Por que algum iria arriscar o pescoo por sua causa?
Eles no viro.
     -- Jack vir -- era a voz de Susan.
     -- Eles ainda no tm nem idia do motivo de estarem aqui. Voc
sabe disso, no? Estaro todos mortos em algumas horas.
     -- E voc tambm.
     Jack ouviu um tapa.
     Ele quase entrou. Mas ainda no tinha pensado em um plano. Ele
abriu muito vagarosamente a porta.
     O estdio, como eles o chamavam, estava do modo como ele se
lembrava: com a mesa solitria e o grande espelho. Betty olhava para o
espelho de costas para Jack. Tinha uma escova na mo e estava pente-
ando os cabelos longos e emaranhados de Susan.
     Sem arma. Nenhuma que ele conseguisse ver.
     Betty girou a menina para encar-la.
     -- Voc acha que eu no sei umas coisinhas sobre assassinatos?
Os pecadores morrem. Isso significa que White pode ser morto se for a
vez dele. Ele pode ter feito o que contou para dar vida  casa, mas no
podemos nos esquecer de quem ele era antes.
      -- Voc vai morrer at o comeo da manh -- disse Susan.
      Dessa vez, Betty nem se deu ao trabalho de estape-la. Colocou a
escova em seu cabelo e puxou:
      -- J passa muito da hora da sua morte, querida. Voc est certa;
eles viro atrs de voc. Mas no ser como eles imaginam.
      Jack sabia que deveria entrar, mas estava hipnotizado pela conver-
sa das duas.
      -- Eles so mais fortes do que voc imagina -- respondeu Susan.
      -- Se fossem to fortes, voc no conseguiria engan-los, no ?
No sabem se esto indo ou vindo. E no sabem nem qual  o jogo.
      Susan no respondeu. Ser que Betty estava falando a verdade? Se-
ria possvel que Susan estivesse com White?
      -- No sei o que as pessoas vem neste seu rostinho doce --
Betty estava apertando as bochechas de Susan e as duas olhavam para o
espelho. Aquilo era estranho. -- No me importa o que diz White, de-
veramos t-la matado no dia em que pisou neste lugar.
      Betty apertava. Cada vez mais forte.
      Susan chorou.
      Jack se afastou, respirando alto.
      -- Ela... ela est conosco? -- Leslie perguntou. Tinha ouvido tudo.
      -- Em quem voc confia: em Susan, que arriscou seu pescoo pa-
ra salv-la, ou em Betty? -- sussurrou Jack.
      -- Mas Betty no a matou.
      Ele pensou por um momento:
      -- Betty tem razes para mant-la viva. E Susan salvou voc.
      -- Poderia ser parte do jogo.
      -- No! No podemos deix-la aqui, mesmo que seja parte do jo-
go. Vou entrar.
     Ela olhou para a porta:
     -- Est bem. Tome cuidado.
     Jack respirou fundo, empurrou a porta com cuidado e entrou no
aposento, levantando a espada.
     Mas Betty j havia se girado, usando Susan como escudo. Em vez
de uma escova, tinha uma faca nas mos, pressionada contra o pescoo
da menina. Susan viu Jack e o canto dos seus lbios se levantou um
pouco.
     -- J era hora -- disse Betty, sorrindo. -- Largue a espada.
     -- No! -- gritou Susan.
     -- Eu disse para largar!
     Leslie entrou e ficou atrs de Jack:
     -- Mate-a, Jack.
     -- Vou contar at trs para voc soltar essa coisa ou corto a gar-
ganta dela -- falou Betty.
     -- E depois? -- questionou Jack, aproximando-se dela, determi-
nado. -- Hein? E depois, sua doente? Vou garantir que voc nunca
mais possa se levantar, pode ter certeza.
     Betty se afastou, arrastando Susan.
     -- Voc no pode me deixar mat-la, sabe disso -- disse Betty.
Mas havia um pouco de medo nos seus olhos. -- Ela  a nica coisa
que mantm vocs vivos! Ela  parte do jogo. Vocs vo descobrir isso;
juro que vo.
     -- No oua o que ela diz! -- falou Susan.
     Betty apertou um pouco a faca e Susan gritou. Um pouco de san-
gue escorreu de um corte no queixo:
     -- Qual  o problema, no conseguiram chegar  porta dos fun-
dos? A espada no ir ajud-lo l, docinho.
     Leslie caminhou para o canto da sala,  direita de Betty.
       -- No sei o que voc pensa deste jogo absurdo -- ela disse. --
Mas Stewart est morto e White quer que matemos voc.  o que voc
quer? Um banho de sangue aqui embaixo? Ele no vai parar at que to-
dos estejam mortos.  claro que voc sabe disso.
       Betty sorriu:
       -- Vocs acham que Stewart est morto? Ah, ele se afogou, claro,
mas tem pulmes fortes.
       -- Largue a faca -- disse Jack, se aproximando. -- Se voc a ma-
tar, prometo que arranco a sua cabea. Solte a menina.
       --  White quem temos que parar -- disse Leslie. -- Deveramos
trabalhar juntos, no um contra o outro.
       Betty olhou para Leslie. Jack se aproximou. A idia de conseguir
tir-la dali estava parecendo mais difcil do que tinha imaginado. E ainda
havia a possibilidade de que Betty conseguisse matar Susan.
       Leslie continuou andando. Ela tentava parecer confiante, mas es-
tava tremendo.
       -- Leslie? -- chamou Jack.
       -- Voc acha que pode enfiar seu mundo distorcido pela garganta
de um menino e no pagar por isso, ? -- ela disse em um sussurro. 
beira de perder o controle, pensou Jack. Leslie estava falando de Pete.
       -- Leslie...
       -- Voc  uma pecadora, Betty. Tambm  uma pecadora. E seus
pecados esto a ponto de explodir na sua cara.
       Leslie passou por ela. O rosto de Betty estava duro. Ela mirava
Leslie como uma guia. Era a primeira vez que Jack a via perdida.
       -- Voc acredita no inferno, Betty? Eu no. Mas ao olhar para vo-
c, gostaria de acreditar, porque independentemente de como seja o in-
ferno, sei que ele foi feito para voc e seu filho. Vocs podem se juntar
a ns contra o White ou podemos acabar com vocs. O que acha desse
jogo?
     Jack estava a apenas uns 2 metros de Betty. Mas a faca estava bem
apertada contra a garganta de Susan.
     Seus olhos iam de Leslie para Jack e vice-versa. De repente, ela
largou Susan, deixou cair a faca e levantou as duas mos. Susan correu.
     -- Oua o que tenho a dizer, Jack -- disse Susan, girando. --
Quem tem ouvido deve ouvir... Consegue me ouvir?
     -- Est bem, vocs venceram -- disse Betty. -- Eu sei...
     -- Mata ela, Jack -- gritou Leslie.
     Susan estava falando tambm, mas Jack no conseguia entender
suas palavras. As vozes se misturavam em sua cabea.
     -- ...como matar White -- dizia Betty. -- Posso mostrar...
     -- Mata ela! -- gritava Leslie.
     -- ...como mat-lo.
     Susan terminou uma longa sentena:
     -- E se isso no faz sentido,  porque no deveria fazer.
     O qu? Jack olhava para Susan e Leslie:
     -- O qu?
     -- O qu? -- repetia Leslie, sem entender nada.
     -- O que ela est falando? Susan?
     Leslie olhou para a garota:
     -- Nada.
     Ficou o silncio. A cabea de Betty sacudiu em um espasmo por
um segundo, seu sorriso voltou. Os nervos de Jack estavam  beira de
um colapso. Ou ele tinha visto coisas? Agora sua mente lhe pregava pe-
as.
     Tentou entender a situao. Leslie  sua direita, insistindo para que
ele enviasse Betty para o reino dos mortos. Susan  sua esquerda, o-
lhando para ele como se estivesse em choque. Betty no meio, as mos
sobre a cabea, sorrindo nervosamente.
     -- Mate-a! -- gritou Leslie.
      Jack girou a espada. Ouviu o barulho de algo se quebrando. Era o
crnio de Betty. A lmina a atingiu com fora suficiente para envi-la de
encontro ao espelho a um metro e meio de distncia. O vidro quebrou.
      Betty caiu no cho com a barriga pra cima. O sangue escorria da
sua orelha.
      Eles ficaram olhando, sem acreditar naquilo. Uma fumaa preta sa-
a da ferida.
      -- Sigam-me -- disse Susan. -- Corram!
      Ela correu pela porta que levava  sala de quatro sofs.
      Jack viu a arma, aquela com que Betty tinha invadido o quarto de
Pete. Estava encostada na mesa. Ele deixou a espada no cho e agarrou
a escopeta.
      -- Pelo outro lado! -- gritou Leslie. -- Susan...
      -- No, Susan est certa -- disse Jack. -- Estamos mais perto da
escada. Vamos subir. Vamos! -- dessa vez ele iria atirar na fechadura.
      Ele correu atrs de Susan que j estava saindo para o corredor
principal, que levava  escada, quando entrou na sala.
      Leslie estava bem atrs dele.
      Naquele corredor estava a escada que levava para o andar principal.
Se Randy estava certo ao dizer que White estava no poro, eles ficariam
mais seguros no andar de cima. Poderiam sair. E com a arma, no have-
ria nenhum problema para abrir as trancas.
      O corao de Jack quase explodia. Eles iam conseguir.
      E Stephanie e Randy? Com sorte eles j tinham sado. Ele estava
com Susan e Leslie.
      Saiu no corredor e quase atropelou Susan, que tinha parado e esta-
va olhando para a direo oposta  escada.
      -- Vamos, vam...
      Leslie gritou.
      Jack se virou e viu que ela tambm mirava para o fundo do corre-
dor, branca. Ele olhou.
      O assassino os encarava nas sombras, sem se mover. Um casaco
preto aberto. Uma placa de metal cobrindo todo o rosto s deixando os
olhos para fora e uma abertura para a boca. A arma apontava para o
cho.
      -- Um cadver -- ele disse com a voz abafada pela mscara. -- A
bruxa no conta.
      White comeou a andar na direo deles.
      -- Sigam-me -- gritou Susan. Ela abriu a porta do outro lado do
corredor e entrou correndo.
      A arma de White disparou. A carga acertou a porta logo depois
que Susan passou, fechando-a. Se a histria se repetia, ela estava prova-
velmente trancada.
      -- Atira nele -- gritou Leslie.
      Jack apontou sua arma e atirou, acertando a parede.
      Seus braos estavam fracos. Ele s pensava em sair dali. Subir a
escada, passar pela porta. White levantou sua arma.
      -- Rpido!
      Jack comeou a subir a escada, trs degraus de uma vez com Leslie
bem atrs dele. Tinham perdido Susan, sabia disso, mas tambm sabia
que estariam mortos se no atravessassem a porta.
      Bum! O tiro de White destrura a madeira ao lado deles.
      Ele enfiou uma bala na arma, apontou para a fechadura e apertou
o gatilho antes que seu p estivesse firme no patamar da escada.
      O tiro o empurrou sobre Leslie que o empurrou de encontro a
porta. Ela estava aberta, o mecanismo de trava tinha sido destrudo.
      -- Vai, vai!
      Ele pulou para a porta, tropeou no degrau da escada e se espar-
ramou no cho.
      Leslie estava pendurada atrs dele, presa momentaneamente pela
porta que tinha batido na parede adjacente, com fora suficiente pata
voltar.
      -- Leslie!
      Ela se levantou e entrou na sala olhando para todos os lados, igno-
rando-o completamente.
      -- O qu... o que  isso?
      Uma porta do lado direito de Jack se abriu. Randy e Stephanie en-
traram correndo, sem flego, no acreditando no que estavam vendo.
      Depois, o resto do quarto se iluminou. E no era o corredor que
eles esperavam.
      Estavam de volta na sala das caldeiras.
      -- Oh, Deus! Oh, Deus! Oh, Deus! -- murmurava Stephanie.
     25       4h25




A  sala das caldeiras tinha mudado, percebeu Leslie. Grandes letras
vermelhas tinham sido pintadas na parede.
     O pecado se paga com um cadver.
     Randy bufava de dio. Os olhos de Stephanie se moviam ame-
drontados. Tudo o que havia acontecido tinha mexido com eles, era o
que ela pensava. Sua prpria mente estava entrando em parafuso; co-
nhecia esse sentimento muito bem, mas isso no a impedia de julgar os
outros. Dos quatro, somente Jack parecia estar bem.
     Ela ficou surpresa por ter deixado de confiar em Randy. E Jack
no tinha reagido a seus insultos, no que ela esperasse muita coisa dele.
Ainda assim, se havia uma pessoa que poderia tir-los dali, provavel-
mente seria o Jack.
     -- D-me a arma -- gritou Randy, olhando para Jack.
     -- Isso est errado, muito errado -- dizia Leslie.
     -- D-me a arma -- repetiu Randy, estendendo o brao.
     Leslie caminhava em crculo, olhando para o que estava escrito em
vermelho:
     -- Como  possvel? No entendo. Algo sobrenatural est aconte-
cendo, no ?
     -- Achei que voc fosse muito inteligente para acreditar no sobre-
natural -- falou Stephanie.
     -- Sou -- e era. Mas como poderia negar a impossibilidade fsica
do que havia acabado de acontecer? -- Sou. Mas a casa parece saber o
que vamos fazer antes de ns! E nos conhece!
     -- Nos conhece?
     Ela olhou para Stephanie:
     -- Nossas fraquezas. Nossos medos. O pecado que...
     -- Estou falando: d-me a arma! -- Randy gritou, levantando sua
escopeta.
     Leslie ficou brava:
     -- Pare com isso!
     -- No confio nele -- foi a resposta.
     -- No v o que est acontecendo aqui, seu idiota? Estamos de
volta na sala das caldeiras. E estamos atacando uns aos outros. Estamos
perdendo! -- ela sabia que estava falando besteira, mas continuou a
pressionar. -- Ela sabe o que est fazendo! Nossa mente est perdendo
o foco, sendo dominada pelo que nos assombra.
     -- Sei disso. Mas ainda no confio nele.
     Stephanie estava olhando para Leslie:
     -- Voc acha isso mesmo?
     -- Tem uma explicao melhor? Tudo isso  algo sobrenatural.
Maligno. Todas essas coisas, mas  algo mais pessoal. Mas o espiritual 
realmente mental, certo? Quero dizer, temos que lidar com um assassi-
no em um nvel diferente para satisfazer sua psicose. Temos que faz-lo
pensar que estamos respondendo em algum nvel espiritual ou... -- Ou
o qu? Ela no sabia o qu. -- Isso  besteira, a mais completa besteira.
     -- No vou entregar minha arma -- disse Jack, olhando de forma
suspeita para Randy. Ele viu quantas balas ainda tinha. S uma. Ainda
bem que olhou. Pegou umas balas do bolso e carregou a arma.
     Leslie abaixou a arma de Randy:
     -- Voc est ficando louco! Ouviu, Randy? Pra com isso!
      -- Vocs dois esto loucos? -- exigiu Stephanie. -- Estamos pre-
sos neste poro e vocs ficam brigando por causa das armas?
      Randy olhou para ela, depois baixou devagar a arma e recarregou-a.
      -- Ento voc ainda pensa que tudo est na nossa mente? -- falou
Stephanie. -- Se h algum que deveria tomar um tiro aqui,  voc.
      Leslie a ignorou. Nada que eles falassem iria surpreend-la. E Ste-
phanie estava certa quanto a uma coisa: eles estavam presos.
      Jack olhou srio para Randy:
      -- O que aconteceu? Como vocs voltaram aqui?
      -- Atravs da porta dos fundos -- respondeu Randy.
      -- Voc tinha certeza de que era uma sada?
      -- Vi o White entrar por aquela porta antes. Claro que tenho cer-
teza.
      -- Como vocs entraram aqui? -- perguntou Stephanie.
      -- Subindo as escadas. Este deveria ser o andar principal.
      -- Estamos presos -- disse Leslie.
      -- Tudo na nossa mente? -- falou Jack.
      Ela o ignorou.
      A casa comeou a fazer rudos.
      -- E isso no so os canos -- falou Stephanie. -- A casa est viva.
      Aquilo era to claro, to bvio que nenhum deles ousou sugerir al-
go diferente.
      Leslie andou at uma das caldeiras e encostou sua mo. Era como
se quisesse ter certeza de que ela era real. Olhou para eles, o rosto ver-
melho:
      -- No h como sair, no ?
      Olhou para Randy, que estava virado para a parede.
      O pecado se paga com um cadver.
      Regra nmero trs da casa: Dem-me um cadver e poderei deixar dois
sarem.
     O assassino estava exigindo um cadver como pagamento por seus
pecados. Besteira fantica e sem sentido, mas Leslie no conseguia eli-
minar a sensao de que, se eles no fizessem isso, iriam morrer.
     E o que ela deveria fazer? Matar seu pecado? Estourar a cabea de
Pete? Ou beijar seu rosto e fazer o que ele queria como uma forma de
penitncia?
     Os anfitries no contavam: sabiam disso. Tambm sabiam que
White poderia matar todos naquele momento se quisesse.
      por isso que a religio deveria ser banida dos pases civilizados.
Ela olhou para a parede e soltou um grito furioso.

                                 ***

      Jack segurou a arma com mais fora. Dos quatro, Randy era o que
tinha mais possibilidades de satisfazei a exigncia de White.
      E ele? Se fosse obrigado, mataria um deles para salvar os outros
trs? Apesar das regras da casa, Jack suspeitava de que White provavel-
mente no se satisfaria com um s cadver. Lembrava-se das notcias no
jornal. Famlias inteiras assassinadas.
      Por outro lado, Jack no tinha certeza de que no faria aquilo,
principalmente se fosse em defesa prpria. O que o confundia era isso
de "pagamento pelos pecados" na parede. Talvez Leslie estivesse certa e
o assassino fosse algum com motivos religiosos. O que estava aconte-
cendo com eles era tanto espiritual ou psicossomtico quanto fsico.
      O problema era ele no ter idia de o que isso significava. Como
poderiam derrotar um assassino -- ou uma casa, se preferirem -- que
esfrega seus prprios pecados na sua cara?
      Aceitar? Um cadver. O cadver de Randy.
      -- S h uma sada -- falou Stephanie.
     O som de metal arranhado tomou conta da sala. Jack levantou a
cabea a tempo de ver algo cair das sombras entre dois grandes canos
uns seis metros acima deles.
     Seu pulso comeou a bater mais rpido. Era um corpo. Pendurado
por uma corda.
     O corpo caiu por uns trs metros e depois ficou balanando, pen-
durado pelo pescoo.
     Leslie pulou com um grito assustado.
     A corda fazia barulho por causa do peso. Vagarosamente o corpo
virou at que eles conseguissem ver quem estava pendurado.
     No final da corda, morto como um saco de pedras, estava Randy
Messarue.
     Randy?
     Todos estavam to surpresos que no reagiram imediatamente.
Uma voz gritava na cabea de Jack, dizendo que o corpo pendurado
nessa corda teria srias implicaes, mas ele estava muito chocado para
conseguir entender.
     Os olhos de Randy estavam fechados e a sua boca aberta. Dela sa-
a um fio de fumaa negra que descia para o cho. Ela chegou ao piso e
se espalhou pelo concreto.
     O significado desse cadver ficou evidente para Jack naquele mo-
mento. Se Randy estava morto, quem era o Randy ao lado dele?
     White?
     Ele reagiu em um impulso, girando sua arma e apontando para
Randy, que olhava em choque o seu gmeo morto.
     -- Solta a arma! -- Jack gritou.
     -- O qu?
     -- Solta! -- seus braos tremiam. Ser que ele tinha armado a es-
copeta? Agora tinha -- cachanka! -- Agora!
      Randy segurava a arma com uma mo, o cano voltado para o cho.
Seus olhos voltados para Jack, com medo:
      -- O qu...
      -- O que voc est fazendo, Jack? -- perguntou Stephanie.
      Estou me deixando manipular pelo assassino. Estou sendo empurrado a as-
sassinar pelo assassino. Colocando-me no mesmo nvel dele. Ele est me forando a
mostrar minha verdadeira face. Sou uma pessoa m. Todos somos.
      O pecado se paga... com a morte. Um cadver.
      Os pensamentos passavam por sua mente e sumiam. No precisa-
va deles agora.
      -- Esse no  o Randy -- falou Jack, apontando com a cabea pa-
ra o Randy vivo. -- Randy est morto.
      -- Voc... voc acha que sou eu? -- perguntou Randy, ainda sur-
preso.
      Jack no respondeu. Todos estavam seguindo a mesma linha de
pensamento que ele.
      -- Solta... a... arma.
      Stephanie deu um passo para trs, sem tirar os olhos de Randy.
      -- Esse sou eu! -- disse Randy, batendo no rosto com a mo livre.
--  um truque. Ele est querendo me matar! Um cadver. Ele me fa-
lou que voc faria isso! Ele me falou...
      -- Quando foi que ele falou, Randy? Levante essa arma um cent-
metro e estouro sua cabea. E para o seu conhecimento, j fiz isso. Ma-
tei a Betty h alguns minutos. Fao de novo sem pestanejar.
      Randy olhava, com raiva:
      -- Se esse sou eu, quem sou eu, ento? Um fantasma? -- olhava
para as mulheres, procurando ajuda. -- Vocs acham que no sou real?
Acabei de salvar a Stephanie...
      Mas nem Stephanie o estava defendendo.
      -- Ele pode ser o White -- disse Leslie.
      -- Pode sim -- concordou Jack.
      -- No sou o White!
      -- No quero correr o risco -- disse Jack.
      Randy se dirigiu a Leslie:
      -- Ento agora no s a casa  assombrada, mas o assassino pode
magicamente se transformar na forma que desejar? E isso vem de uma
atia convicta?
      -- No sei mais no que acredito. Mas h dois Randys e um no 
real -- falou Leslie.
      -- E se aquele for fantasma? -- perguntou Stephanie, apontando
para o corpo pendurado.
      -- D uma olhada, Leslie -- pediu Jack.
      Ela ficou incerta por um momento, depois caminhou devagar at
o corpo. Jack olhava com o rabo dos olhos, enquanto ela levantava o
brao e o tocava. O corpo girou, a corda fez um barulho.
      -- Real -- disse Jack.
      -- Tambm era o corpo do Stewart que eu vi -- disse Randy. --
E saa a mesma fumaa. Esse  o sinal. Estou falando, no sou White!
      Jack teve uma idia. Tinha vrios motivos para puxar o gatilho,
no tinha? Se Randy fosse White, Jack estaria agindo em defesa prpria.
Se Randy fosse realmente Randy, Jack estaria atuando em suposta defesa
prpria. E eles teriam o cadver de que precisavam.
      A sbita necessidade de fazer isso fez com que seu dedo tremesse,
apesar da fraqueza do raciocnio.
      -- Por que eu salvaria Stephanie quando Pete a raptou? -- per-
guntou Randy. -- Explique isso.
      Jack olhou para Stephanie:
      -- Como foi? O que aconteceu?
      -- Ele... ele me salvou.
      -- Voc ficou com ele o tempo todo? Em algum momento, White
pode t-lo matado?
      Ela olhou para Randy, os olhos arregalados:
      -- Na verdade, houve um momento.
      A testa de Randy se enrugou:
      -- O qu?
      -- Quando voc desapareceu no corredor. Ele poderia ter matado
voc e trocado de lugar. Voc estava um pouco estranho.
      -- Meu Deus! Ele me ameaou.
      -- Ameaou como? -- exigiu Jack. -- O que ele disse?
      -- Disse que me mataria se eu no matasse voc. E que voc ten-
taria me matar, o que  verdade. Disse que o tempo est acabando. O
nascer do sol est chegando.
      Leslie gritou:
      -- Sumiu!
      Jack olhou. O corpo havia desaparecido. Com corda e tudo. Eles
tinham imaginado aquilo? Impossvel!
      Atrs dele, uma porta se abriu, ouviu som de passos. Jack se virou.
A porta bateu. O que ele viu fez com que seus joelhos tremessem.
      Randy e Stephanie tinham entrado na sala atravs de uma das por-
tas. O Randy e a Stephanie, que j estavam na sala, olharam para seus
gmeos, horrorizados. Idnticos em tudo, at na arma que os dois
Randys seguravam.
      -- Randy? -- a voz de Leslie estava tensa.
      Jack deu um passo para trs e olhou para Leslie. Mas no foi ape-
nas ela que ele viu.
      Viu outra Leslie a um metro e meio de distncia.
      E outro Jack.
     26       4h31




As pernas de Jack comearam a tremer.
      Havia oito deles na sala agora; duas Leslies, duas Stephanies, dois
Randys -- e dois Jacks. Todos com a mesma cara de horror, incluindo
o outro Jack, que agarrava fortemente sua arma.
      Era evidente que quatro deles no eram reais. Certo?
      A Stephanie que tinha acabado de entrar comeou a choramingar.
      Como se reagissem a um sinal silencioso, os dois Randys e o novo
Jack apontaram suas armas. As armas dos Randys apontadas para os
Jacks e as armas dos Jacks para os Randys.
      Tinha perdido a sua vantagem, percebeu Jack. Deveria ter acabado
com isso quando teve chance de faz-lo; agora no dava mais -- no
sem saber quem era real e quem no era, um luxo que ele no tinha
mais.
      Os dois Randys estavam respirando fortemente. A qualquer mo-
mento uma arma iria disparar.
      -- Calma -- disse Jack.
      -- Ningum se mexe -- falou o outro Jack.
      -- O que est acontecendo? -- a nova Stephanie perguntou, tre-
mendo.
      Ningum respondeu. Por longos segundos, eles ficaram parados,
em silncio. A casa rangeu novamente, alto e distante, acima deles.
      O outro Jack quebrou o silncio:
      -- Temos um problema -- disse. -- Ningum faa movimentos
bruscos.  s manter a calma.
      -- Quem  voc? -- a nova Leslie perguntou, olhando para Jack.
-- Como entrou aqui?
      -- Pela porta.
      -- No pode ser. Jack e eu atravessamos a porta h alguns minu-
tos e a sala estava vazia. Chegamos aqui primeiro.
      Impossvel. Mas  claro que ela no achava isso.
      -- Quatro de vocs no so reais -- disse o novo Jack. Ele virou
sua arma do Randy para Jack. -- Comeando com voc. Abaixe a arma.
      A transpirao escorria pela testa de Jack e chegava aos olhos. O
novo Jack estava tomando o controle, como se fosse o verdadeiro. Sua
mente viajava perigosamente. Seu dedo estava apertado no gatilho e ele
se forou a relaxar.
      Primeiro um Randy, depois o outro, viraram suas armas para o la-
do dele. Agora as trs armas estavam apontadas em sua direo.
      -- Calma -- ele respirou. -- No se precipitem.
      No foi isso que o outro Jack tinha falado?
      -- Temos que tentar entender isso. Leslie?
      Ela no respondeu. Ele lanou um olhar rpido em sua direo:
      -- Fala para eles.
      -- Falar o qu? -- ela olhava para todos os lados. -- No sei o
que falar.
      -- Que somos reais, pelo amor de Deus!
      -- Eu... no sei qual de vocs  o Jack verdadeiro.
      -- Est louca? Estvamos bem aqui com o cadver...
      -- Que cadver? -- a nova Leslie perguntou.
      -- Cala a boca! -- gritou Randy, descontrolado.
      White havia dito que ele devia matar Jack.
      Ser que a arma de uma apario funcionaria?
      -- Ele vai nos matar -- disse Jack, olhando para o outro Jack. --
Voc sabe disso, no? E como ele no sabe qual  o verdadeiro, ter
que matar os dois.
      O novo Jack pensou nisso e virou sua arma para Randy.
      O novo Randy apontou para o novo Jack. Eles estavam iguais de
novo.
      -- Ele est fazendo isso! -- falou Leslie. Qual delas, Jack j no
sabia mais. J no sabia mais quem era quem, nem como tudo tinha
comeado. S sabia que ele era o Jack real.
      O outro Jack tambm pensava a mesma coisa. E se ele estivesse
certo?
      -- White est nos manipulando -- uma Leslie falou. -- Est que-
rendo nos forar a matar algum que achamos que no  real sem que
tenhamos certeza.
      -- Ela est certa -- disse a outra Leslie. -- Est tentando fazer
com que paguemos por coisas erradas que fizemos, o que, em sua men-
te doentia, s se paga com a morte.
      O desespero da situao estava deixando Jack louco. Ele no con-
seguia evitar que suas mos tremessem.
      Se houvesse uma forma de ser razovel...
      Usar a razo com uma apario parecia sem sentido. E Randy que-
ria sangue. No havia como racionalizar com nenhum dos dois Randys
naquele momento.
      -- Foi isso o que White me falou que iria acontecer -- disse
Randy com um sorriso maligno. -- Ele disse que Jack iria me matar, se
eu no o matasse primeiro. Sem chance, heri.
      -- No faa isso -- disse o novo Jack.
      -- Atire -- disse o outro Randy. -- Ele est apontando para o
Randy errado.
      Demorou um segundo para que o primeiro Randy entendesse:
      -- Voc est dizendo que eu sou dispensvel porque voc  real?
      -- Estou dizendo que estamos empatados. Algum vai morrer a-
qui e no serei eu.
      Cada um deles realmente acreditava ser real. Se um dos Randys
soubesse que era irreal, teria comeado o banho de sangue sem medo
de morrer.
      -- Podemos descobrir quem  real -- o novo Jack falou. -- Du-
vido que a arma de um fantasma atire de verdade. Podemos todos atirar
na parede.
      Jack presumia que isso funcionaria.
      -- E depois, vamos matar aqueles cujas armas no funcionarem?
-- perguntou Randy, com o mesmo sorriso. -- Por que no termina-
mos logo com isso e vemos quem sobrevive quando a poeira baixar?
      -- Porque voc pode terminar morto, por isso -- disse Jack. Ele
abaixou a arma uns centmetros. -- Concordo com a sugesto do Jack.
      Depois de uns momentos de hesitao, os Randys tambm baixa-
ram as armas. Um deles virou sua arma para a parede e apertou o gati-
lho.
      Bum! A sala ecoou com o tiro. Seguido imediatamente por outro.
      Bum!
      O segundo Randy tinha descarregado sua arma tambm. Juntos e-
les viraram suas armas para Jack. Depois, um deles apontou para o ou-
tro Jack, que tambm levantou a sua.
      Jack fez o mesmo.
      -- Como disse -- um Randy murmurou. -- Vamos terminar logo
com isso.
      -- O que provavelmente quer dizer que voc no  o verdadeiro
Randy -- Leslie falou. -- Voc est querendo nos levar a um banho de
sangue.
      -- Voc acha? Pois eu acho que estou olhando para o White --
seus olhos estavam fixos em Jack. -- E o nico jeito de descobrir  co-
locar um pouco de chumbo nas suas entranhas.
      -- H outra forma -- disse o outro Randy.
      Eles esperaram.
      -- O cadver de Stewart liberou uma fumaa negra. Estou achan-
do que ele no era real, como o cadver pendurado h alguns momen-
tos. E estou achando que os corpos irreais soltam a mesma fumaa pre-
ta.
      -- Betty era bem real e saiu fumaa dela -- disse Jack. -- Estou
achando que a fumaa tem a ver com o fato de j estarem mortos.
      -- Ou feridos -- disse Leslie. -- A coisa sai das feridas, certo?
      -- Est dizendo que deveramos nos cortar?
      Randy balanou os ombros:
      -- Est com medo de um corte?
      -- Est bem. Vamos nos cortar, mas com uma condio -- disse
Jack. -- Largamos nossas armas enquanto nos cortamos. Se nada acon-
tecer, pegamos de volta. Leslie pode segur-las, uma de cada vez.
      -- E se a Leslie quiser nos atacar? -- perguntou Randy.
      Ser que o verdadeiro Randy diria isso? Talvez sim.
      -- Concordam? -- pressionou Jack.
      -- Concordo -- disse Jack.
      O Randy que tinha sugerido um empate hesitou, mas o outro con-
cordou, seguido pelas Leslies e Stephanies.
      O suor escorria pelo rosto de Jack. Tinha certeza de que, se eles
no fizessem algo logo, um deles ia enlouquecer. E no tinha certeza de
que no seria ele mesmo.
      Entregou, em um impulso, a arma para Leslie:
      -- Algum tem uma faca?
      Os dois Randys tinham. Naturalmente. O verdadeiro Randy tinha
apanhado uma da cozinha. Um deles entregou-a para Jack sem baixar a
arma, os olhos brilhando.
      Jack pegou a faca e levantou a mo. Encostou a lmina na palma e
olhou para os outros.
      -- Todos vo fazer isso. Se algum se recusar,  uma prova de que
no  real. Se isso funcionar,  claro. Se sair fumaa preta de algum, ele
est incapacitado, mas no atirem imediatamente. Combinado?
      Todos concordaram.
      Como tinha certeza de que nenhuma fumaa preta iria sair do cor-
te em sua mo, Jack no teve dificuldade em fazer o teste. Mas no es-
tava seguro de que Randy iria querer se cortar.
      -- Mantenha a arma apontada para o Randy, Leslie.
      -- Isso no era parte do...
      --  agora -- interrompeu Jack. -- S para manter o empate.
Considere-a imparcial.
      Leslie levantou a arma para que os dois Randy estivessem neutrali-
zados.
      Jack concordou. Ele apertou a lmina contra sua pele e pressionou.
Mas a faca no era to afiada como ele esperava, teve que for-la para
cortar a epiderme.
      O sangue comeou a escorrer do corte. Ele levantou a mo. A vi-
so do sangue vermelho nunca foi to reconfortante.
      Ele mostrou aos outros:
      -- Satisfeitos?
      Ele entregou a faca de volta para Randy, jogando-a aos seus ps:
      -- Voc  o prximo.
      -- Por que eu?
      -- Para ficarmos iguais. Est nervoso? Leslie, pegue a arma dele.
       A porta atrs de Randy se abriu. Susan ficou parada na entrada, os
olhos arregalados, respirando pesadamente.
       Jack olhou para os outros, estudando suas reaes. Todos pareci-
am igualmente espantados:
       -- Voc est bem?
       -- O que voc pensa que est fazendo? -- ela perguntou. -- Vai
matar... a nica coisa... -- sua voz no estava chegando a Jack. Parecia
que pulava como um CD riscado.
       Nenhum deles abaixou as armas.
       -- Ela  de verdade? -- perguntou Stephanie. -- Talvez no seja a
verdadeira Susan.
       -- S existe uma Susan -- disse Leslie.
       -- Devamos cort-la -- disse Randy.
       Susan olhou para a frase na parede.
       Os pecados se pagam com um cadver.
       -- Talvez vocs todos devessem morrer esta noite.  o que ele
quer. ... todos ns mortos. Achei... mas acho que vocs faro com que
todos ns acabemos mortos. Vocs... -- suas ltimas palavras estavam
distorcidas. -- Vocs... ba... a sada... dio... sangue.
       Susan olhou para eles como se no tivesse percebido que sua voz
falhava.
       -- Somente os que tm olhos para ver a verdade conseguem en-
xerg-la -- disse. -- Acho que vocs so to cegos como mor... o... fi-
nal... ma... Jack vai ma... corao... morrer.
       -- Ela est com o White! -- uma das Leslie falou.
       Um arrepio percorreu a espinha de Jack. E se ela fosse uma aliada
do White mesmo? Isso explicaria como conseguira viver tanto tempo.
       Ele pegou a arma.
       A fumaa preta comeou a sair do corte na palma da sua mo
quando esticou a mo para Leslie.
      Ele parou, espantado com a viso surreal. A fumaa preta saindo,
caindo verticalmente, tocando o cho e se espalhando. Como nitrognio
lquido.
      Como era possvel? Ele no era real? O outro Jack era o verdadeiro?
      Seus olhos encontraram os de Leslie, que estava completamente
tomada pelo terror.
      -- Eu falei, Jack -- disse Susan. -- Todos vocs so pecadores...
Vocs...
      Mas o resto da sentena foi encoberta por um grande gemido que
reverberou ao redor deles.
      Uma grossa coluna de fumaa negra saa do duto de ar perto do
teto e por onde Jack e Leslie tinham entrado na sala. Uma fumaa igual
 que tinha sado da mo de Jack. Parecia um raio negro de sessenta
centmetros de dimetro. Ele flutuou e desceu para o cho onde se es-
palhou na direo deles.
      Dois pensamentos colidiram na mente de Jack. O primeiro era que
Randy iria certamente mat-lo. E depois o outro Jack que ele acreditava
ser o Jack verdadeiro.
      O segundo era que a sua nica chance de sobreviver era pegar a
arma que ainda estava na mo de Leslie enquanto ela olhava para a fu-
maa negra que se espalhava pelo quarto a partir do cho.
      A fumaa encobriu seu p e sua perna comeou a doer.
      As Leslies gritaram. Os Randys deram passos para trs em uma
tentativa intil de evitar a capa de fumaa que subia rapidamente.
      A fumaa chegou perto da porta onde estava Susan, fechando-a.
Se ela estava com White, tinha abandonado todos eles.
      Jack deu um passo  frente e arrancou a arma de Randy das mos
de Leslie. Ele girou, esperando um tiro a qualquer momento, apesar de
no ter certeza de que seria capaz de distinguir o tiro da dor que sentia
por todo o corpo. A fumaa era como um cido.
      O outro Randy viu o que ele fez e apontou sua arma.
      Jack pulou para a esquerda e atirou em Randy.
      A fumaa girou por sua cabea antes que pudesse ver que dano ti-
nha causado -- se  que causara algum dano. O som de outro tiro gol-
peou seus ouvidos. Ele rearmou a escopeta e atirou na direo do som.
      A sala se encheu de uma srie de bums, como troves, quando as
armas de todos os lados disparam sucessivamente. Gritos e gemidos.
      O som de corpos caindo. O som metlico de armas indo para o
cho.
      De repente, o silncio foi quebrado pelo corao de Jack acompa-
nhando o zumbido em seus ouvidos.
      Um som de vento o envolveu. A fumaa negra comeou a voltar
para o duto de ar, de onde tinha sado. Jack se levantou, ainda cego pela
fumaa. No estava ferido, mas no sabia se isso era bom. E se Leslie
tivesse sido atingida? Ou Stephanie?
      Seu corpo tremia inteiro, mais pelo choque do que pela dor causa-
da pela fumaa. Randy tinha conseguido seu empate.
      A fumaa estava abaixo do nvel da cabea.
      Leslie estava  sua esquerda, olhando para ele. Uma Leslie.
      Randy e Stephanie estavam  sua direita, chocados. Um Randy,
uma Stephanie.
      Mais um momento e a fumaa preta desapareceu. Nenhuma Susan,
nenhum corpo. Jack, Leslie, Randy e Stephanie olhavam-se em silncio.
      Foi Stephanie quem quebrou o silncio:
      -- Oh, Deus! -- ela murmurou. E pela forma como havia dito,
Jack sentiu que era uma prece desesperada.
      Ele olhou para sua palma. Nenhuma fumaa, s sangue. Mas ao
olhar para os outros, Jack entendera algumas coisas.
      Sabia que Randy queria mat-lo.
      Sabia que tinha coragem para matar Randy.
      Sabia que a fumaa preta podia sair de dentro dele.
      E sabia que era culpado de sentir desejo de matar Randy, do ran-
cor que sentia em relao a Stephanie, de outras centenas de manchas
em seu passado. E esse assassino no parecia querer deix-los escapar.
      No sem um cadver. As regras da casa.
      O objetivo desse jogo era sobreviver, mas Jack tinha certeza de
que sobreviver no tinha s a ver com matar ou ser morto. Tinha a ver
com confrontar os pagamentos dos pecados, o que quer que isso signi-
ficasse. Tinha tanto a ver com a vida quanto com a morte. Que tipo de
competio no estava relacionado com pelo menos dois competidores?
Se essa fosse uma competio entre o bem e o mal, ento onde estava o
bem?
      Jack no sabia. E isso fez com que seus joelhos voltassem a tremer.
     27        4h48




Passaram-se alguns minutos antes que eles voltassem completamente a
si. Estavam totalmente presos por um assassino que podia brincar com
a vida delas como quisesse, em uma casa que parecia tambm mudar de
acordo com a vontade dele.
      Algo tinha acontecido com Stephanie; ela no estava falando. Sua
respirao cheirava a enxofre. Seu silncio era estranho.
      Jack no queria parecer ameaador, ento deixou a arma com Les-
lie e pediu, discretamente, para ela ficar de olho em Randy. Ele saiu de
perto do outro, sabendo que Randy estaria procurando uma desculpa
para forar um confronto.
      Isso permitiu a Randy se recompor e, ocasionalmente, olhar para
as palavras na parede.
      O pagamento do pecado  um cadver.
      Eles tentaram entender o que eram aqueles mltiplos "eus" e a
fumaa que os havia engolido. Todos tinham visto a mesma coisa; isso
os confortava um pouco. E todos concordaram que a casa os estava de-
liberadamente manipulando para que eles mostrassem seus sentimentos
bsicos. Seus pecados, talvez. A eventual submisso s exigncias do
assassino de que cada um deles se rendesse ao assassino que havia em
seu interior.
      Concordaram com tudo isso, ajudados por Leslie. Mas, apesar de
ela ter apontado essas questes, esse conhecimento compartilhado no
oferecia nenhuma soluo. Compreender que voc est caindo de um
penhasco no evita a queda. Leslie podia descrever seu conhecimento
do penhasco, mas no conseguia mostrar uma forma de escapar.
      -- Estamos ferrados -- disse Randy depois de uma pausa na in-
tensa discusso. -- No temos opes. Estamos presos em uma casa
possuda onde vemos fantasmas ou o que quer que sejam essas coisas
que ficam aparecendo -- sua voz estava resignada. -- Vamos morrer.
      Ningum discordou.
      Jack andou at Leslie e pegou a arma de volta.
      -- S h um jeito de sair daqui -- disse Randy.
      Jack sentiu-se surpreendentemente confortvel com a arma nas
mos. Sabendo o que tinha feito com Randy, deu-lhe a idia de terminar
com tudo naquele momento. Ele tinha justificativas. Sabia que o outro
tinha a inteno de mat-lo em algum momento.
      -- Qual , Randy? -- ele perguntou, atinando a escopeta. S duas
balas -- teria de ser cuidadoso.
      -- Voc sabe do que estou falando -- respondeu Randy. Olhou
para as palavras na parede.
      -- Fale -- Jack o encarou, sentindo uma vontade repentina de
confrontar Randy.
      -- Ele quer um de ns morto -- disse Randy, retirando a faca do
cinto.
      -- Quer me matar, Randy? H?  isso?
      -- No falei isso. Voc me quer morto?
      -- Eu falei isso?
      Ele se encararam em silncio.
      -- S estou dizendo que ele pode nos prender aqui pelo tempo
necessrio at que nos matemos. Algum tem que morrer. Ou um de
ns ou a menina.
      -- A menina? Quem falou na menina?
      -- White me falou. Os outros no contam. Betty, Stewart, Pete...
eles no significam nada. Mas Susan, sim.
      -- A menos que ela esteja trabalhando para ele -- disse Leslie. --
Ela desapareceu de novo. Por qu? H algo errado com ela.
      -- Talvez -- disse Jack. -- No quero reconhecer que...
      -- Bom, e o que voc quer reconhecer? -- exigiu Randy. -- Ele
quer um cadver, ns damos...
      -- Voc realmente acha que ele vai ficar satisfeito com um de ns
estourando a cabea do outro? -- falou Jack.
      -- Acho que ele vai seguir as prprias regras -- interveio Leslie.
-- Pode ser que no deixe todos viverem, mas enquanto no cedermos
s suas demandas, ele no ir nos matar, tambm. Se comearmos a ma-
tar uns aos outros, a o jogo acaba.
      -- Que horas so? -- perguntou Randy.
      Jack olhou o relgio. O vidro estava quebrado:
      -- 4h52.
      Randy riu com pesar. O suor escorria pelo seu rosto:
      -- Uma hora e pouco. Se nenhum de ns matar o outro, ele ir
matar a todos...
      A porta fez um barulho. Eles ouviram batidas:
      -- Vocs esto a? Deixe-me entrar!
      Era uma voz de homem. Nada a ver com o som grave da voz de
White atrs da mscara.
      Stephanie se afastou da porta:
      -- ...  ele?
      -- Poderia ser, sem a mscara -- disse Randy, levantando a faca.
      Ele avanou.
      Jack segurou seu brao:
      -- Espere!
      Novas batidas:
      -- Sou o policial Lawdale. Abram essa porta imediatamente!
      Leslie olhou para Jack, perguntando: Quem?
      -- Lawdale! O policial que Steph e eu encontramos.
      O rosto de Leslie se iluminou. Ela correu, destrancou a porta e a
abriu.
      O policial Morton Lawdale apareceu na entrada vestido com o
mesmo uniforme cinza apertado com o qual eles o tinham visto no dia
anterior.
      Segurava um revlver, levantado na altura da cabea. Olhou para
trs e entrou na sala, trancando a porta atrs de si.
      -- Bem, bem -- disse Lawdale, checando toda a sala. -- Em que
baguna acabamos nos metendo?
     28       4h53



O jogo no tinha mudado, mas havia uma nova sensao no ar. Pela
primeira vez, Jack sentia esperana. Lawdale era inquestionavelmente
estranho, mas tinha autoridade e confiana, algo de que eles precisavam
desesperadamente.
      O suor escurecia sua camisa cinza, que estava seca. Aparentemente,
a chuva tinha parado. Suas botas de couro preto estavam cheias de bar-
ro, mas Lawdale estava ileso. Como no usava chapu, era possvel ver
seu cabelo loiro. Ele tinha se armado at os dentes antes de entrar. Dois
revlveres na cintura, mais dois presos ao cinto nas costas, facas em ca-
da tornozelo. Lawdale parecia um pistoleiro nascido no sculo errado.
      At onde ele sabia, ningum o tinha visto entrar na casa, coisa que
fizera sem esperar a ajuda que havia pedido pelo rdio.
      Depois de perguntar quem eram Leslie e Randy, e de verificar que
nenhum dos quatro estava mortalmente ferido, Lawdale pediu que eles
contassem tudo o que tinha acontecido e eles deram uma longa explica-
o, constantemente interrompida por seus pedidos de esclarecimento.
Quando a histria comeou a ficar mais clara, Lawdale passou a andar
pela sala.
      A casa continuava a ranger acima deles, atraindo olhares peridi-
cos para o teto. Ele no emitiu nenhuma opinio.
      Contou que havia encontrado o carro de Jack. As luzes de sua via-
tura tinham iluminado os faris traseiros de um carro no meio dos ar-
bustos. Normalmente, no teria dado bola, mas reconheceu o Mustang
azul de Jack.
      -- Ento, temos como sair daqui, certo? -- disse Stephanie. -- Se
voc entrou, ns podemos sair.
      -- Calma, querida. Deixe-me pensar -- ele guardou a arma e ficou
batendo com o cassetete na palma da mo enquanto andava.
      -- A ajuda est chegando, mas pode demorar mais de uma hora.
      -- No d para nos tirar daqui? -- chorou Stephanie.
      Ele olhou para o teto quando ouviu um rangido:
      -- Vocs esto dizendo que h um assassino a fora. Esto dizen-
do que foram caados por trs nativos armados com escopetas. Que a
casa  mal-assombrada. Disseram que no h como sair daqui -- olhou
para Stephanie. -- Eu diria que sair correndo pelos corredores atirando
por a seria algo meio impulsivo, no acha? Deixe-me pensar um pouco.
      Jack gostava do homem,  parte as estranhezas. Nem mesmo
Randy, em seus momentos de raiva, poderia passar por cima dele.
      -- Eu ouvi falar desse cara -- continuou Lawdale. -- Um assassi-
no em srie que est atuando na regio h alguns meses. Conhecido
como o Homem de Lata, o que corresponde com essa mscara que vo-
cs descreveram. Seu rastro levava para o sudeste. No me surpreende
que tenha chegado aqui.
      Lawdale bateu com o cassetete na mo:
      -- Betty e Stewart esto mortos, certo?
      -- Achamos que sim -- respondeu Randy.
      -- Ou bem feridos, pelo menos -- continuou Lawdale.
      -- Isso.
      -- Essa garota chamada Susan continua desaparecida e vocs pen-
sam que ela pode estar trabalhando com ele. Duvido que uma menina
seja til para um assassino. Eu acho que, se no for produto da imagi-
nao...
      -- Ns no a imaginamos -- falou Jack.
      -- Certo. Eu daria a ela o benefcio da dvida. A casa, por outro
lado... -- olhou para a parede.
      O pagamento do pecado  um cadver.
      -- ...a casa me preocupa mais.
      -- Mas voc acreditou na gente... -- disse Leslie.
      -- Se no tivesse acreditado, no estaria preocupado, certo? -- ele
estalou o pescoo.
      -- Uma casa mal-assombrada -- disse Stephanie.
      -- Pode ser. D para resolver o problema do White, enfiando uma
bala nele. Mas o sobrenatural  algo totalmente diferente.
      -- Voc  religioso? -- perguntou Jack.
      -- No posso dizer que sim; tambm no posso dizer que no. O
que sei  que, se o que vocs me contaram sobre essa casa for verdade,
no vai adiantar nada ter um time de policiais do lado de fora.
      -- Mas voc entrou -- disse Stephanie.
      -- Era no que eu estava pensando -- comentou Lawdale. -- Algo
que voc deveria fazer com mais freqncia.
      Ele caminhou sem olhar para ela:
      -- Quando vocs tentaram sair do poro, acabaram aqui. As por-
tas se trancaram atrs de vocs, abriram-se quando vocs queriam pas-
sar. Como se a casa conhecesse vocs, por dentro e por fora. Estou cer-
to?
      -- Mais ou menos isso -- respondeu Jack.
      -- A casa no deixa vocs sarem. Mas isso no quer dizer que no
deixe algum entrar. Parece uma armadilha.
      -- White no podia entrar, no comeo -- contou Randy.
      -- Com base no que vocs me contaram, no parece que ele qui-
sesse entrar, no antes de vocs estarem no poro. Parece que ele queria
que vocs entrassem de forma espontnea aqui embaixo.
      As idias dele batiam com as de Jack, apesar de Lawdale estar che-
gando s concluses a partir de um ngulo diferente.
      Ficaram uns segundos em silncio.
      --  possvel, s uma possibilidade, de que eu consiga sair daqui
-- disse Lawdale.
      -- Como? -- perguntou Randy. Ele se levantou, a esperana re-
novada. -- Vou com voc.
      -- Calma, rapaz. Estou dizendo que sei que o Homem de Lata
no me viu entrar. Vi a caminhonete na porta da frente e evitei o andar
de cima e a entrada do poro nos fundos. Entrei por uma grade que le-
va a um tnel. Um lugar que costumava ser uma mina, mas foi abando-
nado quando descobriram uma tumba coletiva.
      -- Uma tumba? -- perguntou Stephanie, dando um olhar de "eu
falei" para Randy. -- Isso explicaria algumas coisas.
      -- O Homem de Lata transformou essa casa em algo maligno, de
alguma forma -- trazendo algum tipo de fora para assombr-la -- mas
se existem regras, existem regras. As regras da casa. Ela quer evitar que
algum saia daqui -- isso partindo do pressuposto de que ela sabe
quem est dentro.
      -- Voc est sugerindo que a casa no sabe que voc entrou --
disse Jack.
      -- Ainda o mais profundo, no , Jack? Mas voc est no caminho
certo.
      Leslie gemeu. Fechou os olhos e suspirou profundamente. Balan-
ou a cabea:
      -- No acredito que estamos falando isso. Que loucura. Uma casa
no pode estar viva! Ouam o que esto dizendo!
      Seu conhecimento estava enfraquecendo, pensou Jack:
      -- Achei que tinha mudado...
      Ela levantou a mo para que ele se calasse:
       -- Eu sei. Eu sei. Disse que ela poderia estar mal-assombrada --
ela movia as mos enquanto continuava. -- Espritos, demnios, coisas
sobrenaturais, tudo isso. Eu sei! Isso no faz com que sejam reais. Uma
coisa  falar de termos sobrenaturais no geral -- ela olhava para as pala-
vras na parede. -- Outra  comear a falar em regras e especificidades
e... sei l mais o qu. Como se houvesse uma ordem ou algo assim. Co-
mo se a casa realmente fosse inteligente, pelo amor de Deus! Como se
ela soubesse! No me digam que isso no parece ser loucura.
       Jack concordou:
       -- Mas no temos tempo para entender os motivos pelos quais as
coisas acontecem. Temos pouco mais de uma hora.
       -- E depois, a casa vai comear a nos surrar at a morte? -- per-
guntou Leslie.
       -- Acho que ser um pouco mais pessoal.
       -- No vamos perder a calma -- Lawdale disse para Leslie. --
Duvido que a casa saiba algo. Mas a fora, os espritos, os demnios, ou
seja l qual for o nome que voc queira dar ao que habita esta casa, sa-
bem. E eles conseguem mudar a casa. Mesmo assim, me deixaram en-
trar sem problemas? -- ele bate na palma da mo. -- A nica explica-
o  que essas foras so limitadas no tempo e no espao, e estavam
preocupadas com vocs. Consegui entrar sem ser percebido.
       -- O que significa que voc pode sair sem ser visto. A casa no vai
poder impedi-lo -- disse Leslie. -- Essa  a sua opinio, certo? Presu-
mindo-se que tudo funcione como voc est dizendo.
       -- No estou dizendo que sei como elas funcionam. Estou s li-
dando com os fatos diante de mim e tirando algumas concluses. Algo
que voc deve conhecer bem na sua linha de trabalho.
       -- Se voc for, vou com voc -- disse Randy.
       -- E voc -- Lawdale virou-se para ele -- como empresrio, de-
veria estar familiarizado com o bsico da lgica, certo?
      Randy se sentiu insultado.
      -- Junte as peas, rapaz da cidade. Eles sabem quem  voc, vo
atac-lo na hora.
      -- E por que no nos atacam agora? -- questionou Randy.
      -- Talvez estejam atacando agora -- disse Jack. -- As regras so
bem simples. O Homem de Lata est dando tempo para que nos mate-
mos.
      -- Mesmo se voc sair, como ns vamos sair? -- perguntou Ste-
phanie.
      -- Ns samos quando o policial abrir uma porta para ns -- disse
Leslie, olhando para Lawdale. -- Estou certa?
      -- Se eu estiver certo -- ele falou. -- Talvez as portas possam ser
abertas por fora. Eles deixam entrar, no sair.
      Ele olhou para a porta perto da caldeira. Tinha criado o primeiro
plano de verdade da noite, mas no se sentia to seguro como quando
havia entrado, foi o pensamento de Jack.
      -- Se conseguir sair sem ser detectado, vou entrar na casa e abrir a
porta do poro, aquela que vocs disseram estar entre a cozinha e a sala
de jantar. Se conseguirem chegar rapidamente ao topo da escada, en-
quanto eu estiver com a porta aberta, talvez consiga tir-los daqui.
      Eles olharam incertos.
      -- Saindo do poro, conseguiremos escapar. O poro parece ser o
problema.
      Ele continuou andando, a preocupao estava mais evidente em
seu rosto.
      -- No preciso dizer que talvez no consiga sair -- disse Lawdale,
olhando novamente para a porta. Ele tirou um dos revlveres e checou
as balas. -- Essas coisas morrem com balas?
      -- Sim.
      Ele estalou o pescoo novamente:
      -- Est certo, digam-me qual  a melhor forma de entrar na casa l
em cima. Porta dos fundos, janela, telhado? Qual?
      -- Porta dos fundos na cozinha -- disse Randy. -- White a travou
por fora. Se no funcionar... -- ele encolheu os ombros.
      -- Eu dou um jeito.
      -- White no entrou -- disse Stephanie.
      -- White no queria entrar -- Jack falou. -- Voc no entende?
      Lawdale olhou para o relgio:
      -- Cinco e nove. Preciso de dez minutos. Exatamente s...
      -- Tudo isso? -- questionou Stephanie.
      -- Levando em conta dificuldades imprevistas, sim. Se conseguir,
abrirei a porta do poro exatamente s 5:19. Estejam na escada. Conse-
guem fazer isso?
      Jack e Leslie sincronizaram seus relgios. Jack olhou para os ou-
tros, evitando Randy, e concordou.
      Lawdale caminhou at a porta, encostou o ouvido e ficou assim
por alguns segundos. Respirou fundo e se abaixou.
      Destravou a porta. Abriu. Um rpido olhar para fora e fechou-a de
novo.
      --  isso.
      -- Tem certeza de que sabe voltar? -- perguntou Leslie.
      Ele deu um tapinha na prpria cabea:
      -- Deixei umas marcas. Dez minutos.
      Morton Lawdale tirou sua arma do coldre, apontou-a para a frente
com uma mo, abriu a porta e desapareceu no corredor silencioso.
     29       5hl4




Eles passaram os cinco primeiros minutos da espera tentando conven-
cer um ao outro de que o plano de Lawdale iria funcionar, mas havia
muitas perguntas no ar para que pudessem ter certeza disso.
      O plano de Lawdale era uma esperana, nada mais. E uma espe-
rana fraca. Mas Jack sabia que sem nenhuma esperana Randy iria ten-
tar algo louco. Como mat-lo. Se o patrulheiro no tivesse aparecido
naquele momento, pelo menos um deles estaria morto.
      -- Tem certeza de que sabe o caminho? -- Randy perguntou a
Jack. -- Quanto tempo vamos demorar?
      -- As escadas esto depois de trs corredores -- j fui duas vezes
at l. A menos que tudo tenha mudado.
      -- timo -- disse Stephanie.
      -- Se tiver uma idia melhor, timo. Se no tiver vamos manter o
plano.
      Tanto ela quanto Randy se mexeram, estavam nervosos. Leslie es-
tava grudada no relgio e tinha ficado quieta.
      A casa continuava a ranger.
      E Susan? Quanto mais Jack pensava nela, mais se convencia de
que no era mais do que outra vtima inocente. A cada minuto, estava
mais convencido de que ela no tinha ligaes com o assassino.
      -- Falta um minuto -- disse Leslie.
     Jack caminhou at a porta:
     -- Venham atrs de mim.
     Eles saram pela porta, em fila indiana. Jack, Leslie, Stephanie e
Randy, com as armas carregadas, um movimento errado de seus dedos
poderia alertar toda a casa sobre a localizao deles.
     -- No acho que isso v dar certo -- Stephanie falou baixinho,
mas sua voz reverberou bem alto no corredor. Jack se virou e apertou
os dedos contra o pescoo dela.
     Demoraram trinta segundos para chegar a uma grande porta de
madeira que os levaria ao segundo corredor. Tudo bem at ali. Mas era
o corredor em frente que preocupava Jack.
     Ele se virou e os instruiu com gestos:
     -- Por essa porta, escada  direita.
     -- O que  isso? -- perguntou Stephanie, apontando para o cho.
     Jack tambm viu, a fumaa preta que havia entrado na sala das cal-
deiras estava passando por baixo da porta.
     -- Aquela coisa est no corredor? -- perguntou Stephanie. --
No podemos...
     -- Cala a boca! -- sussurrou Jack. -- Vamos. Ignorem a dor; su-
bam nos degraus o mais rpido que puderem e corram!
     Jack agarrou a maaneta:
     -- Prontos?
     Ele abriu a porta.
     Stephanie foi a primeira a gritar. Estavam de volta  sala das cal-
deiras, com a fumaa a uma altura de sessenta centmetros. Parecia que
um soco havia acertado a garganta de Jack. Outras quatro pessoas esta-
vam paradas no meio da fumaa.
     Um Jack, um Randy, uma Leslie e uma Stephanie, segurando as
armas como antes. A mo de Jack estava sangrando uma fumaa preta,
que tambm saa do duto de ar, como antes.
      Estavam olhando para eles mesmos, como se eles, e no as pessoas
na sala, fossem irreais.
      O quarteto dentro da sala das caldeiras girou por causa do grito de
Stephanie. Por um momento todos os oito ficaram parados, quatro no
corredor, quatro dentro da sala com a fumaa pelo joelho.
      -- Jack! -- Susan estava ofegante em corredor prximo. -- Rpi-
do! Venha comigo!
      Sem esperar, ela correu, distanciando-se deles.
      Jack decidiu que a seguiria. Independentemente de quem ela fosse,
ele a seguiria.
      Fechou a porta com fora e disparou atrs da garota.
      -- E se...
      -- Cala a boca! No temos tempo!
      Eles o seguiram, de perto, quando ele alcanou a menina. Por um
corredor at uma grande porta. Ele reconheceu a mesma porta que a-
charam que daria no corredor principal.
      Susan abriu a porta. A fumaa chegava a um metro de altura.
      Ela hesitou um pouco, mas acabou correndo:
      -- Rpido!
      No momento em que Jack entrou no meio da fumaa, sabia que
eles estavam com problemas. Por um lado, o cido, mas isso ele podia
agentar. O que estava diante dele era outra questo.
      A casa tinha mudado novamente. E essa mudana fez com que os
cinco parassem subitamente.
      Ainda estavam no corredor que dava para a escada. Jack sabia dis-
so porque conseguia ver como ela subia para o andar principal. Mas a
escada agora ocupava toda a largura do corredor, no s uns trs metros
como antes.
      A passagem se estendia bem longe  sua esquerda. Tinha dobrado
de comprimento.
      E de largura.
      Mas nem mesmo alguns metros de corredor iriam par-los. Foi o
homem de p entre eles e a escada quem os parou.
      Stewart. Uma arma pronta. A chegada repentina deles o tinha sur-
preendido, mas ele logo se recuperara, apontando-lhes a arma.
      Bum! Randy atirou. O tiro acertou bem no p dele e fez com que
casse no meio da fumaa que tomava todo o corredor.
      -- Corram! -- gritou Susan. Ela se dirigiu  escada, deixando uma
onda de fumaa por onde passava.
      Eles a seguiram.
      -- Cuidado com os outros! -- gritou.
      Outros?
      Jack viu a parte de trs das cabeas carecas e com cicatrizes, apare-
cendo no meio da fumaa. Levantando-se devagar, como se nascessem
do meio da fumaa.
      A dor causada pela fumaa empurrava Jack e ele gritou para os ou-
tros:
      -- Mais rpido!
      -- A porta no est aberta! -- gritou Leslie.
      -- Corram!
      Os novos nativos estavam posicionados lado a lado, forando Jack
a dar encontres neles enquanto corria. Continuavam a se levantar, co-
mo uma dana coreografada. As cabeas subiam, j mostrando as ore-
lhas. Todos eles estavam de costas, olhando a escada. Todos eram care-
cas, mas esta era a nica semelhana com Stewart.
      Eram seis.
      Ento o poro estava infestado com mais gente do que o Stewart,
a Betty e o Pete. Por que eles se levantavam to lentamente, Jack no
sabia dizer, mas tinha certeza de que eram parte do jogo de White.
      Susan saltou para os degraus, tropeando no primeiro, mas conti-
nuou engatinhando. Saiu da fumaa. Randy estava bem atrs dela.
      Os outros seguiram, de forma frentica, motivados pelo desejo de
se afastar daquelas pessoas e da fumaa.
      A porta ainda estava fechada. Randy atirou na fechadura. O tiro ri-
cocheteou. Nem arranhou a pintura. Jack foi o ltimo a subir na escada.
Chegou ao topo, onde Susan estava batendo na porta com as duas mos.
Os outros se amontoaram no patamar da escada e olharam para trs,
abatidos e plidos.
      Jack se virou e sentiu o corao quase parar. As cabeas carecas ti-
nham se levantado da fumaa mostrando os olhos. Continuavam se le-
vantando.
      As carecas e as cicatrizes eram iguais s de Stewart. Os olhos no.
Eram de um verde fluorescente.
      Stephanie tinha se juntado a Susan, batendo na porta.
      -- Deixem-nos sair! Deixem-nos sair!
      Tum, tum, tum. Passos de botas no cho de concreto do corredor.
Jack girou a cabea e olhou para o fim do corredor.
      White estava vindo pela passagem, atravs dos clones que se levan-
tavam, o casaco abrindo caminho pela fumaa. A mscara de lata es-
condia seu rosto. Mas o jeito como caminhava mostrava que estivera
esperando por eles.
      Quando o assassino passou pelos nativos, eles se ergueram total-
mente.
      Jack levantou a arma. Bum! White se abaixou, como se tivesse sido
atingido, mas continuou andando, sem diminuir o passo.
      Stephanie estava gritando terrivelmente agora. Todos os cinco
pressionados contra a porta.
      Jack estava apontando novamente quando a presso nas suas cos-
tas diminuiu. Ele caiu para trs.
      A porta fora aberta?
      O grupo atravessou o umbral da porta. Mas Jack continuava o-
lhando para o corredor, no para o espao onde estavam entrando.
      No momento em que o homem por trs da mscara de lata viu
que a porta tinha sido aberta, parou. Mas em vez de levantar sua arma e
atirar nas presas que estavam fugindo, ele ficou parado.
      Jack foi o ltimo a passar. Ele atravessou pela porta com os olhos
grudados no Homem de Lata.
      -- Tranque a porta! -- gritou Randy. Ele estava vendo o mesmo
que Jack. Uma cena vinda da pior histria de terror.
      No ltimo momento, bem quando estavam fechando a porta,
White tirou sua mscara, mostrando o rosto.
      Era um rosto que parecia o de um morto, metade dele era prati-
camente s osso. A mandbula de White era muito grande, quase do
tamanho da mscara e ele urrou na direo deles.
      A fumaa preta saa da boca dele. Vinha em direo  porta.
      Fecharam a porta. Randy colocou a trava.
      Um choque explodiu do outro lado da porta com fora suficiente
para dobrar a madeira e empurr-los contra a parede oposta. Um pouco
de fumaa passava pelas rachaduras.
      Mas ela agentou.
      Eles se levantaram, ofegantes, e olhavam para a porta. Que no se
mexeu.
      -- Gente? -- a voz de Stephanie vindo da sala de jantar estava a-
guda, confusa.
      Jack se virou. A primeira coisa que percebeu foi que algumas luzes
estavam acesas, o que permitia ver para onde Stephanie estava olhando.
      A bonita sala de jantar agora parecia como se estivesse abandona-
da h uns cem anos. A poeira cobria os quadros e paredes. O papel de
parede estava rasgado. A maior parte dos mveis estava l mas coberto
de poeira. As almofadas das cadeiras estavam rasgadas, comidas por ra-
tos. A mesa estava cheia de comida podre, a mesma que eles haviam
comido antes, cheia de vermes. O fedor era parecido com o cheiro de
enxofre que dominava o poro.
      Olhando para o hall de entrada, Jack viu que a sala de jantar no
era a nica parte da casa que tinha mudado.
      -- ... como isso  possvel? -- falou Stephanie.
      Ningum respondeu, estavam espantados. A casa estava morta.
Toda ela.
      Morta, completamente. Mas uma morte que estava bem viva.
     30      5h20




Demoraram um minuto para sair do choque e recobrar a razo.
     -- Estamos imaginando isso? -- perguntou Jack. -- Ou estva-
mos imaginando antes?
     -- Ser possvel? -- disse Stephanie. -- Quero dizer, ns come-
mos nesta mesa, certo?
     Ningum conseguia especular, nem encontrar respostas.
     -- Isso no pode ser verdade -- disse Lawdale. -- Eu estive nesta
casa milhares de vezes.
     --  verdade -- disse Susan com raiva na voz. -- Falei que h
mais coisas aqui do que vocs conseguem entender. Disse que eles eram
maus -- ela disse outra coisa. Ser mesmo? Seus lbios continuaram a
se mover por uns segundos, mas nenhum som estava saindo. Ou seria a
imaginao de Jack?
     Ele olhou para Susan, encontrando seus olhos:
     -- Eles? Voc est falando de Stewart?
     Ela olhou para ele.
     -- Est dizendo que so algum tipo de demnio ou algo assim?
     -- Poderia explicar? Porque eles no contam... -- pediu Randy.
     -- No seja ridculo -- disse Leslie. -- Demnios, por favor! Isso
tem a ver com nossa imaginao, no...
      -- Cala a boca, Leslie -- gritou Randy, enraivecido. -- Decida-se!
No temos tempo para suas bobagens psicolgicas. Chame do que qui-
ser, mas lembre-se de que nosso tempo est se esgotando.
      -- ...e ele vai matar todos vocs -- disse Susan, terminando sua
fala.
      Jack apontou para a cozinha e depois falou com Lawdale:
      -- Como voc entrou?
      -- Pela porta dos fundos.
      Era a primeira vez em que ele olhava para o policial desde que este
havia aberto a porta. Lawdale tinha tirado a camisa e usado uma tira pa-
ra amarrar um machucado no brao. Tinha uma bandana ensangenta-
da na cabea. Sua camiseta tinha o logotipo da Budweiser, para fora da
cala e sobre as duas armas.
      -- O que aconteceu?
      -- Tive problemas para sair. Na metade do caminho para a grade,
algum atirou em mim e eu ca. Demorei um pouco para conseguir.
      -- Isso poderia explicar por que eles estavam esperando -- disse
Jack. -- Mas por que nos deixaram sair?
      -- Voc acha que eles nos deixaram sair? -- Randy perguntou.
      Stephanie, de repente, comeou a correr para a cozinha:
      -- Eles nos deixaram sair porque aqui em cima no  melhor do
que l embaixo -- disse.
      Jack a seguiu. Ele entrou na cozinha bem quando Stephanie estava
abrindo a porta. Ela girou a maaneta. Jogou o peso do corpo. Mexeu
na trava.
      -- Est trancada! -- gritou.
      Jack a afastou e tentou abrir. No se mexia.
      -- Est trancada? -- perguntou Leslie, bem atrs dele.
      Jack voltou-se e encarou Lawdale:
      -- Tem certeza de que foi por aqui que voc entrou?
      Lawdale no respondeu.
      -- Para trs -- gritou Randy. Em segundos, ele tirou uma caixa
plstica do bolso, carregou a arma e preparou-se para atirar.
      Jack e Stephanie se afastaram.
      O estrondo rasgou a madeira e arrancou a fechadura. Jack tentou
de novo.
      Nada. Olhou as juntas. Parecia que a porta no era uma porta. Era
slida como uma parede. Barras de ferro corriam na altura do vidro
quebrado. Isso era novidade.
      -- Claro que podemos fazer um buraco -- disse Leslie, no con-
vencendo ningum.
      -- Quantas balas voc tem, Randy? -- perguntou Jack.
      Ele olhou na caixa:
      -- Oito.
      -- Certo, guarde-as. Onde est aquele machado?
      Randy abaixou a arma, correu para a geladeira de carnes, passou
pela porta quebrada e voltou com o martelo-machado que Stewart havia
usado para arromb-la.
      Olharam em silncio quando ele se aproximou da porta dos fun-
dos, levantou o machado e deu um forte golpe na janela. O que era vi-
dro se espatifou, mas as barras continuaram firmes.
      Nem se mexeram.
      Possvel, pensou Jack. Alguns tipos de ao conseguem resistir a es-
sas pancadas. Mas nessa casa velha, improvvel.
      Randy deu outro golpe. Novamente, nem mesmo um amassado.
      --  a mesma coisa do poro -- gritou Stephanie.
      -- Calma, mantenha a calma -- ordenou Lawdale, aproximando-
se. Ele pediu o machado e Randy o entregou. -- Deve haver uma sada.
Se as portas esto reforadas, vamos tentar as paredes.
      -- H muitos armrios por aqui -- Lawdale voltou  sala de jantar,
viu que no havia paredes externas e seguiu Jack at a entrada principal.
A parede ao redor da porta principal estava um pouco danificada pela
fora da caminhonete que White tinha usado para entrar na casa.
      Eles olharam espantados para a destruio. Para a ausncia de des-
truio, no caso. Jack lembrava-se das lascas de madeira, do gesso vo-
ando, dos marcos da porta desintegrados. Mais iluses? Ou a iluso es-
tava acontecendo naquele exato momento?
      -- Se uma caminhonete no consegue destruir a parede a cinqen-
ta quilmetros por hora, esse machado no ter nenhuma chance
      -- Randy armou novamente a escopeta. Cachanka.
      Mas Lawdale no estava convencido. Olhou para a parede com
uma espcie de estupor, descrente. Comeou, repentinamente, a bater,
com raiva.
      Crash... crash... crash... crash!
      Cada batida voltava depois de remover s um pouco de tinta. A
prpria madeira, no entanto, no sofria nenhum dano.
      Lawdale parou, ofegante; depois correu para a sala de estar, arras-
tou o sof do caminho e destruiu a janela com um grito de dio.
      Mas as barras ali tambm nem ficaram amassadas.
      Ele continuou por uma terceira vez, antes de girar e golpear os ti-
jolos da lareira.
      O p se espalhou quando o machado-martelo destruiu o tijolo:
      -- A-h!
      -- Isso no  a parede externa -- disse Randy, largando a arma e
tirando o machado das mos dele. -- Tente a parede de trs -- ele acer-
tou um golpe na abertura da lareira, na parede.
      Jack soube, pelo barulho slido, que era intil. Randy se afastou e
olhou para as cinzas. A lata ainda estava no mesmo lugar em que Jack a
tinha jogado.
     A lata do Homem de Lata.
     Eles conseguiam ver as palavras escritas na etiqueta.
     Bem-vindos  minha casa
     Regras da casa:
     3. Dem-me um cadver e eu poderei deixar dois sarem.
     Randy gemeu, jogou o machado no cho e recolheu a arma.
     -- O que  isso? -- Lawdale pegou a lata.
     -- A lata da qual falamos.
     Stephanie estava andando com as duas mos na cabea, a testa en-
rugada pelo desespero. Ela se virou para Jack, os olhos brilhando de f-
ria.
     -- Como isso  possvel?! Como isso pode estar acontecendo co-
migo?
     -- Abaixe a voz, senhorita! -- Lawdale pediu.
     -- E para que serve voc? -- ela gritou. -- Devia ter nos tirado
daqui por aquela grade que tinha encontrado. Em vez disso vem com
isso -- ela apontou para ele -- esse ridculo plano que acabou nos
prendendo aqui em cima!
     -- Tem alguma idia melhor? -- Randy gritou para ela.
     O policial Lawdale tirou uma das pistolas e a levantou na altura da
cabea, to rpido que Jack nem viu. Ele jogou a lata na lareira.
     -- Da prxima vez que um de vocs gritar comigo, eu atiro na ca-
bea para mostrar que estou falando srio; da prxima vez ser na perna
para que se controle. Se voc no percebeu, somos cinco agora. E pelo
meu cadver, prometo que todos iremos sobreviver pela prxima hora.
Entendeu?
     -- Seis -- disse uma voz doce.
     Susan estava quieta ao lado de Leslie, que estremeceu.
     -- Somos seis -- ela disse.
      -- Certo, seis. D no mesmo. Temos que sobreviver por uma hora,
est bem?
      -- No exatamente -- Leslie falou, aproximando o relgio da
lamparina. -- O amanhecer  s 6hl7. Pelo menos foi o que nos...
      Algo comeou a bater na parede atrs de Jack. Ele pulou e se virou.
Novamente, tump, tump, tump e, dessa vez, conseguia ver que a parede
vibrava com cada pancada. Era na sala de jantar.
      Lawdale tirou a outra arma:
      -- Certo, a ajuda chegar a qualquer minuto. Est na hora de fa-
zermos o que quer que esteja atrs dessa parede pensar duas vezes antes
de entrar. Temos que agentar at que a ajuda chegue. Mas isso no
significa fugir. Tragam as armas aqui -- ele cruzou o hall.
      Tump, tump, tump!
      -- Tem certeza de que  uma boa idia? -- perguntou Leslie.
      -- Vocs ficaram fugindo a noite toda. Pelo que sabemos, essa ca-
sa est se alimentando do medo de vocs.
      -- Estamos vivos, no?
      -- No tenho certeza de que estariam se eu no tivesse entrado.
Espere aqui.
      Jack levantou uma sobrancelha ao encarar Leslie e foi atrs de
Lawdale e Randy.
      -- E se essa coisa estiver querendo nos separar de novo? -- ques-
tionou Stephanie.
      Tump, tump, tump!
      -- Esperem! -- ela correu atrs deles.
      -- No nos deixem aqui sozinhas! -- a objeo de Leslie encobriu
algo que Susan estava tentando falar. As duas correram para o corredor
atrs de Jack e Stephanie.
      Depois de uma rpida olhada na sala de jantar, ao estilo policial,
Lawdale entrou na sala e fez um sinal para eles seguirem.
        As batidas tinham parado.
        A sala estava como eles a haviam deixado. Vazia.
        -- Vocs me seguem -- disse Lawdale. -- Desse ponto em dian-
te...
     -- O que  isso? -- interrompeu Leslie.
     -- O qu?
     Ela levou o dedo aos lbios e ficou ouvindo. Um som como de
um disco estranho, girando para trs, tocando muito longe. Embaixo
deles. Na frente deles.
     O som aumentou, bem claro agora, mas ininteligvel. Um canto
doce no fundo, fluindo e refluindo. Jack entrou no corredor. Vinha da
porta do poro.
     Eles se reuniram no corredor em um semicrculo, ouvindo aten-
tamente o estranho som, as palavras, porque era uma voz, quase certeza
de que era uma voz. Pelo menos uma.
     A porta, de repente, se curvou um pouco para dentro.
     Jack segurou a respirao.
     Tump, tump, tump!
     Todos pularam com as batidas que atacavam a porta.
     Um gemido profundo reverberou por toda a casa. Dedos da fu-
maa preta se infiltravam pela porta, caminhavam pelo cho de madeira
e gravavam palavras na superfcie da porta.
     UM CADVER...
     OU SEIS CADVERES
     Depois a fumaa voltou para o poro, o som parou e o silncio
absoluto estava de volta.
     Por dez segundos, ningum se mexeu.
     -- Certo -- falou Lawdale, dando um passo para trs. O brilho
em seus olhos revelava pnico. Desde que tinha se encontrado com eles
na sala da caldeira, ainda no havia enfrentado os horrores da casa. A-
gora tinha.
     Mas Jack tambm pensou que o olhar de Lawdale poderia no ser
de pnico. Poderia ser de determinao. At mesmo desejo. E se... e se
Lawdale fosse, na verdade, parte do jogo? No a parte de White, mas
um tipo de contraparte? O bem veio para lutar contra o mal.
     No. No podia ser. Eles tinham se encontrado na estrada h mais
de cento e cinqenta quilmetros dali. E podiam ver que ele era o
mesmo homem de antes.
     Lawdale olhou para ele, agora calmo:
     -- Temos que sair. Vamos destruir a casa, se necessrio, o cho,
todas as janelas, o sto, tudo. Vamos descobrir uma forma de sair.
     -- No h sada -- disse Randy.
     -- Vamos encontrar um jeito -- gritou Lawdale.
     31        5h29




Eles se moveram rapidamente, seguindo as ordens do policial para se
separar, dividindo, assim, a ateno da casa e confundindo-a, mas Ran-
dy no tinha nenhuma esperana naquele plano. Stephanie tinha encon-
trado um p-de-cabra no armrio, e os dois correram para o andar de
cima porque ele sentia que isso devia ser feito, mas s queria ganhar al-
gum tempo para pensar antes de fazer o que realmente devia ser feito.
     Impressionante como o lugar tinha mudado. Alm da disposio
dos aposentos, no havia nenhuma outra indicao de que seria a mes-
ma casa. E esse novo lugar parecia saber que o fim estava chegando.
Tudo tinha ficado calmo, a calma antes da tempestade.
     Com pouco mais de trinta minutos para sair antes que o jogo ter-
minasse, matar algum era a nica coisa a ser feita.
     A questo era: quem? Jack, sim, mas Jack estava de olho e com um
cano apontado para ele o tempo todo. Era quase como se White o ti-
vesse visitado e avisado.
     -- O sto! -- disse Stephanie, ofegante por causa da corrida pela
escada. -- Precisamos encontr-lo.
     Randy correu para um dos quartos com o martelo-machado na
mo e abriu o armrio. Nada no teto que mostrasse uma entrada para o
sto.
     -- Cuidado.
      Ele acertou a janela, sabendo que seria intil. E era. Vidro que-
brando. Barras de ferro que nem se mexiam. Ele tentou outro golpe,
dessa vez contra a parede.
      A fora do golpe subiu por seus braos e fez seus dentes doerem.
Ele xingou. Agora, se fosse carne, como a cabea de algum, o machado
iria cortar direito, no voltar como na parede. Eles estavam atacando as
coisas erradas.
      Randy tinha deixado sua arma na cozinha por insistncia de Law-
dale -- no era hora de andar por a gastando munio. Que usassem o
machado, o p-de-cabra e um martelo que Jack tinha encontrado na
despensa. As armas ficariam na cozinha, por enquanto.
      Randy no tinha ficado feliz com aquilo. Nem um pouco.
      -- Onde fica o sto? -- Stephanie perguntou.
      -- Cala a boca.
      Ela estava muito agitada para reagir. Correu para outro quarto.
Randy caminhou para as escadas. O tempo estava acabando.
      Talvez devesse matar Stephanie e pronto. Slam, bam, obrigado, mi-
nha senhora. Um cadver...
      Mas o empresrio dentro dele estava sugerindo algumas coisas. Se
ele matasse Stephanie e o resto sobrevivesse como White tinha prome-
tido, quem seria condenado por assassinato? Se ele matasse Stephanie e
o FBI investigasse -- e eles fariam isso, certamente -- ele se daria mal.
      A menos que no deixasse testemunhas -- matasse todos eles.
Mas no tinha certeza de que conseguiria fazer isso.
      -- Aqui! -- gritou Stephanie. -- Achei!
      Entrar em um sto sem luz era uma das coisas mais estpidas em
que ele poderia pensar no momento. Ela tinha mesmo encontrado?
      Estpida. Uma onda de pnico tomou sua mente. O tempo estava
acabando. E se Jack subisse at l e estourasse sua cabea antes?
      Colocou o p na escada e viu o policial subindo, dois degraus de
cada vez.
      -- Alguma coisa?
      -- Ela encontrou o sto -- disse Randy.
      O policial passou por ele, carregando uma lamparina. E ele? Matar
o policial pistoleiro e declarar que o havia confundido com o Homem
de Lata por causa da falta de iluminao. Um cadver.
      Ele conseguiria matar um policial? Se fosse a soluo, sim. Mas se-
r que o Homem de Lata aceitaria Lawdale? Ele no era um dos quatro.
      Cinco. Susan. Betty tinha deixado bem claro que White queria Su-
san morta. Talvez ele devesse matar Susan.
      Randy correu para o quarto e encontrou Lawdale na escada que
havia puxado de um tipo de escotilha e que levava ao sto escuto. Ele
subia, segurando a lamparina na frente.
      -- Suba aqui.
      Randy estava caminhando na frente de Stephanie, segurando o
machado, quando pensou que o machado era to bom quanto a arma.
No tinha certeza de que poderia, mas com certeza funcionaria. Ele colo-
cou a mo na faca que levava na cintura. Com a faca poderia ser ainda
mais fcil.
      O sto tinha um cho de madeira alto com porcarias por todos
os lados. O teto inclinado era feito de velhas madeiras cinzentas. A ni-
ca janela quadrada estava fechada por barras de ferro.
      O policial correu para Randy, agarrou o machado e entregou a
lamparina:
      -- Segure isso.
      Antes que Randy pudesse protestar, o homem tinha feito a troca
-- o machado por uma lamparina intil.  claro, controlando a luz, ele
poderia quebrar a lamparina e controlar a situao, ento talvez fosse
algo bom.
      Ele sabia que estava perdendo o controle de si mesmo, de verdade,
mas deixou-se ir. Precisava disso. Era ficar louco ou morrer.
      Lawdale levantou o machado e acertou o teto.
      Bang /ricocheteio. Claro.
      O antinatural foi o repentino gemido/grito que se espalhou pelo ar
depois da batida, alto o suficiente para que Randy sentisse em seu peito,
como se o sto fosse a fonte dos gemidos que eles tinham ouvido.
      Stephanie gritou, quase to alto quanto a casa e Randy chegou per-
to de agarrar alguma coisa -- qualquer uma -- para tapar sua boca. Em
vez disso, ele se aproximou e a estapeou ainda segurando a lamparina:
      -- Cala a boca!
      Ela calou. A casa ficou quieta no mesmo momento. O olhar dela
era o mesmo de quando tinha sado do refgio de Pete.
      -- Me d sua faca -- Lawdale colocou o machado embaixo de um
brao e esticava o outro.
      -- Para qu? -- Randy tirou a faca da cintura, mas no queria en-
treg-la to depressa.
      -- Pelo amor de Deus, me d isso! -- Lawdale pegou a faca dele e
comeou a cavar as juntas entre a viga e o telhado. Era difcil penetrar.
A ponta da faca se quebrou. Lawdale xingou e, colocando a faca em seu
cinto, levantou o machado de novo.
      Lawdale comeou a bater na parede com raiva. Bang, bang, bang,
bang. Primeiro na parede, depois na janela. Crash, crash, contra o vidro.
      Nada.
      O policial ficou olhando para o cu negro do lado de fora, de cos-
tas para Randy e Stephanie, respirando pesadamente. Abaixou o ma-
chado vagarosamente at que ele caiu da sua mo, batendo forte no
cho.
      A casa gemia.
      Lawdale respirava pesadamente.
      Randy e Stephanie assistiam, abatidos, ao segundo episdio de f-
ria do policial.
      -- Vamos todos morrer -- disse o policial, ainda olhando pela ja-
nela.
      Ele se virou e os encarou:
      -- O Homem de Lata nunca deixou uma vtima viva, nunca fa-
lhou, nunca deixou uma pista da sua identidade, apesar de ter deixado
uma trilha to larga quanto o rio Mississipi por todo o pas, casa aps
casa. Agora sabemos o porqu, no? Mas no temos como contar ao
resto do mundo.
      -- Como assim, sabemos por qu? -- perguntou Randy.
      O policial olhava para o teto que tinha acabado de fustigar e falou,
com urgncia na voz:
      -- A questo  conhecer; sempre  assim. Voc precisa conhecer o
jogo para poder ganhar. O mundo precisa saber com o que est lidando.
      -- Bem, espeto que voc tenha sorte em espalhar a palavra.
      Lawdale olhou bem em seus olhos:
      -- O jogo do assassino  to espiritual quanto fsico. O FBI -- ou
quem quer que esteja perseguindo o Homem de Lata -- precisa saber
que ele s pode ser derrotado se entender a fora por trs dele,  isso o
que quero dizer. No esto olhando para isso da forma correta. Preci-
sam mudar os paradigmas ou ele continuar matando e deixando uma
trilha que ningum entender.
      Tanto faz, pensou Randy:
      -- O tempo est acabando -- disse.
      -- Voc ouviu alguma coisa do que eu estava falando, rapaz? -- o
policial comeou a caminhar em crculos. -- No h como sair! Isso --
ele apontou para o telhado, estudando as tbuas, procurando as palavras
certas. -- Essa coisa, toda essa matana, esta casa... est relacionada
com o bem e o mal, e com as coisas que esto aqui dentro. Mas o mun-
do precisa saber disso!
      Eles no tinham tempo para toda essa besteira filosfica. Randy
tinha que encontrar Leslie se era assim que ele queria passar seus minu-
tos finais. Jogou a lamparina na cara de Lawdale:
      -- Bom, a menos que consigamos vencer White, o mundo nunca
vai ficar sabendo. Tem alguma idia? Ou est s falando por falar?
      Lawdale hesitou:
      -- Talvez o Homem de Lata esteja certo. Um de ns tem mesmo
que morrer.
      Randy sentiu o corao bater mais forte.
      -- Algum precisa ser sacrificado. Precisamos de um cordeiro de
sacrifcio. O Homem de Lata quer sangue fresco. Sangue inocente.
      -- Quem?
      O policial fechou os olhos, pensou por um momento, depois ba-
lanou a cabea:
      -- No sei. Um de ns precisa ser voluntrio.
      -- O qu? -- disse Stephanie. -- Voc realmente acredita que al-
gum vai ser voluntrio para morrer pelo resto?
      -- No s pelo resto de ns -- gritou Lawdale. -- O mundo l
fora precisa saber o que est acontecendo.
      -- No vai acontecer -- disse Randy.
      O policial olhou para ele por um bom tempo, a mente girava atrs
dos olhos brilhantes.
      -- Veremos -- disse ele. -- Pense. O tempo est acabando. Se
um de ns no morrer, todos morreremos.
      Lawdale pegou o machado:
      -- No h como sair -- disse.
      Randy engoliu em seco:
      -- Ns sabemos.
    O policial concordou. Saiu do sto sem falar mais nada, levando
o machado.
     32        5h40




Jack e Leslie tinham corrido de sala em sala no andar de baixo, procu-
rando por alguma estrutura que parecesse fraca. Uma junta, uma janela
aberta, um lugar onde o encanamento tivesse estourado.
      O plano do patrulheiro era s uma ltima esperana, mas Jack no
conseguia pensar em nada melhor, ento se entregou  busca com uma
urgncia frentica. Mas a madeira, as barras, as paredes, o gesso -- a ca-
sa e todos os materiais de que era feita se recusavam a quebrar.
      O tempo todo, a terceira regra continuava se repetindo em sua ca-
bea. Dem-me um cadver...
      Estavam na despensa da cozinha, o ltimo aposento desse andar,
pelo que Jack tinha visto. Mas no havia nada ali que lhe desse esperan-
as. Mesmo assim, acertou as prateleiras.
      Umas garrafas e umas latas caram no cho. O machado bateu na
parede e nada. Ele parou e olhou, sem saber o que fazer. E agora? Ti-
nham perdido muito tempo? Dez minutos, pelo menos.
      Leslie estava atrs dele, parada na porta -- podia ouvir sua respira-
o. A casa gemeu de novo. Mais alto dessa vez. Ele olhou para cima. E
agora?
      -- Vamos morrer -- disse Leslie.
      Era uma simples declarao. Jack sabia exatamente como ela se
sentia, porque pensava a mesma coisa. Havia momentos em que a cora-
gem s escondia a realidade.
      -- Est vindo atrs de mim -- ela disse. -- Est me forando a
fazer o que eu mais odeio.
      Do que ela estava falando?
      -- Sou uma vagabunda, Jack. Essa  a verdade. Eu me odeio e no
consigo evitar. Ela sabe disso.
      -- Quem  ela?
      Ela olhou ao redor, os olhos abertos e cheios de lgrimas:
      -- Eu.
      Ele no disse nada, mas no concordava com ela.
      A casa tremeu violentamente por um segundo, depois se aquietou.
Mais garrafas caram das prateleiras a seus ps. As latas faziam barulho
perto deles. Parecia que a casa estava sendo chacoalhada por um terre-
moto.
      -- Voc acredita em Deus, Jack? -- sussurrou Leslie.
      Ele j tinha pensado na questo muitas vezes naquela noite, mas
superficialmente. No tinha certeza da sua resposta.
      -- No sei -- disse.
      -- Se ele existe, onde se enfiou hoje? -- ela engoliu em seco. -- O
mal est nesta casa, h entidades sobrenaturais nas quais nunca tinha
acreditado at hoje, h um assassino em srie com esse jogo doente e
demente, mas onde est Deus?
      -- Em uma catedral, em algum lugar -- disse Jack. -- Tomando o
dinheiro dos pobres.
      -- Deus no existe -- disse Leslie.
      -- Talvez no -- ele comentou. -- Ao menos no um Deus que
possa nos ajudar.
      De algum lugar da casa, Susan comeou a gritar. Leslie comeou a
procur-la. A menina estava gritando alguma coisa, correndo pelo cor-
redor em direo  sala de jantar.
      Onde tinha ido? Tinha seguido Jack e Leslie, fazendo sugestes
pouco importantes naquele momento. Jack no tinha percebido quando
ela se afastara.
      Ouviam portas batendo no fundo da casa. Rudos de madeira se
quebrando. Susan gritou de novo.
      -- Aconteceu alguma coisa com ela! -- disse Jack. Ele pegou o
martelo e levou Leslie pela cozinha, atravs do corredor, passando pela
porta do poro, at a sala de jantar.
      -- Susan!
      Seus gritos estavam mais altos. Ela gritava algo e o som vinha da
frente da casa. Jack correu para o hall de entrada.
      Todos os mveis na sala de estar adjacente pareciam ter sido ata-
cados por um tornado, metade tinha cado ou estava quebrado. Vrios
pedaos pareciam desafiar a gravidade, presos na parede, como a cadei-
ra inteira perto da lareira.
      Susan estava em um canto, presa entre as duas paredes. O grande
armrio que antes estava do outro lado da sala estava agora a menos de
dois metros dela, aproximando-se lentamente. Suas portas estavam a-
brindo e fechando, como se estivessem respondendo aos movimentos
da menina, cortando sua fuga.
      -- Jack! -- ela gritou. -- Voc precisa me ouvir! Precisa parar
com tudo isso!
      A cadeira na parede voou pela sala na direo dele, que pulou e a
acertou com o martelo. A cabea do martelo acertou a cadeira e redire-
cionou seu vo, mas uma das pernas acertou-o no ombro, empurrando-
o na direo de Leslie.
      -- Oua... -- o grito de Susan foi coberto pelo som de vrias por-
tas batendo ao mesmo tempo. No uma vez, mas vrias. Bam, bam! Ca-
da armrio, cada sala, cada mvel na casa, parecia que abria e fechava
repetidamente em perfeita sincronia.
      Bam. Bam. Bam. Bam. Bam.
      O armrio que prendia Susan parou a meio metro dela. Jack pulou,
levantou o martelo e ia comear a atacar o armrio quando a porta do
lado direito abriu com fora e o empurrou para longe.
      Ele cambaleou e caiu, deixando escapar a arma.
      Bam. Bam. Bam. Bam. As portas retomaram o barulho.
      -- O martelo, Jack! -- gritou Leslie. -- Cuidado!
      Ele tinha voado pelo ar e estava flutuando pela sala, com uma in-
clinao de 45 graus.
      Na direo de Susan.
      Bam. Bam. Bam. Bam.
      -- Jack! -- Susan estava gritando atrs do armrio, mas ele no
conseguia v-la.
      O martelo agora estava atrs do armrio, sobre Susan, com uma
clara inteno.
      Bam. Bam. Bam.
      Bum!
      O tiro explodiu ao redor deles. O martelo foi mandado para longe.
A empunhadeira foi destruda bem embaixo da cabea, que foi lanada
contra a parede e caiu atrs do armrio.
      Lawdale passou por cima de Jack, pegou o martelo cado e j esta-
va pronto para continuar a briga antes mesmo que Jack pudesse enten-
der o que estava acontecendo.
      A primeira pancada destruiu a porta direita do armrio.
     A segunda porta comeou a se mexer e o policial a arrancou com
outra pancada. Bufando como um touro, ele se jogou em cima do arm-
rio pesado e o acertou com um gemido grave.
     As portas da casa pararam de bater junto com o armrio.
     Bam!
     Muita poeira subiu.
     Ficou o silncio.
     Susan correu.
     Passou por Lawdale, passou por Jack, entrou no corredor:
     -- Voc vai acabar nos matando, Jack! -- ela gritou, e sumiu.
     Do que ela estava falando? O que ele estava fazendo que podia
mat-los? O que qualquer um deles estava fazendo que pudesse mat-
los?
     Ou seria algo que eles no estavam fazendo?
     Um cadver.
     Lawdale olhou para eles, respirando fortemente:
     -- Voc est bem?
     -- Estou vivo -- Jack se levantou.
     -- Ouvi os gritos, mas tive que pegar a arma que vocs deixaram
na cozinha.
     -- O que foi isso? -- perguntou Leslie.
     -- O que est fazendo tudo isso? O mal. A casa pensa por si. No
conseguiram nada, certo?
     -- O que voc acha? E o Randy?
     -- No tem sada no sto -- Lawdale bateu o martelo no cho.
Parecia ter desanimado. -- Acho que vamos todos morrer.
     -- Obrigado pelo encorajamento, policial, mas j tnhamos tirado
nossas prprias concluses.
     -- Quais?
     Jack hesitou:
      -- No h nenhuma sada.
      -- O sbio constri sua casa sobre a rocha -- disse Lawdale. -- O
pastor costumava dizer isso. Infelizmente, quem construiu esta casa co-
locou-a em cima de uma tumba. A menos que descubramos essa tumba,
vamos todos morrer.
      -- Abrir a tumba sobre a qual este lugar foi construdo?
      -- Tumba. Como na morte.  evidente que ele acha que todos
ns merecemos morrer. Um de ns precisa morrer.  a nica sada.
      Sua declarao teria derrubado Jack a umas sete ou at trs horas
atrs. Mas sabia que a lgica simples tinha levado o oficial a resumir a
questo assim.
      -- No podemos matar algum -- falou Leslie.
      -- O tempo est acabando. Algum precisa se sacrificar para que o
resto possa viver, no s aqui dentro, mas l fora tambm, no mundo.
Acabar de vez com o jogo desse luntico.
      -- Suicdio?
      -- No, no acho que funcionaria com ele; no se encaixa no per-
fil. No est atrs de covardia. Quem matar deve faz-lo como ele faria,
com maldade.
      -- Isto  assassinato.
      -- No somos assassinos.
      --  claro que no. Ainda no. Mas isso pode mudar nos prxi-
mos minutos.
      Ele pensou por um momento e disse:
      -- E se for o caso, eu posso ser a vtima, apesar de existirem ou-
tras escolhas, at melhores.
      Eles o encararam. O policial estava realmente se oferecendo para
morrer por eles?
      -- J falei para os outros -- disse Lawdale. Tinha abaixado a arma.
-- Vou tentar encontrar a Susan. Vinte e cinco minutos, meus amigos.
Se tiverem que fazer algo, sejam rpidos.
      Ele entregou a arma para Jack, passou por eles e se dirigiu  sala de
jantar para onde Susan tinha corrido.
      Jack olhou para Leslie, que estava virada para Lawdale. Ela o enca-
rou, os olhos bem abertos.
      -- Faz sentido -- e acrescentou para que ela entendesse direito.
-- Em um livro, claro.
      -- Isto no  uma histria -- disse ela. --  um caso clssico de
histeria em massa e ele est ajudando a piorar.
      Ele a ignorou:
      -- Talvez ele esteja certo; h uma escolha melhor do que ele.
      -- Quem, Randy?
      Jack no respondeu.
      Leslie abriu a boca:
      -- Ele pode parecer um pouco perdido aqui -- ela apontou para a
cabea. -- Mas nem mesmo Randy merece morrer.
      -- No podemos ignorar o que est acontecendo -- ele refutou.
-- White falou para ele me matar.
      Ela olhou para ele.
      -- Vamos, Leslie. Voc sabe to bem quanto eu que ele  capaz de
nos matar, os dois! -- Jack encostou a arma na parede. -- Se Lawdale
falou para eles o mesmo que para ns, garanto que Randy j est de o-
lho em mim.
      Leslie olhou de novo para o corredor:
      -- No d para simplesmente mat-lo, pelo amor de Deus!
      -- E se me atacar, o que voc sugere?
      Leslie suspirou:
      -- Pete me falou que White queria a menina morta -- disse Leslie.
-- Acho que tudo isso tem a ver com ela. Acho que White quer se livrar
dela, assim teramos algum para matar.
      Jack olhou para ela, duvidando que ela falasse o que estava implci-
to na frase.
      -- No estou sugerindo que voc mate a Susan -- ela disse, ner-
vosa. -- Mas Randy pode tentar. Ele  muito covarde para atacar voc;
j com a menina...
      A casa comeou a gemer novamente. Um grito indistinguvel pe-
netrava as paredes. Outros gritos surgiram, encobrindo-o.
     33        5h40




Stephanie no concordava com o plano, mas no tentou impedir Randy
tambm. Se houvesse outra sada, ela o teria parado, mas a nica forma
de sobreviverem era que algum morresse, como o prprio policial ha-
via dito.
      No parecia certo, ela sabia que aquilo no estava certo. Mas era a
nica soluo na qual conseguia pensar.
      Suas mos j tinham tremido muito durante a noite, mas agora no
conseguia par-las. Sentia-se to mal em matar algum como em comer
aquela comida de Pete. Mas ela tampouco era uma pessoa normal. Ti-
nha descoberto isso nas ltimas horas.
      A idia de enfiar os dedos na comida nojenta dele e met-los na
boca fez com que seu estmago revirasse com a nusea.
      No fundo, no lugar onde ela conseguia se esconder de si mesma,
no passava de uma garotinha terrvel. Se algum merecesse morrer,
provavelmente seria ela. Jack poderia confirmar. Ela o havia abandona-
do no momento em que ele mais necessitava e se recolhera ao seu
mundo de negaes e autocompaixo.
      Uma lgrima escorreu pelo seu rosto. Ela seguiu Randy at a esca-
da:
      -- Tem certeza de que devemos fazer isso?
      Randy parou e se virou:
      -- Voc pode esperar aqui. Tenho que pegar a arma e encontrar a
menina, mas vou voltar, como combinamos. No vou fazer isso sozi-
nho. Quero que Lawdale esteja aqui quando puxar o gatilho. Ele nos
dar cobertura.
      -- E se no der?
      Randy hesitou:
      -- Teremos que matar todos eles.
      -- Voc nunca falou...
      A casa gritou. Vrios outros gritos se sucederam.
      -- O que  isso?
      Randy a ignorou e caminhou abaixado.
      O grito parecia que vinha de uma voz de menina. Susan, talvez.
Stephanie tremeu. E, naquele segundo, entendeu.
      Era Susan. O Homem de Lata queria Susan. Queria que eles matas-
sem Susan.
      E, de acordo com Randy, era isso que Lawdale tinha dito quando
citou que o assassino queria sangue fresco.
      Ela era uma pessoa m, muito m e deveria impedir Randy em vez
de descer a escada atrs dele.
      Mas ela era muito m para impedi-lo.
      Eles correram para a cozinha atrs das armas. Mas elas haviam de-
saparecido. Randy ficou olhando, o rosto vermelho:
      -- E agora? -- ele procurou por um tempo, olhando atrs da me-
sa e dos outros mveis. -- Ele pegou! Ele pegou as duas!
      -- Randy, no tenho certeza...
      -- Voc deixou o p-de-cabra l em cima -- ele falou, empurran-
do-a. -- Vamos mat-la com o p-de-cabra.

                                ***
      Cinco e quarenta e nove.
      -- Temos que ir -- disse Jack. -- Temos que fazer isso. Agora!
      -- E o que voc decidiu?
      Ele vacilou. Matar Lawdale? Matar Randy? Matar Susan? Foi to-
mado pelo dio. Socou a parede:
      -- Isso  uma loucura!
      -- Jack -- era uma voz doce.
      Ele girou ao ouvir a voz da menina. Susan estava parada no final
do hall de entrada, perto da escada.
      Segurava a mscara de lata do Homem de Lata na mo direita.
      Jack estava muito espantado para falar.
      Ela deixou a mscara cair, fazendo barulho.
      -- O qu... -- ele no sabia o que perguntar.
      -- Voc vai me ouvir agora? -- ela perguntou.
      Jack deu trs passos e ficou ao lado de Leslie, que olhava abobada.
Havia algo assustador na forma como Susan havia aparecido, parada ali
usando um vestido branco rasgado e com a mscara do assassino a seus
ps.
      -- Claro que vamos ouvir -- disse Leslie, com uma voz calma.
      -- Voc precisa ouvir bem. Estou tentando contar, mas voc no
me ouve.
      --  claro que eu...
      -- Tentei avis-lo. A casa no quer que voc oua.
      -- O que est dizendo?
      -- Ela atrapalha a sua audio. Para que voc no entenda nada.
Nem oua direito. Estou tentando contar a noite toda. Voc vai me ou-
vir agora?
      Ele a encarou:
      -- Eu... posso ouvi-la.
      -- O tempo est se esgotando. Vai me ouvir?
      -- Quem... quem  voc?
      -- Ele quer que voc me mate. Mas, se me matar, ir morrer. Pre-
cisa acreditar em mim. A nica forma de sobreviver a esse jogo  des-
tru-lo.
      -- Como?
      -- Posso mostrar.
      Se ela estivesse certa, a esperana de sobreviverem tinha estado ali
a noite toda, e eles a tinham ignorado. Naquele momento, Susan era um
retrato da inocncia perfeita. Sua prpria filha, Melissa, tinha aparecido
para salv-lo. Um anjo-da-guarda enviado para salv-lo, apesar de ser
apenas uma menina que White havia seqestrado. Mas, naquele mo-
mento, ela era mais do que isso.
      -- Ele est tentando me matar, Jack.
      Ele queria correr e abra-la, dizer que nunca mais a abandonaria,
mas no conseguia se mexer.
      -- Eu sei -- Jack se aproximou dela. -- Mas isso no vai...
      -- Lawdale est tentando me matar -- disse Susan.
      Ela parou. Confuso:
      -- O qu? Quem...
      -- Lawdale. O Homem de Lata, aquele que solta fumaa negra
mesmo aqui em cima. Eu falei antes, ele quer que voc me mate. Esse 
o verdadeiro jogo.
      Sua mente girou. Um calafrio de terror subiu por sua espinha.
      -- Voc me ouviu? -- ela perguntou.
      -- Tem certeza? Lawdale?
      -- Voc vai ver a fumaa, Jack.
      Uma mo surgiu por trs da porta e agarrou Susan pelo cabelo.
      Ela gritou.
      Randy entrou, sorrindo, os olhos enlouquecidos:
     -- Para trs, Jack. Ela  a nossa nica chance de sair daqui, voc
sabe disso.
     -- Randy? -- Leslie avanou. -- Randy, o que voc est fazendo?
Est louco, ela  inocente!
     -- Acho que essa  a questo, doutora -- disse Randy, e virando-
se para a menina. -- Vamos, docinho.
     Ele a arrastou por onde tinha aparecido.
     Jack titubeou. Sua arma estava encostada no armrio. Ele girou,
correu e agarrou a arma. Correu at a passagem por onde Susan tinha
sido arrastada, olhou a sala com um giro de cabea. Nada.
     Ela se dividia no outro lado -- um caminho levava at a cozinha,
passando pela sala de jantar; outro levava para o resto da casa e para a
escada. Qual deles?
     -- O que est fazendo? -- Leslie respirava bem atrs dele.
     Jack estava parado, indeciso. No podia ficar andando pela casa,
enquanto Randy tinha toda a vantagem.
     Algo estava errado com seu cotovelo. Ele levantou a camisa e o-
lhou para o cotovelo onde o armrio o tinha acertado. Um pequeno
corte liberava sangue.
     -- Fumaa preta -- disse. -- Quando eu estava no poro, estava
saindo fumaa preta de mim. Todo mundo que era mau liberava fumaa
preta. Iria sair de todos ns. Mas aqui em cima  diferente.  aqui onde
o mal pode se esconder.
     -- A fumaa s fica no poro? No entendo como...
     -- No sei -- ele falou, impaciente. -- Mas aqui em cima o mal
no anda entre ns e no conseguimos v-lo, como no poro. No est
saindo fumaa negra de mim aqui em cima.
     -- Estou vendo! Mas o que isso tem a ver com Lawdale?
     -- Ela disse que ele  diferente, que vai sair fumaa preta dele, no
importa onde esteja.
     -- Como?
     -- No sei! Tudo que sei  que precisamos acreditar em Susan.
     Muito tempo havia passado. Ele correu para a cozinha, gritando:
     -- Randy, voc no pode fazer isso! Precisamos dela!
     Nenhum barulho. Jack deixou a precauo para l e correu para a
cozinha com Leslie bem atrs dele.
     Vazia.
     -- L em cima, rpido!
     Eles voltaram atravs do outro corredor at a sala de jantar, mas
s chegaram a.
     O policial Morton Lawdale estava parado na entrada da sala, com
uma faca enorme e brilhante. A faca do Randy? Seus olhos estavam
bem abertos e seu rosto, branco.
     -- O tempo est acabando -- disse Lawdale. Ele enfiou a faca na
mesa e olhou para Jack, que estava com medo.
     Ele no se parecia com o Homem de Lata.
     -- Quero que voc me mate -- disse Lawdale.
     34      5h53




-- Matar voc?
      -- No podemos esperar mais -- o suor escorria pela testa de
Lawdale por baixo da bandana ensangentada. -- Algum precisa mor-
rer para que o resto possa viver e estou me oferecendo. Faa isso agora
antes que mude de idia.
      Jack estava com a arma; poderia facilmente levant-la e fazer um
buraco no peito do homem. Se Susan estivesse certa, estaria matando
White.
      Se Susan estivesse errada, estaria matando um policial. E poderia
estar errada, no? Digamos que ela no era confivel.
      -- Voc est surdo, rapaz? -- gritou Lawdale. Ele comeou a tre-
mer.
      -- Algum precisa morrer aqui ou todos morreremos. Mate-me!
      Jack instintivamente levantou a arma. Mas no pde puxar o gati-
lho. Ele no podia, no sem ter certeza. Lawdale olhava como algum
que merecia uma medalha de honra ao mrito em vez de uma bala.
Como poderia ser o Homem de Lata?
      -- Jaaack! -- a voz de Susan vinha do andar de cima para onde
Randy a tinha levado.
      E se Susan estivesse do lado do Homem de Lata para destruir a
nica chance de fuga, que era o policial, que havia conseguido tir-los
do poro?
      -- Jack? -- a voz de Leslie tremia.
      Lawdale avanava, com raiva.
      Uma pequena e til informao surgiu na mente de Jack. Ele no
tinha colocado nenhuma bala! Comeou a caminhar para sua direita
com Leslie bem atrs dele, forando Lawdale a girar para sua esquerda.
      -- Randy vai matar Susan -- disse Jack, com a voz falhando.
      -- No se voc me matar primeiro, Jack. -- Lawdale avanou em
sua direo. -- Puxe o gatilho.
      Antes que Jack pudesse fazer isso, Lawdale agarrou o cano da ar-
ma com as duas mos e puxou at encostar na testa. Ele a apertou con-
tra a pele, bem abaixo da bandana. Apertou bem os olhos.
      -- Faa isso, antes que ele a mate. Atire como se desprezasse o
cho em que eu piso, com dio. Com dio dentro de si, rapaz. Vamos!
      As mos de Jack estavam tremendo. Ele armou a escopeta.
      -- Agora! -- gritou Lawdale, o pnico tomando seu corpo.
      A mente de Jack parecia se perder. Ele agarrou a arma com fora e
comeou a gritar:
      -- Ahhhhhhh!
      -- Atire! -- gritou Lawdale, a respirao demonstrando seu pni-
co.
      Mas ele no conseguia. Em vez de atirar, levantou o cano, afastan-
do a bandana banhada em sangue. Um corte de cinco centmetros em
cima do olho direito de Lawdale. Vermelho.
      Nenhuma fumaa.
      O grito de Jack ficou preso na garganta. Ele olhava em direo ao
corte, chocado.
     Nada de fumaa. Ele quase havia aceitado a afirmao de Susan e
matado um homem inocente?
     -- Por favor, Jack -- pedia Lawdale, os olhos fechados. Ele no
parecia entender o que Jack tinha tentado fazer. -- Estou perdendo a
coragem...
     Nenhuma fumaa.
     Ele quase tinha arrancado a cabea do policial porque tinha sido
enganado, levado a acreditar que ele era o Homem de Lata, mas no
havia nenhuma fumaa preta!
     Jack ficou paralisado.
     A boca de Lawdale soltou um grito. Os olhos ainda bem fechados,
o rosto torcido com a agonia, a carne tremendo. O homem estava fi-
cando louco. E Jack tambm. Ele tinha chegado perto de estourar a ca-
bea do outro!
     A fumaa negra comeou a sair do corte de Lawdale, passar por
cima de seu olho direito, descendo para o cho -- preta, como carvo.
     Como... como isso... o que estava acontecendo?
     A fumaa preta estava saindo.
     Jack se afastou.
     Os olhos de Lawdale ainda estavam fechados e seu rosto tremia de
medo. Um homem a ponto de morrer.
     Aquela coisa preta continuou a sair. Uma fina fumaa preta avan-
ava para o p de Lawdale, envolvendo suas botas.
     -- Mate-me, Jack -- pedia Lawdale, parecendo no entender o
que Jack estava vendo.
     -- Jack? -- disse Leslie. -- Est saindo fumaa dele, Jack.
     Claro. As mos de Jack estavam paralisadas.
     -- Mate-o, Jack -- disse Leslie.
     -- Mate-me, Jack -- gritou Lawdale.
     -- Eu... eu...
      -- Puxa o gatilho -- gritou Leslie.
      Ele puxou o gatilho.
      Click!
      Lawdale gritou. A boca aberta, os olhos ainda fechados mas no
apertados. Parecia no saber se havia sido atingido.
      Jack deu mais um passo para trs. Armou a escopeta. Puxou o ga-
tilho de novo.
      Click!
      Por um momento, o ar parecia ter ficado sem oxignio. Algum
tinha deixado s uma bala na arma antes de ele ter salvado Susan do
machado voador uns minutos atrs.
      Lawdale. S poderia ter sido Lawdale, assim a arma estaria vazia
depois de ele ter atirado no hall de entrada.
      Vazia para que, quando Jack tentasse mat-lo, s recebesse apenas
um click.
      Vazia para que Jack no pudesse us-la para matar Lawdale.
      O rosto do homem estava marcado por uma falsa surpresa, a boca
aberta, os olhos fechados. Lawdale fechou a boca. Engoliu em seco, o-
lhos ainda fechados. Abaixou a cabea.
      Quando levantou as plpebras, Jack viu os olhos negros, sem pupi-
las e sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Sabia, sem sombra de d-
vida, que estava olhando para o Homem de Lata.
      Uma viso terrvel: esse homem alto e musculoso com cabelos loi-
ros raspados, a cabea inclinada, fumaa preta saindo do corte na testa,
os olhos negros.
      Negros.
      Leslie gritou.
      A boca do Homem de Lata mostrava um pequeno sorriso:
      -- Nunca deixe sua arma desprotegida, Jack.
      -- Corra! -- Jack jogou a arma no Homem de Lata e pulou para a
direita. Ele agarrou a faca na mesa e se virou, apontando a lmina.
      Com o canto dos olhos, viu que o homem apanhara a arma. Jack
jogou a faca e viu que ela penetrava no bceps do homem.
      Lawdale estremeceu, mas s isso. Passou a arma para o brao feri-
do. Parecia calmo e confiante. E no era para menos. Jogava de forma
impecvel.
      Mas podia ser ferido e se podia ser ferido, podia ser morto, como
Stewart. White arrancou a faca com a mo que estava livre.
      Jack correu para o hall, bem atrs de Leslie.
      Um murmrio o atingiu atravs da madeira:
      -- Muito bom, Jack. Raiva  algo bom.
      Jack subiu correndo a escada. Susan estava certa em relao a
Lawdale, o que significava que sua afirmao de que White iria matar
todos eles tambm deveria ser verdade.
      -- Randy! -- gritava Leslie. -- No faa isso! Espera!
      Um grito.
      Tarde demais?
      Leslie subia a escada quando Jack chegou ao topo:
      -- Randy! -- ele correu pelo corredor e abriu a primeira porta.
      Ele viu tudo em questo de segundos. A luz laranja de uma lm-
pada no teto. Stephanie de um lado do quarto de visitas; Randy batendo
na porta de um armrio fechado com o p-de-cabra.
      -- Lawdale  o Homem de Lata -- disse Jack. -- O assassino 
Lawdale.
      Randy chutou a porta. S pensava em uma coisa.
      -- Ele vai nos matar se ela morrer -- gritou Jack.
      A porta comeou a ceder. Lascas voaram. Jack pulou sobre Randy,
desequilibrando-o. Ele bateu contra a parede, xingando muito.
      -- Como voc sabe disso? -- perguntou Stephanie.
      No ouviam nenhum som vindo de White, mas nessa casa isso
no queria dizer nada. Ele j poderia estar na escada.
      Susan saiu do armrio e se afastou de Randy, escondendo-se atrs
de Stephanie.
      -- Jack! -- Leslie gritou no corredor, olhando aterrorizada para a
escada.
      Ela fechou a porta. Virou-se, com as costas na porta, olhos arrega-
lados.
      -- Ele est vindo!
      -- No acredito em vocs -- disse Randy.
      -- Cala a boca, Randy! -- Jack gritou.
      -- Ele vai nos matar! -- chorou Stephanie.
      Arranhes rasgavam a porta, e Leslie se afastou. Correu na direo
de Jack e se postou atrs dele. No tinham armas. Nenhum machado.
Nenhuma arma, a no ser o p-de-cabra.
      A maaneta comeou a girar. A porta se abriu com um rangido.
      O Homem de Lata ficou parado com sua mscara de lata como e-
les haviam visto, s que agora estava vestido com uma camiseta da Bud-
weiser e com as calas cinzas do policial. Sangue manchava uma tira de
pano que ele tinha amarrado ao redor do bceps ferido.
      Ele segurava a arma vazia de Jack em uma mo e a faca de Randy
na outra.
      -- Ol -- disse.
     35      5h59




O jogo tinha sido melhor do que Barsidious White tinha imaginado.
      A menina ainda estava viva, mas isso iria mudar logo. Ele adorava
pensar que tudo terminaria precisamente como tinha imaginado.
      O Homem de Lata tirou a mscara que Susan tinha deixado cair e
jogou-a pela porta. Depois de um momento estudando os rostos deles,
falou calmamente:
      -- Sentem-se perto da parede.
      Eles se moveram obedientemente.
      Agora todos estavam em uma fila. Cinco. A que se chamava Ste-
phanie, o que se chamava Randy, a que se chamava Leslie, o que se
chamava Jack. E a que se chamava Susan. Como cinco pombas em uma
gaiola, olhando seu captor.
      Ele olhou para Susan. A menina misteriosa que apareceu na pou-
sada inesperadamente, h trs dias. Uma presa aparentemente fcil, mas
que acabou desaparecendo no poro como se esse fosse seu objetivo.
No comeo, ele tentou mat-la, mas depois descobriu algo que o deixou
muito nervoso.
      Ela era uma boa pessoa.
      No uma pessoa que fazia coisas boas para se mostrar, mas algum
que era realmente bom. Inocente. O resto sempre era "pecador" como
ele gostava de falar.
      Mas no tinha certeza de que Susan fosse pecadora. No tinha
nunca falado nada errado ou revelado qualquer outra caracterstica, que
no fossem virtudes. Ele sempre matava os pecadores, provando que
eles eram to culpados quanto ele mesmo; cada um deles acabava ma-
tando o outro para se salvar.
      Pela primeira vez, havia encontrado uma participante que no se
encaixava no perfil e, por isso, tinha causado problemas no jogo.
      Tinha decidido ento coloc-la no jogo. Agora no era matem uns
aos outros, todos vocs so pecadores. Agora era matem essa inocente, removendo de
si mesmos os ltimos vestgios de bondade, todos os que so pecadores.
      Ela olhou para ele, sem medo, abriu a boca para comear a falar:
      -- Eu sei como...
      O Homem de Lata atirou na parede perto de Leslie, que comeou
a chorar.
      Susan fechou a boca. Entendeu. Se voc falar, vou matar um deles.
      Ele tirou um rolo de fita adesiva do bolso, foi at ela e tapou sua
boca. Depois amarrou suas mos. No sabia se a casa podia obscurecer
bem o que ela falava, mas no queria que eles ouvissem nada, princi-
palmente agora. Ela sabia demais.
      Pegou a faca e caminhou pelo quarto; adorava o som das suas bo-
tas na madeira.
      -- Est na hora de conhecerem o destino de vocs. Ainda temos
alguns minutos para jogar.
      Todos olharam para ele.
      -- Tenho uma confisso a fazer -- disse. -- O policial Lawdale
no vir salv-los. A menos que "salvar" signifique entregar  morte.
      Eles continuaram imveis. Pombos. Malditos pombos.
      -- Vocs deveriam apreciar o cuidado considervel que tive para
planejar a morte de vocs.
      Jack e Leslie o encaravam de forma firme. O olhar de Randy era
enraivecido. Stephanie parecia confusa.
      -- Fui at a casa do patrulheiro, uns trs quilmetros daqui, cortei
sua garganta e peguei seu carro. S para garantir que teria jogadores su-
ficientes para o jogo de hoje.
      -- Voc... vai nos matar? -- perguntou Stephanie.
      -- Se vocs no se matarem -- respondeu White. -- E se fizer
outra pergunta estpida, vai ser a primeira.
      -- Por que no nos mata logo? -- perguntou Jack.
      De todos eles, Jack era o que ainda pensava direito. O homem era
forte. Resoluto. Tinha encarado a morte da filha e se tornado amargo
porm experiente. Sua morte seria a melhor.
      -- Pacincia, Jack. Vou mat-lo. Porque meus olhos so negros.
No vai me perguntar por que, Jack?
      Jack hesitou:
      -- Por que os seus olhos so negros?
      -- Porque eu no sou realmente o White na casa, mas o Black da
surpresa e essa  a minha luta final. O bem versus o mal, s que no seu
caso,  o mal versus o mal. Sem disputa.
      Ele podia ver pelas expresses que nenhum deles tinha entendido.
S a menina. O que o incomodou.
      Ele atirou a faca. Ela girou duas vezes e se cravou na parede entre
as cabeas de Jack e Leslie. Tunk!
      -- Voc sabe algo sobre o mal, Jack? H? A coisa sombria.
      Jack no respondeu.
      White levantou a bandana e deixou que a fumaa preta sasse do
corte. Ela desceu at o cho e comeou a ir na direo deles.
      -- O mal, a coisa na sua cabea. Est na minha tambm.
      Ele recolocou a bandana.
     -- Decidi dar a vocs uma ltima chance de entenderem toda esta
confuso. A maioria das pessoas  bastante burra. Gostam de suas casi-
nhas brancas e igrejas com grandes janelas coloridas. Preferem matar
com olhares e palavras pelas costas.
     Ele fez uma pausa.
     -- Bem-vindos  minha casa. Nenhum segredo  permitido. Aqui
todos matam com armas, machados e facas.  mais sangrento do que a
maioria est acostumada, verdade; mas  menos brutal.
     Claro que eles entendiam isso.
     -- O pagamento do pecado  a morte e, desta vez, vamos mostrar
o sangue, o que vocs acham? Chega de vidros coloridos ou casinhas
brancas. Agora  a casa do White e na casa do White seguimos as regras
do White. As regras da casa.
     White podia sentir sua respirao ficar mais forte, mas logo conse-
guiu se acalmar.
     -- Uma ltima chance para pensarem na regra nmero trs. A
menina estava certa. Em duas ocasies: vocs no deram bola para ela.
Bom, culpa da casa. E, sim, quero que vocs a matem. O jogo vai con-
tinuar at que ela esteja morta. Mas ela tambm est errada. Se a mata-
rem, vou deixar quem estiver vivo, viver.
     Ele deixou que pensassem naquilo por alguns segundos.
     -- E se no a matarem, vou cort-los como cordeiros. Todos os
cinco. Comeando pela garota, s para mostrar como deveriam ter feito.
     Os olhos de Randy se moveram rapidamente para a sua esquerda.
Um bom sinal.
     -- O nascer do sol est chegando. O jogo sempre acaba com o
amanhecer.
     Ele pegou um fsforo, riscou no cinto e aproximou a chama da
fumaa que tinha sado da sua ferida. Aquela nvoa queimou com um
rudo, como se fosse gasolina. O fogo danava nos rostos paralisados
dos cinco.
      -- Como podem ver, a coisa negra gosta de queimar. Este lugar
vai pegar fogo com a primeira luz do sol. Em seis minutos. Seis minutos
para decidirem.
      Ele caminhou at a porta e pegou a mscara do cho. Abriu a por-
ta. Saiu do quarto.
      -- Seis minutos.
      White fechou a porta e comeou a tremer.
     36       6h02




As linhas comearam a se cruzar na mente de Jack enquanto White fa-
lava. Foras concorrentes entravam em choque ali naquela casa domi-
nada pelo mal.
      Mal contra o mal. Jack no tinha entendido completamente a afir-
mao de White. Se o mal existia, tambm havia o bem e essas foras
deveriam estar lutando ali. At esse ponto, exceto pelo confronto na sa-
la das caldeiras, esse seqestro parecia uma batalha entre dois lados.
Mas talvez esse fosse o problema. Ele estava entendendo tudo errado!
S via um lado, o mal. Ento onde estava o bem?
      E se o enfrentamento na sala das caldeiras fosse s o pressgio de
uma grande batalha que ainda iria acontecer? Jack contra Jack. De al-
guma forma, essa noite tinha sido somente o ponto culminante de uma
batalha que ele j enfrentava todos os dias. Sua viso limitada focava s
no que ele se permitia ver. Mas e se houvesse mais?
      Qual era o pecado com que White parecia estar to preocupado?
Quais eram os pecados deles?
      Leslie parecia estar lutando contra demnios bem escondidos que
haviam ressurgido na louca casa de White. Randy... Randy estava mos-
trando sua obsesso por poder e controle. Stephanie tinha de enfrentar
sua negao e estava aterrorizada e fraca sem sua fachada.
      E ele? Estava se escondendo atrs da amargura, no sendo melhor
que o resto.
      Esses eram os pensamentos gritando em seu crebro enquanto o
Homem de Lata falava. Depois White apresentou seu desafio final que
era o de matar algum.
      -- Seis minutos -- o Homem de Lata fechou a porta. Da mesma
forma como outras portas tinham batido centenas de vezes, mas agora
com tal sentido de finalizao que ningum se mexeu.
      E depois, como uma resposta deliberada, centenas de portas por
toda a casa, embaixo, ao redor, bateram juntas. Bam! A casa tremeu.
      Um eco perdurou. Algo tinha mudado na casa.
      Jack levantou-se e agarrou o cabo da faca. Ele viu Randy pulando
para pegar o p-de-cabra ao mesmo tempo. Mas a faca estava presa.
      -- Jack?
      Stephanie olhava para ele, com olhos suplicantes.
      -- Me ajuda -- ele disse.
      Ela hesitou e depois correu na direo dele. Suas mos se juntaram
e eles puxaram a faca. Naquele momento de desespero, ele sentiu uma
enorme gratido por ela. E achou que ela sentia a mesma coisa. Esta-
vam somente reagindo aos horrores que os havia pressionado at um
ponto de ruptura, mas naquele momento, com as mos juntas agarran-
do a arma que poderia salv-los, a amargura e a negao que fizeram
com que nem se tocassem por quase um ano desapareceram.
      Pela primeira vez em um ano eles queriam a mesma coisa. A faca.
      Mas ela no queria sair. Estava to encravada que parecia com as
barras de ao na janela.
      Jack se virou, ainda de joelhos. Randy j segurava o p-de-cabra,
fazendo barulhos como um animal, sorrindo estranhamente para Jack.
      -- Espera! -- Jack levantou o brao e colocou Stephanie atrs de-
le. -- Espera um pouco!
      Os olhos de Randy se voltaram para Susan, que ainda estava amar-
rada,  esquerda de Jack. Ela tentava gritar mas a fita cobria sua boca.
      Jack se aproximou da menina:
      -- Est tudo bem, Susan -- ele disse, com a voz calma.
      Ela ficou quieta.
      -- Ele vai nos matar, no importa o que faamos -- disse Jack. --
Pense! Vimos seu rosto; sabemos que ele  Lawdale; por que nos deixa-
ria viver?
      -- Oua o que ele est falando, Randy -- disse Stephanie.
      Ele tirou os olhos de Susan e virou-se para Stephanie, talvez es-
pantado pela mudana.
      --  uma aposta -- disse Randy. -- Mas no quero arriscar minha
vida com base em uma teoria estpida. Se no me deixai mat-la, ento
desculpe, mas voc vai junto -- ele girou o p-de-cabra.
      -- O que voc vai fazer, Randy? Bater na cabea dela?
      Randy no recuou, mas tambm no respondeu. Pelo menos, esta-
va pensando. Jack se moveu enquanto o outro estava, ao menos, preo-
cupado. Abaixando-se, retirou a fita que cobria a boca de Susan.
      Ele levantou as mos, segurando a fita:
      -- Pelo menos oua o que ela tem a dizer.
      Randy olhou, sem se mover.
      -- Cinco minutos -- se queixou Leslie.
      -- Diga, Susan.
      -- O Homem de Lata est mentindo -- disse Susan. -- Ele no
vai deixar ningum viver. Mesmo se me matar, pelo menos alguns de
vocs iro morrer.
      --  mentira -- retrucou Randy. -- Se no a matarmos, todos
vamos morrer. Ela est tentando se salvar s nossas custas.
      -- Eu sei como sair daqui -- a menina afirmou. --  por isso que
ele quer que vocs me matem.
      -- V, Randy? -- disse Jack. -- Vocs precisa manter a calma.
      Randy hesitou; depois falou, tenso:
      -- Se soubesse como sair, ela j teria contado.
      -- Eu tentei -- disse a garota. -- Vocs no me ouviram.
      -- Como samos daqui, Susan? -- perguntou Jack, mantendo os
olhos na direo de Randy e o brao estendido para mant-lo  distncia.
      -- Posso mostrar -- ela continuou. -- Mas vocs tero que confi-
ar em mim.
      -- Ela vai acabar nos matando! -- exclamou Randy.
      -- Se olharem e ouvirem, ainda podero vencer -- disse Susan.
      -- Pense no espelho -- disse Jack, rpido. -- No estvamos nos
vendo. A verdade estava escondida de ns. No estvamos olhando di-
reito. Faz sentido o que ela fala. Pelo amor de Deus, oua o que ela est
falando!
      -- Que verdade? -- exigiu Randy. -- A nica verdade que impor-
ta nesse momento  que White vai entrar neste quarto e mat-la de
qualquer forma. Voc pode querer desperdiar sua vida porque ela quer
isso, mas ns no, certo, Leslie?
      Ela comeava a fraquejar, olhava para Randy e Jack:
      -- E se ela estiver tentando nos enganar?
      -- Ela salvou a sua vida! -- disse Jack, impaciente. -- Qual  o
seu problema?
      Seu rosto se contraiu, confuso, e ela comeou a chorar. Ele espe-
rava isso de Stephanie, no de Leslie.
      Stephanie segurou no brao de Jack.
      -- O tempo est passando -- disse Susan. -- Precisam escolher
em quem acreditar. Se no me seguirem, iro morrer. Precisamos ir em-
bora agora!
      --  a idia mais estpida...
      -- Voc no est ouvindo! -- gritou Susan. -- Estou h mais
tempo do que vocs aqui! Precisam acreditar em mim ou vo morrer!
      -- White vai nos matar! -- berrou Randy.
      Jack se jogou em cima de Randy, como um torpedo. O p-de-
cabra girou sem fora porque Randy fora atacado enquanto estava des-
prevenido. O ferro acertou as costas de Jack enquanto sua cabea atin-
gia o estmago de Randy.
      Eles bateram no cho com fora; Jack por cima. Ele no era al-
gum acostumado a lutar, mas essa era uma circunstncia anormal.
Randy comeou a brigar. Jack sentiu um joelho acertando a lateral de
seu corpo e comeou a perder a vantagem de forma to rpida como a
havia conquistado.
      Jack fez a nica coisa que podia pensar no momento. Gritou com
o mximo de seus pulmes, um grito enraivecido que encheu suas veias
de adrenalina.
      Outra voz se juntou  dele. A de Stephanie, gritando.
      Ele ouviu quando Randy gritou de dor e caiu de joelhos. Stephanie
tinha chutado a mo que segurava o p-de-cabra.
      Jack viu como ela plantou o p esquerdo no cho como uma atleta
profissional e girou acertando Randy com o p direito.
      Ela usava sandlias mas o p era duro e pontudo, e Randy estava
agachado, mostrando-se um alvo perfeito. O p o acertou bem na cabe-
a.
      Ele caiu de lado, aturdido.
      Susan j estava ao lado de Stephanie:
      -- Solte minhas mos! Rpido!
      Ela comeou a soltar Susan.
      -- Jack? -- Leslie via tudo, sem se mexer.
      Randy ainda era uma ameaa, mas eles no tinham tempo para
cuidar dele.
     -- Atrs de mim! -- disse Susan.
     Randy j estava se levantando.
     Jack estendeu a mo para Leslie:
     -- Venha!
     Ela hesitou mas finalmente veio em sua direo.
     Jack correu atrs de Susan e Stephanie, que alcanavam a porta.
     -- Prontos? -- perguntou Susan com a mo na maaneta.
     -- Ele est vindo -- disse Jack.
     -- No importa o que acontea, venham atrs de mim. Abram os
olhos. No deixem a casa atras-los.
     -- Para onde vamos?
     -- Para baixo -- ela disse, e abriu a porta.
     Uma rajada de vento envolveu Jack. A porta se abriu para a escu-
rido, no para o corredor.
     Depois, ele viu a escada, a fumaa preta, as lmpadas e sabia que
essa porta agora levava ao poro. A casa tinha mudado quando White
fechara a porta.
     O medo tomou conta de todo o corpo de Jack.
     -- Venham comigo -- gritou Susan, e comeou a caminhar para a
escada escura.
     37        6h04




Randy se levantou, tonto. A confuso girava em sua mente como uma
fumaa preta, voando com o som de um vendaval.
      Ele percebeu, ento, que o som no estava em sua cabea. Vinha
da porta aberta para onde os outros haviam corrido. A passagem se a-
bria para uma garganta escura que descia at o inferno.
      Para o poro.
      Ele ficou parado, equilibrando-se, lutando contra a confuso. Se-
guiria Susan? De jeito nenhum. Os loucos estavam acreditando em uma
menina que estava perdida na casa h trs dias.
      Ele deu um passo para a frente, com as pernas tremendo e tentou
v-los. Leslie tinha parado no meio do caminho e estava olhando para a
fumaa preta que cobria o cho do poro no final das escadas. O resto
deles, incluindo Susan, j tinha desaparecido.
      Leslie no se movia. Ela havia perdido a coragem. Engraado co-
mo havia perdido o interesse nela nas ltimas horas. Engraado como
tinha que lutar contra uma vontade de chut-la agora, quando ela se en-
contrava de costas. Engraado como a odiava, do mesmo jeito que se
odiava.
      Quanto tempo? Ele ainda tinha algum, no? O Homem de Lata
no disse que o tempo se esgotaria se eles sassem do quarto. Certeza de
que no se passaram seis minutos. Ainda poderia alcan-los. Seria at
melhor assim, porque eles no estariam esperando. Se matasse a garota,
os Stewarts desapareceriam ou algo assim. Ele apertaria a mo de White
e depois sairia desse lugar como um homem livre que usara sua cabea
para escapar da morte.
      Randy procurou uma arma e viu a faca cravada na parede. Pegou o
p-de-cabra e correu at a parede. Agarrou a faca e puxou.
      Saiu facilmente, como se estivesse enfiada na manteiga.
      Um sorriso surgiu em seus lbios. Agora White est ajudando. Ou
a casa. De qualquer forma, ele estava fazendo a coisa certa.
      Correu at a escada e parou no topo. A fumaa preta era fina no
cho do poro. Nenhum Stewart. Nenhum White. S Leslie, que havia
subido um ou dois degraus.
      Havia algo se movendo na fumaa. Nadando pouco abaixo da su-
perfcie -- conseguia ver como essa coisa crescia saindo da fumaa.
      Randy agarrou a faca na mo esquerda, o p-de-cabra na direita e
colocou um p na escada. Depois o outro.
      Ele ficou tremendo, paralisado por um momento. Depois, forou-
se a descer.

                                ***

     Leslie olhava a fumaa se mexendo, grudada nos degraus. Jack e
Stephanie tinham seguido Susan, entrado no meio da fumaa, mas,
quando eles desapareceram, ela percebeu que no poderia ir adiante.
     No iria. O pnico dominara seus ps. E sua cabea. As palavras
de Susan soavam em seu crnio, mas Leslie no conseguia aceit-las.
Correr para o poro era suicdio. Ainda mais tomando como base o que
falava uma menina que poderia no saber o que dizia.
     Por outro lado, Leslie no podia ignorar as evidncias. A casa que
se movia. A fumaa. Sabia agora, olhando para a boca do inferno, o que
acontecia com ela. Estava encarando seu prprio pecado. Tinha sido
abusada quando criana, mas como adulta havia abraado aquele abuso,
transformando-se em uma participante ativa.
      O que era o abuso, alm do ato de submeter algum que no que-
ria ser submetido? Qualquer psiclogo poderia confirmar que as cir-
cunstncias esto submetidas ao participante preso dentro das circuns-
tncias. A beleza est nos olhos de quem v.
      Assim como o mal.
      Ela havia se tornado promscua e convidativa, e adorava o poder
que exercia sobre os homens. Mais importante: ela permitira que esse
poder moldasse sua identidade.
      Os horrores dessa noite se destacavam pela fraca voz que a perse-
guia pelas ltimas duas horas: ela no odiava Pete. Nem o que ele havia
feito com ela. Na verdade, de vrias formas, ela era Pete.
      Eles compartilhavam uma ligao importante. Essa verdade a dei-
xou mal. Mas ela sempre se sentira assim.
      Pensou se deveria ir para o quarto dele. Para ver at que ponto a-
gentaria.
      Ainda assim, ela era mesmo daquele jeito.
      Leslie ficou parada, sem se mover, olhando para a fumaa que se
mexia.

                                 ***

     Jack seguia atrs de Stephanie, descendo pela escada, olhando para
os degraus.
     Susan entrou no meio da fumaa, na altura de sua cintura:
     -- Venham!
     Stephanie parou no ltimo degrau, antes de entrar naquela coisa
preta:
      -- Vai doer? -- perguntou.
      Susan correu at a primeira porta em que Jack e Randy haviam en-
trado.
      Ela chamou Stephanie:
      -- Venha! Agora.
      Ela entrou na fumaa e gritou de dor. Mas estava decidida e correu
atrs de Susan.
      No momento em que Jack pisou na superfcie, a dor queimou sua
pele, atravessando os sapatos e as meias. Ele gemeu, mas continuou an-
dando.
      Era a terceira vez que sentia a fumaa, mas dessa vez a dor havia
piorado. Mais forte, mais funda.
      Ele saiu da fumaa, entrando na sala com quatro sofs.
      Susan fechou a porta:
      -- Vocs conseguem ver agora?
      Jack olhou ao redor:
      -- O qu?
      -- Voc no est olhando! -- ela disse com raiva.
      -- O que estamos procurando? -- exigiu Stephanie. -- Diga-nos!
      -- Eu falei!
      -- Falou o qu...
      -- Os quadros! -- disse Jack.
      Os quadros no estavam exatamente na parede. Estavam flutuan-
do no espao a uns trinta ou sessenta centmetros da parede, movendo-
se devagar, de frente para ele. Todos.
      E eram retratos... dele! Estranhos e distorcidos, mas sem dvida
era ele!
      O que estava bem na frente dele, mostrava-o sem olhos. O sorriso
distorcido da imagem fez com que sentisse um calafrio.
      Jack caiu de joelhos, olhando para o retrato. Era ele, em todos os
retratos -- imagens terrveis que no se pareciam com ele. A imagina-
o de White era demente.
      -- O que voc est vendo? -- perguntou Stephanie.
      -- Sou eu nos retratos -- ele respondeu.
      -- No  o que estou vendo. So meus retratos. Eles... eles so
horrveis!
      -- Ele est fazendo isso...
      -- No -- disse Susan. -- No  o White.
      A porta que vinha do estdio se abriu e Jack entrou, ofegante.
      Jack?
      Vestido como ele, o mesmo tipo de Jack que estava na sala das
caldeiras, s que dessa vez Jack no prestou ateno alguma. Era como
se no pudesse v-los.
      Ele fechou a porta e examinou os retratos.
      -- Sou... sou eu! -- sussurrou Stephanie. Ela via sua prpria ver-
so da mesma coisa que Jack. Os dois estavam se vendo.
      -- Vocs entendem agora? -- perguntou Susan. Ela falava com
urgncia, exigente.
      Mas Jack no entendia:
      -- Eu...
      Jack no sabia o que dizer.
      O novo Jack olhava para algo do outro lado da sala. Seu rosto se
contorcia em um gemido furioso; suas mos se fecharam, uma terrvel
imagem de rancor e dio.
      Passou a se mover como um tigre pela sala, levantando uma lam-
parina enquanto caminhava. Subiu no sof com um pulo.
      Jack viu para onde ele olhava. Trs dos retratos no canto j no
mostravam imagens dele. Dois eram de pessoas que ele conhecia do
mundo editorial -- um agente que o havia abandonado pouco antes da
publicao de seu primeiro romance e um crtico que havia destrudo
esse mesmo livro quando finalmente conseguiu public-lo.
      O outro retrato era de Stephanie, com um vestido amarelo em
uma pose estpida.
      O novo Jack correu para o retrato de Stephanie, gritando. Ele ba-
teu com a lamparina na tela, destruindo o rosto dela. Jack no parou por
a. Continuou a rasgar o quadro, toda a madeira, quebrando cada peda-
o com o joelho.
      Depois ele destruiu os outros dois retratos e os pisoteou. Final-
mente se afastou, verificando que no havia ali mais nenhuma outra
pessoa que odiasse e saiu da sala, batendo a porta.
      Quando Jack olhou de volta para os retratos que ele havia destru-
do, estavam novamente no ar, mostrando seu prprio rosto distorcido.
      -- Vocs esto entendendo? -- perguntou Susan. -- Temos que
sair, mas eu no posso tir-los daqui. Se fosse a minha casa, eu conse-
guiria, mas  a casa de vocs, de cada um de vocs. White a transformou
na casa de vocs. Vocs precisam nos tirar daqui e no vai ser fcil, preci-
sam...
      -- Estou tentando pensar! -- disse Jack, olhando ao redor. --
Minha casa? No vejo...
      Seus olhos pararam em uma velha placa de madeira que estava
pendurada na parede, acima dos retratos. Um velho dito estava cravado
na madeira.
      Lar  onde est o nosso corao. E ele entendeu o que Susan estava ten-
tando mostrar.
      -- Esta casa est refletindo nosso corao -- ele falou. -- Est re-
tirando sua fora do mal que est em ns!
      --  o que estou falando -- disse Susan.
      --  uma casa mal-assombrada que reflete o corao daqueles que
entram nela? -- questionou Stephanie.
      -- Possuda por uma fora que reflete nosso corao -- explicou
Jack. -- Voc v os seus prprios retratos e eu os meus. Cada uma de
nossas experincias  nica. Fomos presos em um poro que foi poten-
cializado por White pata refletir o mal em nosso corao!
      -- Estivemos lutando contra nosso corao?
      -- No -- disse Susan. -- Contra o mal em seu corao.
      -- A pior forma de assombrao -- disse Jack, olhando para os
quadros. -- Estivemos nos encarando o tempo todo -- ele se virou pa-
ra Stephanie. -- Nossos prprios pecados esto nos assombrando.
      -- Me desculpe, Jack -- seus olhos refletiam medo e tristeza, mas
ele no queria o medo, s a tristeza. Percebeu como isso tomava seu
prprio corao. -- Me desculpa.
      -- No -- Jack se aproximou dela, ainda horrorizado pela imagem
de si mesmo destruindo o retrato de Stephanie com tanto dio. Era da-
quele jeito que se sentia!
      -- Sou eu que preciso pedir desculpas. Fui um estpido -- ele a
abraou com fora, esperando desesperadamente que no estivessem se
reconciliando da boca para fora.
      Ela se pendurou nele e chorou no seu ombro:
      -- Me desculpa, Jack.
      Ele ainda a amava. Independentemente do que havia acontecido
naquela noite, ele ainda a amava. A percepo disso fez com que a aper-
tasse mais forte.
      -- Precisamos correr -- disse Susan.
      Jack olhou para ela; compreender tudo havia aumentado sua ur-
gncia. O fato de que nenhuma das figuras havia mudado no passou
despercebido.
      -- Se derrotarmos o pecado, tiraremos a fora da casa?
      Susan olhou para ele por um momento:
      -- No. No  assim que funciona. No tem a ver com os pecados.
Tem a ver com o corao. Tem a ver com vocs.
      Stephanie deu um passo:
      -- No faz sentido! Somos o que fazemos!
      -- Sigam-me -- Susan correu para a porta que levava at o estdio.
-- Vou mostrar o caminho -- se Jack estivesse certo, ela estava indo
para a sada dos fundos.
      A percepo de que todo o mal que ele havia enfrentado nas lti-
mas sete horas tinha sido produzido por ele mesmo, deixou Jack tonto.
Ele era uma pessoa m? Ou o mal era to forte nele que simplesmente
no conseguia ver o bem?
      Susan? Ela era uma das vtimas de White, presa do mundo do as-
sassino, mas parecia saber muito. Ela era a luz nas trevas, no?
      Vrias frases sem sentido gritavam em sua cabea. Uma casa dividida
no pode resistir. Ame seu vizinho como a si mesmo.
      A luz veio da escurido, mas a escurido no entendeu isso.
      Susan abriu a porta, respirou fundo e deu um passo para trs. Jack
viu o que ela estava vendo. Stewart, Betty e Pete estavam parados, segu-
rando armas, no meio da fumaa preta, com olhos brilhantes. Atrs de-
les, a sala estava cheia com vinte ou trinta homens usando mscaras do
Homem de Lata, armados com machados. Todos estavam vestidos co-
mo Jack.
      Eram Jacks.
      -- So como eu -- sussurrou Stephanie.
      No  possvel, no  possvel. Mas era real, muito real, parados
bem na frente dele.
      Por um momento, nenhum deles se moveu. A casa gemeu. Havia
um choro terrvel por trs do som profundo e gutural.
      -- Pecadores -- disse Betty. Ela apontou o dedo. -- Matem-nos!
      Os Jacks comearam a correr.
Susan fechou a porta, trancou-a e passou por Jack:
-- Venham! Atrs de mim!
O quarto reverberava com o som da madeira quebrando.
-- Corram!
     38        6h05




O tempo parou para Randy no momento em que ele colocou seu p no
poro.
     O medo o paralisou -- terrveis ondas de medo que pareciam ver-
dadeiras ondas atacando seu corpo. Tchu, tchu, tchu. As ondas batiam
em seu ouvido.
     Leslie comeou a se mexer, descendo os degraus da escada em di-
reo  fumaa.
     -- Leslie?
     Sua voz era profunda e suave, repetiu:
     -- Leslie?
     Ela se virou, e ele viu que seu rosto estava molhado. Ela continu-
ou a descer. Para a fumaa que j estava na altura do joelho. E correu; a
fumaa se espalhava.
     Desapareceu.
     Randy se forou a descer devagar; a cada passo enfrentava uma
onda de medo, o que o confundia. White queria que ele fizesse aquilo.
Ele havia deixado a faca, no?
     Ele deu alguns passos mais confiantes e parou bem em cima do
mar de fumaa preta. Outra onda de medo o acertou bem no rosto.
      Era Stewart, careca e com os olhos brilhando. No era s Stewart.
Eram seis Stewarts, cada um tinha algo de diferente. Todos armados
com escopetas ou machados.
      Ele subiu uns degraus e levantou o p-de-cabra.
      Mas eles no estavam vindo atrs dele. Certo? Ficaram parados, as
pernas no meio da fumaa, olhando sem que se movessem.
      Talvez eles no fossem mais uma ameaa. De alguma forma, esta-
vam do mesmo lado, tentando matar a menina. Havia matado um Ste-
wart, ento provavelmente eles o temiam. Respeito mtuo.
      -- Vou atrs da Susan -- ele disse. Sua voz ecoou pelo corredor.
      Eles no se moveram. Nem ele.
      A casa comeou a gemer, e depois a chorar. Por uns segundos,
pensou em correr de volta para cima.
      -- Ol, Randy.
      Ele se virou.
      O Homem de Lata estava parado no alto da escada, brilhando com
uma luz cinzenta que parecia sobrenatural. Usava sua mscara e segura-
va uma arma com as duas mos.
      Randy abriu a boca para contar qual era seu plano -- que precisa-
ria de alguns minutos para matar a garota:
      -- Eu...
      S conseguiu falar isso.
      White apontou sua arma:
      -- Adeus, Randy.
      Randy esperou que a bala da arma de White o atingisse. Sentiu que
sua urina escapava.
      -- Fao qualquer coisa -- ele disse, deixando cair o p-de-cabra.
-- Juro, qualquer coisa.
      Nenhum tiro. Isso era bom. Muito bom. Ento, ele continuou fa-
lando:
      -- Qualquer coisa, juro, qualquer coisa... quero ser... fao qualquer
coisa.
      Ainda nada. O Homem de Lata segurava sua arma para baixo, para
que o tiro acertasse o peito de Randy. Mas ele no puxava o gatilho. E o
Homem de Lata no parecia do tipo que hesitava sem que tivesse um
bom motivo.
      Isso era bom, certo?
      -- Mate-a -- disse o Homem de Lata.
      -- Eu vou, juro.  o que vou fazer.
      Uma das portas do corredor se abriu atrs de Randy e ele virou a
cabea. Leslie surgiu, empurrada por Stewart e por outro careca que en-
traram no corredor atrs dela. Stewarts. Demnios, para ela.
      -- Leslie -- disse o Homem de Lata. -- Use a faca.
      -- Randy? -- soluou Leslie. -- O que est acontecendo, Randy?
      O Homem de Lata olhou para ele atravs da mscara, depois deu
um passo para trs e fechou a porta, deixando Randy para cumprir suas
ordens. Ou ser morto, com certeza. Matar ou morrer. Sem dvida ne-
nhuma.
      -- Randy! Me responda! -- Leslie estava de qualquer modo des-
truda. No conseguiria sobreviver a tudo aquilo. Ele s estaria acaban-
do com seu sofrimento.
      Mas as pernas de Randy tremiam como borracha quando ele se a-
gachou, pegou a faca que estava embaixo da fumaa e levantou-a.
      -- Randy, voc no pode estar pensando em me matar! -- sua fa-
ce retorcida pelo terror. -- Randy, querido... Randy?
      Ele olhou para a faca que tinha nas mos. No sentia nada por ela.
Nada mesmo. Ia mat-la. Era a sua nica chance. Ia matar Leslie porque
estava do lado do Stewart, e os Stewarts sempre obedeciam a White.
      Randy caminhou pela fumaa at a mulher que havia tentado con-
trol-lo sem saber o quanto isso o machucava. Era a sua casa. A casa de
White. A casa de Stewart. A casa de Randy. Leslie no era mais bem-
vinda.
      -- Randy, pare imediatamente! -- ela gritou, babando. -- Pare!
      Randy parou na frente dela. E enfiou a faca no peito dela. Bem no
fundo. E soltou. Os Stewarts tambm a soltaram.
      Ela deu um passo para trs, os olhos esbugalhados e caiu de costas
na fumaa. Randy achou que o olhar chocado estampado no rosto dela
era interessante.
      Ele olhou para o lugar onde ela havia cado at que a fumaa se re-
comps completamente. Quando levantou os olhos para o Stewart mais
prximo -- o mesmo que o havia perseguido no comeo, o mesmo
Stewart que ele havia deixado se afogar -- aquela coisa retornou um o-
lhar sem expresso. Depois Stewart se virou e caminhou em direo ao
corredor, seguido pelos demais.
      Randy olhou ao redor, no corredor vazio, e viu que estava sozinho.
Silncio. Vazio, como ele mesmo. Um estranho adormecimento tomou
conta dele. Completamente oco, adormecido e um pouco tonto.
      Ele gemeu e comeou a correr para a sada atrs de Stewart. O
Stewart que era seu pai.
      Estou em casa. De verdade.
     39        6h09




Eles correram em fila nica da sala para o corredor. Susan na frente,
sempre, depois Stephanie e depois Jack.
       O corredor era largo de novo com a escada subindo  esquerda.
       Jack corria sem olhar, sentindo as pernas adormecidas, guiando-se
somente por Susan. Pela porta, pelo corredor, desesperado para no ser
alcanado. Tentando entender o que estava acontecendo, mas dificil-
mente capaz de pensar direito como a situao exigia.
       Susan correu por dois corredores. A cada vez que faziam uma cur-
va, ouviam os passos atrs deles. Para onde ela os estava levando? Whi-
te iria queimar a casa no amanhecer, era o que havia dito. Se a fumaa
queimasse mesmo como ele havia demonstrado l em cima, a casa ex-
plodiria como uma lata de gasolina, com eles dentro.
       A casa tinha se transformado em um inferno particular. Mas, na
frente deles, estava uma jovem que sabia muito mais do que deveria. A
lembrana de que j havia pensado que ela era cmplice de White agora
parecia ridcula. Susan era a nica esperana. Se ela morresse, eles tam-
bm morreriam.
       Sigam-me -- ela disse, e ele a seguira, sem questionar.
       Entraram na sala das caldeiras, trancaram as portas, e estavam na
metade da escada que levava ao duto de ar quando o som de machados
acertando a porta ecoou pela sala.
      -- Corram! -- disse Jack, ofegante. -- Vamos, vamos!
      Stephanie gemeu e comeou a subir:
      -- Para onde vamos?
      -- Anda logo -- respondeu Susan.
      -- Eles podem morrer, certo? -- perguntou Jack. -- Eu matei a
Betty! Por que ela ainda est viva?
      -- Eles morrem -- disse Susan. -- Mas demnios no morrem
assim to facilmente.
      -- Demnios? De verdade? Mas como...
      -- Rpido. Fica quieto!
      O espao livre do lado de fora do quarto de Pete estava com a fu-
maa at o joelho e cheio de Jacks, caminhando de um lado para o ou-
tro, tentando ver atravs das mscaras de metal.
      Jack subiu na grade do duto e olhou para os Jacks, que no conse-
guiam v-lo por causa da escurido. Stephanie estava tremendo ao lado.
Ele segurou sua mo, tocou seus dedos, apertou firme. Ela se aproxi-
mou.
      O som dos Jacks, subindo a escada atrs deles, reverberou pelo
duto. Susan pediu silncio e se arrastou pelo espao vazio, escondida na
escurido, at a escotilha de sada. Jack levantou-a e conseguiu ver o
corredor. Cheio de Jacks. Eles tinham voltado e evitado a maioria dos
mortos-vivos, mas parecia que todos os cantos do poro estavam lota-
dos de Jacks e Stewarts, rondando, caando. No importa para onde
fossem, iriam encontrar um exrcito do mal.
      Jack ia falar isso para Susan quando ela se ergueu at uma segunda
escotilha que ele no havia visto. Ajudou Stephanie a sair, depois eles se
arrastaram pela passagem estreita que saa em um outro corredor.
      Sem fumaa. Sem Jacks.
      A casa parecia saber que White planejava queim-la, porque a cada
minuto seu gemido se tornava mais urgente. Tons altos e baixos se en-
trelaavam em um terrvel choro que ia e vinha.
      -- Por aqui! -- Susan disparou pelo corredor at uma porta de
madeira no alto. Era uma das portas que dava no tnel escuro em que
ele a havia encontrado.
      Um lugar seguro.
      Mas White poderia mudar tudo. Iria mudar tudo.
      Eles entraram no tnel, fecharam a porta sem fazer barulho e fica-
ram recuperando o flego na escurido.
      -- E agora? -- perguntou Jack.
      -- Ns demos a volta ao redor do poro -- disse Susan, ofegante.
-- A porta que o sugou antes leva ao estdio.
      -- Aquela porta est trancada...
      -- No, no est. Voc achou que estava. Mas temos um proble-
ma mais srio.
      -- Qual?
      -- Temos que passar pelo estdio para chegar  sada do tnel.
      As vozes ecoavam no tnel.
      -- Se passarmos por ela, conseguiremos chegar  porta dos fun-
dos? -- perguntou Stephanie.
      -- Aquela est trancada -- disse Susan.
      -- E o corredor? -- perguntou Jack.
      -- , provavelmente, onde ele estar esperando junto com incon-
tveis demnios.
      -- Aquela porta dos fundos  a nica sada? -- questionou Jack,
chocado com a sinceridade dela.
      --  a nica sada.
      --  impossvel! No conseguiremos passar por ele!
      O silncio tomou conta da passagem escura.
      -- Ele vai queimar a casa -- sussurrou Stephanie.
      -- Venham comigo -- disse Susan pegando em suas mos.
      Ela os levou diretamente para a escurido. Fugir era uma coisa,
pensou Jack, mas ir direto para os braos deles?
      Ele parou, ofegando agora tanto de medo como de cansao:
      -- Isso  loucura. Eles vo nos matar!
      -- Pode ser -- disse Susan. -- E iro, com certeza, se vocs no
comearem a enfrent-los.
      -- Devo, ento, correr em direo a uma multido daquelas coisas,
desarmado? -- sabia que ela no estava dizendo isso, mas sentia que
precisava mostrar o desequilbrio de foras.
      -- Ele est certo -- falou Stephanie. -- No temos nenhuma
chance.
      Susan os empurrou:
      -- Parem de pensar neles. Esto aumentando a fora deles.
      Estavam falando baixo, andando rapidamente para o fundo do t-
nel.
      -- Mas eles so reais -- disse ele. -- Os machados so reais...
      -- Claro que so reais. No estou falando para irmos direto at e-
les. Mas h foras superiores alm das que vocs conseguem ver.
      -- Deus? Est falando de Deus? Que foi algo poderoso em algum
lugar do cu que criou tudo isso?
      -- Vocs criaram tudo isso.
      -- O que voc est falando? S estvamos passando de carro
quando o White rasgou nossos pneus e nos atraiu para essa casa infernal.
      --  a casa de vocs.
      -- Isso  loucura.
      -- Ela tira a maior parte da energia de vocs. J falamos sobre is-
so! Aceite, Jack. Voc est no corao da batalha entre o bem e o mal.
     -- Eu orei para Deus -- disse Stephanie. A frase parecia mais uma
pergunta.
     -- Orou? Mas voc pelo menos acredita? De verdade? E sabe co-
mo amar, de verdade?
     -- Ame a Deus com todo seu corao -- disse Jack, baixinho. --
Ame seu vizinho como se ele fosse voc. No  um ensinamento famo-
so? De Jesus? -- ele hesitou, sentindo-o tomando conta de sua mente.
-- O que seria o amor em uma casa de horrores?
     -- Como em qualquer outro lugar -- disse Susan. E acrescentou
depois de uma pausa. -- No  s o que voc faz,  quem voc . Vo-
cs precisam mudar quem so.  assim que se muda a casa. Precisam
mostrar; as palavras no querem dizer nada em momentos como esse.
     Uma das portas se abriu de repente, deixando a luz invadir a pas-
sagem. Um dos Jacks apareceu na entrada. Ele deu um grito e comeou
a correr, seguido por outros.
     Susan pulou para a porta que estava na parede, agora iluminada.
Ele olhou para as sombras atrs dele, procurando algo. O armrio onde
havia encontrado Susan -- no conseguia v-lo, mas sabia que estava l,
do outro lado da porta que levava ao estdio, para onde ia Susan.
     -- O armrio -- ele sussurrou.
     O Jack gritou algo. Eles o tinham visto.
     -- No temos tempo para nos esconder -- gritou Susan. -- Ele
vai queimar a casa.
     Mas Jack correu para o armrio. Precisava ganhar tempo. Susan
hesitou um momento mas o seguiu. Correram pelas sombras, at o ar-
mrio, fecharam a porta e seguraram a respirao tanto quanto puderam.
Com alguma sorte, tinham entrado sem que tivessem sido vistos.
     -- Ele vai queimar a casa -- disse Susan. -- Voc deveria ter me
seguido quando eu falei.
     -- No temos chance l fora! -- sussurrou Jack.
     Ela segurou a maaneta:
     -- Observem. Quando eu sair, vocs saem, rapidamente. Tentem
encontrar uma arma. Qualquer coisa. Certo?
     Ele conseguia ouvir os passos que se aproximavam. Com alguma
sorte no tinham sido vistos entrando no armrio encoberto pela escu-
rido. Sem aquele elemento de surpresa, estariam perdidos.
     -- Jack?
     -- Shhii...
     -- Jack, no consigo...
     Ele colocou a mo tampando a boca de Stephanie:
     -- Shh... shh... shh. Claro que voc consegue. Ns confiamos em
voc.
     -- No sei.
     -- Shhhhhhhh...
     Os passos se aproximavam. Estavam ali.
     Passaram por eles. Susan esperou mais um tempo.
     -- Agora! -- ela sussurrou.
     Ela abriu a porta repentinamente, gritando alto. A porta acertou
um corpo. Um barulho de porta batendo em uma mscara de lata res-
soou pela passagem.
     Susan saltou para fora e avaliou a situao. Jack via tudo isso como
um sonho. Trs cpias de si mesmo usando mscaras de lata. Dois deles
a uns trs metros de distncia. Um bem na frente de Susan, surpreendi-
do por sua apario. O machado que ele carregava caiu no cho.
     Por um momento, todos ficaram paralisados pela indeciso. Ento
Susan se moveu, rpida, silenciosa.
     Jack viu que ela agarrou o machado do cho antes que o Jack ti-
vesse tempo de reagir. Ela girou a lmina com toda sua fora enquanto
o outro se recuperava e tentava pular para trs.
      A lmina acertou o homem. Cortou sua carne. Atravessou seu
corpo. No ar, como se o homem fosse feito s de sangue, sem ossos.
      O homem gritou de dor. O grito imediatamente se transformou
em algo agudo que doeu no ouvido de Jack. O homem, ento, foi suga-
do para si mesmo e se transformou em uma coluna de fumaa. Esta,
mais pesada do que o ar, colapsou sob a mscara de lata, que caiu no
concreto junto com o machado.
      Nenhum sangue. Jack entendeu, ento, que essas cpias de si
mesmo vinham da fumaa. Eram a fumaa nesse lugar assombrado po-
tencializado por seu corao. A fumaa do mal.
      A natureza humana.
      Os dois Jacks que haviam passado a porta do armrio comearam
a voltar, gritando furiosos, brandindo suas facas. O som foi suficiente
para amedrontar Jack.
      Um dos Jacks atirou uma faca. Era comprida, quase uns trinta cen-
tmetros, e Jack viu como ela girava lentamente no ar, batia em seu om-
bro e caa no cho.
      A dor tomou todo seu brao:
      -- Corram! -- Susan corria para a porta em que Jack havia sido
sugado. Eles no precisavam de nenhum encorajamento.
      Isso foi necessrio dois segundos depois, quando Susan abriu a
porta que levava ao estdio.
      At onde podia ver, s havia uma pessoa na sala. Mas no era um
Jack. Era Stewart. E ele estava armado com uma escopeta.
      Jack parou de repente, nem sentiu a coliso de Stephanie atrs dele.
      -- Anda! -- gritou Stephanie. -- Eles esto vindo!
      Jack entrou.
     40        6hl2




Susan bateu a porta logo depois de eles entrarem, girando a fechadura e,
por ora, protegendo a retaguarda.
      Mas a retaguarda era o que menos preocupava a mente de Jack na-
quele momento.
      A primeira e mais imediata preocupao era Stewart. E sua arma.
Ele os encarava do meio da sala; espantado mais do que assustado.
      A fumaa preta cobria o cho at o tornozelo.
      A segunda preocupao de Jack era a percepo ainda no total-
mente assimilada de que a ameaa que o encarava vinha, de alguma
forma, dele mesmo. Do seu prprio corao.
      -- Acredito -- ele sussurrou. -- Acredito; juro que acredito --
mas ele ainda no sabia o que aquilo significava.
      Stewart ainda no havia levantado a arma. Ele sabia to bem quan-
to Jack que o machado na mo da menina no era preo para uma arma,
no naquela distncia.
      O grito de frustrao de Stephanie ao ver Stewart foi como uma
ferida.
      Susan deu um passo  frente, o machado nas duas mos. Ela enca-
rou Stewart, colocando-se entre ele e Jack. Stephanie se apertava atrs
do marido.
      Em algum lugar da casa, vrias portas comearam a bater ao mes-
mo tempo. Bang, bang, bang, bang!
      Mas Stewart no se mexeu. Susan o encarava, no parecendo que-
rer nem atacar nem recuar. Eles haviam chegado a um beco sem sada.
      Jack queria perguntar o que estava acontecendo, o que ele deveria
fazer naquele momento, o que ela estava fazendo, mas sua boca no
conseguia formar palavras.
      Por um bom tempo, eles se encararam. O cho tremia a cada bati-
da da porta. Era como se a casa estivesse mandando sinais para todos
os habitantes.
      Ns os pegamos; ns os pegamos; ns os pegamos; ns os pegamos!
      Stewart calmamente levantou a arma e apontou para Susan. As
portas pararam de bater ao mesmo tempo. Um sorriso apareceu no ros-
to do homem.
      -- H mais, no ? -- disse Susan.
      O sorriso desapareceu por um instante antes que ele conseguisse
recuperar a confiana.
      -- Esta casa  nossa agora -- disse.
      -- ? Voc sabe quem sou eu?
      -- Um deles.
      -- Tem certeza?
      Stewart no respondeu.
      A porta se abriu e Betty entrou. Atrs dela, Pete. A cabea de Betty
estava com curativos ensangentados. Jack tinha certeza de que ela era
feita de mais coisas do que carne e osso. Ou estava possuda ou era a
possuidora.
      Ainda assim, esses monstros poderiam ser mortos, Susan tinha di-
to isso.
     Me e filho andaram at perto de Stewart e olharam para Susan.
Os olhos de Pete se fixaram em Stephanie, por cima do ombro de Jack,
consumidos pelo desejo.
     -- L est ela, Mame -- ele disse.
     Esse bronco s pensava naquilo. Tinha a dimenso emocional de
um pedao de carvo.
     Betty o ignorou:
     -- Lembre-se, ele quer esses trs vivos.
     -- Vocs vo morrer hoje -- disse Stewart. -- Todos os trs.
Sempre morrem.
     -- Foi o que voc me disse h trs dias -- replicou Susan. -- A-
inda estou viva.
     -- Largue o machado -- ordenou Betty.
     Jack lutava contra o pnico. Como ele iria sair dessa? Pensou em
pegar o machado dela e avanar direto para eles.
     Susan hesitou, depois colocou o machado no cho.
     O medo subia pela espinha de Jack. Nenhum osso em seu corpo
conseguia concordar com um plano que inclusse uma corrida direto at
Stewart. Seria como pular em um abismo.
     Mas, naquele momento, Jack ignorou o tremor em suas mos e
pernas, passou por Susan, agarrou o machado e correu na direo de
Stewart.
     Ele estava no meio do caminho quando ouviu o grito de Susan:
     -- No, Jack!
     No, Jack? No havia mais como! Tinha de fazer algo! Jack res-
pondeu gritando enquanto pulava, girando o machado no ar.
     Estranhamente, Stewart no atirou. Na verdade, no demonstrava
nenhum sinal de preocupao, ao contrrio dos Jacks que eles tinham
acabado de matar. Stewart no era um reflexo dele, Jack.
      No ltimo segundo, quando o machado estava a ponto de comple-
tar sua trajetria, Stewart se moveu, saindo de lado e desviando-se da
lmina. Jack foi desequilibrado pela arma pesada. A parte de trs da ar-
ma de Stewart acertou sua cabea enquanto o machado caa no vazio.
      Ele soltou o cabo para se proteger da queda e descobriu, naquele
instante, antes de ouvir o som de seus joelhos se chocando contra o
cho de concreto, que a fora de que Susan tanto falava no vinha nem
da ousadia, nem da idiotice.
      Ele bateu no cho duro e sentiu a bota de Stewart acertar o lado
do seu corpo.
      -- Estpidos -- o homem cuspiu.
      -- No! -- gritou Susan, avanando.
      A arma retumbou:
      -- Fique a!
      Jack se ajoelhou, tentando entender o que havia acontecido. Eles
estavam contendo Susan e Stephanie, que protestava gritando. Ela foi
silenciada por um alto clap.
      Susan gritou alto, mas a mente de Jack estava concentrada em sua
prpria situao. Stewart havia agarrado seu brao e o puxara at perto
dele. Jogou-o no centro da sala.
      Eles foraram Susan e Stephanie a se ajoelharem. Havia sangue es-
correndo do nariz de Susan. Ela olhava para Jack com tristeza. O rosto
de Stephanie estava vermelho. Mas elas no pareciam estar seriamente
feridas.
      Stewart forou Jack a se ajoelhar.
      -- Espere por mim -- sussurrou Susan.
      -- Cale essa sua boca fedoren...
      Susan gritou e ficou de p, enquanto Stewart ainda estava perto de
Jack:
      -- Agora, Jack!
      Ele no sabia o que tinha que fazer agora, mas pulou sobre Stewart
com toda a fora que conseguiu juntar naquele pequeno espao de tem-
po.
      Susan agarrou a arma quando a cabea de Jack bateu na de Stewart.
A orelha esquerda dele era tudo que separava seus crnios, um pedao
de carne que no tinha sido criado para agentar tal golpe.
      Stewart gritou.
      Jack continuou a bater, querendo derrub-lo. Com o canto dos o-
lhos, viu Pete correndo para seu lado.
      Viu tambm Stephanie colocar-se no caminho dele, como se esti-
vesse possuda. Ela acertou o joelho no meio das pernas de Pete com
tanta fora que pararia at um elefante; ela gritava junto com Susan para
aumentar sua fora.
      Betty tambm gritava, mas nenhum dos seus gritos importava,
porque Stewart estava caindo junto com Jack, e Susan havia tomado a
arma.
      Ela girou, cravou a parte de trs em seu ombro e a armou, para
mostrar que sabia muito bem como us-la.
      -- Contra a parede! -- gritou, apontando para a cabea de Betty.
Depois para Pete. -- Na parede!
      Jack saiu de cima de Stewart e se levantou, ofegante.
      Por alguns segundos, Betty, Pete e Stewart ficaram completamente
atnitos diante da inverso da situao.
      -- Anda logo -- disse Susan.
      Eles caminharam devagar at a parede, os olhos fixos, ainda sem
entender como tinham sido enganados.
      -- Veja se as portas esto trancadas -- disse Susan. -- Rpido,
Jack.
      Ele no sabia o que ela queria fazer, mas correu para a porta prin-
cipal e a trancou.
      -- Vocs nunca vo conseguir sair -- disse Stewart, a indeciso ti-
nha passado. -- Esto em menor nmero.
      -- Cala a boca -- disse Susan.
      Jack correu at a porta que levava ao tnel, de olho em Pete que,
mesmo agora, olhava fixamente para Stephanie. A porta j estava tran-
cada.
      -- Voc vai mat-los? -- perguntou Stephanie. -- Talvez devs-
semos mat-los. Eles no so pessoas reais, certo?
      -- Isso no vai nos ajudar -- respondeu Susan. -- Precisamos...
      Rap, rap, rap.
      Susan virou a cabea para a porta atrs de Jack. Podiam ouvir os
dedos arranhando a porta.
      Rap, rap, rap!
      -- No importa o que acontea -- disse Susan. -- Lembrem-se
de...
      A porta tremeu, depois se dobrou sob o impacto de tamanha fora.
A fumaa preta comeou a entrar no estdio.
      -- ...que a luz sempre penetra nas trevas.
      A porta tremeu violentamente e continuou a dobrar, dessa vez v-
rios centmetros, torcendo-se contra a fora que a mantinha no lugar.
      Jack correu para pegar o machado.
      -- Olhe o outro quarto -- ele disse.
      Ela olhou.
      A porta atrs deles -- a que levava para a sala -- comeou a vibrar.
Tambm se retorcia. Assim como a terceira e a quarta portas.
      -- A luz penetrou nas trevas, mas as trevas no compreenderam
isso -- disse Susan. -- Olhem para a luz. S ela pode salv-los de si
mesmos.
      -- O que  isso? -- perguntou Stephanie, os olhos se movendo
por todas as portas.
       -- Ele est aqui -- disse Susan.
       Mas parecia que era mais do que um ele. Jack no podia parar de
pensar que todos os mortos-vivos, sabe-se l quantos havia nessa casa
lotada que ele mesmo havia criado; estavam ali pressionando por todos
os lados, no permitindo que escapassem.
       -- Jack -- Stephanie estava sussurrando, morrendo de medo. Os
olhos ainda passavam por todas as portas. -- No sei o que est acon-
tecendo...
       Os dedos na porta do tnel arranharam a madeira de novo e a por-
ta se abriu. Espirais de fumaa preta comearam a entrar, mas s isso.
As outras trs portas ficaram quietas.
       Ento entraram, como um bando de chacais, uma dzia, duas d-
zias de Jacks. Metade se dirigiu  direita, metade  esquerda, formando
duas fileiras como uma guarda treinada.
       Jack se aproximou de Susan e Stephanie, no meio da sala.
       Eles continuavam a entrar, trinta, quarenta, enchendo a sala, o-
lhando para ele, segurando armas, mas esperando.
       Todos com mscaras de lata.
       Exceto por alguns que Jack reconhecia como os que surgiram no
corredor, todos os outros eram Jacks. Todos eram ele. Estava encaran-
do-os e seus joelhos tremeram. Stewart, Betty e Pete agora pareciam fe-
lizes, estavam sorrindo.
       -- Susan?
       Ela segurava a arma, mas no estava atirando. O que poderia fazer
uma arma contra tantos?
       Stephanie segurava o brao de Jack firmemente. Era algo bom, ele
achava. Stephanie. Ela estava ali, enfrentando as mesmas coisas que ele.
Morreriam juntos. Um final apropriado para a tristeza que os atormen-
tara por tanto tempo.
     Para ele, os olhos dos Jacks estavam voltados em sua direo. Ne-
nhum deles olhava para outro lado e nenhum deles piscava.
     Ento, os Jacks de perto da porta se afastaram, e ele sabia que a
espera tinha acabado.
     O Homem de Lata entrou na sala.
     41       6hl4




O quarto ficou em silncio. O Homem de Lata andou at eles e parou a
uns trs metros, na linha formada pelos Jacks.
     Ele os encarou em silncio. Na sua mo direita, segurava a arma.
As feridas no brao e na testa tinham ensopado as bandanas, mas no o
impediram de continuar.
     Por uns segundos, ele s olhou para eles atravs dos buracos em
sua mscara. Respirava fundo e firme.
     -- O pagamento do pecado  a morte -- disse o Homem de Lata.
-- No final, todos sempre pagam.
     Susan no tentou apontar a arma para ele. O machado nas mos
de Jack parecia pequeno e insignificante. No tinham nenhuma chance.
     -- Baixe a arma.
     Susan largou a arma e ela caiu no cho.
     Os olhos do Homem de Lata se voltaram para ela e ele a estudou
por um momento.
     -- Me desculpe, Jack -- Stephanie sussurrava freneticamente. --
 tudo culpa minha. Todos esto olhando para mim... Sinto muito
mesmo.
     Ela se via -- via Stephanies, no Jacks -- e seus olhares diziam
que ela era a culpada.
      Jack caminhou com as pernas tremendo, colocando-se entre Ste-
phanie e White. Seu corao estava batendo forte no peito. Como a ba-
tida das milhares de portas naquela casa.
      -- Bem-vindos  casa de vocs -- disse o Homem de Lata. Ele
gemeu satisfeito. -- Gostaram?
      Ele levantou a arma. O silncio tomou conta de tudo, s permane-
cendo o som das respiraes. Os Jacks observavam.
      -- Mate-a -- disse o Homem de Lata.
      No comeo, Jack no entendeu o que ele estava falando. Com a
mscara de lata, era difcil saber com quem ele falava.
      -- Mate Susan -- disse White. -- Ou vou matar vocs trs.
      -- O qu?
      -- Se voc mat-la, deixarei voc e Stephanie vivos. Como deixei
Randy.
      -- Randy? -- ele mal tinha pensado naquele sujeito desde que en-
traram no poro. Ele estava livre? E Leslie?
      -- Livre como um passarinho -- disse o Homem de Lata. -- Ma-
te-a.
      Jack no conseguia falar. Ele no poderia matar Susan. E ele no
poderia no mat-la e, assim, causar a morte de Stephanie.
      As duas escolhas eram imperdoveis.
      O Homem de Lata respirava forte e lentamente por trs da msca-
ra. A mente de Jack girava atravs dos elementos deslumbrantes desse
momento louco.
      Elemento: Era a ltima chance deles. J estava amanhecendo.
      Elemento: O Homem de Lata estava mentindo. Iria mat-los de
qualquer forma.
      Elemento: O Homem de Lata sempre quis que eles matassem Su-
san, ento provavelmente no estava mentindo.
      Elemento: Ele devia sua vida a Stephanie. Ele a maltratou bastante
nesse ltimo ano de luto. Ela no merecia morrer. Tinha que tentar sal-
v-la.
      Elemento: Ele poderia salv-la com um giro do machado em suas
mos.
      Elemento: Ele nunca poderia acertar Susan com o machado!
      Os pensamentos se atropelavam, confundindo sem chegar a ne-
nhuma concluso.
      -- Ser que trinta moedas de prata ajudariam?
      Trinta moedas de prata?
      -- Voc sabe que consegue -- o Homem de Lata disse. -- Todos
eles querem que voc o faa. Todos vocs.
      Como se fosse uma indicao, as quatro portas comearam a fazer
barulho. Depois, a tremer violentamente. A curvar. Mais fumaa.
      Nenhum dos Jacks se virou para olhar. Continuavam fixos nele.
      As portas se abriram, empurradas por um mar de Jacks que entra-
va na sala como um enxame de insetos. Um exrcito de protegidos do
Homem de Lata que eram Jacks, cada um deles olhando fixamente para
ele.
      Stephanie gritou.
      Jack viu que atrs deles, do outro lado da porta, centenas, talvez
milhares de Jacks enchiam os corredores e as salas. A fumaa havia cri-
ado milhares de Jacks.
      Eles estavam em todos os lugares, criando um crculo ao redor de
onde estavam Jack, Stephanie e Susan.
      As mscaras de lata e as armas faziam barulho bem como seus sa-
patos, mas eles no falavam. S espiavam atravs dos buracos nas ms-
caras.
      -- Oh, meu Deus! -- choramingou Stephanie. -- Oh, meu Deus.
      O Homem de Lata olhou para Jack. Impossvel dizer se ele estava
se deleitando com a situao.
      -- Sabe que quer mat-la.
      Ele se dirigia a Jack, mas agora todos os Jacks responderam se
movimentando, alguns balanaram a cabea. Todos ainda olhando para
ele. A respirao deles ficou mais rpida e agora s uns poucos no es-
tavam gemendo ou chorando de forma estranha. Estavam desesperados
para matar Susan.
      Por que Susan? Por que essa obsesso com essa menina?
      -- Seu corao est obscurecido. Precisa olhar para a luz -- disse
Susan.
      Suas palavras pareciam agitar ainda mais os Jacks. Eles se balana-
vam e se agitavam e se chocavam ainda mais.
      -- Que luz? -- gritou Stephanie.
      O Homem de Lata deu um passo em direo a Stephanie:
      -- No seja uma completa idiota -- disse. -- Mate-a.
      Os olhos de Jack se encontraram com um Jack parado bem a sua
esquerda. S que no era um Jack. Usava uma mscara de lata e era qua-
se da mesma altura que os outros, mas estava vestido diferente.
      Estava vestido como Randy.
      Era Randy.
      White percebeu isso e olhou para Randy.
      -- Eu matei a Leslie -- disse Randy.
      S isso. S "eu matei a Leslie", como se estivesse orgulhoso e enver-
gonhado do fato.
      O Homem de Lata apontou sua arma para ele e apertou o gatilho.
O tiro acertou o peito de Randy e jogou-o contra a parede de Jacks an-
tes de cair no cho.
      A energia do mar de Jacks duplicou. O som cresceu at se trans-
formar em um rugido de encontres. Estavam incitando Jack. Pedindo.
     Ele se sentia compelido. Arrastado irresistivelmente a satisfazer as
exigncias desses Jacks.
     O Homem de Lata apontou de novo na direo de Jack:
     -- Mate-a.
     Jack hesitou por um longo momento. Em seguida, falou com mui-
ta conscincia:
     -- No.
     Quase imediatamente os Jacks ficaram em silncio, espantados.
Ele repetiu, para ter certeza de que havia realmente falado.
     -- No.
     Silncio. Respirao.
     -- Voc  um tolo -- disse o Homem de Lata.
     Susan deu um passo, ficando  frente dele e de Stephanie. Girou e
olhou para Jack.
     As lgrimas escorriam pelo seu rosto, mas seus olhos estavam
calmos.
     -- Mate-a -- o Homem de Lata gritava, bravo, tremendo. Era a
primeira vez que Jack o via assim, descontrolado. -- Ela precisa morrer!
     -- Voc acha que um cadver satisfar seu desejo de mortes? --
Susan perguntou a Jack. -- No, a no ser que aquela pessoa no tenha
pecado. A no ser que no tenha culpa. S um Filho do Homem pode
fazer isso. Olhe para a luz e voc entender. Vou mostrar o caminho.
Olhe para o Filho do Homem.
     Filho do Homem?
     O Homem de Lata parecia desmontar atrs dela. No fazia sentido.
Ele poderia puxar o gatilho e terminar com tudo aquilo. Em vez disso,
tremia.
     -- Mate-a -- ele gritava.
     Susan olhou para ele:
     -- Ele disse no!
                                 ***

      Barsidious White olhou para a menina atravs dos buracos na
mscara, sentindo o dio tomar conta de seu corpo, sabendo que no
poderia evit-lo.
      At poucos minutos atrs, o jogo tinha andado com perfeio,
como sempre, mesmo com essa mudana representada pela menina. Ele
perdera a conta de quantas casas tinha usado para o jogo. Entrava nela,
invocava os poderes da escurido para que o lugar personificasse o mal
de todos que l entrassem. A casa, como ele, obedientemente se trans-
formava em um recipiente de energia.
      Para cada casa, ele convidava demnios suficientes para tornar a
vida das vtimas um inferno. Stewarts e Bettys e Petes e outros. Entre-
tanto, o mais importante, havia esses Jacks e Stephanies que refletiam
suas prprias naturezas.
      Jack e Stephanie eram culpados e, no final, iriam morrer.
      Mas, e Susan?
      Suas primeiras suspeitas de que ela no era pecadora estavam ago-
ra reaparecendo. Ela era menos e mais do que qualquer outra coisa que
j havia confrontado.
      Sua urgncia por ver Jack mat-la forou-o a trair seu desespero.
Jack havia dito no e ele quase o matou. Teria atirado, se Susan no ti-
vesse se colocado no caminho.
      E por que ele no a matava? H uma hora teria dito que era por-
que os outros deveriam mat-la.
      Agora algo em sua cabea sugeria que sua morte poderia no ser
algo bom. Mas ele no entendia por qu.
      O rosto de Stephanie estava distorcido, aterrorizado. Disso ele
gostava. Mas a voz calma de Susan acabava com qualquer prazer que ele
poderia desfrutar da cena. Ela era muito confiante, muito consciente da
realidade entre a luz e as trevas.
      Mas quem era ela? E de onde havia vindo?
      Quando Susan ficou de costas para ele e falou palavras doces e cla-
ras, o Homem de Lata descobriu quem ela era. Ou, pelo menos, que
parte estava jogando nessa disputa entre luz e trevas, entre vida e morte.
      Ele entrou em pnico.
      -- Mate-a! -- gritava.
      A garota virou o rosto pata ele:
      -- Ele disse no!
      O Homem de Lata puxou o gatilho, descontrolado pela raiva.

                                  ***

     A arma cuspiu fogo com um barulho tremendo. Jack no viu o
impacto do tiro porque Susan estava no meio deles. Mas sentiu o im-
pacto um momento depois quando o corpo dela caiu e bateu em seu
peito.
     Ele instintivamente a agarrou.
     Sentiu o lquido em sua barriga.
     Viu a sala girar enquanto sua mente se desligava.
     Susan gemeu, depois caiu, morta em seus braos.
     42        6hl6




Jack abraou Susan horrorizado e deixou sua cabea cair. O sangue saa
de seu corpo.
      Stephanie comeou a chorar. Eles haviam passado por situaes
horrveis, mas era a primeira morte de uma inocente e Jack sentiu-se
surpreso pela repentina dor que sentiu no peito. Seu corpo delicado no
cho... no podia ser verdade!
      Ele sentiu seu corao comear a destroar, como um edifcio der-
rubado por cargas de dinamite. Mas no havia nenhuma fundao para
amparar todos os escombros. Ele caa sobre si e se afundava em um
profundo vazio.
      Os Jacks, pela primeira vez, no olhavam mais para ele. Agora o-
lhavam para a menina, hipnotizados. O Homem de Lata colocou outra
bala, como se precisasse de tempo para contemplar o que havia feito.
      Jack ouviu um fraco barulho de algo crepitando. Olhou o sangue
de Susan no cho. Mas no era o tipo de sangue vermelho que ele espe-
rava ver. Vermelho, sim, mas com uma luz branca que crepitava, como
se tivesse energia.
      Olhe para a luz.
      Os Jacks tambm pareciam ter visto. Muitos na frente de Jack de-
ram um passo para trs. Comearam a se balanar, ansiosos. Um mur-
mrio cresceu. Barulhos de encontres comearam a tomar o ambiente.
      White olhava para a menina.
      Em pnico, as centenas de Jacks na sala comearam a balanar,
como em uma dana ritual estranha.
      Como as portas que batiam antes. Agora, agora, agora, agora...
      Agora o qu?
      Ou era algum tipo de celebrao?
      Stephanie se ajoelhou ao lado do corpo de Susan que estava de
barriga para baixo. Ela esticou o brao e comeou a sussurrar entre as
lgrimas.
      -- Ela  a luz! Ela  a luz!
      Ela era a luz?  claro, ele tinha visto a luz, mas ser que ela era a
luz?
      White olhou para Stephanie. Depois para Jack.
      Resignado com o destino que os esperava, Jack se ajoelhou. Sua
garganta se fechava de dor, mas ele no via nenhum remdio, nenhuma
forma de sobreviver, nenhuma razo para viver, nenhuma razo para
morrer. Ele s sentia a dor.
      Olhe para a luz.
      Ele tinha visto a luz?
      O balano dos Jacks tinha se transformado em um urro alto. Pela
primeira vez, Jack conseguia ouvir as palavras que eles cantavam. "Ma-
te". Eles agarravam seus machados e facas, cantando e, a cada canto,
suas vozes se tornavam uma s.
      -- Mate, mate, mate, mate.
      Pareciam esperar uma permisso antes de atacar. White permane-
cia parado, a cabea abaixada para mostrar o branco dos olhos.
      O sussurro de Stephanie tinha se transformado em um grito; ele
quase no a ouvia por causa da cantoria:
      -- Voc  a luz!
      O corao de Jack bateu mais forte. Ele repetiu silenciosamente
com ela na primeira vez, olhando para sua boca enquanto sua mente
tentava entender:
      -- Voc  a luz.
      Foi isso que Susan tinha querido dizer? Que ele deveria procurar a
fonte da luz fora de si mesmo? A luz penetrava as trevas.
      O grito de Stephanie mudou novamente, chorando e gemendo ao
mesmo tempo. E agora suas palavras eram mais altas do que o canto,
ele podia ouvir perfeitamente.
      -- Filho do Homem, tenha piedade de mim, uma pecadora! -- ela
respirou fundo e gritou novamente. -- Filho do Homem, tenha piedade
de mim, uma pecadora!
      Filho do Homem.
      A verdade acertou Jack de jeito. Susan tinha morrido sem pecados.
Ela era a luz nas trevas, mas o pagamento do pecado era realmente a
morte. Os pecadores realmente tinham que morrer, como White insistia
em dizer. Esse era o jogo.
      Mas Susan era o Cristo, que tinha morrido no lugar deles. E o
Homem de Lata parecia entender seu erro.
      Jack gritou as palavras com Stephanie:
      -- Filho do Homem, tenha piedade de mim, um pecador!
      Ele agarrou a mo de Stephanie como se fosse a nica salvao e
juntos eles gritaram com fora mxima. Suas palavras se juntaram, con-
fusas.
      Ele gritou por longos segundos, at perceber que o sussurro tinha
parado. E Stephanie tambm.
      Ele abriu os olhos e abaixou a cabea. A sala estava absolutamente
em silncio. A multido de Jacks tinha parado a dois passos de distncia,
os machados levantados, mas imveis.
      Por qu?
      Ele ouviu o crepitar da energia. A luz? Olhou para baixo.
      O sangue do corpo de Susan estava tomado novamente pela luz,
emitindo pontas de energia. A eletricidade se juntava e explodia em seu
rosto. Em sua boca. Em seus olhos.
      Raios de energia penetravam em seu corpo, impedindo que pen-
sasse direito.
      Ele tremeu frente a esse poder. Demais: era demais! Ele sacudiu a
cabea e gritou.
      E aquela energia fluiu novamente, to forte quanto antes, s que
dessa vez saindo da sua boca. Dos seus olhos.
      Jack conseguia ver atravs da luz que saa dele, candente. Ele via
tudo a um dcimo da velocidade real, uma mostra surreal do poder da-
quela luz.
      O Jack mais prximo a ele ficou rgido com a aproximao do raio
de luz, depois gritou e evaporou para dentro da fumaa preta antes que
a luz o tocasse.
      O resplendor cortou os Jacks atrs dele, vinte de uma vez, como
se fossem apenas cinzas. A luz se espalhou para todos os lados, junta-
mente com a que emanava de Stephanie, que gritava ao seu lado.
      A sala foi tomada pelos gritos dos mortos-vivos, desmoronando
em cinzas ante o rudo de crepitao baixo que vinha dele e de Stepha-
nie.
      A luz invadiu as trevas e as trevas no compreenderam, mas isso
no importava mais porque a luz estava agora destruindo as trevas.
      Eles ainda gritavam. A luz ainda flua.
      O corpo de White desmoronou com o impacto forte da torrente
de luz vinda tanto de Jack quanto de Stephanie. Ele caiu, dobrando-se e
gritando de dor.
      Por uns segundos, ele parecia flutuar como se tivesse recebido um
soco no estmago, tremendo por causa da energia que corria por seu
corpo. Seus gritos eram engolidos pelo barulho da luz. Ele foi largado
repentinamente e caiu no cho onde ficou, imvel.
     Eles ainda gritavam. A luz ainda emanava.
     E, finalmente, Jack colapsou.

                                  ***

      Do lado de fora da casa, enquanto amanhecia, ningum poderia
saber os horrores que haviam devastado Jack e Stephanie no fundo da-
quele poro.
      Um grito distante de vez em quando, o som fraco dos insetos...
todos os sons naturais do bosque e o silncio que vinha da casa enorme
e h muito abandonada.
      Todas as janelas estavam fechadas e escuras, todas as portas bem
trancadas. Qualquer alma, passando por ali, veria a velha caminhonete
marrom enfiada na varanda da frente e pensaria que uma corrida tinha
acabado mal. Fora isso, a casa parecia igual a tantas outras abandonadas
em lugares distantes.
      Mas tudo mudou precisamente s 6hl7 da manh.
      Comeou com um raio de luz pouco visvel que iluminou a casa
momentaneamente e desapareceu, como se uma granada de luz tivesse
sido acesa no poro.
      Depois a luz voltou, s que dessa vez brilhava pelas frestas da por-
ta e atravs das rachaduras nas janelas e, em alguns casos, brilhava nas
janelas sem cortinas.
      A luz ficou mais forte, um branco cegante. Raios de luz escapavam
pelas rachaduras e se espalhavam pelo ar.
      As janelas balanavam como se tentassem conter a energia que as
pressionava at o ponto de ruptura. A porta da frente comeou a rachar
e, por um momento, toda a casa parecia tremer.
      As travas das janelas no agentaram e se abriram com fora. A
luz alcanou o cu em raios, com um rudo baixo que durou sete ou oi-
to segundos.
      Depois, como se algum tivesse tirado o plugue da tomada, a luz
desapareceu e a casa ficou escura de novo. As janelas balanaram-se por
algum tempo.
      A casa voltou a ficar em silncio.
     43        7h00




Jack parou atrs do muro de pedra, a uns trinta metros da porta. Abra-
ado a Stephanie, olhando para a casa silenciosa.
      sua direita, dois carros de polcia com as luzes vermelha e azul
girando. Trs policiais se aproximavam da casa, um ainda falava no r-
dio.
     -- Parece que sim. Encontramos a viatura do policial Lawdale a
uns oitocentos metros na estrada, abandonada junto com outros dois
carros. Temos as declaraes de dois sobreviventes que acreditam que o
assassino estava se passando por ele.
     O rdio fez um barulho:
     -- Est dizendo que so trs mortos, dois sobreviventes?
     -- Positivo.
     O policial fechou a porta do carro e se virou para Jack:
     -- Tem certeza de que esto bem?
     Ele acenou com a cabea:
     -- Estamos bem.
     -- Fiquem aqui. Vamos entrar. Tem certeza de que no tem nin-
gum vivo?
     -- Certeza.
     O policial se dirigiu  casa.
      Uma velha e enferrujada mquina de lavar estava ao lado do cami-
nho de lajotas. A grama alta cobria suas pernas. A casa na frente deles,
abandonada, escondia suas verdadeiras cores.
      Eles conseguiam ver a escada de concreto que descia at o poro
no lado direito da casa. A porta no fundo ainda estava aberta, como eles
haviam deixado e um dos policiais tinha desaparecido por ela.
      Os pssaros e os insetos cantavam.
      Eles acordaram e encontraram somente trs corpos no poro.
Randy, Leslie e White. Nenhum Stewart, nenhuma Betty, nenhum Pete,
nenhum Jack.
      Nenhuma Susan.
      A primeira viatura policial chegou quando eles conseguiram sair do
poro. Tinham encontrado o policial Morton Lawdale morto em sua
casa uma hora antes; ele no tinha aparecido para o turno da noite. A
viatura abandonada os levara at ali, para a nica propriedade ao redor:
uma casa abandonada perto da estrada.
      Jack segurou a mo de Stephanie.
      -- Esto mortos -- disse ela.
      Estava falando de Randy e Leslie, pensou Jack. Era difcil de acre-
ditar. Assombroso.
      -- E Susan? -- ele perguntou.
      -- No sei.
      -- Quem era ela?
      -- Eu... no sei.
      -- Mas ela era de verdade, no?
      -- Acho que sim. Vimos seu sangue.
      Eles no sabiam. O que de fato sabiam era que tinham ficado cara
a cara consigo mesmos e com o mal, talvez com o prprio Lcifer, e
haviam sobrevivido por causa dela.
      Ficaram em silncio por uns segundos, inundados pelos efeitos da
realidade apresentada a eles em um canto escuro do mundo.
      A uns cento e cinqenta quilmetros dali, Tuscaloosa estava acor-
dando para mais um dia de trnsito, compromissos, telenovelas e milha-
res de outras trivialidades mundanas que consumiam o mundo. Aqui, as
autoridades estavam a ponto de ser confundidas por acontecimentos
inacreditveis. A menos que acreditassem em casas mal-assombradas e
assassinos dominados pelo poder das trevas.
      -- Tem certeza de que tudo isso realmente aconteceu conosco? --
perguntou Stephanie.
      Jack fechou os olhos:
      -- Aconteceu. Como no jogo da vida, aconteceu. Em uma noite.
      -- Jogo da vida?
      -- Voc vive sua vida e, no final, pode viver ou morrer, depen-
dendo das escolhas que tomar.
      Ela no disse nada.
      Um movimento vindo da sua esquerda chamou a ateno de Jack.
Ele prendeu a respirao.
      Uma menina saiu do meio das rvores e estava caminhando at e-
les. Susan...
      Jack soltou a mo de Stephanie e andou at ela:
      -- Susan?
      --  ela!
      A menina ainda estava usando o mesmo vestido branco rasgado,
agora manchado de sangue. Jack olhou de volta para a casa, onde os trs
policiais tinham acabado de entrar. O quarto oficial estava rondando a
casa, com a arma na mo.
      Susan parou na frente deles. Um sorriso iluminou seu rosto.
      -- O que aconteceu? -- perguntou Stephanie, assombrada.
      -- Sabia que vocs conseguiriam -- respondeu Susan, piscando.
     Jack estava incerto do que seus olhos viam. Ele fez a mesma per-
gunta:
     -- O que aconteceu?
     -- A luz venceu as trevas -- disse Susan. -- Foi isso o que acon-
teceu.
     Jack percebeu que Stephanie tinha arregalado os olhos.
     -- Voc... quem  voc?
     -- Susan.
     -- Mas voc  de verdade, no ?
     -- Claro que sim. To real como no dia em que ele me trancou no
poro. Apesar de ser obrigada a admitir que vim por minha vontade.
     -- Ento... voc  um... -- Stephanie no completou a pergunta.
     -- O qu? -- ela perguntou.
     -- Um anjo? -- disse Jack.
     -- Um anjo? Voc quer dizer um anjo de verdade que anda pela
Terra e se parece com uma pessoa normal? Pense em mim como al-
gum que mostrou uma forma de jogar um pouco de luz sobre a situa-
o.
     Jack olhou para Stephanie. Ele j tinha ouvido falar disso. Anjos
andando entre humanos. Mas nunca tinha pensando no assunto.
     O rdio na viatura comeou a fazer barulhos.
     -- S temos dois corpos aqui, Bob. Positivo? Dois corpos. Um
homem vestido com uma camiseta verde rasgada e jeans, e uma mulher
de cabelo escuro. Positivo?
     Esttica.
     -- Pode confirmar? -- mais esttica. -- Eles disseram que havia
um assassino aqui, vestido com as roupas de Lawdale.
     -- Certo. Nenhum sinal do terceiro corpo, no no poro.
     -- Certo. Continuem com cuidado.
     -- Como... como isso  possvel? -- questionou Stephanie.
     -- H mais uma coisa que vocs devem saber -- disse Susan. --
White ainda no est morto.
     Uma das janelas no sto se abriu.
     -- Achei que o tnhamos derrotado, derrotado a casa! -- disse
Stephanie.
     -- Voc venceu o mal no seu corao -- ela se virou para a casa.
-- Vejam de perto.
     Jack e Stephanie olharam.
     No comeo, Jack no viu nada. Parecia exatamente igual a antes,
s que todas as janelas estavam fechadas novamente.
     Ento ele viu o vulto cinza na janela do sto. Era uma pessoa, o-
lhando para baixo, imvel.
     Um careca. Stewart.
     E perto dele, Betty. E Pete.
     Ele ouviu Stephanie segurar o grito; ela tambm havia visto. Os
mortos-vivos olhavam pela janela, tnues, muito tnues, mas ali.
     Stewart se afastou da janela e desapareceu dentro da casa.
     -- Eles ainda esto a? -- perguntou Jack.
     -- Por enquanto -- respondeu Susan. -- Agora a casa est muito
limpa para eles. Vo se mudar.
     -- Por que deixar que eles vivam? Poderamos entrar e elimin-los
-- disse Jack. -- No?
     -- Sim, acho que sim -- disse Stephanie.
     -- Eles provavelmente correriam assim que nos vissem entrando
-- disse Jack.
     -- Depois do que fizemos? Eles devem ter medo s de olhar para
ns.
     Stephanie deu dois passos em direo  casa e gritou para que sua
inteno ficasse bem clara.
     -- Fora!
     A janela ficou vazia.
     Impressionante.
     -- O que voc acha, Susan? Eles foram embora?
     Ela no respondeu.
     -- Susan? -- Jack se virou. -- Susan?
     Mas ela havia desaparecido. Ele procurou ao redor:
     -- Susan!
     -- Ela foi embora -- disse Stephanie.
     -- Ento, ela era um anjo?
     -- Talvez.
     Stephanie olhou ao seu redor e deixou-se tomar pelo silncio.
     Jack viu um Stewart em uma das janelas:
     -- Eles ainda esto l.
     Stephanie se virou, olhou para o Stewart por uns segundos, levan-
tou as mos, agitando-as:
     -- Fora! -- gritou.
     Ele desapareceu.




                      Digitalizao / Reviso:
                              Sayuri
